Pontos de Vista…5
Neste tempo e neste mundo em que vivem uns e sobrevivem, como podem, outros, a palavra que mais se diz e mais se ouve, de pretenso conforto, será, muito provavelmente, paciência. Digamos que paciência será uma espécie de medicamento que se receita para determinada doença que não se sabe exactamente qual é, que poderá fazer bem ou não, mas pelo menos tem-se a certeza de que mal não faz e funcionará sempre, com maior ou menor intensidade, de acordo com a sensibilidade de cada pessoa, como um analgésico. Estou muito doente… - Tem paciência! A vida está pelos olhos da cara… Tem paciência! Não consigo arranjar emprego… Tem paciência! O patrão já me não paga vai para três meses…Tem paciência! O meu filho é viciado na droga… Tem paciência! Não consigo pagar a prestação da casa, o banco vai ficar com ela… Tem paciência! A minha mulher arranjou um amante… Tem paciência e lembra-te disto: “um homem sozinho não consegue nada, nem mesmo ser corno”.
Por falta de soluções, de melhor conforto espiritual, receitamos então doses infinitas de paciência para todas as maleitas, por isso mesmo que dissemos, ainda porque de facto ela nos ajuda a suportar as contrariedades e sobretudo porque é mais fácil receitá-la do que tê-la. A paciência é, pois, importantíssima. Os persas têm um provérbio que diz: “ A paciência é uma árvore de raiz amarga, mas de frutos muito doces”. Para colhermos esses frutos doces teremos que esperar que eles germinem, cresçam, amadureçam, isto é, temos de ser pacientes, de outra forma não chegamos tão pouco a ver os frutos ou comemo-los amargos.
Perante as dificuldades que porventura você também passa, e para não lhe repetir “tenha paciência”, deixe-me lembrar aquele provérbio judaico que diz “Não há melhor negócio que a vida. A gente a obtém a troco de nada”. Pois é, meu amigo, o simples facto de vivermos é muito bom. É um ponto de vista.
Mas isto está de tal maneira, acontecem coisas tão desconcertantes, que é muito difícil, a qualquer um de nós, ter paciência ou recomendá-la. Algumas são praticadas por pessoas de quem era legítimo esperar um comportamento totalmente adverso. Não há, efectivamente, paciência, mas também quase nada ou mesmo nada nos surpreende. Para falarmos de gente do nosso tempo, nenhum de nós será João Paulo II nem Teresa de Calcutá.
Hoje toda a gente agride toda a gente, não apenas com a palavra, mas com as mãos ou as mais diversificadas armas. Parece mesmo que há pessoas que não conhecem outra forma de diálogo que não seja o da agressão. E se a agressão física pode ter consequências muito graves que provoquem males irreparáveis e conduzir à própria morte, a agressão verbal, e agora, mais do que nunca, com o uso irracional da internet, muitas vezes, cobarde, também destrói muitas vidas, ainda que não fisicamente, se bem que o estado emocional acaba sempre por se reflectir no físico.
Lembro-me de ser criança, adolescente e jovem e ouvir dizer, com toda a naturalidade, que os maridos batiam nas mulheres. E quando comecei a ter alguma noção da vida e do mundo apercebi-me que tal violência doméstica era perfeitamente aceite pela comunidade, as próprias mulheres agredidas tinham sido educadas no sentido de total obediência, antes, de total escravidão ao marido, que mais do que isso, era dono. Felizmente não guardo nenhuma imagem dessas passadas no meu seio familiar, até porque fiquei com pai ausente, até hoje, a partir dos três anos de idade. As pobres mulheres criavam um rancho de filhos, faziam as lides da casa, mourejavam ainda pelas leiras e tinham de estar sempre de “pernas abertas”, dóceis, obedientes para as vontades do amo, sim amo, porque mais do que marido era patrão, senhor.
Pobres mulheres, a quem o próprio estado não protegia, ao invés, procuravam manter no obscurantismo, no analfabetismo, para mais facilmente serem domadas. Mas foi do ventre de muitas destas mulheres sofridas, exploradas, feridas na sua dignidade, analfabetas, mas com uma enorme cultura construída dia a dia, de experiências duras e repetidas que saíram grandes escritores, cientistas, professores, valentes militares, heróis. Bravíssimas mulheres que merecem todo o nosso respeito, a nossa gratidão.
Bom, mas eu estava a falar de agressões. E se de facto era trivial o marido bater na mulher, também havia uma ou outra que tinha pêlo na venta e chegava a roupa ao pêlo do marido. Esses, como diz o povo, não podiam “mijar fora do penico” senão ficavam com as costas quentes.
