Sunday, September 28, 2008

Pontos de Vista…17

     

Anda por aí muita gente em pânico com a onda de criminalidade e, não obstante a retórica exagerada de alguns, é realmente caso para todos nos preocuparmos, nos rodearmos de cuidados, tomarmos algumas medidas, adoptarmos determinados comportamentos que, ao invés de provocarem os marginais, antes os dissuadam ou, pelo menos, não os atraiam e seduzam. Posso dizer que não fico à margem desse fenómeno, pois reflicto sobre ele e, obviamente, também me preocupo, por mim e, sobretudo por aqueles que me são mais próximos. Há, de facto, sobejas razões para todos nos sentirmos intranquilos, desconfiados. Se essa criminalidade que por aí grassa seria, por si só, motivo mais do que suficiente para a nossa intranquilidade, na perspectiva de que, de um momento para o outro, qualquer um de nós pode ser vítima, o pior é que as pessoas, de um modo geral, hoje têm tais comportamentos que eu acabo por me sentir intranquilo com a generalidade da espécie humana. Muitos dos que conhecemos, com quem convivemos, desiludem-nos frequentemente, deixando-nos cicatrizes profundas. Isso obriga a que estejamos sempre de pé atrás perante aqueles que se aproximam de nós. Direi que me sinto desiludido com as pessoas, felizmente, tranquilo, feliz comigo mesmo. Fora da fronteira dos alegados ou já tidos oficialmente como criminosos, encontramos um sem número de pessoas egoístas, mentirosas, ingratas, presunçosas, imbecis, traiçoeiras e traidoras, sem escrúpulos, manipuladoras, usando todos os meios, mesmo os mais execráveis, para atingir os fins, capazes de atropelar os próprios pais, sem se incomodarem com os malefícios que podem provocar, antes alegrando-se com isso. Criminosos e estes, que, pelos seus malabarismos, pela sua hipocrisia até passam, em muitos meios, por pessoas com algum mérito, provocam danos físicos e mentais, quantas vezes irreparáveis. E muitas vezes são mais os danos, sobretudo anímicos, provocados por estes do que por aqueles, pelo inesperado. Mas é evidente, e ainda bem, que no meio deste pântano de gente reles em que vivemos, ainda consegue emergir gente boa, que mesmo passados dezenas de anos, guarda dentro de si o nobre sentimento da gratidão e muitas outras virtudes. Posso dar-lhe um exemplo muito concreto que atesta de forma perfeita aquilo que digo e que faz com que, apesar da descrença, ainda há quem nos faça sentir que vale a pena viver, vale a pena fazer bem, ainda que saibamos que a maioria o não merece. Quem verdadeiramente gosta de fazer o bem, não o faz na esperança de que lhes sejam gratos, mas todos ficam feridos com a ingratidão e sentem a gratidão como um doce. Há dias um parente meu, colocado como uma espécie de exilado num lar de idosos pelos familiares mais próximos e aí deixado ao desprezo por eles, sem uma visita, sem um telefonema no dia de aniversário, no natal, em nenhum dia, que eu visito com a frequência que posso, apesar de distante mais de uma centena de quilómetros, sabendo que meu pai iria estar aqui em Portugal numa curta visita, pediu-me encarecidamente que o levasse a visitá-lo, porque o não via há mais de cinquenta anos, mas não esquecia o bem que lhe fez, quando ainda muito jovem chegou ao Rio de Janeiro e encontrou nele um ombro amigo, uma sombra protectora, mais do que um pai, no seu dizer. Prometi-lhe que por mim o faria com todo o gosto e que, acreditava que meu pai, apesar da sua debilidade em termos de mobilidade, também o faria gostosamente. Havia apenas dois dias de permanência de meu pai e, posto ao corrente do pedido, de imediato se prontificou a satisfazê-lo. O reencontro foi uma cena indescritível. A emoção que se apoderou dos dois, mas sobretudo do meu parente empurrado para o lar, foi de tal forma que eu temi que acontecesse uma tragédia. Felizmente, ambos se recompuseram rapidamente. Mas foi bonito de ver: dois anciãos - mais velho o meu pai do que o parente – abraçados como puderam, dadas as debilidades de ambos, com os olhos marejados de lágrimas, com este numa manifestação inequívoca, sincera, saída do mais profundo do seu intimo, de gratidão e aquele a retorquir que fez apenas aquilo que era sua obrigação de fazer e que fizera a todos quantos de Portugal se lhe dirigiam. Foram cerca de duas horas maravilhosas para ambos: para o meu pai que ficou com a sua auto-estima elevada por ver, passados mais de cinquenta anos, alguém que lhe manifestava tamanho afecto, tamanha gratidão, demonstrando-lhe que vale a pena fazer bem, ainda que muitas vezes a paga seja a ingratidão. Para o meu parente, porque, sem nunca o ter esquecido, teve oportunidade de dizer o que ainda lhe ia na alma, a alguém que tão bem lhe fizera. Eu fiquei embevecido, deslumbrado com a cena e fiquei a pensar que é sempre gratificante fazer bem, ainda que em cem pessoas apenas uma seja grata ou mesmo nenhuma. Modesto Lafuente disse: “ A satisfação de encontrar uma pessoa grata compensa a amargura de muita ingratidão”.

