Thursday, February 28, 2008

Pobreza

      Discutir o fenómeno da pobreza poderia ser uma tarefa interessante, em qualquer programa televisivo ou radiofónico, se tivesse a participação efectiva daqueles que conhecem verdadeiramente a realidade do país, o que quase nunca acontece, relativamente a este e a muitos outros fenómenos. São discutidos os temas por políticos, muitos deles afastadíssimos do país real e quase sempre com uns contrariando outros, consoante defendem as cores partidárias que sustentam o governo ou as da oposição e, normalmente, por outras pessoas que têm o conhecimento que lhes chega aos gabinetes, tantas vezes deturpado ou analisado com ligeireza. Isto verifica-se facilmente. Todos nós sabemos, cada um de nós sabe, que há por aí muita gente que integra, provavelmente, o rol dos considerados pobres ou no limiar da pobreza, que só o são de espírito ou por malandrice. Falemos no Rendimento Social de Inserção, vulgo Rendimento Mínimo. Qual de nós não conhece casos escandalosos de gente que está a auferir tal benefício ilegitimamente, porque não quer trabalhar? Todos os portugueses sabem disso. Basta estar atento aos desabafos que se ouvem nos cafés, nos centros comerciais, nas repartições públicas, nos transportes, em que dizem coisas como esta: “andamos nós aqui a sofrer com a carestia de vida, com o aumento de impostos, para dar o rendimento mínimo a malandros”. E lá vão desfiando casos conhecidos de gente que não trabalha, mas toma o pequeno-almoço nas pastelarias, passeia de automóvel, não tem preocupações de chegar a horas ao trabalho, simplesmente porque lhe pagam… para não trabalhar. Esta é a verdadeira realidade do país. Muitos destes não poderiam, não deveriam estar no rol dos pobres. Outros sim, que se esfalfam a trabalhar para levarem uma vida digna, para educarem os filhos e o salário não chega ao fim do mês. Não são, de um modo geral, os que recebem o Rendimento de Inserção que tomam medidas drásticas, como tentativas de suicídio e outras, mas muitos dos que sempre se “mataram” a trabalhar e caíram no desemprego ou os negócios ou empresas começaram a correr mal e não recebem o apoio de ninguém.
A filosofia que presidiu à criação do Rendimento de Inserção foi óptima e há muita gente, mais do que aquela que seria desejável, para quem se justifica e nem sequer tenho dúvidas que se justificaria para muitos outros, mas o que era necessário era uma avaliação séria de todos os candidatos a tal subsídio e depois fiscalização igualmente séria. Todos nós sabemos que tudo o que seja não conceder benefícios ou tirá-los faz perder votos e então as autarquias, algumas autarquias, provavelmente a maioria, que creio terem uma palavra a dizer em tal matéria, facilitam a vida, porque cada família que o venha a receber representa uma grande possibilidade de obtenção de uma série de votos. Não proporcionar a sua concessão ou contribuir para que seja retirado tal benefício, pelo contrário, representa uns votos a menos. Como a sobrevivência dos políticos depende dos votos, sabe-se o que acontece.
Por outro lado, também me parece, até por casos concretos que conheço, que algumas assistentes sociais desempenham o seu papel, nesta matéria, com alguma ligeireza ou mesmo pouca competência.
Por seu lado, o poder central também não está interessado em mexer muito, exactamente pelos votos, tal como acontece com a oposição, sobretudo aquela que se afirma como alternativa.
Uma coisa é certa, existe pobreza e urge encontrar formas de a reduzir, já que só por utopia, alguém acreditaria que se poderia eliminar, começando por não permitir que aumentem as riquezas e o número de ricos à custa dos pobres. Mas, repito, é necessário sinalizar bem quem é pobre e quem apenas não quer trabalhar e engrossa os números do desemprego. Ando há meses à espera de um carpinteiro que nunca mais chega; ando à espera de um orçamento de dois serralheiros há três ou quatro anos; um amigo meu, empreiteiro, tem-se visto aflito para arranjar 30 trabalhadores, no entanto vêem-se alguns com bom “cabedal” a coçar as calças pelas cadeiras dos cafés e das esplanadas. Para que a situação melhore, é preciso meter este país na ordem, começando pelos políticos, se possível, enviando a grande maioria para a “prateleira”.
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Sunday, February 24, 2008

