Devo confessar que este governo que nos desgoverna, por tantas e tamanhas maldades, quase impede que o meu pensamento se entretenha com outros temas. Daí que sinta que a actuação do referido governo me retire capacidade de desenvolver o meu raciocínio e me leve mesmo a temer que possa vir a sofrer de um eventual comportamento depressivo. Não seria, de certeza o primeiro a sofrer desse mal, a expensas exclusivas da governação, para além de má, no presente, inspiradora de não confiança no futuro. Por várias razões, uma delas, porque a generalidade dos portugueses nem sequer confia na palavra dos políticos que estão ao leme. Não fora eu saber que ninguém me pagaria, e porque não desejaria que pudesse ser acusado de prejudicar o erário público, exigiria uma indemnização, não só pelos males materiais que me estão a causar, mas sobretudo pelos males espirituais. Para além de estarmos constantemente a ser espoliados, não se aguenta ter de estar sempre a pensar em crise, que cada dia que vem vai ser pior do que o anterior, etc., etc. Bom, mas também iria pedir uma indemnização como?! Através de um requerimento pessoal, directo?! Através de uma acção judicial?! Não, não vale a pena. Em qualquer dos casos iria morrer, antes de obter qualquer resposta.
Sendo assim, tentando contrariar o rumo para que me conduz o pensamento vou tentar outra abordagem.
A vida, em cada momento que vivemos, se os vivermos atentamente, é uma autêntica escola que nos proporciona constantemente novas aprendizagens, nos leva a mudar de opinião, – só os burros é que não mudam – a alterar comportamentos, a ver as pessoas e o mundo de forma diferente, a conhecer melhor os humanos. Tal conhecimento permite-nos observar com mais acerto onde está a hipocrisia ou a franqueza, a gratidão ou a ingratidão, a lealdade ou a deslealdade, a verdade ou a mentira, a justiça ou a injustiça, a bondade ou a maldade, a humildade ou a arrogância, a competência ou a incompetência, a vaidade ou a simplicidade, o mérito ou o demérito, a valentia ou a cobardia, o altruísmo ou o egoísmo. Concluímos, assim, sem qualquer espécie de dificuldade e sem necessidade de uma inteligência acima da média, que vivemos num mundo de tal forma desinteressante, de pernas para o ar, onde sai vitorioso tudo o que é negação daqueles valores que deveriam ser universais e pelos quais, infelizmente, poucos se regem.
Entre muitas outras coisas que os nossos sentidos recolhem e o nosso cérebro descodifica, a minha sensibilidade, a minha inteligência ficam feridas com determinadas homenagens, mais abrilhantadas umas, mais singelas outras, expressas apenas em mais ou menos elaboradas, mais ou menos extensas peças literárias.
Porque me dou conta de tudo isto, porque me repugna a mediocridade em que tantos se encontram situados, mas tudo fazem por aparecerem num qualquer periclitante pedestal, a minha revolta torna-se maior ainda, quando tenho a certeza de que muitas das ditas homenagens não passam de um repugnante exercício de hipocrisia. Hoje, através das redes sociais, apercebemo-nos muito mais facilmente desse fenómeno. Quase todos nós conhecemos pessoas – eu conheço – que, pelas costas, dizem “cobras e lagartos” de algum ou alguns ditos amigos. Pois é só estar atento ao que dizem de frente ou ler algumas referências nas ditas redes sociais. Quem não conhecer até conclui que se trata de pessoas capazes de darem a vida umas pelas outras e todas vestidas de excelsas virtudes. Como é possível existir tanta hipocrisia?! Como é possível, como por cá se diz, “andar meio mundo a enganar outro meio”?!
Amigos?! Mas que amigos?! Aprecio mais aqueles que são capazes de dizer não, que são capazes de discordar e justificar.
Muitos amigos?! Não, o que muitos têm são muitas pessoas conhecidas.

Estou preocupadíssimo. Então não é que Cavaco Silva, o Presidente da República que eu não elegi, mas que é também o meu, anda por aí a choramingar que a reforma de cerca de dez mil euros mensais que receberá não chega para as suas despesas e, por isso, terá que recorrer às suas poupanças que conseguiu, com muito sacrifício, presumo eu, fazer durante os seus quarenta e oito anos de casado! Coitado do homem! E como é que eu sobrevivo?! E você?! E você?!
Será que ele joga no casino?! Será que ele tem amantes?!
Bom, se ele estiver mesmo assim tão necessitado, arranja-se aí uma subscriçãozinha para o ajudar entre os seus colegas pensionistas de 300 e 400 euros. Esses, eu tenho a certeza que são solidários.