Creio que todos temos um pouco a tendência para dizer mal, não diria de tudo, ma sobretudo do que é nosso, seja da nossa freguesia, do nosso concelho, do nosso país. Talvez isso seja genético. É bom, todavia, que de vez em quando encontremos razões para dizer bem e não tenhamos pejo em o fazer. Aliás é um dever fazê-lo sobretudo àqueles que se apressam a dizer mal sempre que acham que é caso disso. Numa viagem anterior, meu pai teve sobejas razões de queixa da TAP e disso se deu conta. Agora, não sendo VIP, teve um tratamento como se o fosse, ou antes, como sempre deve ser feito. Tendo de se movimentar em cadeira de rodas, ao entrar no avião, no Rio de Janeiro, fê-lo acompanhado pelo simpaticíssimo pessoal de bordo que fechou as entradas até que ele estivesse devidamente acomodado, reservando-lhe dois lugares para melhor conforto. Chegado ao Aeroporto Sá Carneiro, em Pedras Rubras, só depois de sair toda a gente, o transportaram até ao meu encontro, na porta das chegadas, facilitando-lhe a vida em todos os trâmites alfandegários, disponibilizando-lhe sempre o maior carinho e atenção. Como sempre aponto o que está mal, com um sentido construtivo, embora, é meu dever dar esta nota de um bom serviço prestado pela companhia aérea portuguesa, tantas vezes criticada, certamente com razão.

Bom, embora me fosse mais agradável dar conta de aspectos posittivos, vejo-me na necessidade de referir mais um aspecto negativo. É ele o seguinte: Todos nos vamos dando conta dos frequentes problemas causados pelo CODU – Centro de Orientação de Doentes Urgentes – ligado ao INEM e a que temos acesso através do número sobejamente conhecido de todos que é o 112. São de facto inúmeras as complicações, provocadas, umas  vezes, por deficiente comunicação de quem apela aos serviços através do referido número, outras vezes, por mau serviço prestado pelos profissionais que operam em tal Centro. Então é ver ambulâncias, sejam do INEM ou dos bombeiros, todas despachadas pelo CODU, a chegarem atrasadas, a não chegarem ou andarem de lado para lado à procura dos doentes ou acidentados. Não é por acaso que eu digo frequentemente que é mais seguro ligar para os bombeiros do que para o 112, embora saiba perfeitamente porque razão muitas pessoas o fazem, que tem unicamente a ver com economia e não com qualidade de serviço e também por isso eu trago sempre comigo o número de telefone de todos os corpos de bombeiros do país. Com eles tenho a garantia de que se não perdem no caminho. Ora como se as chamadas feitas através do 112 não causassem já demasiadas complicações, eis que não sei porque carga de água, nos aparece nos ecrãs da televisão e possivelmente noutros órgãos de comunicação social publicidade apelando a quem tiver conhecimento de um incêndio florestal para ligar para o 112. É estranho. É para fazer maior complicação e mandarem os bombeiros apagar incêndios florestais por aí em qualquer rio ou na praia?! Que eu saiba, e creio que nem mudou nem acabou, o número para o qual se deve ligar para comunicar um incêndio florestal é o 117. Será que a Autoridade Nacional de Protecção Civil quer assim – vá-se lá saber porquê – ou ainda se não deram conta do erro. Se quer assim, o mínimo que se pode exigir é que justifiquem. Se é erro, é lamentável.