Inundações

      A zona da Grande Lisboa voltou a ser vítima de inundações que para além de terem causado elevados prejuízos materiais, nalguns casos, “roubando” quase todos os haveres dos atingidos, ainda provocou, e isto é o pior de tudo, vítimas mortais. Como quase sempre acontece, como referi na crónica anterior, cada entidade procura alijar as suas responsabilidades, endossando-as a outra. Estas inundações fizeram-me lembrar as de 1967, em cujas operações de socorro participei, enquanto militar sedeado em Oeiras, não porque, felizmente, a sua gravidade tivesse algo a ver com a de então, mas por verificar que alguns dos pressupostos para que tal tragédia se tivesse consumado há quatro décadas, ainda hoje se podem constatar e, pior do que isso, é que existem outros, inexistentes ou de importância insignificante, na época, que revelam bem não só a incompetência, como também a cedência, por parte dos diversos poderes, central e autárquico, aos grandes interesses imobiliários e outros.
O que se vê por praticamente todo o país é uma total falta de respeito pela natureza, com as mais diversas edificações desafiando essa mesma natureza, esquecendo-se que ela não gosta que a desafiem e, mesmo parecendo vencida, de repente revolta-se, ninguém a segura e volta ao seu ponto original. O mais triste, para mim, provinciano, é que isto não se passa apenas nas grandes urbes. Vê-se nas vilas e nas aldeias, onde o que não falta é espaço adequado para edificar. Não se admitiria que estas construções fossem apenas de particulares, pois elas deverão ser licenciadas, mas pior ainda é que isso acontece igualmente com obras públicas, o que é mais grave.
Quando acontecem estas tragédias e não só, há um outro aspecto que me repugna, me faz vibrar de “raiva”: é quando os governantes centrais ou locais, nestes casos, mais os locais, vêm para a praça pública afirmar que estas e aquelas construções, às vezes às dezenas, são clandestinas, a autarquia não tem responsabilidade no assunto e são para demolir. Ora aqui está, meu amigo, mais uma inequívoca demonstração de falta de pudor e de vergonha. Será que todas as casas clandestinas existentes por este país fora, foram feitas da noite para o dia, que ninguém se apercebeu?! Para se construir uma casa, independentemente do seu volume e arquitectura, não é preciso, entre outras coisas, uma licença camarária?! Nunca, durante a construção dessas casas ou mesmo depois, nenhum autarca, seja qual for a sua categoria, ou fiscal camarário, reparou nelas?! Que fizeram?! Nada, provavelmente, porque o pensamento está sempre nos votos de que precisam nas eleições seguintes. Será tão estranho que um qualquer cidadão como eu se espante por que razão todas essas obras clandestinas não morram à nascença?! Se os seus autores devem pagar pelo seu crime, os autarcas são criminosos por omissão de cumprimento de dever. Se os seus técnicos, os seus fiscais não cumprem os seus deveres, responsabilizem-nos, façam-nos pagar pelos seus erros. O que não é justo, é sermos nós, todos aqueles que pagamos os nossos impostos, que cumprimos zelosamente com todos os nossos deveres, a pagar também, porque ninguém duvida que todos somos penalizados, pelo incumprimento dos outros. Alguns tentarão argumentar que todos devemos ser chamados e responder aos apelos de solidariedade. Sim, devemos, mas não nestes casos, que assentam, por um lado, no “chico-espertismo” de alguns, do querer colher benefícios ilícitos, e por outro, na incompetência de quem tinha obrigação de governar com mais seriedade.
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Falta de pudor