Eu era novato e lembro-me de um fanfarrão de quem diziam que apanhava da mulher e da sogra, embora sempre que chegava junto dos amigos se gabasse de lhes ter “aquecido o lombo”. Um dia entrou na taberna onde já se encontravam os compinchas habituais, conhecidos por “seca-adegas”, dissimulando um ar eufórico, atirou para o ar “ hoje moí de pancada aquelas mulas, saia uma caneca para festejar”. Um dos circunstantes, mirando-o pela traseira, replicou: “Ó Zé, tens o sorrascadouro marcado nas costas! Resposta imediata do Zé, sem sequer esboçar uma qualquer justificação: “Aquelas vacas chegariam-me?!”. Desataram todos a rir e o simplório do Zé, de costas quentes, como habitualmente, riu também, de amarelo, e emborcou mais uns decilitros do tinto que lhe davam algum alento até nova tareia. Havia um ou outro caso, bem conhecido de todos, de mulher que batia em marido, mas fugia à normalidade. Felizmente as coisas mudaram muito, embora saibamos que a violência doméstica ainda é um flagelo que merece muita atenção e urge pôr termo. Se muitas mulheres ainda se calam por vergonha ou por receio de represálias, já há outras que denunciam as situações de violência. Para que elas possam fazer isso naturalmente é necessário, no entanto, garantir-lhes segurança.
Bom, mas hoje em quem não se bate?! Muito provavelmente a quem mais nos apetecia e certamente mais o merecia, mas não fazemos por variadas espécies de razões. Seja como for, nada justifica a agressão. Mas hoje bate-se nos pais, nos professores, nos polícias, até nos juízes. Digo até, não porque alguns o não merecessem mais do que qualquer outros, já que deixam muito a desejar no seu comportamento, mas porque estamos a falar de titulares de um órgão de soberania.
Isto é tudo um problema de educação. A grande preocupação do governo é a instrução, são números de aprovações, não a educação. A educação é qualificável, não quantificável. Se ela se pudesse medir, provavelmente haveria outro cuidado com ela, sobretudo por parte dos governantes, sempre despertos para mostrar números positivos, ainda que muitas vezes manipulados.
Fui presidente de uma associação de pais, era Cavaco Silva chefe do governo e já havia alguma pressão, tal como hoje, para se evitarem reprovações. Isso deu naquilo que se sabe: alunos a transitarem de classe, a chegarem às universidades com conhecimentos rudimentaríssimos. Como professor senti a mesma coisa. Era facilitar de ano para ano, isto por causa dos tais números que era e é preciso mostrar ao país e à Europa. Nunca vi, no entanto, ninguém preocupar-se com problemas disciplinares, com civismo, cidadania.
É preciso cuidar mais da educação. Immanuel Kant disse: “Só através da educação pode o homem tornar-se homem. O homem não é mais do que o produto da educação que teve”.
Por falta de soluções, de melhor conforto espiritual, receitamos então doses infinitas de paciência para todas as maleitas, por isso mesmo que dissemos, ainda porque de facto ela nos ajuda a suportar as contrariedades e sobretudo porque é mais fácil receitá-la do que tê-la. A paciência é, pois, importantíssima. Os persas têm um provérbio que diz: “ A paciência é uma árvore de raiz amarga, mas de frutos muito doces”. Para colhermos esses frutos doces teremos que esperar que eles germinem, cresçam, amadureçam, isto é, temos de ser pacientes, de outra forma não chegamos tão pouco a ver os frutos ou comemo-los amargos.
Perante as dificuldades que porventura você também passa, e para não lhe repetir “tenha paciência”, deixe-me lembrar aquele provérbio judaico que diz “Não há melhor negócio que a vida. A gente a obtém a troco de nada”. Pois é, meu amigo, o simples facto de vivermos é muito bom. É um ponto de vista.
Mas isto está de tal maneira, acontecem coisas tão desconcertantes, que é muito difícil, a qualquer um de nós, ter paciência ou recomendá-la. Algumas são praticadas por pessoas de quem era legítimo esperar um comportamento totalmente adverso. Não há, efectivamente, paciência, mas também quase nada ou mesmo nada nos surpreende. Para falarmos de gente do nosso tempo, nenhum de nós será João Paulo II nem Teresa de Calcutá.
Hoje toda a gente agride toda a gente, não apenas com a palavra, mas com as mãos ou as mais diversificadas armas. Parece mesmo que há pessoas que não conhecem outra forma de diálogo que não seja o da agressão. E se a agressão física pode ter consequências muito graves que provoquem males irreparáveis e conduzir à própria morte, a agressão verbal, e agora, mais do que nunca, com o uso irracional da internet, muitas vezes, cobarde, também destrói muitas vidas, ainda que não fisicamente, se bem que o estado emocional acaba sempre por se reflectir no físico.