É triste também que o INEM pague um milhão de euros em horas extras, o que significa que há técnicos de socorro que ficam sobrecarregados de trabalho, perdendo necessariamente eficiência, o que tratando-se de vidas humanas, pode ter consequências muito graves. É mau ainda porque deveriam ser contratados novos técnicos, até porque eles existem e necessitam de trabalhar. Enfim, trapalhadas de um país que é vítima da crise económica mundial que se vive, mas também muito de si próprio.

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Thursday, September 25, 2008

Pontos de Vista … 16

Para além da grave crise financeira que atravessa o planeta, não nos deixando à margem, o que não seria mau, já que em tantos aspectos temos ficado nela, quando nos interessaria o contrário, outro tema se mantém na ordem do dia, no nosso país e que tem a ver com a quantidade de crimes que se vêm perpetrando, provocando nos cidadãos um clima de insegurança. Quase toda a gente anda preocupada e se debruça, opina sobre o tema. E tem razão. Só que, de acordo com o meu ponto de vista, nem todas as reflexões são isentas, sérias, pois são feitas de acordo com interesses partidários. Outras são feitas levianamente, retirando conclusões baseadas apenas mais naquilo que parece do que naquilo que é. Alguns “opinion makers” entendem que bastaria o aumento de efectivos policiais para que tal drama – efectivamente de um drama se trata – se resolvesse. É óbvio que não. Para não insistir exactamente nas mesmas conclusões a que tenho chegado, e que mantenho, vou pairar, o que também não é novo nas minhas reflexões, sobre a ligação entre a forma de actuar a justiça e a criminalidade. Claro que o faço na perspectiva de alguém que não tem formação jurídica, como acontece com a maioria dos meus concidadãos, mas que também pensa. E sendo muito provavelmente o meu raciocínio equivalente ao da maioria das pessoas, de acordo com o que atrás referi, poderá até ser mais facilmente entendido. Mas antes disso, deixe-me dizer que as forças policiais, todas elas, têm feito um esforço enorme, um trabalho notável, merecedor de todos os encómios, apesar das suas diversas exiguidades. Apesar disso e das frustrações que todos os dias sofrem por força de verem a justiça a desvalorizar, a não dar a sequência que era suposto dar ao resultado do seu trabalho exaustivo, paciente, rigoroso, perigoso. Aqui é que reside o busílis da questão. O que a comunicação social nos tem transmitido, nos últimos tempos, relativamente a decisões de juízes perante alegados criminosos dos mais violentos, é realmente de deixar os agentes policiais que procederam às averiguações e detenções com os cabelos em pé e sem vontade de exercer o seu múnus com o arreganho, o empenho, a dedicação, a coragem com que o têm feito para nos dar um pouco de tranquilidade a todos. Realmente, ou por culpa da legislação – já atrás disse que não tenho formação jurídica – ou por, sei lá se por medo, se por incompetência, se por interpretação mais liberal da referida legislação, alguns juízes põem na rua alegados criminosos ou mesmo criminosos, porque alguns foram detidos em flagrante, que chocam o comum dos cidadãos e transmitem-lhes tanta insegurança como os próprios crimes, em si. As pessoas ficam inseguras e nem sequer entendem. A comunicação social pode, hipoteticamente, ter algumas “culpas no cartório”, pela forma como divulga as notícias e, sobretudo, como as titula. Quando um cidadão recebe a informação de que alguém alvejou outro alguém na própria esquadra da polícia, quando alguém é apanhado em flagrante a assaltar um posto de combustíveis e dispara sobre pessoas, quando um gang é apanhado, rotulado de altamente perigoso e os seus elementos são presentes a um magistrado, o que o tal cidadão comum espera é que fiquem em prisão preventiva, o mais rapidamente possível sejam julgados e, de acordo com os crimes comprovados, sejam exemplarmente punidos. E, se assim acontecesse, certamente os crimes diminuiriam e as pessoas libertavam-se desse sentimento doentio de insegurança que, para além doutras consequências, provoca mazelas físicas e sobretudo anímicas mais do que quaisquer outras maleitas. O que nós verificamos é exactamente o contrário. Ou a informação é incorrecta ou temos indivíduos altamente perigosos, responsáveis por crimes violentos, a rirem-se de nós todos, sobretudo dos que os investigaram e detiveram, sendo mesmo um perigo real para esses, a passearem-se nas ruas, com apresentações periódicas, cometendo mais umas irregularidades pelo meio ou mesmo fugindo para o estrangeiro. Se até há uma presidente de câmara, fogosa, aperaltada, de bom ar, com fama de boa samaritana para o grupo de futebol local e outras instituições que fazia o favor de amadrinhar para mais facilmente recolher os votos necessários à sua manutenção no poder, que foge para não ser presa e, ao que se saiba, nem sequer é julgada por esse crime, nem tão pouco tendo sida detida quando, concertadamente, decidiu aparecer em triunfo,… bom, como nos poderíamos admirar de alguns desses tidos por “lobos ferozes” dessem “às de Vila Diogo”! Portanto, meu amigo, o meu ponto de vista é que o grave problema da criminalidade em Portugal tem muito mais a ver com a justiça do que com a polícia. E digo-lhe mais: penso até que também outros ministérios têm uma palavra a dizer sobre o assunto. È absolutamente imperioso saber exactamente os estrangeiros que estão no nosso país, onde estão, o que fazem, de onde vieram, que registo criminal ostentam. É óbvio que não pretendo imputar todos os crimes mais graves aos estrangeiros. Nada disso. Sabe-se que muitos cidadãos de outros países são exemplares, como muitos portugueses são facínoras, mas se nós já somos couto dos nossos próprios criminosos é bom evitar que o sejamos também de outros que para cá vêm, se calhar, fugindo à justiça dos seus próprios países, acolhendo-se à sombra da benévola e retardada justiça indígena.