      Creio já ter demonstrado à saciedade que não morro de amores pela classe política em geral, não obstante ter consideração e estima por alguns políticos de vários quadrantes. Não tenho simpatia pela classe política que temos vindo a suportar nos últimos anos, recheada de indivíduos incompetentes, desleais, sem pudor, parasitas e podia continuar a adjectivação por aí fora, que assentaria perfeitamente em muitos deles. Eu insisto nesta tónica, talvez em demasia, mas todos os dias eles me dão motivos mais do que suficientes para demonstrar inequivocamente que o que deles penso é correcto e, portanto, de certo modo, os repudiar. E dão-me mais e mais trunfos para eu pensar o que penso. Gostaria de ser vivo e poder pensar exactamente o contrário do que penso, poder afirmar que a nossa classe política era uma verdadeira elite no seu significado mais puro e, quem sabe, até ser capaz de me seduzir para uma das suas organizações. Era óptimo, mas, muito sinceramente, não vejo isso viável, até porque não se alteram comportamentos de um dia para o outro, no tempo que imagino me esteja reservado de vida com alguma lucidez e o mínimo de frescura física. Considero-me um optimista militante, mas nem tanto.
A prestigiada instituição SEDES apresentou um diagnóstico do país em que, entre outras conclusões, mais ou menos bem fundamentadas, afirma o pessimismo nacional, exactamente a não confiança nos políticos, que, por força disso e no seu entender colocará “Portugal à beira de uma crise social de contornos difíceis de prever”. Parece que todas as pessoas sabem isto, só que tal estudo foi feito por técnicos o que leva a que as frases possam ter outro formato, mas no fundo dizem aquilo que o povo pensa e nem sempre consegue dizer. O interessante, se é que se pode dizer interessante de tanta falta de pudor, é que são exactamente todos os partidos, certamente uns mais do que outros, nomeadamente o que sustenta o governo e o próprio governo, os responsáveis por tudo isto, só que cada um finge que não percebe, “chuta” para o vizinho ou para o governo e vice-versa. Mas você quer mais falta de vergonha do que esta? Provavelmente acham que todos somos parvos.
Outra pouca-vergonha é a que se passa relativamente ao Casino Lisboa. Parece que ninguém tem culpas, ninguém assinou nada, cada responsável do PSD, com o PP de permeio, vai atirando com as culpas para outros. Vai ver que um dia destes ainda vão dizer que o senhor Stanley Ho se apoderou ilegitimamente do Casino, mas, coitado do “pobre” deixá-lo lá ficar com ele, que bem precisa de esmolas. Somos um pouco ao contrário do Zé Telhado, tiramos aos pobres para dar aos ricos. É sempre assim: as asneiras, os favorecimentos ilícitos, a corrupção nunca têm autores que se assumam, já quanto aos louros por obra feita, ainda que sem qualquer participação, não faltam indivíduos a reclamá-los. Bem próprio desta mediocridade portuguesa.
A propósito do “chumbo” pelo Tribunal de Contas à proposta de António Costa para aceder a um empréstimo para liquidar despesas que outros fizeram, mas que ele não ignorava, elementos do PSD, com o ar mais cândido deste mundo, com se não tivessem nada a ver com tal assunto, afirmam que o referido António Costa é o responsável. Muita seriedade a desta gente! Gente que também procura “chutar” para o lado no que se refere ao financiamento da SOMAGUE de cerca de duas centenas de milhares de euros.
À falta de melhores argumentos, alguns já afirmam, como se tivessem estado do lado de fora: “Este não é o meu PSD”. Será que não seria o PSD de Santana Lopes, o líder parlamentar (só?) actual e de tantos outros?
Fico-me por aqui com esta frase de Noel Clarasó: “ A política é a arte de obter dinheiro dos ricos e votos dos pobres, com a finalidade de proteger uns dos outros”. Eu diria antes: com a finalidade de se protegerem.
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Sunday, February 17, 2008

Equipas de Intervenção Permanentes

      Trinta e cinco anos de ligação aos bombeiros, quer a nível dirigente, mas sobretudo a nível operacional, levam-me a estar sempre atento a tudo o que lhes diga respeito e não apenas estar atento, mas manifestar a minha opinião, dar o meu contributo para que lhes seja reconhecido o mérito, para que lhes dêem os meios necessários para exercerem eficazmente as missões a que são chamados. Infelizmente, ainda são necessárias muitas vozes para alertar o poder, seja autárquico, seja central, para que isso aconteça. Do poder central, nos últimos tempos, os bombeiros só têm recebido tratos de polé, não lhes fornecendo equipamento, enquanto equipam outras forças com o material que é próprio das funções que os soldados da paz desempenham, desrespeitando-os das mais variadas formas, permitindo mesmo que eles sejam os bodes expiatórios de outras forças de socorro, sem ter uma palavra de conforto, de reconhecimento. Enfim, o poder central não merece ter esta força enorme de voluntários que abnegadamente, estoicamente, dedicam parte da sua vida, em prejuízo do lazer, do descanso, do sono, da família, para socorrer os próprios inimigos até ao limite das suas forças, até à imolação das próprias vidas. Muito embora não se possa perdoar essa insensibilidade por parte do poder central, seria legítimo esperar que o poder local, que conhece mais de perto as pessoas e as instituições, tivesse outro comportamento. Infelizmente, em muitas, demasiadas autarquias, isso não acontece, o que demonstra, no mínimo, duas coisas: uma é a de que realmente muitos autarcas não têm qualquer sensibilidade para as questões de protecção civil, de socorro. Acham que os bombeiros voluntários, coitados, uns pobres diabos, estão sempre de pernas abertas, disponíveis para resolverem qualquer emergência, mesmo aquela para a qual não têm nenhuma obrigação. Outra é a de que provavelmente não conhecem cabalmente as suas responsabilidades. É que o primeiro responsável pela protecção civil nos concelhos são os presidentes de Câmara e se não tiverem bombeiros voluntários terão de criar um corpo de bombeiros municipais que lhes ficariam por uma verba que não tem nada a ver com a ridicularia que distribuem pelas associações de voluntários.
Este arrazoado vem a propósito da criação de Equipas de Intervenção Permanente, concretamente no distrito de Viseu. Ando eu e muita gente a falar nisto há anos. É que, todos o sabemos, se os voluntários não têm diminuído tanto como alguns apregoam, a sua disponibilidade é muito menor, devido a vários factores.
Viseu tem 24 concelhos e trinta e duas corporações de bombeiros voluntários, mais uma municipal. Até agora, só oito concelhos assinaram o protocolo para a criação das Equipas de Intervenção, tendo um deles, concretamente Vila Nova de Paiva, feito isso já há alguns anos, o que me apraz registar e aplaudir. Apenas um terço dos concelhos se terem disponibilizado para isso é lamentável. Mereciam os autarcas, que as populações não têm culpa, que os voluntários batessem com a porta. É bom que se saiba que as Câmaras apenas têm de assumir metade dos custos. Fico triste pelo meu distrito e muito mais por o meu concelho, Cinfães, fazer parte do grupo dos 16 que não assinaram. Fica-me a esperança de que todos os concelhos assumam as suas responsabilidades e em breve eu possa congratular-me com a assinatura do respectivo protocolo, principalmente no meu concelho. O problema, ainda que possam afirmar que sim, não será financeiro. Se acham que é, lanço-lhes o repto para analisarem com profundidade e seriedade, como e em que é que são utilizados alguns subsídios. Ah! Também faço votos para que não fiquem à espera de utilizar tal criação como trunfo eleitoral. Sobretudo porque já agora chega com atraso.
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Saturday, February 16, 2008

