Sunday, December 30, 2007

Bom Ano

     Estamos no fim de mais um ano, princípio de outro. Um ano passado sobre o nascimento de muitos sonhos, de muitos desejos, de votos trocados de mais saúde, mais amor, mais prosperidade, uns concretizaram-se, provavelmente a maioria desvaneceu-se, não passaram de sonhos. Só que os sonhos renovam-se constantemente, não morrem. Como disse Ralph Albernathy: “Pode matar-se o sonhador, mas não o sonho”.  Por isso cá estamos todos, de novo, no dealbar de um outro ano, repetindo sonhos que se não concretizaram, sonhando outras coisas, num sinal inequívoco de que apesar de todas as dificuldades, de tanta maldade por parte de muitos homens, de tanta injustiça, ainda arranjamos sempre um espaçozinho para a esperança. ´É importante que o homem sonhe porque “pobre não é o homem cujos sonhos se não realizaram, nas aquele que nunca sonha”.
Dos meus sonhos, que ainda são muitos apesar da idade, realço alguns que têm mais a ver com o benefício colectivo do que com o individual, porque não sou egoísta. Então que sonhos para 2008? Primeiro a melhoria da estrada nacional n.º 222, nomeadamente no capítulo da segurança. Não me cansarei de alertar para esse grave problema e, desejando embora que nunca nenhum acidente grave aconteça, se tal se verificar e, desde que não seja eu o acidentado que me impossibilite de o fazer, darei conta, através dos meios julgados convenientes, da responsabilidade irresponsável dos que superintendem nas estradas e nos deixam para aqui abandonados, desprotegidos, como se nós não contássemos nos votos, nos impostos. Creio que já aqui disse isto uma vez: um dia ainda nos vão obrigar a pedir que privatizem a referida estrada, mesmo que tenham que pôr portagem. Pelo menos, circularíamos mais rápidos, com maior segurança, poupávamos os automóveis. Bom, e já que falo nesse sonho de estrada segura, lamento, mas renovando o sonho que algum dia alguém com responsabilidades há-de estar atento e não esperar que os utentes peçam para colocar sal, calcário ou areia nesse gelo que cobre perigosíssimos troços de algumas das nossas estradas municipais, como por exemplo a que vai de Nespereira para Cinfães por Vilar de Peso. Quem lá passa vai de “credo na boca” e há passageiros que até já têm pedido para irem a pé. De facto tenho alguma dificuldade em compreender que espécie de protecção civil tem muitos dos nossos concelhos. Ainda há quem se choque quando afirmo que a única protecção civil que se conhece em muitas autarquias são os bombeiros “ pau para toda a colher”. Nem por isso têm sempre o respeito e o apoio que lhes é devido, nomeadamente por parte daqueles e daquelas instituições que eles substituem voluntária e generosamente, mas sem obrigações, porque desempenham funções que não lhes competem. Claro que também há muita gente nos bombeiros com responsabilidades na matéria, porque passam por lá para se promoverem, para arranjarem currículo, por vaidade ou por interesses meramente pessoais ou políticos. Ah, e por falar em políticos, deixe-me confessar-lhe um outro sonho: não tenho elementos concretos, mas, exceptuando alguns casos bem conhecidos e certamente outros menos conhecidos ou mesmo desconhecidos, parece-me que as mulheres na política são mais sérias do que os homens. Não obstante elas serem bem menos, creio que a proporção de mulheres acusadas de corrupção, abuso de poder, peculato, etc. é bem menor do que a dos homens. Sendo assim, o meu sonho é saias para cima, calças para baixo.
Fique bem e não deixe de sonhar, nunca, nem que seja com alguém sem saias nem calças.
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Friday, December 28, 2007