Este é verdadeiramente o Governo da mentira, dos sem-vergonha. Pelo saque que faz às bolsas dos trabalhadores e dos pensionistas, direi que é uma cambada de especialistas em pilhagem. Toma medidas, destrói conquistas dos trabalhadores que nem Oliveira Salazar se atreveria a tanto. É execrável a demagogia com que alguns ministros se vangloriam de feitos que eles julgam importantes, não se cansando de proclamar aos quatro ventos que foi a primeira vez que em Portugal se fez isto ou aquilo. O que eles deviam proclamar bem alto é que é a primeira vez que em Portugal se sacam de uma só vez – não a todos, porque para a indignação ser maior ainda somos confrontados com o facto de uns serem filhos e outros enteados – subsídios de férias e de Natal, que a saúde, os transportes estão cada vez menos acessíveis e muito mais caros, que o desemprego aumenta constantemente, que o trabalhador é cada vez mais explorado, em benefício do grande capital.
Fala muitas vezes, este desgraçado governo, em credibilidade externa. Mas que credibilidade externa? Por causa dos mercados?! Claro. O que a estranja quer é comer-nos a “carne” e, depois de só termos os ossos, ignoram-nos. E a credibilidade interna? A interna só vai ser tida em conta quando se aproximarem eleições.
Julgam que com este acordo altamente lesivo dos trabalhadores, que não vai fazer crescer a economia – como é que ela há-de crescer se as pessoas têm cada vez mais os bolsos vazios? – que conseguirão a paz social que anunciam triunfantemente? Mas que paz social? O facto de João Proença, líder da UGT, ter assinado o acordo, não vai contribuir para a dita paz. Os trabalhadores, muito provavelmente, deixarão até de o respeitar, porque ele os traiu, na medida em que o dito documento só traz penalizações para eles. O seu papel era exclusivamente defender os trabalhadores e pôs-se no lugar de defensor da economia. Para isso estavam lá outros parceiros. No lugar dele, demitia-me, embora me pareça que a assinatura do acordo possa ter um aspecto positivo: Os patrões não terão mais legitimidade para se queixarem que a economia não cresce por falta de legislação adequada. Aqui têm eles legislação à sua medida. E porque ela é, realmente, apenas à sua medida, a guerra vai ser dura. Eu estarei com todas as armas ao meu alcance na frente de combate.
Se com salários mais baixos, mais elevados impostos, mais desemprego, produtos de primeira necessidade mais caros, educação, saúde, transportes com custos mais altos, a economia portuguesa crescer, sugiro que os portugueses se unam em torno do Álvaro e peçam para ele o Prémio Nobel da Economia. Se estivermos vivos.
Outra expressão que este governo muito utiliza, mas não pratica é “transparência”. Se ela existisse não haveria na administração indirecta do Estado, vários ministérios que não divulgam os salários de quem foi reconduzido ou escolhido por este mesmo governo. “Bem prega Frei Tomás…”
Políticos, estadistas de envergadura, dão-se alvíssaras a quem encontrar um. Parece que em Portugal e no mundo. Atentem nesta expressão do candidato republicano às presidenciais dos Estados Unidos, Rick Perry: “Soldados que urinaram em cadáveres no Afeganistão não são criminosos. São miúdos de 18, 19 anos e cometem erros”. E mandam-se miúdos para a guerra? – pergunto eu.

Sempre me chocou a falta de reconhecimento pelo trabalho, pelo mérito daqueles que executam tarefas em prol dos outros, muito mais quando elas são desempenhadas com amor, abnegação, com desapego ao dinheiro e ao descanso, com sacrifício da própria vida, como tantas vezes acontece. Costumo dizer, muitas vezes, que dos sentimentos que mais aprecio, um deles é o da gratidão. Pelo que o País lhes deve, se há quem realmente merece reconhecimento, são os seus bombeiros, na sua grande maioria voluntários, dando cobertura a todo o território e desempenhando, imensas vezes, tarefas que competiriam a outras entidades com gente remunerada para as executar. Mas, à porta de quem os portugueses batem, em situação de qualquer espécie de aflição, é sempre à dos seus bombeiros, porque sabem que lá, ao contrário de outros locais, sempre encontram as portas abertas. Digamos que, como se diz na minha região, os bombeiros são uma espécie de “pião das nicas”. Felizmente, os portugueses têm, na generalidade, pelos seus bombeiros, o maior património humano que Portugal possui, a consideração, o apreço que lhes é devido. Infelizmente, quase nunca acontece o mesmo por parte de instituições e entidades a quem se exige, pelas atribuições que lhes estão confiadas, pelas competências que têm, esse apreço, esse respeito.
Desde há muitos anos que “saio a terreiro”, das mais diversas formas e consoante as oportunidades, em defesa da instituição bombeiros. Infelizmente, sempre encontrei muitas mais razões para lamentar do que para enaltecer a forma como eram tratados. Alguns chegavam mesmo a afirmar que eu tinha propensão para estar sempre do contra. Talvez, mas o que é certo é que mais cedo ou mais tarde, a razão se viria a manifestar do meu lado.
