Sunday, January 27, 2008

O socorro em Portugal

      Procurei deixar assentar alguma poeira provocada pelo lamentável episódio protagonizado pelo CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes) e os bombeiros de Favaios, sobretudo estes, no concelho de Alijó. Eu digo alguma poeira, porque enquanto não mudar a política relativamente ao socorro em Portugal que permite que o INEM seja o filho amado, super protegido, vivendo com abastança e os bombeiros sejam os enteados maltratados, vivendo na penúria, a poeira não há-de assentar nunca. E se não anda muito mais poeira pelo ar é só porque os bombeiros portugueses são demasiado humildes, não são conflituosos e agem sempre não só com os conhecimentos que conseguem, muitas vezes com prejuízo de férias, de salários, porque não lhes dão outras oportunidades, mas também com o coração, com a abnegação que outros não têm e faz suprir muitas carências, muitas debilidades.
Não é a primeira vez que me debruço sobre a problemática do socorro, nomeadamente do INEM. Considero o INEM uma instituição importantíssima no nosso sistema de socorro. Tanto o considero que entendo que urge alargar a sua acção, nomeadamente dotando todos os corpos de bombeiros de ambulâncias devidamente apetrechadas e de pessoal com formação adequada para as tripular 24 horas por dia, sete dias por semana. O que O INEM não pode, não deve, é constantemente fazer com que os bombeiros sejam os bodes expiatórios das suas falhas, como estes não devem fazer aqueles expiar as suas. Ainda no campo da importância do INEM, há que alargar a rede de VMER’s – viaturas médicas de emergência rápida. Aqueles que vivem longe dos grandes centros, são certamente aqueles que mais necessitam dos seus serviços, porque, em muitos casos, esperar por uma ambulância, mesmo que seja ultra rápida, e ser transportado a uma urgência, demora tempo mais do que suficiente para se morrer, se for caso disso.
Relativamente ao diálogo verificado entre uma operadora do CODU e um bombeiro de Favaios, no concelho de Alijó, ninguém ficou bem na fotografia. Em primeiro lugar fiquei com uma enorme repulsa, porque logo de repente a comunicação social teve acesso à gravação. Com que intenção? Denegrir os bombeiros? Quem autorizou? Bom, mas até nem terá sido mau de todo, se isso fizer com que se proceda a um debate sério sobre o socorro em Portugal, sem que ninguém ignore que, apesar de todas as suas debilidades, os bombeiros portugueses continuam a ser a maior força nesse domínio, com muito menos custos.
Voltando à conversa dos operadores, foi visível a falta de preparação do bombeiro de Favaios para desempenhar a missão de que estava investido naquele momento. Este, felizmente, não é o retrato do país, mas não podemos meter a cabeça na areia e temos de aceitar que ainda há alguns casos, felizmente poucos, do género. A operadora do CODU também foi muito pouco eficiente, pois espraiou-se em perguntas e comentários desadequados, em prejuízo da emergência, quer com os que apelaram o serviço, quer com os bombeiros. Um correcto atendimento numa central de socorro, seja no CODU, seja nos bombeiros, é meio caminho andado para o seu êxito e nem sempre há esse cuidado, nomeadamente nos corpos de bombeiros, temos de reconhecê-lo.
Poderia tecer muitas mais considerações sobre o assunto, mas vou-me ficar apenas por mais uma. Ando, eu e muitas outras pessoas, a dizer há vários anos que muitos destes problemas não aconteceriam se o CODU estivesse a funcionar onde deveria, isto é, nos CDOS - Centros Distritais de Operações de Socorro, -  onde está gente que conhece perfeitamente a região, que tem os contactos dos elementos dos comandos dos corpos de bombeiros, que facilmente resolveriam questões como a de Favaios e de muitos outro lugares. Bastaria para tanto que o operador do CODU passasse a chamada para o operador do lado ou pedisse uma rápida informação. O socorro seria mais rápido, logo mais eficiente, e os bombeiros deixariam de andar por aí de Seca para Meca, à procura dos doentes ou sinistrados, devido a informações incorrectas por parte do CODU, e que os leva, não poucas vezes a serem agredidos verbal e até fisicamente. Para além da eficácia ser maior, que no fundo é o mais importante, o governo que se farta de retirar verbas, em alguns casos, onde não seria de retirar, pela obsessão do défice, pouparia milhões. Parece, infelizmente, que ninguém tem coragem de mexer com a estrutura do INEM, vá-se lá saber porquê.
Oxalá, este e outros casos que infelizmente vão acontecendo sirvam para melhorar alguma coisa.    
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Saturday, January 26, 2008