A credibilidade dos políticos

      Já não é novidade para ninguém, dos indivíduos das minhas relações, dos que me ouvem ou lêem, que uma grande parte dos políticos não me seduz, não me entusiasma, antes pelo contrário, chega a repugnar-me. Obviamente que me refiro a essas pessoas enquanto actores nesse palco enorme chamado política. Fora desse palco, a muitos encaro-os de forma completamente diferente, com simpatia, com consideração, embora em relação a outros, sinta sempre uma pedrinha no sapato, porque não conseguem viver um momento da sua vida sem respirar política, o que nos obriga a estar sempre de pé atrás, pois temos de equacionar se as suas afirmações, os seus actos, são a expressão dos seus verdadeiros sentimentos ou apenas mais uma manifestação do seu interesse político. Em momentos de humor mais optimista chego a ter esperança de isto um dia mudar, mas logo a seguir aparece mais uma série de declarações que me desanimam, me levam a pensar que isto não tem emenda, a não ser, na melhor das hipóteses, quando uma grande parte destes desajustados dos verdadeiros problemas dos portugueses, mas ajustados às poltronas do Governo, do Parlamento, das autarquias e de outras instituições de nomeação política, alguns há mais de três dezenas de anos, morrer.
Às vezes chego a pôr a hipótese de as coisas não serem exactamente como as pinto, que talvez faça uma apreciação demasiado exigente e alargada em relação aos políticos, mas, imediatamente, concluo que não, porque são os próprios políticos que me vêm dar razão. Eles, próprios, não acreditam, não confiam uns nos outros, não apenas em relação aos de cores partidárias diferentes, mas das suas próprias cores. Todos os dias, temos provas inequívocas disso. É só uma questão de atentarmos nas afirmações de muitos deles.
Recordam-se certamente de várias lutas partidárias para a liderança dos respectivos partidos, com relevo para a última protagonizada por Luís Filipe Meneses e Luís Marques Mendes. Aquilo que disseram um do outro é sintomático. Ou será que em campanha eleitoral tinham defeitos que se dissipam, de imediato, após a eleição?! Ou será que em campanha eleitoral vale tudo, nomeadamente a calúnia?! Seja como for, gente desta estirpe, e são aos milhares, merece confiança?
Agora Luís Filipe Meneses afirma que em meia dúzia de meses desmantela o Estado. Um dia destes, Luís Filipe Meneses fica apelidado de “O Terramoto”. Infeliz afirmação, que é mais um tiro no pé de quem pretende ser primeiro-ministro, quando se sabe que independentemente dos governos, melhores ou piores, ainda é no Estado que uma grande parte dos portugueses confia para poderem viver com um mínimo de dignidade e com alguma segurança, na doença e na velhice. Mais: Luís Filipe Meneses quer desmantelar o Estado, mas bastou-lhe sentir que haverá mudanças na Administração da Caixa Geral de Depósitos para reclamar a presidência para um social-democrata. Interessante este contra-senso, não é? Também acho gira a afirmação de que as grandes instituições públicas não devem ser presididas por alguém da cor política do governo. Quer isto dizer que sempre que um governo mudasse, deveriam mudar os administradores, independentemente do seu trabalho. Quer dizer que a competência não conta. Cada partido só confia nos seus quadros? Claro que não é isso: têm é que garantir os “tachos” aos seus militantes. Bom, no fundo, cá estão a dar-me razão: melhor é mandar os partidos às malvas.
Achei curiosa também, a expressão de Paulo Portas: “ Em política é essencial não retirar valor à palavra dada”. Deveria ser assim, só que a afirmação não deveria ser feita por Paulo Portas nem por qualquer outro líder partidário, porque feita por eles nos dá vontade de rir. Já não são tantos assim os que vão no “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”.
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Wednesday, December 26, 2007