Houve um governante que procurou entender os bombeiros e fazer algo de positivo. Foi ele, Dias Loureiro, bem presente na memória recente dos portugueses por maus motivos. Isso, todavia, não me impede de fazer justiça. Antes dele e após ele, praticamente nada de positivo. Antes pelo contrário.
A primeira e grande machadada na instituição bombeiros deu-a António Costa, actual Presidente da Câmara de Lisboa e, à época, Ministro da Administração Interna. A ele se deve a famigerada, inoportuna e desnecessária criação dos GIPS da GNR. Desde o início não parei de combater tal existência. Fi-lo das mais diversas formas e algumas vezes em locais e perante pessoas que muitos não teriam coragem de fazer. Ainda há relativamente poucos dias me referi a eles, no enquadramento de uma crítica que fazia ao actual ministro Miguel Macedo quando teve a infeliz afirmação de que “corporações de bombeiros em dificuldades financeiras são casos de polícia e tribunais”.
Hoje, diz-se e eu quero acreditar nisso, que Miguel Macedo deu ordens para se extinguirem os GIPS. Tenho que o louvar por isso. Uma vez mais eu tinha razão.
Quanto ao porta-voz da Associação Socioprofissional da Guarda (ASPIG) quero sugerir que não fique tão preocupado com o erário público, porque os materiais e equipamento, se o processo for conduzido correctamente, deve ser entregue às associações de bombeiros. Espero que não fiquem a apodrecer à porta dos quartéis da GNR. Quanto ao dinheiro que foi investido na formação dos militares ela nunca é demais e em qualquer altura pode manifestar-se útil. Já quanto à eficácia, bom, as estatísticas são uma coisa e a realidade é, não poucas vezes, bem diferente. Se eu comer apenas as asas de um frango e um meu amigo comer todo o resto do frango, estatisticamente, foi meio frango para cada um.
Hoje, e por agora, fico-me pelo aplauso à extinção dos GIPS.

Por mais que me esforce, tenho uma dificuldade enorme em desligar-me do discurso da traição, da agressão, do assalto aos nossos bolsos por parte de quem tinha obrigação de fazer exactamente o contrário. Com um nível de vida dos mais baixos da Europa, vínhamos, desde há alguns anos a esta parte, esperando – sempre a esperança – uma aproximação aos salários de outros europeus. Com salários a subirem abaixo da inflação ou mesmo a ficarem congelados, nunca lá chegámos, mas o que este governo está a fazer é pôr-nos a milhas deles. Falo novamente nesta matéria, porque num tempo em que se costuma falar de esperança num novo ano, aquela janela de esperança que Passos Coelho afirmou que se abrira, quando conquistara o poder à custa de uma mentira colossal, nem nunca se abrira, antes se fecharam janelas, portas e nem uma simples frincha deixara aberta.
Cada vez mais os políticos deixam de merecer a confiança dos eleitores e, por isso, qualquer dia nem sei se haverá eleitores e se valerá a pena realizar eleições. Se isso acontecer, será por culpa de quem? Obviamente, dos políticos e teremos, infelizmente, o fim da democracia, que acredito, agradaria imenso a muitos que se autoproclamam de democratas e até vingam e bem – ao contrário de muitos seus concidadãos bem mais democratas – à custa dessa mesma democracia, apesar de todos os seus defeitos, o melhor de todos os regimes.
Gosto muito de putos. Putos, crianças. A profissão que abracei levou-me a lidar diariamente, e por mais de três décadas, com putos. Liderei ainda, no futebol, como treinador, impúberes rapazinhos. Agora, inebrio-me com cinco netos. São giros os putos. Eu amo-os. São putos, mas são gente.
Mas há outros putos, os pulhas, os devassos. São esses putos, muitos dos nossos políticos. Eu disse putos, não me referi às mães deles, como muitos outros fazem, que porventura até terão enorme desgosto por terem parido semelhantes crias. Putos, pulhas destes, há-os por aí aos milhares e não apenas nos políticos, infelizmente.
Aos putos, crianças, eu respeito; os outros putos, os pulhas, indignam-me, revoltam-me, provocam-me náuseas.
Dão-se alvíssaras a quem inventar um veneno eficaz, para a sua extinção, já que, ao contrário dos putos crianças que tendem a decrescer, os pulhas tendem a expandir-se.
Eram os meus filhos pequenos e um familiar meu, em minha casa, questionou, referindo-se a eles: – A canalha já chegou?
A minha filha, com dez anos, na altura, que se encontrava num compartimento ao lado, ripostou de imediato e num tom de muito ofendida: – Olha que eu não sou canalha!
Tinha razão. Canalha é outra coisa, é muita gente crescida que anda por aí.