Uma história verdadeira

      Há acontecimentos que não obstante serem fruto de autênticos dramas humanos, nos fazem sorrir ou mesmo soltar uma sonora gargalhada. Este facto não é sinónimo de menos respeito por aqueles que são vítimas do infortúnio, a quem a sociedade marginaliza, fingindo que os não vê, que os não conhece. Nada disso. Antes e depois do sorriso ou da gargalhada, está muitas vezes a dor pelo sofrimento alheio. Só que é difícil a qualquer pessoa ser indiferente a situações ridículas, insólitas, ainda que pelo meio exista um pequeno drama.
A história que vos vou contar é verdadeira, deu-se há poucos dias. Só os nomes são fictícios. É uma daquelas histórias fruto de um drama humano.
A Adelina andava com uma serviçal, a Cidália, a fazer uma limpeza no quintal. Como entretanto ouvira os altifalantes do carro do peixeiro debitando para o ar os fados de Amália, a Adelina deslocou-se para a estrada, ali ao lado, onde já se encontrava a Carmélia, para comprar peixe. Nesse entretanto aparece o Antolino, feito farrapo humano, minado pela doença que o álcool e provavelmente a fome provocaram, aliada a um ambiente conjugal nada recomendável. A sua cara e as palavras que saíam entarameladas da sua boca que tresandava a álcool, espelhavam não só a sua embriaguez, como o seu sofrimento. Pretendia falar com a Adelina. Não conseguindo percebê-lo correctamente devido ao seu estado, esta aconselhou-o a ir para casa. Após alguma persistência, o Antolino decidiu-se a ir. Cambaleando, não conseguiu subir um pequeno morro que estava ali ao lado, a não ser de “gatas”, para logo de seguida se esparramar no chão. Prevendo as mulheres que não conseguiriam fazer nada daquele corpo, embora de pequena estatura, a Adelina foi ali ao café do lado chamar dois clientes para ajudarem a fazer qualquer coisa, explicando-lhes o que se passava. Encontrava-se aí também o Rubim, outro jovem desgraçado, com um razoável grau de demência, que, ouvindo a conversa, disse para a Adelina:
- Ó sôra, não vá lá, olhe que ele tem uma “pitola”, na cinta que me mostrou.
- Não me digas?! – Retorquiu a Adelina.
Ao aproximarem-se do local, a Adelina e os homens, diz a Carmélia:
- Ele está morto!
- Não me diga que o homem morreu?! – Ripostou a Adelina.
Tremia “como varas verdes” com a notícia da pistola, prevenindo os homens que era preciso terem cuidado e agora aterrada também com a hipotética morte. Mesmo perante tal hipótese nenhum se aproximava.
Mas, não, não morrera. Entretanto, ele mexeu-se e a pistola saiu-lhe da cinta. Ficaram todos em pânico. A Adelina avisou a Cidália que ia a passar ali perto do Antolino a arrumar uma frança de videira, que fugisse dali que ele estava armado. A pobre Cidália, não aguentou e teve um chilique para complicar mais a situação. O pobre homem, com todos os circunstantes à distância, tacteava com as mãos à procura da pistola e ia gritando:
- Eu estou armado e tenho licença. Se for para casa posso fazer uma desgraça.
A Adelina, tremendo que parece que até o chão abanava, resolveu chamar os bombeiros ali ao lado, prevenindo-os da pistola., Apesar da tremedeira, e sabendo do respeito que o Antolino tinha por ela, não se cansava de aconselhar calma os bombeiros que se aproximavam cuidadosamente e sobretudo ao pobre homem estendido no chão:
- Antolino, calma, fui eu que mandei chamar os bombeiros. Eles só querem ajudar, vão levar-te ao hospital, a casa ou onde quiseres.
Os bombeiros, com um olho no homem, outro na arma, lá chegaram. Enquanto um se colocava junto dele, o outro foi apanhar a pistola. Levantou-a, mostrou-a e disse para os circunstantes: é de plástico. Foi risada geral, inclusive a Cidália que já se recobrara do chilique. Os bombeiros lá foram cumprir a sua missão que, não poucas vezes, é a de se confrontarem com homens armados, infelizmente mais perigosos do que o Antolino.
Como vê, um triste flagrante da vida real ainda deu para rir, sem qualquer espécie de ofensa para a vítima.
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O INEM tem novo presidente