Paulo Portas, continuando a julgar-se representante de muita gente e com o seu espírito verdadeiramente narcisista, deu em desafiar Sócrates por tudo e por nada, na tentativa de não se deixar afogar no mar alteroso que ele por vontade ou culpa própria navega. Mas também me parece que está na moda lançar desafios. Claro que os políticos que fazem este tipo de desafios, sobretudo fora de épocas eleitorais, sabem que eles nunca são aceites e nem sequer eles os desejam. E ainda bem que assim é, senão lá iríamos ter mais umas horas de ataques pessoais e nada de discussão séria de políticas que interessem aos portugueses. É apenas a vontade de mais uns minutos nos ecrãs de televisão ou nas ondas da rádio e umas linhas nos jornais que os leva a tais dislates. Sabe que mais, não por querer ter os meus minutos de fama, que já tive a minha parte, nem para discutir assuntos abstractos, mas para discutir problemas concretos de Portugal e dos portugueses que todos conhecem, menos uma grande parte dos políticos, também me apetecia a desafiar alguns deles. Sei que seria utópico da minha parte pensar nisso. Tenho aqui o meu fórum onde posso expandir os meus pontos de vista e faço-o em qualquer outro, sempre que tenho oportunidade disso, julgando assim estar a cumprir, como em muitos outros aspectos da minha vida, o meu dever de cidadania.