Tu, homem verme, que te julgas gente só porque és grande e às crianças chamas canalha só porque são pequenas, repara que elas se riem de ti e te acham grande…canalha.
Por isso, meu amigo, esperança nos políticos, para um bom ano de 2012, esqueça. Se tiver oportunidade veja o “mérito”, se preferir, o currículo, de alguns deles que ocupam lugares de relevo, mesmo de muito relevo.
Mantenhamos, isso sim, a esperança em cada um de nós, na nossa força, na nossa coragem, na nossa capacidade de sobreviver. Em nós e nos verdadeiros amigos: aqueles que nos olham olhos nos olhos, que nos sabem dizer sim e dizer não, que não dizem nas costas o que não sejam capazes de dizer de frente, que sofrem com as nossas dores, os nossos insucessos, que se emprenham de júbilo com as nossas conquistas, os nossos méritos, as nossas alegrias.
Como disse Benjamin Franklin “quem vive de esperanças – nos políticos, digo eu – corre o risco de morrer de fome”.
Com uma confiança acrescida em cada um de nós e em comunhão com os verdadeiros amigos – não se esqueçam de irradiar a hipocrisia – imbuídos de autêntico espírito solidário, haveremos de sobreviver, ainda que seja com uma mão atrás e outra à frente, mas com dignidade, para podermos contemplar, um dia destes, os nossos algozes derrotados, de cócoras, na base do pedestal de onde atiraram para a miséria muitos dos seus concidadãos.

Numa altura destas, os votos que se costumam fazer, com maior ou menor dose de hipocrisia, são os de bom Natal e bom Ano Novo. Ser-me-ia muito fácil usar esse lugar-comum, gasto de séculos, se eu não estivesse habituado a reflectir sobre as palavras, as expressões e o seu verdadeiro alcance. Não obstante eu não poder garantir peremptoriamente que nunca utilizo banalidades naquilo que procuro transmitir, pelo menos esforço-me por sair delas tanto quanto posso. Não me sinto bem, pois, a vomitar tais expressões, quando sei que pelo que já sofrem, pela desesperança quanto ao futuro, nem as festas, nem o novo ano serão necessariamente bons, de acordo com o conceito genérico de festas felizes. Antes pelo contrário. Temos que medir a nossa felicidade por outros padrões, que não sejam a capacidade de dar e receber presentes, a capacidade de ter a mesa mais do que farta, a capacidade de termos quase tudo o que queremos ainda que uma grande parte seja absolutamente supérflua.
Sem esquecermos o direito à indignação e à revolta por nos roubarem aquilo que por direito nos pertence, mas ao mesmo tempo nos lembrarmos que há sempre alguém em pior situação que a nossa e Natal é sobretudo ser genuinamente solidário, se o formos, então será Natal. Deixe-me reflectir em voz alta: se porventura vive na minha cabeça e no meu coração o verdadeiro espírito de Natal, se eu visto todas aquelas virtudes que se associam normalmente ao Natal, mas que devem ser de todos os dias, como é que eu posso, ainda que com uma mesa farta, com a família à volta, presentes talvez em quantidade exagerada, como é que eu posso, dizia eu, ter umas Boas Festas, se tanta gente está em sofrimento profundo? É que, para além do sofrimento pelo estado actual, as pessoas não conseguem desligar-se do bem pior que será o próximo ano. Aliás, os governantes, fazem questão de não os deixar esquecer.
“Não se podem pedir mais sacrifícios aos portugueses”. Foi com esta frase de esperança, que se veio a reconhecer não corresponder às verdadeiras intenções, que Passos Coelho ganhou as últimas eleições legislativas, conquistando o “poder” de nos – vejam o paradoxo – matar a esperança, derrubando sonhos atrás de sonhos. Cada vez que abre a boca é para derrubar mais um alicerce, dos poucos que ainda restam, da esperança dos portugueses. E mata-a de tal forma cínica que não encontra melhores alternativas que não seja mandar emigrar.
Por isso, meu amigo, com esta crise em que a maioria de nós já vive e na certeza anunciada – parece até com laivos de sadismo – de que piores dias se aproximam, por políticos que entendem que não podem afectar aquilo que julgam ser a sua credibilidade junto de países e instituições usurárias, ainda que para tanto tenham de esmagar, espremer até ao tutano, os seus compatriotas, exprimir desejos de bom Natal ou bom ano de 2012, parece-me um banal exercício de retórica, direi mesmo de cinismo, que não fica nada bem a quem se tem por amigo. Não o farei. Nestes tempos difíceis que vivemos, sobretudo atormentados – os mais velhos, como eu – pelo futuro que estará reservado para os nossos filhos, os nossos netos, terei, mais do que nunca, os meus amigos, os conhecidos, os indiferentes, presentes no meu pensamento, numa união espiritual muito forte, muito sentida, que eu espero que se expanda, que a todos toque, para que nos sintamos juntos, encontremo-nos em que parte do mundo for.