Alternativa

      propósito das chamadas SCUT – auto-estradas sem custo para o utilizador, sempre que um governo manifesta a intenção de obrigar ao pagamento de portagens em algumas delas, isto é, transformá-las em CCUT, - com custo para o utilizador - usando também as siglas, logo surgem os utentes  e as forças vivas da região a manifestar-se contra tal imposição, alegando sempre a falta de alternativa. Ora é precisamente o vocábulo “alternativa”, que significa opção entre duas coisas, que me leva a esta reflexão. Tratando-se de vias de comunicação e neste nosso país em concreto, conhecendo-se a sua realidade, não se estaria à espera que uma alternativa a uma auto-estrada fosse outra auto-estrada com as mesmas características, mais ou menos com o mesmo número de quilómetros, em que se demorasse mais ou menos o mesmo tempo entre os mesmos lugares. Parece-me que seria exigir demais, conhecendo o que falta fazer em algumas partes do país, ao nível de vias de comunicação. Lembramos, por exemplo, que todo o distrito de Bragança não tem um quilómetro de auto-estrada. De qualquer forma eu acho que quer populações, como forças vivas, têm toda a legitimidade para pedir, para exigir, mesmo que isso signifique falta de solidariedade para com aqueles que estão desprovidos de quase tudo. Mesmo assim, parece-me que dizerem que não têm alternativa é um exagero. É óbvio que é mais rápido, mais seguro viajar da Póvoa de Varzim ao Porto pela ainda hoje SCUT do que pela estrada nacional, todavia não se pode afirmar categoricamente que esta não é uma alternativa àquela. Alternativa não tenho eu nem todos quantos vivem para estes lados de Cinfães e Castelo de Paiva para sairmos daqui, a menos que seja de moto de ciclocross, a corta-mato. Nós temos que aguentar estradas estreitas e cheias de buracos, com uma curva a seguir a outra curva, sem que a primeira tivesse terminado, serpenteando ao longo de medonhos precipícios, sem nada que proteja o viajante, perante um acidente, uma falha de travões, um despiste, uma simples distracção. Se essas gentes têm direito a reclamar, e não sou eu quem lho nega, que direito nos caberá a nós, pobres esquecidos, aqui tão perto e tão longe da segunda mais importante cidade do país? Por tudo isto, apetece-me dizer: apesar de pobres, marginalizados, de praticamente só contarmos como gente em tempo de votos para os políticos caseiros, que para os nacionais pouco contamos e talvez resida aí o problema, construam-nos uma CCUT – com custo para o utilizador – que nós pagamos e ainda agradecemos. Vejam, senhores políticos, a diferença de exigências entre os que já têm quase tudo e os que têm quase-nada!
Vá lá, para demonstrar melhor ainda a nossa humildade e que as nossas exigências não ultrapassam o mínimo razoável, nós, por estas bandas, já nos contentaríamos com uma estrada CAS – com alcatrão suficiente; SB – sem buracos; CPC – com poucas curvas; CBS – com barreiras de segurança. Desculpe lá as siglas, mas agora está na moda.
Pensando bem, os mais pobres não somos nós, porque “pobres não são aqueles que pouco lhes basta, mas aqueles que por mais que tenham, nunca lhes chega”. Nós não estamos sequer em ponto de reclamar que uma via não é alternativa, porque nem tão pouco temos a via minimamente aceitável a que temos direito, porque nos consideramos portugueses de primeira, que pagam impostos.
 