O meu Natal

      Bom, hoje, 160 anos depois, deve andar muita gente a dar volta à cabeça, a tentar descobrir como há-de resolver os seus compromissos bancários, alguns deles criados por força do consumismo excessivo, tantas vezes para adquirir produtos absolutamente supérfluos e fúteis. Na hora do adquirir parece que a mente adormece, não raciocina convenientemente e provoca essas consequências. Alguns já começam a assentar os pés na terra e a ter uma espécie de sobremesa amarga; mas há outros ainda que continuam nas nuvens e o tempo do consumo ainda se vai estender, em muitos casos, com um aumento de dispêndio financeiro, até ao ano novo, que passagem de ano sem grandes festas no solo pátrio ou noutras paragens que os agentes ligados a tais eventos – hoteleiros, turísticos, de viagens – promovem com sapiência de doutorados. Cada um sabe de si e há-de tentar resolver os problemas da melhor maneira que puder. Enquanto existir aquele cartão, milagroso para muitas pessoas, o de crédito, que faz com muitos pareçam ser o que não são e ter o que não têm, vai continuar a haver grandes festas de Natal, de Ano Novo, de Páscoa, férias em locais paradisíacos, etc. O que acontecer a seguir logo se verá – parece ser a filosofia das novas gerações.
O que me choca, no meio de festarolas mais ricas e animadas ou mais simples, é saber que há muitas pessoas que gastam largos milhares, à custa de trabalhadores a quem não pagaram salários nem subsídios, não se repugnando em saber que por força disso há pais que não podem dar um brinquedo aos filhos, alguns mesmo nem sequer uma ceia de natal digna desse nome. Essa gente – gente?! – não, não é gente, porque não tem sentimentos, não tem coração, deveria era toda passar esta quadra nas masmorras de qualquer prisão.
O meu Natal não foi diferente do dos últimos anos. Tenho um motivo acrescido para ser um tempo de maior ternura, de maior alegria, que é a presença dos netos. Primeiro é ansiedade do mais velhito, de cinco anos – a neta ainda não têm idade para ter esses sentimentos – depois a encenação para a aparição dos presentes, presumivelmente colocados junto à árvore pelo Pai Natal que ninguém viu, mas que entrara pela janela, semiaberta e comera uma rabanada e bebera um pacote de leite achocolatado que o miúdo previamente colocara numa pequena mesa. Depois, ainda relativamente cedo, porque é necessário proporcionar toda essa ambiência à mais pequerrucha, mas Morfeu começa a dar sinais impacientes de a querer transportar nas suas asas, é a entrada na sala, com o neto mais velho, estratégica, mas disfarçadamente, enviado à frente. Foi um transbordar de alegria, com tantos presentes acondicionados em coloridos papéis e laçarotes. Ele saltava, gritando que o Pai Natal já chegou; a pequerrucha arregalava os olhos de espanto pelo entusiasmo do irmão. O Dinis, assim se chama o neto, que já lê o suficiente, ia lendo os nomes para quem as prendas eram endereçadas, entusiasmando-se mais ainda, quando eram para si. A pequenina, a Diana, contentava-se em mexer em tudo, indiscriminadamente. A sala ia caindo abaixo quando o Dinis descobre, no meio de todos os presentes, um robot que se transforma em automóvel. Por essa alegria contagiante valeu a pena o Natal, mas nessa noite, eu não deixo nunca de mudar, algumas vezes, de humor. Depois da alegria, vem-me inevitavelmente a tristeza pela dor, pela fome, pelo sofrimento que adivinho em muitas pessoas, nomeadamente crianças. Crianças que, pior do que não terem brinquedos, morrem de fome. Fico amargurado e a conjecturar até, se não será um crime a nossa alegria. Sinto alguma nostalgia, sem qualquer espécie de mágoa pelo meu Natal de criança, digamos que praticamente ao nível dos pobres de hoje. Obviamente, a alegria das crianças volta a contagiar-me e o sorriso regressa, para passado pouco tempo regressar o abatimento. É assim, normalmente o meu Natal. Foi assim o meu Natal. 
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Monday, December 24, 2007

Natal

      Hoje será porventura o dia mais longo para as crianças, para aquelas que têm a felicidade de ter Natal. Se felizmente há muitas para quem o Natal se prolonga por todos os dias do ano, embora com uma magia especial no dia de hoje, há outras para quem este dia é igual a todos os outros, de fome e de dor. Ninguém se importaria que fosse igual a outros dias, se fossem bons. Que importava o Natal dos presentes, das guloseimas, se o essencial se tivesse sempre?! O Natal seria apenas o da comemoração do nascimento do Menino, para aqueles que acreditam nele. Parece-me que na nossa cultura ocidental, mesmo para muitos que perfilham outras filosofias que nada têm a ver com a existência de Jesus, não deixam de sentir a magia da época. Acreditemos ou não na natividade do Deus Menino, o mundo, à nossa volta está impregnado por esse espírito que o Natal criou: são as luzes, os adornos, o movimento invulgar nas ruas e nas lojas com as pessoas carregadas de sacos de guloseimas, de presentes, para depois, em casa, para os mais novos, passar por ser o Pai Natal ou o Menino Jesus que trouxe, de acordo com a vivência religiosa de cada família. Só que, meu amigo, no meio deste frenesim diabólico, - ah!, eu disse diabólico?!, - talvez não fique bem este vocábulo, ao falarmos de Natal. Bom, digamos neste frenesim, apenas, constatamos que as pessoas, demasiadas pessoas, andam nervosas, irritadas, agressivas, empurram, atropelam, insultam, sem demonstrarem a mínima condescendência, solidariedade, num ambiente que é completamente o oposto do espírito que se apregoa no Natal. Depois são os postais, as cartas, as mensagens de boas-festas, umas originais, simples, outras pré-fabricadas, altamente estandardizadas, globalizadas, o que, em meu entender, lhes retira todo o simbolismo que elas devem encerrar, e contrariando, efectivamente, aquilo que a prática quotidiana das pessoas nos comprova. Há ainda uma outra reflexão que me é sugerida por todo este consumismo desenfreado, por esta opulência que muitas vezes a realidade não permitiria e deixa famílias em muitos maus lençóis. É que Jesus terá sido, de acordo com a história, o símbolo da simplicidade, do viver em pobreza. Comemorar o Seu nascimento com tanta fartura, com tanta extravagância, com tanto luxo, não será causar-Lhe uma imensa tristeza, tanto mais, Ele sabendo que aquilo que muitos de nós esbanjam, aquilo que para nós serão restos, alimentariam muitas e muitas crianças? Eu creio que sim. Para se cumprir melhor o Natal, bastaria, algumas vezes, mudar os destinatários dos nossos presentes. Como o deveria fazer Isaltino Morais, o autarca de Oeiras, que em vez de enviar os cabazes para o tribunal, não lhe faltaria, no seu concelho, famílias que certamente irão passar a quadra, muitas quadras com fome, que os receberiam de mãos abertas e poupava-se a ser acusado de aliciamento. Enfim, é neste mundo que vivemos. Eu não sou melhor do que você. Certamente como muitos de vós, ainda preciso de ir comprar mais qualquer coisa de última hora, algo mais supérfluo, a acrescentar a muitas outras supérfluas. De qualquer maneira, vamos todos fazer o possível por melhorarmos o nosso comportamento, de modo a sermos mais solidários e menos narcisos.
Não se esqueça: feliz é aquele a quem o pouco que tem lhe basta; infeliz é aquele que, por mais que tenha, acha que sempre lhe falta qualquer coisa.
Hoje e sempre, desejo-lhe exactamente o mesmo que para mim e os meus: tenha saúde, seja feliz
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Saturday, December 22, 2007