Diz-nos a comunicação social que o transporte dos 230 deputados da residência oficial para a Assembleia da República, local de trabalho, vai custar este ano aos cofres públicos, que é como quem diz aos bolsos de todos nós, mais de 3,26 milhões de euros, o equivalente, em moeda antiga, a 650 mil contos. Certamente que isto, principalmente para aqueles trabalhadores que gastam uma parte muito significativa do seu magro salário em transportes, há-de parecer uma enorme injustiça. Mas nós temos ainda outros parâmetros para analisar a injustiça: o subsídio de transporte dos parlamentares sofreu uma actualização de 2,63 por cento – superior à inflação prevista para este ano, de 2,1 por cento, que serviu de base aos aumentos salariais. Você ouviu algum dos seus representantes no Parlamento, aqueles em quem você votou, reclamar disso? Claro que não. Você também gostaria de ter subsídio de transporte, não é verdade?! Mas você que dá o coiro a trabalhar todos os dias, sem o absentismo vergonhoso de muitos deputados, que é obrigado a sair de casa de madrugada e regressar já noite, sem muitas vezes poder sequer dar um beijo aos filhos, sem lhes ver um sorriso ou uma traquinice, para falar num regionalismo escorreito, não recebe nem a “ponta de um corno”. Os transportes comem-lhe o salário, salário que, ano após ano, vai emagrecendo, porque, ou nem sequer é actualizado ou sobe menos do que a inflação. Mas espere aí pelas próximas campanhas eleitorais que se avizinham e vai ver como eles são pródigos em beijinhos e abraços e se vão derreter em promessas de cuidar dos seus interesses. Cuide-se você, porque se está à espera deles não vai longe.

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Monday, September 15, 2008

Pontos de Vista…15

     

O Secretário de Estado da Protecção Civil, José Miguel Medeiros, afirmou o seguinte: “Hoje, a maneira como combatemos os incêndios em Portugal já não é só sorte”. Percebo o que o senhor secretário de Estado quer dizer, mas em vez do “combatemos”, porque ele não combate incêndios nenhuns, ficava melhor que dissesse “se combatem”. E se o governante admite que hoje já não é só sorte, admite que ela ainda é precisa, como seja chover mais do que seria suposto, as temperaturas serem mais baixas do que o normal, as ignições simultâneas em muito menor número do que em outras épocas, o que tem permitido o combate com muito maior número de meios, quer humanos, quer materiais. A isso pode chamar-se sorte. Parece-me que em tudo na vida, para que haja sucesso, para além da competência, é necessário alguma dose de sorte. Sem o dizer abertamente o que o senhor queria fazer ver é que, fruto da acção do governo, hoje há mais meios, são melhor geridos, há mais profissionalismo. Algumas coisas melhoraram de facto, é bom reconhecê-lo, mas não tanto nem tão bem como os políticos apregoam, até porque quem, no dia a dia, por força do “bichinho” que há muitos anos se lhe meteu no corpo, vai acompanhando o que se passa no combate a incêndios florestais, não deixa de ficar perplexo e chocado com o exagero de meios humanos e materiais que se enviam para alguns, que seriam facilmente extintos pelos corpos de bombeiros locais. E isto só acontece porque realmente, sobretudo nestes dois últimos anos, e ainda bem, os incêndios florestais são bem menores e, como disse atrás, com muito poucas ignições em simultâneo, o que permite o envolvimento, em cada incêndio, de muitos meios. Oxalá que esse tempo não regresse, mas se regressar com todos os corpos de bombeiros das zonas mais florestadas a debaterem-se com vários incêndios ao mesmo tempo, aí é que se verá se a política de combate é verdadeiramente diferente do que era ou não.

