Pontos de Vista…11
Tenho a sensação que os portugueses andam um pouco alheados dos Jogos Olímpicos e não será própria e exclusivamente fruto dos resultados que não têm sido nada de entusiasmar, antes pelo contrário. Estou de acordo com aquilo que alguém dizia que é de que Portugal está futebolizado, isto é, em termos de desporto, os sentidos, as atenções, viram-se quase exclusivamente para o futebol. Não há uma mentalidade desportiva heterogénea. Nem os governos, nem as autarquias têm uma verdadeira política desportiva. Uns e outros, salvo casos pontuais e raríssimas excepções, as suas políticas não ultrapassam os meros subsídios. Veja-se, como exemplo, entre outros, o que faz a escola pública, em termos de desporto. Umas meras brincadeiras, arremedos de modalidades desportivas e pouco mais. Que diferença para os meus tempos de colégio em que tínhamos autênticos mestres em várias modalidades desportivas e que levaram alguns de nós a serem praticantes destacados em alguns clubes. Recordo, no futebol, o mestre dos mestres, Artur Baeta; no hóquei em patins, o internacional do Infante de Sagres, António Figueiredo; na ginástica o professor Edgar Tamegão; no basquetebol e voleibol, o professor Noronha Feio e por aí fora. Mas voltando aos Jogos Olímpicos, dá-nos a sensação de que só se pensa verdadeiramente neles, de quatro em quatro anos. Repare que, mesmo no futebol, tendo nós, atletas de excelente gabarito, não conseguimos o apuramento para participar em tais jogos. Creio que, para além da tal falta de uma política desportiva que contemple o ensino e prática das diversas modalidades, a partir dos primeiros anos do ensino básico, é a inexistência de ambição e de uma mentalidade ganhadora que sobressaem. Estava eu embrenhado nestes pensamentos, reflectindo nos nossos insucessos e sou confrontado com duas situações absolutamente antagónicas: uma agradável, de certo modo esperada, a conquista da medalha de prata pela Vanessa Fernandes. Não sendo uma surpresa, como surpresa não seria o ouro, numa prova olímpica há tanta gente de grande qualidade e tantas contingências que a eventual não conquista de qualquer medalha, desde que a sua participação fosse ao nível a que nos habituou, teria que se aceitar. Mas Vanessa Fernandes, com a sua humildade, com a sua capacidade de trabalho, com a sua ambição ganhadora, realista, sem arrogância, com o seu espírito de sacrifício, bem à semelhança de seu pai, que lhe soube transmitir esses valores, honrou-se a si própria e ao país. Fica-lhe bem, sobretudo por totalmente justo, oferecer o triunfo ao progenitor. Vanessa Fernandes é o tipo de atleta que pode ser apontado como exemplo a qualquer um. “Per angusta ad augusta” – os grandes êxitos só se alcançam através de grandes dificuldades.
Dizia eu que fui confrontado com duas situações antagónicas. Uma já a referi. A outra tem a ver com afirmações de atletas olímpicos portugueses, alguns cuja passagem só não foi mais discreta por força de afirmações que fizeram. Atrever-me-ei a dizer que alguns mesmo, poucos os conheceriam e só passaram a ser conhecidos, mercê de tais afirmações. Já a Telma Monteiro havia desagradado com a justificação que dera para o seu insucesso e a que me referi na crónica anterior. As afirmações de alguns atletas foram tão imbecis, tão vergonhosas, tão rascas, que essas sim, mais do que as fracas prestações, os devem envergonhar e nos encher a todos de tristeza, por sermos tão mal representados. A palavra, uma vez dita, não volta atrás, por isso é recomendável que se seja prudente no que se diz, principalmente se estamos a falar para a comunicação social. Qualquer classificação, seja em que prova for, será honrosa, ainda que seja o último lugar, desde que o atleta dê o melhor de si. Temos ouvido mais ou menos explicitamente que alguns atletas terão procurado os mínimos para participar nos jogos olímpicos, mais pela ambição de passear do que competir. Não gostaríamos de acreditar nisso, mas as afirmações de alguns não nos deixam grandes margens para dúvidas. Algumas são de tal forma chocantes, ridículas, que não nos deixam acreditar que foram apenas fruto do momento emocional, de ingenuidade ou mesmo de infelicidade. É pena. Terminados os jogos, será altura de fazer uma reflexão muito séria no que concerne à política desportiva, nomeadamente na selecção dos atletas que nos representam. E será mesmo de equacionar o apoio a atletas de mentalidade tão pobre, de personalidade e carácter tão medíocres como alguns dos que estiveram ou estão
em Pequim. E parece-me ainda que, senão todos, pelo menos alguns atletas de alta competição, para além dos seus orientadores técnicos, de acordo com a disciplina que cada um pratica, devem ser acompanhados por profissionais de outras áreas, nomeadamente psicólogos. É um ponto de vista.