Pensadores

      Não sou sociólogo, não sou filósofo, não sou psicólogo, todavia quer-me parecer, por uma análise empírica que as minhas décadas de vida, comprovadas pelas cãs, me permitem fazer, que os portugueses, de um modo geral, andam pouco dados a pensar. Claro que temos bons e ilustres pensadores, mas serão a excepção que confirma a regra. A vida mostrou-me, sem me deixar réstia de dúvida, que muitas pessoas ouvem, lêem e até assinam por baixo sem pensar, às vezes nem sequer superficialmente, no que ouviram, leram ou assinaram. Isto é grave quando se passa com uma qualquer pessoa, a título individual. Vemos, frequentemente, cidadãos honestos, exemplares, mas simples, ingénuos e negligentes, assinarem, como testemunhas, declarações, escrituras ou documentos do género, sem pensarem verdadeiramente nas complicações que o seu gesto irreflectido lhes pode acarretar e algumas vezes acarreta mesmo. Eu creio que esta – não sei se lhe hei-de chamar preguiça ou inaptidão para pensar – começa na família e percorre a vida académica e a vida profissional. Não sei se poderemos encontrar nessa forma de ser portuguesa, alguma justificação para alguns dos nossos insucessos, para a nossa crise de desenvolvimento, de produtividade. Não sei ainda, se não é por esse facto, pela preguiça, pela inabilidade de pensar, que deixamos, tantas vezes, para outros resolverem, assuntos que nos dizem tanto respeito a nós como a eles.
A minha passagem por diversos organismos, a diversos níveis, não só comprovou aquilo que referi, como me mostrou que há dirigentes das mais variadas instituições que também praticamente não pensam: não se debruçam sobre uma lei, um regulamento, um estatuto para criticar, dar parecer. Não apresentam um projecto, uma sugestão, limitam-se a dizer sim ou não, muitas vezes nem sequer como resultado da sua vontade, da sua consciência, porque para isso teriam que ter pensado, mas de acordo com as opções políticas que perfilham e as orientações do líder.
O que nós vemos de desenvolvimento, de sucesso em algumas instituições deve-se frequentemente ao trabalho físico e sobretudo mental de um ou dois dirigentes, servindo os outros apenas para a existência de quórum e as deliberações não ficarem por tomar ou feridas de ilegalidade.
Isto que afirmo não é apenas típico das pequenas instituições. Verifica-se aos mais diversos níveis. De qualquer forma é bom sublinhar que há instituições, algumas mesmo de pequeno vulto, em que todos trabalham com um excelente espírito de equipa, portanto, constituídas por gente que pensa e age.
Eu poderia apontar dezenas de exemplos que confirmam aquilo que digo. Só que nem era correcto estar a identificar nem pessoas nem instituições e, além disso, você se é dos que observa e pensa, também já verificou o mesmo. De qualquer forma vou contar-lhe uma história verdadeira e que se repetiu algumas vezes,  sem identificar quem quer que seja.
Em determinado congresso, um meu amigo, experiente e mediático político, bombeiro e mais uma série de coisas, hábil manipulador de massas, fez-se aplaudir entusiasticamente, numa manhã do referido congresso, com uma intervenção. Da parte da tarde, porque entendeu mudar de rumo, fez uma outra intervenção de sinal absolutamente contrário. Se isto, só por si, já pode causar alguma estranheza, mais estranho foi verificar que muitos dos que aplaudiram de manhã, voltaram a aplaudir de tarde. Essa gente, não é gente de ter trabalho a pensar, não lhe parece?
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Comunicação social local