Espero que sobrevivamos com a força que a míngua nos permita para não calarmos a nossa voz e denunciarmos e repudiarmos sem tibiezas as agressões que gente insensível ao sofrimento sobretudo dos mais desprotegidos, dos mais vulneráveis, não consegue manifestar uma palavra de esperança, antes pelo contrário, cada vez que debita afirmações é de que amanhã será pior. Poderiam, pelo menos, ter a humildade de aceitar que não são capazes de fazer melhor. Não, do alto da sua arrogância, sempre exalam essa frase já bolorenta: “Não há alternativa”.
Sejamos mais solidários, não apenas no dar e receber, mas também na defesa do que são os nossos legítimos direitos, para que todos possamos sobreviver às investidas ferozes, ilegítimas.
JUNTOS, na defesa não da minha causa, da sua causa, mas das causas que nos são comuns, como o direito a que não nos explorem, não nos roubem, só assim poderemos dizer que é Natal.

Muito provavelmente porque já estou numa idade em que se recordam mais facilmente os factos longínquos – no tempo – do que os mais recentes, numa idade em que ainda é bem forte a vontade, mas bem mais fraca a força, apetece-me a recuar uns bons anos atrás. Também um pouco para tentar esquecer as agressões constantes de que são vítimas polícias e idosos, passando pelos membros da família e todos os que se cruzarem com gente criminosa, aos molhos, que anda por aí, à solta, muita dela com a bênção de juízes indignos desse nome e ainda as agressões que nos são infligidas – a quase todos – sem dó nem piedade, pela dupla merkliana Coelho-Gaspar.
Já por diversas vezes me tenho referido ao assédio sexual. Vou fazê-lo uma vez mais e vai ver como já há meio século estes pobrezinhos indefesos que são os homens eram vítimas de assédio sexual por parte das mulheres.
Era eu já professor efectivo, quando fui chamado a cumprir serviço militar obrigatório. Depois de ter passado por outros quartéis, estava no Regimento de Artilharia de Costa, em Oeiras, onde me mantive cerca de três longos anos. Habitualmente tomava a “bica”, como por lá se chamava ao nosso “café”, após o almoço, num pequeno bar subterrâneo, na estação de caminho-de-ferro. À mesma hora fazia o mesmo uma garota linda, escultural, aquilo a que nós chamávamos um “monumento”. Como apreciador do belo que ainda me prezo de ser ( e nada há de mais belo do que uma mulher), percorria-a, com o meu olhar, de alto a baixo. Ia olhando…apenas olhando.
Um dia, passados não muitos dias, a garota aproxima-se de mim e, numa voz angelical, questiona-me:
- É professor, não é?!
Militar era fácil saber que eu era, pois via-me fardado, mas onde dianho teria ela ido descobrir que eu era professor?!
Bom, como diria a Teresa Guilherme “isso agora não importa nada”, respondi-lhe:
-Sou, sou, pode sentar-se se quiser.
Anuiu e, ao mesmo tempo que se sentava, dizia:
- Tenho umas dúvidas que gostaria que mas tirasse.
- Com certeza, desde que isso esteja ao meu alcance – retorqui, eufórico, confesso.
Cá está um assédio de que eu não me queixaria à polícia.
Era uma ribatejana universitária e vivia num quarto alugado, ali a dois passos da estação e do quartel.
Combinámos um jantar para esse mesmo dia, num simpático restaurante, em Carcavelos. Ambiente acolhedor, mais propício a encontros românticos do que para dar qualquer explicação sobre matéria escolar. Quando saímos, mais parecíamos dois jovens a arder de paixão do que duas pessoas que mal se conheciam ainda. Ela tinha uma voz melíflua, uma ternura indescritível. Chegados a casa, os senhorios, um casal de reformados, dormiam.
Sem necessitar de muita persuasão, mas imensa cautela, pé ante pé, não fossem os velhos ouvir, entrei no quarto dela. E com ela dormi (creio que nessa não dormi) a primeira de muitas noites. Jamais dormi no quartel, a não ser quando as escalas de serviço a isso me obrigavam. Passei a ter uma doce e terna companheira, tão terna e tão meiga que de quando em vez me recordava que deveria ir ao Porto visitar a namorada a sério que ela sabia que eu tinha. Ou será que o que ela queria era uma folgazinha?! Nunca acreditei nisso.