      O INEM tem novo presidente. Trata-se do coronel Abílio Gomes.
As nomeações de coronéis para cargos que nada têm a ver com as Forças Armadas provocam-me normalmente arrepios na espinha e deixam-me alguma reserva. Não tenho qualquer síndroma provocada por tal patente, nem quaisquer outras. Aliás tenho bons amigos coronéis. Mas quando vejo uma nomeação de um deles, não deixo de me lembrar da maldita censura e do lápis azul que cortava os escritos mais inofensivos, deixando passar outros em que a componente política não estava assim tão dissimulada, o que não abonava nada relativamente quer quanto à sua inteligência, quer quanto aos seus ideais, sendo que os responsáveis por essa ignominiosa criação da ditadura, eram normalmente coronéis.
Não conheço o senhor coronel Abílio Gomes, nem sequer me recordo de alguma vez ter ouvido o seu nome, por isso não me cabe outra posição que não seja a de lhe conceder o benefício da dúvida e esperar que faça um excelente trabalho, para bem de todos nós, sobretudo aqueles que amanhã vão precisar dos serviços da instituição que vai dirigir.
É curioso – pelo menos para mim é – verificar esta inclinação que os diversos governos manifestam e que já vem do tempo da ditadura, de arranjar uns “tachos” para oficiais superiores e, obviamente, generais, sendo muitas vezes difícil descortinar que preparação ou, pelo menos, sensibilidade têm para desempenharem as funções a que são chamados.
Não é propriamente o caso do coronel dr. Abílio Gomes que, sendo médico, já ajudará alguma coisa. Todavia, não é o suficiente. O dr Cunha Ribeiro também o é e o INEM que ele presidiu não deixa saudades, não obstante muitas coisas boas que devemos aos seus operacionais. Não basta, pois, ser médico. São necessários outros requisitos e não ter medo de dialogar, nomeadamente com os bombeiros, nem ter medo de mudar o que for conveniente mudar.
Espera-se muito, cada vez mais do INEM, dados os encerramentos de várias unidades de saúde. Sou dos que acredita que o INEM pode fazer bem mais e melhor do que muitos dos chamados Serviços de Atendimento Permanente (SAP’s) ainda existentes ou já extintos. É necessário, no entanto, que se verifiquem determinados pressupostos, como sejam, cobertura total do país com viaturas médicas de emergência, a funcionarem vinte e quatro sobre vinte e quatro horas; melhor resposta por parte do 112, nomeadamente na sua interligação com os bombeiros, o que será facilmente conseguido se a central passar a estar sedeada nos Centros Distritais de Operações de Socorro (CDOS); empenho na formação adequada e em número suficiente de bombeiros, que para além da formação no socorro, terão de ter na de operadores de central, já que há ainda muitas deficiências nesta área, embora esta, obviamente, não seja da responsabilidade do INEM. É ainda necessário que o INEM abandone o comportamento autista que o tem caracterizado nestes últimos anos. Se assim acontecer e se tomarem outras medidas consideradas oportunas e importantes para a eficácia do socorro, todos nos sentiremos mais reconfortados, porque mais seguros. Apesar da crise financeira de que todos os dias e em quase todas as circunstâncias se fala neste país, ao que se julga saber, parece que ela não atinge o INEM. Se assim for, tanto melhor, porque não se poderá dizer que não se toma esta ou aquela medida porque “falta aquilo com que se compram melões”.
Certamente ficamos todos desejosos que o coronel Abílio Gomes desenvolva um trabalho frutuoso à frente da importante instituição de que nenhum de nós poderá dizer que nunca necessitará.
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Boa notícia…talvez!