      Eu posso gastar cinco segundos para pôr uma questão. Paulo Portas, pelos vistos, gastou dez para colocar duas ao primeiro-ministro, na última presença na Assembleia da República. De acordo com essa estatística posso fazer 12 perguntas em um minuto. O que não posso é esperar que no mesmo lapso de tempo, me respondam a todas, a menos que a resposta seja apenas sim, não, talvez ou outra similar.
Vem isto a propósito da presença do primeiro-ministro no Parlamento, em novos moldes. Andam os líderes da oposição preocupadíssimos em conseguirem colocar o número máximo de questões ao chefe do governo, no espaço que lhes é concedido, com a principal intenção de garantirem que nem todas tenham resposta, acusarem o primeiro-ministro de fugir a elas e cantarem vitória. Isto não é sério, o que também não se estranha num grande número de políticos, seja de que quadrante for.
O interesse do país não conta, as respostas também pouco interessam. O importante é embriagar-se com as pretensas e auto-proclamadas vitórias que nunca são de ninguém, seja quem for o mais eloquente, seja quem for o que tiver melhor prestação, porque esses senhores, ao invés de se preocuparem com os problemas reais do país e da sua população, - eu disse problemas reais, não aqueles que os políticos frequentemente inventam, demagogicamente, para influenciar os eleitores – preocupam-se com o seu ego, os seus interesses pessoais e de grupo. Aliás, a comunicação social, de um modo geral, alimenta e explora muito essa ideia de vitória e de derrota. Basta ouvir os analistas e os jornalistas, no fim das sessões e as questões que põem aos líderes. Antes de qualquer outra que interessasse efectivamente aos portugueses, a pergunta é deste género: Acha que lhe correu bem o debate? Ganhou ou perdeu? Será isto o mais importante para o país? Mas será a vitória deste ou daquele partido, deste ou daquele líder, o que mais interessa aos portugueses?! O que eles querem é que discutam e resolvam, sem mistificações, sem demagogias, os problemas dos salários, do custo de vida, do emprego, da saúde, da educação.
Mais do que arranjar esquemas para vencer debates, todos, sem excepção, deveriam preocupar-se em ajudar o país a andar para a frente. Mas, também, coitados de alguns dos políticos, que havíamos nós de esperar deles?!
Faz muito mais pelas pessoas, com grande frequência, a comunicação social, na sua globalidade, com realce para a regional que conhece bem a realidade local que serve, denuncia, aponta caminhos. Talvez pelo seu papel de denúncia, de luta pela resolução dos problemas das gentes das regiões que servem, é que os governos lhe vêm dificultando a vida, sobretudo à imprensa. A imprensa regional, tal como a rádio, bem merecem ser apoiadas, pelo contributo que têm dado e continuam a dar para o desenvolvimento das regiões mais desprotegidas. Pena é que, frequentemente, em alguma dessa imprensa, apareçam colaboradores que não são capazes de dar a cara, de dar o seu verdadeiro nome, escondendo-se por detrás desses instrumentos repugnantes que são o anonimato ou o nome fictício. A mim, que nunca usei outro, mesmo no tempo da censura, que não fosse o meu verdadeiro nome e a minha cara, choca-me ver pessoas “atirando a pedra, mas escondendo a mão”. Todo o mérito que tenham – alguns desses até escrevem bem – fica ensombrado pela covardia. Para mim, um covarde é um verme.
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Saturday, December 15, 2007