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Ainda os políticos

      Cada vez menos, pelo que nos é dado ouvir e observar, a política é a ciência ou arte de governar. A partir desta constatação,  poderemos tecer uma série de considerações acerca dos políticos e da acção política. Sem a preocupação de estabelecer qualquer ordem de importância, começo por afirmar que o comportamento de muitos dos políticos nos levam a pensar, a acreditar e, em alguns casos, a nem sequer sermos assediados por qualquer tipo de dúvida, que, para eles, política é a ciência ou arte de se governarem. Temos vários casos que o comprovam: uns já condenados, outros acusados e estou em crer que o maior número estará naqueles que nunca foram nem uma coisa nem outra e provavelmente até nunca o serão, mas, alguns desses, sim, deixam-nos sérias dúvidas, relativamente à sua seriedade. Deixe-me, entretanto, abrir aqui um parêntesis para me curvar perante inúmeros políticos seriíssimos e, ao mesmo tempo afirmar que em todas as classes sociais, em todas as categorias profissionais, nos diversos órgãos associativos, há gente que procura governar e bem e outros que se procuram governar. Se falo mais nos políticos é não só porque a sua visibilidade é maior, como também, porque lhes reconheço mais responsabilidades no desempenho das suas funções, que é, no fundo, gerir tudo o que diz respeito a todos e cada um de nós, nos mais diversos domínios.
Dito isto e voltando às considerações, os políticos, muitos políticos, nascem, medram à custa do engodo, do disfarce, da mentira. Oiça o que disse Louis Dumur: “A política é a arte de se servir dos homens fazendo-os crer que os serve a eles”. Analise esta frase e veja se de facto não vê nela o tal engodo, o tal disfarce. Mas nós, pessoas atentas, verificamos que hoje há formas sofisticadas com que os políticos pretendem enganar o povo, ou seja, os eleitores. Sobretudo os grandes partidos políticos, no governo ou na oposição, recorrem a assessores especializados e agências de comunicação que treinam, que ensinam os principais interventores de cada partido relativamente à forma de vestir, se a gravata deve ser desta ou daquela cor, às riscas ou lisa, de falar ou deixar de falar, como devem ou não devem mexer as mãos, como se deve pentear, etc., etc. No fundo, meu amigo, são políticos disfarçados ou não são? Pretendem ou não, mostrar aquilo que não são, aquilo que não sentem, aquilo que não pensam? Mas que espécie de genuinidade nos mostram eles? Quando vemos ou ouvimos um político desses feito marioneta, estamos a ver e ouvir quem? De facto, fisicamente, estamos a ver e ouvir aquele que está ali à nossa frente, mas ele é apenas um palhaço para entreter e uma voz a quem disseram que era isso que o povo gostava de ver e ouvir. Parafraseando Abraham Lincoln “o melhor que muitos políticos fariam era nunca abrir a boca”, como aquele político que em seis meses destruía o Estado.
Ainda, por estarmos a falar de política e políticos e relacionado com o que há dias disse acerca dos Velhos do Restelo deste país, lembrei-me daquela frase de Johan Stuart Mill: “ Os conservadores não são necessariamente estúpidos, mas quase todos os estúpidos são conservadores”.
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Thursday, January 24, 2008