      Há dias, referi-me, uma vez mais, à malfadada estrada nacional n.º 225. Lamentava-me por tão desgraçadamente, nesse aspecto, estarmos dependentes da Direcção de Estradas de Aveiro. Nela me referia, também, ao facto de não nos apercebermos que os autarcas por onde ela serpenteia, na nossa região, isto é, Castelo de Paiva, Cinfães e Arouca, fizessem tudo quanto deviam para solucionar esse grave problema que nos afecta, das mais variadas formas.  Curiosamente, logo de seguida, soube que Pereira Pinto, o edil cinfanense, tivera uma reunião com o ministro Mário Lino, que também referi nessa mesma crónica, embora noutro contexto, a quem propôs estar disposto a assumir a municipalização da dita estrada e pagar o respectivo projecto de requalificação. Ora aqui está uma boa notícia. Muito embora não seja sinónimo de que o problema se vai resolver no imediato, pelo menos sabemos que há um autarca a trabalhar nesse sentido e um ministro que prometeu estudar o assunto e que certamente não o deixarão esquecer. Obviamente que não sei qual a posição dos outros autarcas, de qualquer forma atrevo-me a pedir-lhes, se é que o não estão a fazer, que aproveitem esta embalagem e façam o mesmo que Pereira Pinto, ou, se não estiverem em condições disso, que pressionem o governo a assumir as suas responsabilidades. Também “somos filhos de Deus” e pagamos impostos.
É sempre bom quando aparece algo que nos faz renascer a esperança.
Como, no fundo, isto é política, continuemos na política. Não é nenhuma novidade para mim, e já aqui o manifestei por diversas vezes, que uma grande parte dos políticos não tem uma ideia para o país, não tem uma ideia para as regiões, em suma não tem ideias, porque não conhece, porque é incompetente. Então, à falta de ideias, para discutir o país e os seus problemas nacionais ou locais, alguns políticos entretêm-se a causticar os seus adversários, desenterrando factos, reais ou supostos, passados, alguns já bem longínquos e mais ou menos nebulosos, esquecendo-se que quase todos têm telhados de vidro, alguns fragilíssimos. Eu creio que já nem estranho nada, porque se estranhasse, fá-lo-ia relativamente ao desplante de alguns que nem sequer coram de vergonha, nem revelam o mínimo de pudor, quando atacam adversários, sendo eles suspeitos de factos de maior gravidade. Para falar apenas de alguns mais actuais e mediáticos, veja-se os casos de Sócrates, Telmo Correia, Paulo Portas, Nobre Guedes, Santana Lopes, Isaltino Morais e por aí fora. Bem gostaríamos que os nossos políticos fossem mais competentes, mais educados, com mais ética.
Santana Lopes parece ter descoberto agora o que nós já descobrimos há muito tempo: como os políticos não sabem do que falam, é preciso conhecer o país real. Então resolveu ir conhecê-lo. Muito tarde, mas como o povo diz que “mais vale tarde do que nunca”, se tolera. Só é pena que Santana Lopes o esteja a fazer já num contexto de campanha pré-eleitoral. Depois volta tudo ao mesmo. No caso concreto, não será tão só uma campanha pré-eleitoral em favor do partido. Dele próprio, sobretudo. Luís Filipe Meneses que se cuide que, pela aragem, não chega a ser candidato a primeiro-ministro. Oh, mas que importa isso, se eles todos trabalham em prol da nação e não dos seus interesses pessoais?! Como diriam os brasileiros “me engana que eu gosto”.
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Wednesday, February 13, 2008

O AMOR

      Cumpre-se amanhã mais um Dia dos Namorados, ou Dia de S. Valentim. Renovam-se as juras de amor – em muitos casos, provavelmente terá todo o sentido a expressão “quanto mais juras, mais mentes” – oferecem-se presentes, mais originais uns do que outros, até porque a febre comercial, aliada à globalização, se encarregou dessa tarefa de fabricar presentes alusivos, quanto a mim, retirando-lhes a magia que o factor individual, cada qual com a sua sensibilidade lhes emprestava. Bom, anima-se o comércio, proporcionam-se momentos de maior ternura, de maior cumplicidade, o que nem sempre significa que o amor autêntico esteja presente. Muitas vezes, não passa de mera paixão, quase sempre efémera, porque a rotina, o hábito, a permanência, a constância, a matam.
Porquê Dia dos Namorados em Dia de S. Valentim? O imperador Claudius II acreditou que se os jovens não constituíssem família se alistariam mais facilmente e assim formaria um poderoso exército. Nessa altura, Valentim era um bispo romano que desobedeceu às ordens do imperador e continuou a fazer casamentos em segredo. O bispo foi descoberto, preso e condenado à morte. Muitos jovens lançavam-lhe para a cela, flores e bilhetes em que afirmavam acreditar no amor. O carcereiro tinha uma filha, cega, a Asterius, que recebeu autorização do pai para visitar Valentim. Diz-se que acabaram por se apaixonar e a rapariga terá até recuperado a visão. O que faz o amor! Ou foi milagre de Valentim que viria a ser elevado às honras dos altares? Cumprindo-se a sua condenação, Valentim foi decapitado em 14 de Fevereiro do ano 270 d.C. Daí a razão do Dia dos Namorados se comemorar em 14 de Fevereiro, em muitos países.
Se quer festejar o dia com um brasileiro ou brasileira, então está com sorte: festeje agora, à portuguesa e volte a festejar em 12 de Junho, que é quando os nossos irmãos de Além-Mar o fazem, em véspera de Santo António, o santo português com fama de casamenteiro, também lá pelas outras bandas.
Curiosamente, hoje estarei a participar nas bodas de prata de casamento de um casal amigo, coisa que, à medida que vamos avançando no tempo, se torna cada vez mais rara, infelizmente. É triste verificar como uma família se constrói de um momento para o outro, sem os verdadeiros alicerces do amor e da amizade, para logo de seguida se destruir. É curioso ouvirmos ou lermos afirmações de alguns casais que mal se conhecem, se dizem imediatamente possuídos por paixões avassaladoras. Mais curioso ainda é dizerem a mesma coisa no segundo, terceiro, quarto casamento, ou união de facto, e por aí fora. Paixão avassaladora?!
Atracção física, desejo carnal?! Talvez. Mas isso tem muito pouco a ver com amor. Este não nasce assim de repente dentro de nós. Constrói-se. E tudo o que se constrói rapidamente, sem os devidos alicerces, facilmente se desmorona. Ainda que seja o amor. Para além disso, para quem ama é mais importante dar que receber. Amar é sobretudo dádiva. Mais: o amor exige compreensão, sacrifício, tolerância, respeito mútuo. Exige amizade. Embora muitos casais se separem e se digam continuar amigos, é difícil acreditar, porque o verdadeiro amigo não abandona o outro por “dá cá aquela palha”. O que eles mantêm é com certeza uma relação civilizada. Dizia um filósofo que uma grande parte da falência dos casamentos se deve, mais à falta de amizade do que de amor.
Certamente que quem completa 25, 30, 40, 50 anos de casado, não deixou de passar por algumas dificuldades conjugais, por alguns acertos de temperamento, de personalidades, mas souberam superá-las, ainda que, algumas vezes com cedências de parte a parte, muitas outra vezes em nome da estabilidade dos filhos. Isso sim é que é o amor. O resto são paixões que vêm e vão como o vento.
Para o casal, meu amigo e hoje “prateado”, desejo que continue venturosamente a ser uma família, por muitos anos. Você, independentemente do seu estado civil, continue a namorar, hoje, amanhã, sempre.
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Sunday, February 10, 2008