Assédio

      Certamente acontece-lhe a si também, ler os textos mais ou menos transversalmente, sem prestar a atenção devida, levando-nos a tirar conclusões erradas. Quando são textos que obrigam à nossa assinatura, porque somos declarantes, outorgantes, testemunhas ou outra coisa qualquer, tal desatenção, negligência ou excesso de confiança podem criar-nos gravíssimos problemas. São abundantes os casos em que isso aconteceu, levando alguns à barra dos tribunais e mesmo a perderem, parcial ou totalmente, os seus bens. Portanto devemos ler sempre tudo com a maior das atenções e, sobretudo, se for algo que houvermos de assinar, para além de ler, devemos interpretar correctamente. Esta reflexão foi-me sugerida depois de ter lido, há dias atrás, num dos jornais que habitualmente leio, o seguinte título: Mães de Penafiel acusam professora de assédio sexual. Repentinamente, pus-me a imaginar uma professora de carnes quentes, comprazendo-se a retirar a virgindade a mocinhos crianças ou pré-adolescentes. E veio-me logo à mente aquela professora americana que fez o mesmo a um rapazinho, seu aluno, de quem teve um filho e a levou à prisão, mas, se bem me lembro, não lhe terá servido de emenda. Imaginei a dor daquelas mães por verem assim, tão precocemente, a inocência de seus rebentos ser atentada, ainda por cima, por alguém a quem se exigia que, para além de professora, fosse educadora. Posso garantir-lhe que naquele momento me associei e comunguei da sua dor. Entretido com estes pensamentos, comecei a ler a peça. Verifiquei então que não eram as mães a queixar-se, mas sim as esposas. De facto, eram duas mulheres que se queixavam de uma professora, provavelmente de seus filhos, ter assediado os respectivos maridos, tendo, com eles cometido adultério. Chegada a esta conclusão, regressei ao título, na primeira página e verifiquei então que estava lá escarrapachado o ante título “Aos maridos”. Ora se eu de facto tivesse lido tudo com atenção, se não me tivesse detido apenas pelas letras gordas, como se costuma dizer, ter-me-ia poupado a toda esta especulação e também esta crónica não existiria. Hoje estaria aqui a falar de qualquer outra coisa.
E sendo as coisas assim, não tendo nada a ver com crianças, parece-me que as tais mães, que eu prefiro chamar de esposas, deveriam era queixar-se dos seus maridos, ou ex-maridos, as traírem. Será que a professora, para além do mero assédio que muitas mulheres praticam, terá usado de violência sobre os pobres homens?! Julgo eu – claro, falo pela minha experiência pessoal – qualquer homem que se preze não desdenha ser assediado, antes pelo contrário. Em muitos, segundo julgo, tem até o efeito de lhes aumentar a auto-estima. Eu, pelo menos, não me importo absolutamente nada de ser assediado por uma mulher, se possível, bonita e inteligente. “Me engane que eu gosto”. O trair ou não a mulher, já é outra coisa e só trai quem quer, a não ser que a sedutora tenha poderes extraordinários que o leve a cometer adultério. Mais, até julgo que, como há mulheres que ficam com ciúmes se virem outra mulher a atirar-se ao marido, há outras que ficam orgulhosas por serem “proprietárias”, entre aspas, de alguém cobiçado, tal como há maridos que ficam eufóricos quando se apercebem que as suas companheiras são medidas de alto a baixo, por outros homens.
Vá lá, senhoras de Penafiel, reconquistem os vossos maridos, de preferência com os mesmos dotes da sedutora que, se eles cometeram adultério, talvez não tenha sido a primeira vez e isso é um pecado venial a que nenhum homem resiste, a menos que seja um dos eleitos de Deus para não se deixar tentar pelos prazeres da carne…alheia.
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Criminalidade