Passei a ter sempre roupa bem lavada e impecavelmente passada a ferro. Boa Lili. Que será feito de ti? Tinha todos os dotes para fazer um homem feliz. Obrigado, Lili, onde quer que estejas, na Terra, ou, sei lá, no céu, pelos bons momentos que passámos. Foi-se a tropa, foi-se a Lili. Ambos sabíamos que o fogo que nos incendiava os corpos só durava enquanto durasse a minha guerra, isto é, a minha permanência naquele quartel. Faço votos para que ela, se for viva e casada, seja feliz com seu marido como eu sou com minha mulher, minha namorada de então, a sério, embora traída, reconheço. Era uma mera traição física e com tempo determinado.
Nessa época, as namoradas e as próprias esposas perdoavam tudo. Os homens, por força da guerra e da emigração eram tão poucos que qualquer traste era considerado “artigo de luxo”. Lembro-me que, por assim ser, um colega meu, bem mais velho e engraçado dizia que as mulheres que conseguissem arranjar namorado e casar deveriam pagar imposto. Bom, o melhor é falar baixinho, porque se o Coelho ou o Gaspar se lembram disso, lá vem mais um imposto.
Resta referir que nunca cheguei a saber, nem disso fiz questão, quais as dúvidas que queria que lhe tirasse. Provavelmente dissipou-as mesmo sem perguntar.
Agora diga-me se entre nós os dois não fui eu quem foi vítima de assédio sexual!
“Ce que femme veut, Dieu le veut” , que numa tradução livre se pode dizer que a mulher consegue sempre aquilo que quer.

Somos de tal forma e permanentemente bombardeados e massacrados com o vocábulo “crise” e, pior do que isso, com os seus efeitos, que, por mais que tentemos, é-nos extremamente difícil conduzir os nossos desabafos noutro sentido. Espoliados por um governo prenhe de imbecis, incompetentes, cobardes, de gente sem coluna vertebral, subserviente, que obedece cegamente, sem um reparo, uma tentativa de negociação ou a apresentação de uma proposta que revele, ainda que minimamente, que não pretendemos entregar a nossa independência sem luta, para além de espoliados, seríamos tratados como lixo se não desabafássemos, se não manifestássemos o nosso repúdio por tudo o que de mal nos estão fazendo. A nossa revolta tem tanto mais justificação porquanto sabemos que ainda estamos a ter uma pequena amostra do que aí vem e que esses falsos – sobretudo porque mentirosos – governantes apregoam, ao contrário daquela ministra italiana que deixou cair as lágrimas ao anunciar medidas de austeridade para os seus compatriotas, com o ar de quem está a anunciar um feito heróico, de quem se acha que um dia, ainda que ninguém o faça, se hão-de considerar salvadores da pátria.
Para além do aumento de receita e não diminuição de despesa que conseguiram através do roubo que já fizeram nos salários e nas pensões de muitos de nós e do que vão continuar a fazer, apresentam-nos, com o ar mais patético do mundo, medidas com aumentos de mais de cem por cento. É intolerável, é insuportável, é necessário arranjar forma de mandar esta gente para o olho da rua o mais depressa possível antes que fiquemos todos, não de tanga, mas nus, numa espécie de Biafra.
Esta obsessão do défice é absolutamente doentia. Todos nós concordaremos que é salutar que os Estados, como as famílias e os indivíduos devam controlar as suas finanças, gastando apenas aquilo que tenham capacidade de saldar. Aquilo que eu digo não é alicerçado em quaisquer conhecimentos académicos de economia, mas tão só aquilo a que a necessidade de gerir a minha economia familiar me ensinou. E aprendi à minha custa que se não me fosse dada a possibilidade de dever dinheiro, muito provavelmente nunca teria tido um automóvel, nunca teria a minha casa e, possivelmente nunca teria usufruído, ou tê-lo-ia muito mais tarde, de variados equipamentos. Quer dizer que a minha qualidade de vida teria sido bem pior. Hoje tenho a minha casa, o meu carro e muitas outras coisas que me foram possibilitadas por me ter sido possível gerir um défice e não devo nada.
Antes de outro comentário, eu pergunto: se há um ou dois anos eu tivesse adquirido um qualquer bem, a crédito, na expectativa legítima de que continuaria a receber 14 meses de pensão e que ninguém ousaria usurpar parte dela, como é que eu ficaria na situação actual e na que aí vem? É para pôr na penúria quem sempre trabalhou, sempre fez religiosamente os seus descontos, que temos um governo? – Será que merece esse nome?
Sem dinheiro para gastarmos, o que conduz ao encerramento do mais variado tipo de empresas e consequente aumento do número de desempregados, para que serve um défice que agrade à hitleriana Merkel, aos desbotados senhores da troika ou aos mercados? Fazem-nos algum favor?! São assim tão nossos amigos?! Emprestam-nos a juros baixos?!