Lembro-me de ser criança, adolescente e jovem e ouvir dizer, com toda a naturalidade, que os maridos batiam nas mulheres. E quando comecei a ter alguma noção da vida e do mundo apercebi-me que tal violência doméstica era perfeitamente aceite pela comunidade, as próprias mulheres agredidas tinham sido educadas no sentido de total obediência, antes, de total escravidão ao marido, que mais do que isso, era dono. Felizmente não guardo nenhuma imagem dessas passadas no meu seio familiar, até porque fiquei com pai ausente, até hoje, a partir dos três anos de idade. As pobres mulheres criavam um rancho de filhos, faziam as lides da casa, mourejavam ainda pelas leiras e tinham de estar sempre de “pernas abertas”, dóceis, obedientes para as vontades do amo, sim amo, porque mais do que marido era patrão, senhor.
Pobres mulheres, a quem o próprio estado não protegia, ao invés, procuravam manter no obscurantismo, no analfabetismo, para mais facilmente serem domadas. Mas foi do ventre de muitas destas mulheres sofridas, exploradas, feridas na sua dignidade, analfabetas, mas com uma enorme cultura construída dia a dia, de experiências duras e repetidas que saíram grandes escritores, cientistas, professores, valentes militares, heróis. Bravíssimas mulheres que merecem todo o nosso respeito, a nossa gratidão.
Bom, mas eu estava a falar de agressões. E se de facto era trivial o marido bater na mulher, também havia uma ou outra que tinha pêlo na venta e chegava a roupa ao pêlo do marido. Esses, como diz o povo, não podiam “mijar fora do penico” senão ficavam com as costas quentes.
Eu era novato e lembro-me de um fanfarrão de quem diziam que apanhava da mulher e da sogra, embora sempre que chegava junto dos amigos se gabasse de lhes ter “aquecido o lombo”. Um dia entrou na taberna onde já se encontravam os compinchas habituais, conhecidos por “seca-adegas”, dissimulando um ar eufórico, atirou para o ar “ hoje moí de pancada aquelas mulas, saia uma caneca para festejar”. Um dos circunstantes, mirando-o pela traseira, replicou: “Ó Zé, tens o sorrascadouro marcado nas costas! Resposta imediata do Zé, sem sequer esboçar uma qualquer justificação: “Aquelas vacas chegariam-me?!”. Desataram todos a rir e o simplório do Zé, de costas quentes, como habitualmente, riu também, de amarelo, e emborcou mais uns decilitros do tinto que lhe davam algum alento até nova tareia. Havia um ou outro caso, bem conhecido de todos, de mulher que batia em marido, mas fugia à normalidade. Felizmente as coisas mudaram muito, embora saibamos que a violência doméstica ainda é um flagelo que merece muita atenção e urge pôr termo. Se muitas mulheres ainda se calam por vergonha ou por receio de represálias, já há outras que denunciam as situações de violência. Para que elas possam fazer isso naturalmente é necessário, no entanto, garantir-lhes segurança.
Bom, mas hoje em quem não se bate?! Muito provavelmente a quem mais nos apetecia e certamente mais o merecia, mas não fazemos por variadas espécies de razões. Seja como for, nada justifica a agressão. Mas hoje bate-se nos pais, nos professores, nos polícias, até nos juízes. Digo até, não porque alguns o não merecessem mais do que qualquer outros, já que deixam muito a desejar no seu comportamento, mas porque estamos a falar de titulares de um órgão de soberania.
Isto é tudo um problema de educação. A grande preocupação do governo é a instrução, são números de aprovações, não a educação. A educação é qualificável, não quantificável. Se ela se pudesse medir, provavelmente haveria outro cuidado com ela, sobretudo por parte dos governantes, sempre despertos para mostrar números positivos, ainda que muitas vezes manipulados.
Fui presidente de uma associação de pais, era Cavaco Silva chefe do governo e já havia alguma pressão, tal como hoje, para se evitarem reprovações. Isso deu naquilo que se sabe: alunos a transitarem de classe, a chegarem às universidades com conhecimentos rudimentaríssimos. Como professor senti a mesma coisa. Era facilitar de ano para ano, isto por causa dos tais números que era e é preciso mostrar ao país e à Europa. Nunca vi, no entanto, ninguém preocupar-se com problemas disciplinares, com civismo, cidadania.
É preciso cuidar mais da educação. Immanuel Kant disse: “Só através da educação pode o homem tornar-se homem. O homem não é mais do que o produto da educação que teve”.
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