O mau uso da liberdade

      Na minha última presença aqui e a propósito do Dia Mundial da Liberdade, falava do mau uso que muitos lhe dão, praticando autênticos atentados contra a liberdade dos outros, sem respeito nem pelas pessoas nem pelas propriedades que detêm, revelando uma falta de civismo enorme, ou, se preferir, falta de educação.
Circulando pelas nossas estradas, com alguma atenção ao que se passa nos seus limites, sobretudo se não formos condutores, pois se o formos, não podemos observar ou corremos riscos que não convém correr, verificamos, com uma frequência inaudita, montões de lixo doméstico, como sejam electrodomésticos, colchões, móveis, enfim, toda a espécie de artigos que normalmente uma casa contém. A ajuntar-se a isso, montes e montes de entulho, provenientes de terraplanagens ou da demolição de casas. Mas há mais: até carcaças de animais e restos de carne e ossos, certamente provenientes de talhos ou açougues, clandestinos ou não, provocando cheiros nauseabundos, sobretudo quando o tempo aquece, mas, pior do que isso, pondo em perigo a saúde pública. Isto para já não falar das sucatas mais ou menos organizadas de automóveis e de outros que, isoladamente, vão ficando por aqui e por ali, sem que ninguém ponha cobro a isso. Nem responsáveis pelas estradas, nem autarcas, ninguém se mexe. Parece que são todos cegos. Claro que não é isso. Os verdadeiros responsáveis vivem longe, não passam ou se passam, como trazem motorista, devem vir a dormir, ou então, acham que são coisas pequenas que não dão para um quadro superior se preocupar. Quanto aos subalternos, provavelmente até farão um ou outro relatório onde façam referência a essas situações, mas, lá está, como são coisas pequenas, não para nós, mas para os tais quadros, deixam para lá isso encostado na gaveta das coisas sem importância. Pois se até nem se importam com a nossa segurança, tratando-nos como gente menor, iam lá agora importar-se com umas simples lixeiras de berma de estrada! Quanto aos autarcas, também não estão muito vocacionados para se preocuparem com coisas que lhes não afectem a contabilidade dos votos. Infelizmente, parece-me que de facto não afectará muito, porque, pela falta de educação ambiental, talvez não sejam tantas as pessoas que se preocupem com isso, o que é pena. Mais uma vez, terei de reconhecer que é o país em que vivemos, é o povo que temos.
É vulgar fazerem-se cortejos de oferendas, sobretudo nos meios de mais fraco poder económico, para angariação de fundos para as mais diversas obras ou associações existentes, principalmente em vilas e aldeias. É uma forma interessante de colmatar algumas dificuldades. A igreja católica, ou os seus membros, recorre a isso com alguma frequência e, normalmente, é bem sucedida: é para obras na igreja, para restauração de uma capela, para o salão paroquial, para o sino, etc., etc. Como muitas pessoas não têm possibilidades de oferecer dinheiro, oferecem fumeiro, produtos agrícolas, animais, madeiras, etc., artigos que depois são leiloados. Até aqui tudo bem. Só que, os diversos lugares, gostam de se aprimorar para que cada um se apresente melhor e com mais rendimento do que o outro. E, na concretização deste desejo, é que, às vezes, está o busílis da questão. Ao que oiço, e já tive mesmo conhecimento de algumas desavenças, algumas pessoas, chegam ao ponto de ir cortar árvores a terrenos alheios, públicos ou privados. Isso chama-se roubar. Como lhe digo, não garanto que seja verdade, mas posso afirmar-lhe categoricamente que reparei um dia destes que das árvores que cortaram em determinado local, para um cortejo, depositaram todo o espólio que não interessava numa propriedade minha. Isso é sujo, é falta de respeito, de civismo, de educação. Como se pode conviver pacificamente, em liberdade, com gente desta?!
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Wednesday, January 23, 2008

Dia Mundial da Liberdade

      E se, por milagre ou qualquer arte mágica, de repente, hoje, que se comemora o Dia Mundial da Liberdade, todos quantos habitam o planeta Terra vivessem este dia em plena liberdade?! Seria bom? Seria mau?  Quem se atreve a fazer uma conjectura? É que para ser bom, teríamos de ter a certeza, entre outras coisas, que todos usufruiriam da liberdade sem atentar contra a dos outros. Conhecendo, ainda que vagamente, o que se passa no mundo e mais profundamente o que se passa no nosso país, eu atrever-me-ia a dizer que apenas teoricamente seria bom, porque, infelizmente, devido ao atraso cultural de uma grande parte da população mundial, onde, obviamente a portuguesa se inclui, ela não está preparada para a verdadeira liberdade.Aliás, muitos confundem-na, ignoram que ela termina onde começa a dos outros. É próprio das pessoas menos evoluídas, menos educadas, não colocarem limites na sua liberdade, a ponto de praticarem autênticos atentados seja contra o físico, seja contra a consciência dos seus concidadãos. Oswald Spengler disse isso muito bem: “Quanto mais evoluído é um povo, mais limitada está a sua liberdade, e quanto mais educado for um homem, menos liberdades toma”. Não devemos esquecer, todavia,que grandes cérebros, possuidores de vasta cultura, foram grandes tiranos. Aí,era, como ainda hoje é a má consciência e a sede de poder.
      Na verdade, temos por aí muita gente a tomar liberdades indevidamente, nomeadamente desrespeitando as leis e os órgãos de soberania, o que, num Estado de Direito, como é o nosso, é inadmissível. Não concordar, discutir, reclamar, lutar, sem ultrapassar as fronteiras da liberdade é admissível e saudável. Todos temos não apenas o direito mas o dever de o fazer. Segundo Émile Girardin, “a autoridade nada ganha reprimindo a liberdade; e o mesmo sucede com a liberdade quando tenta delimitar a autoridade”.
      Utilizar todos os meios, alguns extremamente lesivos da dignidade dos outros, para atingir os fins, é condenável.
      Poderia apontar aqui imensos exemplos do péssimo uso da liberdade, alicerçados, normalmente, na falta de educação, de civismo e, pior do que isso, talvez, incentivados por grupos políticos, sem escrúpulos.
      Veja, por exemplo, este caso: ninguém de bom senso, de sã consciência, tem dúvidas, de que a criança de Anadia terá já saido de casa morta ou, pelo menos, com a mínima esperança de sobreviver. O socorro foi pronto. Estas afirmações são do próprio pai da criança, um jovem de 26 anos, que deve estar a sofrer profundamente, e em tais circunstâncias, normalmente há a tendência para atribuir a culpa a alguém. Ele, certamente possuidor da rara virtuda da honestidade que outros não têm, não o fez. Todos sabemos o circo que se tem montado à volta disso, com afirmaçãoes e slogans mais ou menos inflamados, totalmente desajustados, havendo até quem se atreva a afirmar, referindo-se à infeliz criança, que Anadia já tem um mártir. Mas há pior do que isso ainda, muito pior. Puseram a circular a informação que o inconsolado pai foi candidato pelo PS à freguesia de Ancas, pelos vistos em lugar não elegível, o que para o caso nem interessa, insinuando,assim, torpemente, que o homem, por essa ligação partidária, estaria a defender o partido e o governo, dando mais importância a isso,obviamente,do que à morte do filho. Sempre os políticos a chafurdarem na lama, nojentos, sem escrúpulos, alvejando sempudor, a dor, a dignidade, os sentimentos alheios.
      Pobre país que é detentor de semelhante corja de políticos! Pobres gentes que ainda se deixam arrastar por eles, esquecendo-se que logo que não precisem da sua voz, do seu esforço, da sua presença nas manifestações meramente de interesses partidários, as deixarão abandonadas.
      Neste Dia Mundial da Liberdade e em todos os dias do ano, o apelo que me apetecia dazer aos políticos era o seguinte: deixem as pessoas agir por sua livre e espontânea vontede, não as condicionem, não as manipulem, não as chantageiem, enfim, deixem-nas ser verdadeiramante livres.
     