Está à vista: estes iníquos governantes estão obcecados pelo défice, com receio de levarem umas palmadas da senhora. Doa a quem doer, que vá para a miséria quem tiver de ir, eles só não retiram aos funcionários públicos e pensionistas vinte, trinta, quarenta por cento do salário e pensões para chegarem ao défice zero e se colocarem triunfalmente em cima dos cadáveres, sucumbidos pela fome, porque, sabem que antes disso, teriam sido corridos, se não com cravos nos canos das espingardas, com a força do povo nas ruas.
Deixe-me aliviar um pouco a tensão: aqui há muitos anos uma prima minha, moçoila de dezoito anos, de linhas bem definidas e uma carita bonita, no consultório do dentista, “tremendo como varas verdes”, sentada naquilo que para ela deveria parecer a cadeira eléctrica, à voz do médico, de instrumentos na mão: “abra a boca, menina!”, reagiu assim: Abriu a boca e bem, mas foi para gritar o mais alto que os seus pulmões lhe permitiram: “ó da guarda, acudam, ó da guarda”.
Imagine a atrapalhação do médico, com clientes na sala de espera a ouvir estes gritos.
Ó da guarda, acudam, ó da guarda é o que nos apetece gritar perante as medidas tomadas por este troiko-franco-germano-dependente governo. Há quem o defenda, quem o admire?! Há. Sobretudo aqueles para quem não existe crise que os afecte.
“Un sot trouve toujours un plus sot qui l’admire” – um tolo encontra sempre outro mais tolo que o admira.

Com o hábito que os portugueses, sobretudo os nortenhos, têm de falar alto na rua, nos transportes públicos, nos cafés, nas salas de espera de hospitais, centros de saúde ou de outras instituições, é fácil apercebermo-nos do que dizem e do estado de espírito dessas pessoas. Uma das expressões que tenho ouvido com muita frequência é “ladrões”. Pelo decorrer da conversa que involuntariamente oiço, rapidamente me apercebo que a dita expressão se refere a quem tem a responsabilidade de nos governar. Ponho-me a meditar sobre o assunto. E se por um lado verifico que a democracia vai “sofrendo tratos de polé”, com o povo a ser desrespeitado constantemente, a ponto de entender que todos devemos estar em alerta, por outro, constato que por enquanto ainda se pode usar uma linguagem que há quarenta anos nos levaria facilmente aos calabouços da PIDE/DGS. Mas não há que fiar.
Meditando depois sobre a expressão propriamente dita ou seja “ladrões”, muito embora ela possa parecer exagerada, é a que vulgarmente as pessoas utilizam para referenciar quem rouba. De facto, muita gente se sente roubada por um governo que tem um primeiro-ministro de direito – o primeiro-ministro de facto é o Relvas, o que disse que o corte dos subsídios de Natal e de Férias eram para sempre – que, depois de afirmar, enquanto líder da oposição, que não se poderiam pedir mais sacrifícios aos portugueses, agora não tem feito outra coisa senão espoliar despudoradamente os bolsos dos nossos compatriotas. Que outra coisa se deve chamar para não parecer tão feio? Gatuno?! Larápio?! Trapaceiro?!
Eu, enquanto funcionário público, fiz uma carreira contributiva completa. Nem lhe poderia fugir. Fi-la, na expectativa legítima que teria até ao final dos meus dias catorze meses de pensão. Assim tem sido desde há uns anos. Eu ainda não morri e as regras não devem ser alteradas a meio do jogo, por isso também eu me sinto roubado. E que devo eu chamar a quem me rouba? Ladrão, obviamente.
Um outro aspecto relacionado com este que eu quero abordar é o seguinte: diz o governo que quer acertar as contas públicas, sobretudo através da despesa. Concordo que assim deva ser, mas não é exactamente esse o caminho que está a seguir. Dizer que o Estado vai reduzir a despesa à custa do corte dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos e dos pensionistas é uma falsa questão. Como os referidos cortes se tratam de um assalto aos bolsos dos ditos, como se os pobres coitados tivessem, eles e só eles, cometido o crime de empobrecer o país, trata-se de uma receita que o governo desavergonhadamente arrecada e não de uma redução de despesa.
E já agora essa de os funcionários públicos ganharem mais do que os das empresas privadas é uma balela. Porque será que ouvimos tantos ministros e outros políticos dizerem que ganhavam mais nas empresas privadas do que enquanto no exercício de cargos políticos?!
Tenho um filho e uma filha: ele tem uma licenciatura de cinco anos e trabalha numa empresa privada; ela tem um mestrado daqueles que se fizeram depois de uma licenciatura de cinco anos e trabalha numa instituição pública. Ele ganha muito mais do que ela, tem carro e mais uma série de regalias. Ele vai continuar a receber, felizmente, o subsídio de férias e de Natal. Ela nem um nem outro. Onde está a justiça?