Esperemos que os Jogos Olímpicos, mesmo que porventura não nos proporcionem mais nenhuma medalha, não nos ofereçam, pelo menos, mais afirmações infelizes, para não repetir vergonhosas.
Bom, deixemos os jogos e vamos a outro tema.
O povo, mesmo na sua rudeza, na sua iliteracia, tem uma imensa sabedoria. Numa simples expressão diz tanto, - e de forma mais compreensível, - como os chamados cultos, letrados, numa imensidão de palavras, algumas das quais, para as interpretar, é preciso o dicionário na mão. Tem mesmo várias expressões para dizer o mesmo. Veja, por exemplo, “oito ou oitenta”; “no meio é que está a virtude”, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”são expressões populares que podem ser utilizadas para significar mais ou menos a mesma coisa, como seja “não se deve exagerar”. Os crimes, sobretudo os mais violentos, continuam a verificar-se um pouco por aqui e por ali, mas sobretudo nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Já aqui referi o meu ponto de vista a esse respeito. Não podemos aspirar a ter um polícia em cada esquina ou a vigiar cada um de nós. Muitos dos crimes que nos têm chocado foram perpetrados em locais ou horas em que, por mais polícias que houvesse, não seria suposto que aí estivessem. E se porventura estivessem, os mesmos crimes iriam ser, muito provavelmente, cometidos noutro local, a outra hora. Claro que tudo o que se puder fazer para evitar os crimes, o que não põe de parte a força preventiva, dissuasora, da polícia, é óptimo. Mas, sabendo que há muitos crimes que não se podem evitar, temos de fazer com que os criminosos sintam que temos uma investigação rápida e eficiente que os levará às malhas da justiça. E que temos uma justiça célere, servida por leis que permitam aplicar penas proporcionadas aos crimes cometidos. Por vezes pode parecer que me contradigo relativamente à existência quantitativa das forças policiais. Não. Devemos ter as suficientes, nos lugares certos e com a qualidade e especialização adequadas. Nem mais nem menos, “nem oito, nem oitenta”. O que acontece, infelizmente, é que temos algumas zonas em que nem aos oito chegamos, mas temos forças que deveriam preencher esses vazios a cumprir outras tarefas para as quais não estão vocacionadas e não faltava quem as desempenhasse. Dou como exemplo, uma vez mais, os elementos da GNR que estão empenhados nos combates aos incêndios florestais, desnecessariamente, - porque não faltariam bombeiros para desempenhar tal tarefa - deixando as populações não só inseguras, como impossibilitadas de terem, pelo menos atempadamente, uma autoridade a comparecer numa ocorrência. E não me venham com mistificações, que os incêndios combatidos pela GNR, - poucas vezes em primeira intervenção, contrariando a filosofia apregoada para justificar a criação dos grupos em que está integrada – são feitos com mais profissionalismo. Essa é mais uma ofensa, entre tantas, aos bombeiros, porque eles sendo voluntários por opção, são profissionais na acção. Desenvolvem a sua acção com profissionalismo e mais, com paixão que supera, muitas vezes, em resultados, o mero profissionalismo. A paixão, os bombeiros já a possuem, ofereçam-lhes a profissionalização e deixem a GNR fazer o que lhe compete e que ela também faz bem.
Ainda há poucos dias um jornal diário nacional, iniciava uma peça, rezando assim: “Para os concelhos de Cuba, Ferreira do Alentejo e Alvito estão actualmente destacados apenas dois militares da GNR. A situação que se vem a verificar desde o início deste ano, acentuou-se com a chegada dos meses mais quentes. O desfalque de agentes deve-se à integração de diversos militares nos grupos de combate e prevenção a incêndios, ficando assim os dois militares responsáveis pelo patrulhamento dos três concelhos”. Fim de citação. Dois militares para patrulhar três concelhos é verdadeiramente inacreditável!
Parabéns Vanessa!
É mais que merecida, quer pelo teu exemplo, trabalho e profissionalismo, quer pela qualidade como atleta sempre na sua máxima concentração.
Abraços