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Sunday, January 20, 2008

Velhos do Restelo

      Não sendo sociólogo nem psicólogo, não deixo, todavia de observar atentamente o comportamento das outras pessoas, perante as mais diversas situações, reflectir sobre ele e retirar daí as minhas conclusões, portanto, baseadas mais no conhecimento empírico do que no científico que, de facto, não possuo. De várias das minhas conclusões, destaco neste momento, aquela que me leva a afirmar que uma grande parte de nós, portugueses, é conservadora, pessimista, descrente nas mudanças, no sucesso das novas ideias, das novas formas de agir, na experimentação, na criatividade, na iniciativa. Parece-me que somos herdeiros daquele velho que ficava nas praias do Restelo, vociferando contra a expedição à Índia, de que tão bem nos fala o enorme Camões, no canto IV dos Lusíadas:
“Mas um velho d’aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C’um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
-“Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
E mais adiante, o velho, manifestando sempre a sua revolta, a sua descrença no mérito da expedição, afirma:
Oh! Maldito o primeiro que, no mundo,
Nas ondas vela pôs em seco lenho!
Dino da eterna pena do Profundo,
Se é justa a justa Lei que sigo e tenho!
Nunca juízo algum, alto e profundo,
Nem cítara sonora ou vivo engenho,
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória!
Na verdade, às vezes parece que em cada um de nós ainda existe um Velho do Restelo.
Vejamos o que se passa a nível da saúde. Por aquilo que víamos e ouvíamos desde há muitos anos a esta parte, parece-me que toda a gente concordará que eram precisas reformas. Nas ruas, nos cafés, no trabalho, nos transportes públicos, era trivial ouvir-se dizer que se esperavam meses por uma consulta e anos por uma cirurgia, que para se arranjar consulta num centro de saúde era preciso ir para lá dias e dias seguidos de madrugada, etc. Nas chamadas urgências desses mesmos centros de saúde, sobretudo das pequenas vilas, com movimento mais reduzido, nas noites existia apenas um médico e um enfermeiro, sem possibilidades de fazer uma simples análise ou uma radiografia. Qualquer caso, com a mínima suspeita de gravidade, era encaminhado para um outro hospital, às vezes longínquo, com más estradas. Acontecia mais ainda: De noite, quantas vezes se tocava à campainha e se estava à espera 15, 20 minutos que alguém aparecesse à janela a perguntar o que se desejava, como se dali se pudesse desejar algo mais que não fosse atendimento médico. Aconteceu-me, pessoalmente, algumas vezes, enquanto bombeiro, e chegou a apetecer-me dizer que queria um copo. Mas depois disto e de virem abrir a porta, a enfermeira ainda fazia uma séria de perguntas, indo depois chamar o médico que, não poucas vezes, ainda demorava mais aí uma meia hora. Bom, eu sei disto, muita gente sabe disto e de muitas outras coisas e por isso as queixas eram e continuam a ser muitas. Significa que era preciso mudar. O que existia não servia.
Agora, o ministro da saúde está a proceder a reformas. Sinceramente, não sei se para melhor, se para pior. Até posso admitir que nuns casos melhore, noutros piore. Mas o que eu acho mais estranho é que em quase todos os lados que se propõem mudanças, e que a maioria dos utentes reclamava que tinham maus serviços, agora levantam-se em manifestações atrás de manifestações, sem sequer cuidar de avaliar resultados, mas, para mim, o maior paradoxo está em que essas pessoas, que ontem diziam que tudo estava mal, hoje dizem que o seu centro de saúde ou o seu hospital têm condições fantásticas, que têm um corpo clínico e de enfermagem do melhor que há, etc., etc.
É hábito, em Portugal, não deixar chegar uma reforma ao fim para se poder fazer uma avaliação credível. Daí o nosso atraso incontornável. Daí e de haver política das mais baixa, da mais rasteira, que nem sequer tem escrúpulos de se servir de morte que nada têm a ver com a reforma, para satisfazer os seus abjectos e mórbidos objectivos.
Vamos lá a entender esta gente, que ainda continua a deixar-se arrastar por políticos sem escrúpulos! Temos ou não temos um Velho do Restelo dentro de nós?!
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Thursday, January 17, 2008