Por falar em justiça, cada vez que lemos ou ouvimos um órgão de comunicação social, entram-nos pelos olhos ou pelos ouvidos factos que nos levam a crer cada vez menos nela. Não acreditarmos nela, que é o que cada vez acontece mais, pode levar as pessoas a procurar fazer justiça pelas suas próprias mãos. Se já vivemos num clima de grande insegurança, se chegarmos a esse ponto a situação piorará.
Quando tomamos conhecimento que desembargadores – não foram juízes principiantes – absolvem um médico que violara uma mulher a quem puxou a cabeça para lhe fazer sexo oral e ainda a atirou para cima da marquesa, que confiança poderemos ter em quem julga?!
Culpa de quem? Provavelmente dos operadores e das leis. Leis, muitas delas que terão sido propositadamente feitas para os poderosos, os que têm dinheiro para recursos e mais recursos e beneficiar das entrelinhas dessas mesmas leis a que só eles têm acesso.

Não há adjectivos suficientes para qualificar o que esta cambada que, tendo ganho com legitimidade, – embora até pudéssemos encontrar argumentos para a chamar de duvidosa – o direito de governar, mas que está no poder, abusando dele, tomando decisões para as quais os portugueses nunca a mandataria, numa actuação bem próxima da ditadura, levando milhares de cidadãos ao desespero, à miséria, sem que se vislumbre que os enormes sacrifícios possam valer a pena. Ainda se valessem… Atacam-nos, roubam-nos, sem oportunidade de defesa, que não seja manifestarmo-nos, indignarmo-nos e, quem sabe, um dia destes, termos uma nova revolução, talvez não dos cravos, mas dos crisântemos. Cambada de salteadores é o que são.
Entre o rol de mentiras que poderíamos apontar a Passos Coelho, que fazem dele um exemplar de Pinóquio, ao pé de quem, outros a quem já deram esse epíteto, ficariam muitos graus abaixo, não posso deixar de me recordar, perante tudo o que de mau já nos impôs e prometeu, da sua justificação para chumbar o PEC IV e que foi a de que não se podia pedir mais sacrifícios aos portugueses. Bom, ele realmente não pede. Impõe.
A minha revolta é tamanha e é alicerçada em vários aspectos sobre os quais poderia dissertar que necessitaria de horas e ninguém leria o meu desabafo. Há, todavia, dois ou três aspectos que não quero deixar de tocar, ainda que seja superficialmente.
Embora seja obrigado a reconhecer que é difícil, mesmo impossível, criar medidas perfeitas, em todos estes pacotes de austeridade, a justiça e a equidade, por mais que o afirmem que existe, isso é uma mentira. Se até Cavaco Silva, que se tem comportado como anjo protector deste governo o reconhece… De tão debatido que está o caso dos funcionários e aposentados da função pública, que são tratados como se fossem eles os grandes responsáveis pelo descalabro das finanças públicas, não vale a pena gastar muita saliva nem muita tinta, embora se deva dizer, em abono da verdade, que há muitos funcionários públicos, no activo ou aposentados, que deram milhares de horas a mais sem nunca receberem qualquer compensação por isso. Como no sector privado há bons e maus. Afirmar muito simplisticamente que os públicos trabalham menos horas do que os privados é uma falsa questão. Por isso, não se justifica que os trabalhadores do sector privado, ao contrário daqueles que o foram e agora estão aposentados, não contribuam com os cortes adequados nos respectivos subsídios, não para ficarem em poder dos patrões, mas para reverter a favor do saneamento das finanças do país. Bom, isto é o que eu penso que deveria ser feito, em nome da equidade, porque, de resto, o que deveria acontecer era não haver cortes dessa monta.
Deixe-me só fazer aqui mais uma reflexão. Diz-se que todas estas medidas de austeridade são para pagar as dívidas do Estado. Quem contrai as dívidas ou a quem elas beneficiam é que as deve pagar. Vivo com mais de dois mil conterrâneos numa terra – Nespereira, Cinfães – que, relativamente ao Estado, ao invés de contribuirmos para o pagamento da referida dívida, deveríamos ser indemnizados, tais são as carências que temos. De uma terra que é atravessada por uma estrada nacional miserável, estreita, com curvas atrás de curvas, de segurança reduzida, quando outras têm auto-estrada, às vezes mais do que uma, ou IP´s ou IC´s, que não tem saneamento básico nem água ao domicílio, longe dos estabelecimentos de ensino, de saúde, será que é justo que os seus cidadãos tenham de pagar a crise como outros que têm tudo à porta de casa? Não deveriam, antes, os meus conterrâneos ser indemnizados pelo ostracismo a que os votaram? Assim estaríamos mais perto da justiça.
É bom que toda esta gente e tanta outra em circunstâncias idênticas não deixem de exercer não apenas o seu direito de indignação, mas o direito de revolta.
A mim apetece-me usar a expressão que se usa por aqui: grandes sacanas.