      Portugal já deu provas, perante as instâncias internacionais, e elas reconhecem-no, que é capaz de organizar qualquer tipo de eventos, com sucesso, nomeadamente, no capítulo da segurança. Para além de outros, acabou de se realizar em Lisboa a cimeira União Europeia – África, com a presença de alguns conhecidos ditadores, sem que se vislumbrasse o mínimo problema, como outrora também acontecera com Fidel Castro e outros. Esta cimeira, como aliás praticamente todas as outras, não terá obtido grandes resultados concretos, mas nem por isso os analistas independentes e mesmo outros, deixaram de a rotular de um marco importante e positivo. Se alguém terá ficado mal, não na fotografia, porque primou pela ausência, terá sido Goldon Brown, o primeiro-ministro inglês, que ao invés de marcar presença e dialogar, mesmo que seja com ditadores, prefere atacar e matar cidadãos inocentes, como no Iraque, com base em relatórios fabricados. Essa, tal como outras intervenções armadas, já demonstrou que não resulta. O diálogo pode também não resultar muito e é verdade que não, mas pelo menos não extermina milhares de inocentes.
Independentemente dos resultados – alguns só mais tarde se conhecerão – a cimeira correu bem. Pena é que os cidadãos portugueses não se sintam tão seguros como se sentiram as comitivas internacionais. Os crimes poderão eventualmente ter diminuído, mas não os de extrema violência, cada vez mais sofisticados, executados com mais profissionalismo. Embora todos nós entendamos que é preciso mais polícia na rua, parece-me que não é por esse facto que esses homicídios que se verificaram nos últimos tempos, no Porto e em Lisboa, teriam deixado de ocorrer. Esses crimes combatem-se sobretudo com uma luta sem tréguas contra o tráfico de drogas e de mulheres, a lavagem de dinheiro, a corrupção, a fuga ao fisco, os negócios escuros. Limpo esse flagelo, acaba-se, ou, pelo menos, diminui drasticamente esse tipo de assassinatos. Já aqui o disse e mantenho essa convicção: alguma criminalidade impede-se com mais policiamento, mas aquele tipo de crimes a que nos referimos atrás, nem com um polícia em cada esquina.
Uma vez que estamos a falar de polícias, deixe-me dizer que achei curiosas as palavras do líder do PSD, Luís Filipe Meneses, afirmando que o primeiro-ministro deveria pedir desculpa aos portugueses porque os idosos têm medo, as criancinhas têm medo de ir à escola, toda a gente anda com medo. Achei-as curiosas, porque estes líderes têm, todos, uma fraca memória. A ser assim, teríamos que percorrer todos os primeiros-ministros, até chegarmos a Caetano e Salazar. Nessa altura, tínhamos outros medos, mas as populações não se sentiam inseguras. Nem por isso, a maioria dos portugueses quereria regressar a esse tempo, suponho eu, embora não duvidando que muitos gostassem, mesmo alguns que estão integrados (ou infiltrados?) em partidos democráticos e desempenham funções, para as quais foram eleitos ou nomeados. Basta ouvi-los em conversas descomprometidas. É a bondade da democracia. Luís Filipe Meneses, líder de um partido com vocação de governo, com o seu populismo, a sua demagogia sem limites e sem pudor, revelou, uma vez mais, que não tem perfil para primeiro-ministro, ou então, como eu já aqui disse, está seguro de que o não será. O seu segundo (ou primeiro?!) na autarquia gaiense, Marco António Costa, vai ainda mais longe e compara Portugal a Chicago, nos anos trinta. É este tipo de gente que gere, nos vários quadrantes os destinos de Portugal. Com gente desta não sei se mesmo Deus se atreverá a salvar-nos. Mas achei curiosas as palavras de Luís Filipe Meneses, presidente da Câmara de Gaia, sobretudo, porque tem na sua autarquia, muitos polícias municipais, mas ao que se vê, e eu passo muito tempo nessa cidade e observo, uma grande parte deles passa o dia a bloquear carros e rebocar, provavelmente para ajudar a saldar a dívida, ao que se sabe, enorme, à custa daqueles que querendo e necessitando de trabalhar, não têm onde estacionar os automóveis, porque parques, na cidade, são mais difíceis de encontrar do que agulha em palheiro. Mas pior ainda é vermos bloquear carros em locais para os quais a legitimidade é duvidosa, em áreas que me parecem mais da responsabilidade de condomínios do que da autarquia, deixando de bloquear C mim, injustificáveis, sobretudo devido à inexistência de parques suficientes. É a velha questão de “só ver o argueiro no olho do outro”.
A resolução do problema da criminalidade violenta, em Portugal, tem muito mais a ver com a capacidade de investigação e com a justiça do que com o número de polícias na rua. Este tipo de criminosos funciona como na guerrilha: bastam meia dúzia de guerrilheiros para amedrontar e mesmo dizimar uma companhia do exército.
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Que políticos?!

      No Mosteiro dos Jerónimos foi ontem assinado, com pompa e circunstância, pelos representantes dos 27 países que constituem a União Europeia o chamado Tratado de Lisboa, no mesmo local onde, há 22 anos, Portugal subscreveu a sua adesão à referida União, então Comissão Económica Europeia. Esse tratado, que na sua génese seria constitucional, deixou de o ser de modo a mais facilmente ser aprovado em cada um dos países. Parece-me a mim, pouco versado nessas matérias, mesmo assim, que é um documento positivo para os 27 países-membros, não lhes retirando a soberania, mas tornando as suas instituições mais eficazes e falando a uma só voz. O ideal é aproximarmo-nos o mais rapidamente possível de uma União Europeia que não seja apenas de direito, mas de facto. É necessário termos os mesmos direitos, os mesmos deveres, dependermos de uma justiça igual, nivelarmo-nos tanto quanto possível, pelos melhores resultados, nos salários, no acesso à educação, à saúde. Não vais ser este tratado que vai resolver tudo isso, mas pode ser um passo positivo. E atrás de um haverá de ser dado outro e outro e outro. Tenhamos nós, em Portugal e nos restantes países, políticos à altura de encetarem esses passos direccionados para o bom porto. Sabemos que por falta de credibilidade na política, muitos, dos bons, não se metem nisso, mas que diabo, nós também podemos fazer alguma coisa para inverter a situação. Quando somos chamados a pronunciar-nos, a votar, não devemos deixar essa responsabilidade apenas para os outros, porque ela também é de cada um de nós. Se, por comodismo ou desencanto, este que até certo modo é justificável, não nos abstivermos nas decisões que a todos nós dizem respeito, talvez vamos melhorando o ambiente político.
O panorama só se pode inverter, se cada um de nós der o seu melhor, na esperança de que um dia todos esses “tumores malignos” sejam expurgados da política. Todos os dias os “media” nos relatam factos que têm a ver com vida política e que deveriam envergonhar os seus protagonistas, mas infelizmente, parece-me que quem fica envergonhado somos nós, por termos nos mais diversos patamares da política do nosso pais, uma série de gente incompetente, corrupta, interesseira. Veja, meu amigo, por exemplo, o que aconteceu recentemente na Assembleia Municipal de Felgueiras. Pretendia-se discutir na referida Assembleia, o pagamento das custas judiciais por parte da Câmara a Fátima Felgueiras e outros arguidos. Uma vergonha e mais uma prova de que uma grande parte das leis é feita à medida dos políticos e dos poderosos. Ora o que aconteceu na referida Assembleia é que dos 65 deputados, apenas compareceram 29, o que inviabilizou a discussão. Isto é jogo sujo, como é outros actos de chantagem e pressão que, pelos vistos, são praticados. Para este tipo de gente vale tudo. Diz o povo que “quem não deve não teme”. Os 36 deputados faltosos, provavelmente alguns justificadamente, temeram por eles ou por alguém.
Fátima Felgueiras é toda sorrisos, tem boa aparência. Já há muitos anos faço esta reflexão: não conheço ninguém com má aparência que engane quem quer que seja.   
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Thursday, December 6, 2007