Políticos e os “media”

      É, de há muito, sabido que o desejo de qualquer partido político é ter sob o seu controlo ou pelo menos ter uma grande influência na comunicação social. Todos sabem o poder que os “media” têm, por isso os responsáveis partidários movimentam-se no sentido de que as suas grandes comunicações sejam por eles cobertas e, no que respeita às televisões, tudo fazem para que as respectivas coberturas dos eventos sejam feitas no espaço dos noticiários. Todos nós sabemos disso, e se calhar nem nos chocamos muito. A mim, pessoalmente, choca-me mais saber exactamente aquilo que referi e verificar que quando os jornalistas assediam os políticos apara os questionar sobre questões incómodas, fogem como o “diabo da cruz”, como que nunca tivessem querido nada com tal tipo de gente. De facto, revolta-me ver alguns políticos e indivíduos doutros sectores da sociedade, constantemente, à procura das câmaras, das objectivas, dos jornalistas, quando lhe convém; quando não, metem o rabo entre as pernas e, se puderem, disfarçam.
Luís Filipe Meneses sabe tão bem disso que há dias se queixava que o tratamento dado ao PS e ao PSD pela comunicação social é desigual. Alicerçava o seu raciocínio, tendo em conta os vários comentadores que surgem habitualmente no pequeno ecrã, que haveria mais ligados ao PS, no pressuposto de que Marcelo Rebelo de Sousa seria independente. Valha-nos Deus, senhor Meneses. Marcelo Rebelo de Sousa é tudo menos independente. Pode atacar o líder do PSD, como outras figuras do partido, como o faz muitas vezes Pacheco Pereira, também do PSD, Manuel Alegre e outros, relativamente ao PS, etc. Mas Marcelo é militante do PSD, foi seu líder, e se algumas vezes parece combater o seu partido, é uma ilusão, porque o seu combate é contra alguns correligionários, procurando fazer o seu caminho em busca de uma candidatura a Belém, que poderá acontecer um dia e com o apoio do Partido Social Democrata.
Mas Luís Filipe Meneses dizia mais, justificando a importância da presença dos políticos dos vários quadrantes (a preocupação dele era só com o seu partido, obviamente), que “em democracia, meia hora na televisão é tão importante, como 15 deputados no Parlamento”. No essencial estamos de acordo, dr. Meneses. De facto, há deputados tão reles, tão reles, que meia hora de televisão vale muito mais do que, não quinze, não vinte, não trinta, mas, se calhar, mais do que cinquenta. Claro que isso é assim se esses trinta minutos forem utilizados por alguém de reconhecido mérito, independentemente das ideologias partidárias que perfilhe. É uma vergonha, é uma pena, é um desperdício para o país, para nós todos, chegarmos a esta conclusão. Anda por aí muita gente a viver à custa do suor de quem trabalha, de quem exerce a sua profissão com competência, com dedicação, com denodo. A esses, poder-se-iam chamar vários nomes, uns mais feios do que outros, mas chamemos-lhes unicamente, para não ficar um quadro muito negro, parasitas. A estes, os cumpridores, os portugueses, que normalmente primam por valorizar a mediocridade, provavelmente apelidam de trouxas ou de quererem herdar os bens do patrão. Aos tais parasitas, que nos roubam, chamam de espertos, reguilas. Este é de facto um país com gente “sui-generis”. Para ajudar a sustentar esta mentalidade, para, se possível, torná-la mais viva, até a televisão, sobretudo ela, nos presenteia, frequentemente, com programas que não são mais do que uma exaltação dessa mesma mediocridade.
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Monday, January 14, 2008