A estrada nacional n.º 225 e a política!…

      No último sábado tive necessidade de ir a Castro Daire. Em vez de ir pelo caminho habitual, isto é, por Cinfães, Portas de Montemuro e por aí fora, resolvi seguir sempre pela estrada nacional n.º 225, a que sai de Castelo de Paiva, passa à minha porta e me leva ao centro da vila de Castro Daire. É um trajecto que já não fazia há alguns anos. Um percurso totalmente feito pela mesma estrada. Só que nem parece. Enquanto ela está dependente, para desgraça nossa, dos responsáveis pelas estradas de Aveiro, isto é, desde o seu início até à separação de Alvarenga com Cabril, que passa a depender dos responsáveis de Viseu, é uma lástima, como por várias vezes tenho referido: mau piso, curva atrás de curva, estreita, perigosíssima, sem barreiras de protecção. A partir daí é completamente diferente: já há vários anos foi alargada, melhorado o piso, com curvas suaves na maior parte do percurso e agora com novas barreiras de protecção. Embora não tenha nenhum troço do seu percurso, entre o alto de Alvarenga e Castro Daire, tão perigoso como o de Alvarenga a Castelo de Paiva, nomeadamente na zona entre Vila Viçosa e Travanca, em todo ele se sente uma grande segurança, que não sentimos neste. Parece impossível a mesma estrada ser objecto de tratamento tão diferenciado! Parece que pertencemos a mundos diferentes. Os responsáveis de Aveiro, deveriam pôr os olhos nos colegas de Viseu, corar de vergonha e, como se diz por estas bandas, cobrir a cara de bosta, ou se preferir, chame-lhe outro nome. À bosta, claro.
Que mal teria feito eu e os meus concidadãos, que até pertencemos a outro distrito, administrativamente, para estarmos debaixo da “pata” desses irresponsáveis de Aveiro?
Há outros aspectos curiosos a observar neste fenómeno infeliz. É que, por uma questão de população servida, de movimento de carros, é muitíssimo superior a que está dependente de Aveiro. A outra é quase o deserto, como diria o ministro Mário Lino, o que não significa que as suas populações não tenham direito a ter uma estrada digna. Têm, mas nós também, ou será que os nossos impostos não contam?
Outro aspecto curioso é de facto não nos apercebermos que os responsáveis autárquicos dos concelhos por onde a estrada serpenteia, isto é, Castelo de Paiva, Cinfães e Arouca, façam tudo o que deveriam fazer para reverter a situação. Porque, de uma maneira geral, gostam sempre de dar a conhecer rapidamente tudo o que fazem, mesmo aquilo que nos parece ser de pequena importância, ficamos com a ideia de que se algo de importante fizessem em tal matéria, todos o saberíamos. Admito que possa estar enganado e se o estiver, quer dizer que a sua força é pequena. Curioso ainda, para mim, é não me dar conta também das diversas forças políticas, nomeadamente as da oposição, nas referidas autarquias, se preocuparem com o assunto, questionando e pressionando o respectivo poder. Bom, mas tendo eu o conceito que tenho de muitos políticos, nem sequer posso estranhar. E parece que cada dia que passa se conjuga para eu reforçar a minha forma de pensar. Quando há dias li uma acta de uma Assembleia Municipal e verifiquei que quatro ou cinco deputados, certamente sem quaisquer ideias válidas para apresentar, repetiram a questão que um deles tinha colocado e obtivera resposta, que querem que eu pense dessa gente? No mínimo, medíocre, não lhe parece? Com pessoas destas a ocuparem as cadeiras dos poderes executivos, legislativos e deliberativos, que desenvolvimento se poderá esperar para este país?! Os responsáveis partidários, se tivessem bom-senso nunca convidariam tal gente para ocupar lugares para os quais não têm o mínimo perfil. Mas que lhes importa a eles se sabem que o que lhes interessa é garantir pessoas subservientes, “yes man”? Tal gente, se tivesse a noção do ridículo, um pouco de vergonha, declinaria tais convites.
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Thursday, February 7, 2008