Cheira a Natal

      Quem percorre algumas ruas das cidades, das vilas e mesmo de algumas aldeias, depara-se com os tradicionais enfeites e luzes natalícias, cada vez mais sofisticados. As casas, muitas casas iluminam-se também com luzinhas e mais luzinhas, com cores, movimentos, coreografias para todos os gostos e todas as bolsas. Nos shoppings, hipermercados e comércio tradicional não faltam apelos mais ou menos luminosos, ao consumo. No comércio tradicional, o meu preferido, para além do foto-apelo, permita-me esta expressão de criação pessoal, deparamo-nos, frequentemente, logo que paramos numa montra ou à porta, com a simpatia dos funcionários ou patrões a convidar-nos a entrar. Às vezes não resistimos à simpatia ou mesmo ao encanto, sobretudo se o convite partir de uma moça bonita, e lá entramos e até compramos. Para muitos está na venda que fizerem nesta época a salvação do ano.
Por outro lado, começam a verificar-se em muitas empresas e associações da mais variada espécie, as também tradicionais ceias de Natal, umas apenas e só isso, que servem de motivo de confraternização, outras que juntam circo ou outras festas com distribuição de brinquedos para os filhos dos colaboradores, como agora se chama.
Enfim, já uns tempos que cheira a Natal, só ainda não senti o odor das rabanadas. Parece que as pessoas, cada vez mais, têm pressa em que seja Natal. É verdade. Mas será que não é apenas o Natal dos enfeites, dos presentes, das guloseimas, da hipocrisia?! A mim, parece-me que sim. O Natal que todos gostaríamos que existisse, ou antes, as virtudes que tanto se apregoam no Natal e que gostaríamos que fossem norma em todos os dias do ano, esse Natal, essas virtudes, de facto, pouco se vêem. Atravessamos uma altura em que a solidariedade é feita mais à base do apelo mediático, do exibicionismo, do que fruto de uma prática que vem de dentro e se faz constantemente, que é intrínseca à nossa vida, como é alimentarmo-nos. Vivemos num tempo em que o ter é muito mais importante do que o ser, em que a matéria se sobrepõe ao espírito, em que a vida humana é desprezada, em que os próprios elementos da mesma família se matam com a mesma frieza com que matam um frango para fazer uma cabidela, se violam, se atraiçoam, se roubam.
É bonita a frase “é Natal sempre que o homem quiser”. Só que muitos homens, demasiados homens, não querem, nunca querem que seja Natal.
É bom, todavia, reflectirmos, se esse facto de muitos homens serem como são, estarem muito mais perto do estado bárbaro, sanguinário, do que da espécie humana civilizada, será apenas culpa deles. Obviamente que não. Eles têm a sua quota-parte de culpa, mas não podemos ilibar aqueles que são responsáveis pelas desigualdades, pela fome, por uma educação deficiente ou inexistente, pelo difícil ou mesmo impossível acesso à saúde, por uma justiça que não funciona ou funciona de uma forma para os ricos e poderosos e de outra, para os pobres, os marginalizados da sociedade. E esses são aqueles que governam, mal, as várias parcelas do mundo, os vários países, sobretudo os mais poderosos.
É bonito ver o país iluminado, com pais-natais a subirem pelas paredes ou pela chaminés a anunciar o Natal, mas o que é necessário é que o Natal chegue aos corações de todos.
Posted by Salazar in 10:55:59 | Permalink | No Comments »