Temos campeão!

      Gostaria de poder afirmar que o campeonato de futebol da Primeira Liga, ou Bwin Liga, se preferir, está ao rubro. Isso agradar-me-ia, por duas espécies de razões: uma, em termos meramente desportivos, porque significava que a luta pelo título estaria assanhada, pois a alternância de liderança ou mesmo que ela não se verifique, mas a simples possibilidade de ela acontecer a qualquer momento, beneficia o espectáculo, leva mais público aos estádios, a festa do futebol acontece, porque a emoção é uma constante. Futebol sem os condimentos da emoção, da imprevisibilidade, do resultado que só se confirma quando o árbitro faz soar o apito final, é como uma comida insossa, que até pode ser muito saudável, mas não agrada. A outra razão é que se o campeonato estivesse ao rubro, provavelmente era porque a minha equipa de eleição estaria na disputa desse mesmo título. Infelizmente isso não acontece. E creio mesmo que para o quase campeão Futebol Clube do Porto e para os seus adeptos não será bom. Para o clube (equipa de futebol) que se pode tornar mais displicente, mais relaxado, o que não beneficiará o espectáculo, embora lhe dê a tranquilidade para continuar a somar vitórias; para os adeptos, porque não vendo bons espectáculos, se desinteressam e, conquistado o título cedo demais, também faz perder algum interesse.
Sou dos que entendem que as lutas, seja no futebol, seja em qualquer outro aspecto da vida, se devem travar até ao último momento, se não for por outras razões, por dignidade, por brio profissional. Fui assim como desportista e nas várias facetas da minha vida. Conquistei objectivos que com outra postura nunca teria alcançado. De qualquer forma não podemos, não devemos deixar de ser realistas.
Por demérito deles, Benfica e Sporting estão praticamente arredados do título. Quando eu digo demérito deles, não significa que não reconheça mérito ao Futebol Clube do Porto. Claro que reconheço. O Porto está no lugar onde está com toda a justiça, isso é inquestionável, mas não é por esse seu mérito que é quase campeão. Isso deve-se ao demérito do Benfica e Sporting, que somaram derrotas e empates, uns atrás dos outros, que não se devem ao mérito dos dragões. Se estas duas equipas não tivessem perdido uma série de pontos que não era suposto perderem e, em alguns casos são imperdoáveis, poderiam estar a dois, três pontos dos portistas e o campeonato estaria então ainda em aberto, e, como eu disse no início, ao rubro.
É uma vergonha ver como atletas pagos principescamente, como os do Benfica e Sporting, muitos deles andam pelos estádios, sem se verificar um total esforço, concentração, abnegação, antes se vê displicência, desconcentração, desmotivação, falta de espírito de sacrifício. Ainda neste último fim-de-semana isso se verificou por parte de vários atletas de ambas as equipas.
Não sei qual é a responsabilidade dos treinadores em tal estado de coisas, de qualquer forma pela forma como, quer Camacho, quer Paulo Bento estiveram no banco, quis-me parecer que isso já é um enorme sacrifício para cada um deles. Sou a favor da estabilidade dos técnicos nas equipas, mas creio bem que nenhum deles já tem força anímica para continuar com um trabalho minimamente aceitável. Parece-me que está na hora de acabar o suplício desses dois homens, que merecem muito mais e bem melhor do que aquilo por que estão a passar. Os próximos jogos em Alvalade e na Luz, serão mais uns momentos de inferno para os dois treinadores, se ainda por lá se mantiverem, e também para os atletas. O outro inferno, o de que falam os catecismos, não sei se existe, agora por cá, existe sim, e muitos
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Sunday, January 13, 2008