Mudar de opinião

      Conheço várias pessoas que têm um enorme pejo em admitir que mudam de opinião, como se isso fosse sinónimo de leviandade, de falta de carácter, de menos inteligência, de inferioridade intelectual. Considero esse comportamento estranho e o que é realmente revelador de pouca inteligência, de inferioridade intelectual é não admitirem mesmo mudar. Costuma-se dizer que “só os burros é que não mudam”, e concordando com a expressão e entendendo o animal referido no seu sentido figurado que todos conhecemos, deveremos integrar tais personagens na classe dos asininos, figurados obviamente, porventura menos inteligentes do que os ditos. De estranhar também, e não menos, é o facto de esses conservadores de opinião, o não serem quanto a mudarem de cores partidárias, desde que isso represente um qualquer “tacho”, ainda que seja apenas ao nível de aumento de vaidade, das penas de pavão com que se adornam. Analise e reflicta sobre o comportamento dos “pavões” que conhece e que andam por aí a saltitar de partido em partido, como qualquer pardalito atrevido saltando de galho em galho em busca, também ele, de qualquer “tacho”, no caso concreto, de apenas umas migalhas. Gentes sem pudor, como pudor não têm os líderes nacionais ou locais dos partidos que lhes dão cobertura, na perspectiva, muitas vezes cega e mal fundamentada, de que, à custa deles, obterão mais meia dúzia de votos. Pobres tontos! Nem sequer se dão conta que debaixo daquela plumagem e por detrás de um certo modo palavroso, só existe egoísmo, vaidade, vazio de ideias. É apenas mais uma, entre tantas, forma de desacreditar a política, já por demais desacreditada.
Cá por mim, admito gostosamente que mudo frequentemente de opinião. Não se poderá dizer que o faço tantas vezes como mudo de camisa. Aliás não há nenhum período programado para o fazer. Seria sinónimo de qualquer estranha doença, que nem sei se terá nome. Não, não é nada disso. Mas basta-me muitas vezes ouvir uma personalidade com créditos firmados numa determinada matéria, ler um livro, um artigo de opinião, ouvir rádio ou televisão ou simplesmente um amigo, para eu melhorar os meus conhecimentos, fazer uma reflexão diferente, alterar a minha forma de pensar. Isso é mau? Claro que não. Em que estádio da civilização nos encontraríamos se o pensamento, a ciência, o conhecimento não evoluíssem e a maioria de nós fosse céptico em relação a essa evolução? Que seria de nós e do mundo se ele fosse constituído maioritariamente por “Velhos do Restelo”? Por isso, eu digo atrás que gostosamente admito que mudo de opinião. Graças a essa forma de ser, de estar na vida, me foi permitido crescer como pessoa, crescer na minha forma de ver as pessoas e o mundo, me foi permitido possuir este espírito absolutamente livre, sem qualquer espécie de amarras, muitas vezes rebelde, inconformado, não alinhado com quaisquer correntes que não sejam tão-só e apenas aquelas que respeitam a dignidade humana, independentemente do seu sexo, idade, religião, estatuto social. Mudar, seja de opinião ou de qualquer outra coisa, exceptuando as mudanças por mera conveniência pessoal, atraiçoando muitas vezes a própria consciência, pode ser um exercício revelador, não só de bom-senso, como de inteligência.
Mude as vezes que entender e não se envergonhe disso, desde que a mudança seja alicerçada no uso da inteligência, numa reflexão séria. Todavia, não mude de mulher ou marido só porque no emprego começou a ser assediado por uma bomba sexual toda sofisticada ou assediada por um jovem loiro de olhos azuis, com músculos bem delineados, fruto de horas de ginásio; não mude de carro só porque i seu vizinho tem um topo de gama. Olhe que essas mudanças podem trazer sérias complicações para a sua vida, comprometê-la mesmo até ao resto dos dias. Use a cabeça, fria, se possível.
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