Uma vez mais os políticos

      Aqui há pouco tempo atrás, quando Portugal estava na presidência da União Europeia, Luís Filipe Meneses e outros líderes da oposição diziam que Sócrates andava distraído do país. Talvez. Curiosamente, Luís Filipe Meneses, ao que julgo saber, continua a ser, oficialmente, presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, visto que não terá suspendido o mandato nem pedido a exoneração. Só que, quem lê e vê a comunicação social fica com a ideia de que o presidente da edilidade gaiense é Marco António. Pelos vistos; Luís Filipe Meneses anda distraído de Vila Nova de Gaia, só que é mais fácil ver o argueiro no olho do vizinho. “Chama-lhe antes que te chamem a ti”, diz o povo. Diga-se também, em abono da verdade, que ele não pode ter olhos para tudo. Tem que estar atento ao governo, para dizer não, mesmo que lhe apeteça dizer sim, e, pior do que isso, tem de estar muito mais atento aos seus camaradas de partido que lhe estão a preparar a “cama”, não lhe querendo dar sequer oportunidade de saborear uma candidatura a primeiro-ministro. Tenho cá para mim que Luís Filipe Meneses está condenado a ser um dos líderes políticos portugueses mais efémeros e a regressar a Gaia para acabar de arruinar as finanças da autarquia.
Bom, para que se não pense que só eu tenho má impressão da maioria da classe política, oiça o que disse um autarca bem conhecido, eleito pelo PSD, Francisco Moita Flores: “E se este é o resultado de maiorias absolutas formadas com gente clientelar, que não hesita na caceteirice, na prática política de má-fé, a discussão na Assembleia da República no dia seguinte à decisão sobre Alcochete revela a miséria confrangedora que elegemos para nos representar. Fosse Sócrates apenas o problema e não tenho dúvidas de que um povo culto, com energia, determinado, despacharia o assunto em menos de um ai. Mas não temos um problema. É uma assembleia inteira de problemas, pois o grande drama é escolher. E ouvindo-os, aqueles que surgem como oferta, fica-nos a ideia de que estamos perante um caixote de maçãs podres e de que dali não virá uma nova alvorada”. Fim de citação. Como vê, meu amigo, até já os políticos se desencantam com os políticos.
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Os McCann

      Choca-me continuar a ver o casal McCann viver como se de facto acreditasse que sua filha está viva. Ao invés de estarem agora a negociar a produção de um filme para arrecadarem mais uns milhões, certamente à custa de uma história absolutamente falsa e no final da qual eles deveriam sair condenados, parece-me que deveriam era investir numa carreira teatral. Se a tecnologia e a ciência estão tão avançadas como julgamos, parece que oferece poucas dúvidas de que Maddie está morta e, atendendo aos diversos locais onde foram recolhidos vestígios que o atestam, também sobram poucas dúvidas de que os pais têm conhecimento disso. Resta realmente aparecer o cadáver para que o esclarecimento total se torne mais simples. De qualquer forma, é minha convicção de que o casal e os seus amigos – veremos até quando se aguentam – são verdadeiros artistas. Quem me parece que também são uns grandes artistas são os detectives espanhóis da Método 3 que já anunciaram a Maddie nos mais diversos locais e a avaliar por informações suas, a pequena até já era para passar o Natal com a família. Vão enchendo a carteira, não à custa dos McCann, porque se fosse à sua custa, talvez toda a palhaçada já tivesse terminado. O que ainda não consegui entender é que motivação tem alguns capitalistas que subsidiam a campanha. Será que, de verdade, ainda acreditam na história dos McCann. Mesmo assim, que os leva a ser tão pródigos, quando há tantas causas no mundo, nomeadamente na Grã- Bretanha, a precisarem de apoio? Há bastantes enigmas em toda esta trama. Talvez um dia – oxalá que sim – venhamos a saber tudo.
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