O senhor José Miguel Medeiros, sem se dar conta disso, porque a um político nem sequer é exigível que seja inteligente – exige-se-lhe outras coisas que eu me abstenho de referir e de que não gostaria de ser detentor – ofende, com a sua expressão, os bombeiros, sobretudo aqueles que já vêm de outrora, aqueles que porventura o político julga que só apagavam incêndios com sorte. Nunca foi, senhor secretário de Estado. Aliás se o senhor soubesse exactamente como se combatiam, não fazia semelhante afirmação. Com muito menos material do que hoje e mais obsoleto, sem a disponibilidade exagerada de meios aéreos de hoje, que por tão exagerados chegam a dar mais prejuízos no combate do que eficácia, os incêndios eram combatidos com muita coragem, com muita abnegação, com heroísmo, com um enorme capital de experiência adquirido ao longo dos anos e de muitos combates, por indómitos bombeiros que iam ensinando e passando o testemunho aos mais jovens. Eram bombeiros com raça, daqueles que justificaram o “vida por vida”, coisa que hoje vai sendo menos comum. A mística dos bombeiros, os bombeiros míticos que ainda fazem com que os portugueses lhe atribuam o maior grau de confiança, que põem a sua actividade voluntária e generosa acima de tudo - da família, do dinheiro, dos amigos, dos prazeres, das férias, tos tempos de ócio - vai escasseando e muito por culpa de quem tendo por obrigação de lhes estar altamente reconhecido, antes os ignora, despreza, maltrata, dificulta a sua formação e acção, ao invés de facilitar. E assim se vai perdendo um exército generoso, de paz, barato que não reclama salários, nem férias, nem horário de trabalho. Muito também por culpa das estruturas dos próprios bombeiros, que não os têm defendido convenientemente.

Quem não esquece nunca os bombeiros são as classes mais desfavorecidas, aquelas que muitas vezes só neles vêem uma porta aberta para a resolução das suas aflições, as mais diversas, que competiriam a outras entidades solucionar. Bom, é como dizia Niccolo Tommaseo: “A gratidão é uma virtude mais comum nos infelizes do que nos afortunados”.

Aliás, de algum modo desiludido com o caminho que os bombeiros levam, em Portugal, às vezes dou comigo a jurar que me vou desligar definitivamente. Nunca passa de um desabafo interior e momentâneo, porque mais de metade da minha vida ao seu serviço, de alma e coração, obrigam-me a continuar a levantar a voz, enquanto ela me não doer, como diria o poeta, e entender que é necessário. Mas que dói, dói, ver responsáveis nas mais diversas estruturas dos bombeiros, ao invés de as servirem, servirem-se delas, jogando com o poder, seja ele de que nível for, sempre no interesse pessoal, nunca da família Bombeiros de Portugal. Eu estou em crer mesmo que há hoje, nas estruturas dos bombeiros, Liga, Federações, Associações, englobando dirigentes e operacionais, indivíduos infiltrados, sem qualquer afecto pela causa dos bombeiros, mas para terem ali um trampolim para qualquer poder, fazendo o frete ao mesmo poder, não “vestindo a camisola” do clube a que pertencem, exactamente os bombeiros.

Em sintonia com José Miguel Medeiros, Fernando Curto, o presidente, parece-me que vitalício, da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais, curiosamente e talvez paradoxalmente, tendo em conta algumas das suas afirmações, presidente da direcção de uma associação de bombeiros voluntários, diz que “o heroísmo não apaga incêndios”. È verdade, mas sem pretendermos desejar ter mártires ou heróis é bom que se diga que não foi o laxismo, mas o heroísmo de tantos bombeiros, alguns anónimos, voluntários, e também profissionais, que fizeram com que muitos incêndios não tivessem outras consequências mais graves, que fizeram com que muitas pessoas continuassem no rol dos vivos. Não fosse o heroísmo, o profissionalismo e a competência não teriam sido suficientes. Os portugueses não teriam conquistado o que conquistaram, não teriam desbravado os mares, não teriam dado a conhecer ao mundo novos mundos, se não fora o heroísmo de alguns deles.

Sei que cada vez mais temos necessidade de profissionalizar os nossos bombeiros ou, se preferir, temos que ter bombeiros profissionais em todos os nossos quartéis. Pois que venham, o Estado e as autarquias que assumam as suas responsabilidades. As associações e corpos de bombeiros desejam-no. A comunidade cumpre, e bem demais, o seu papel: colabora financeiramente para que as associações cumpram os seus objectivos, fornece elementos seus, para voluntária e graciosamente as dirigirem e integrar os respectivos corpos operacionais. Se tudo isto fosse contabilizado em termos financeiros, representaria uma enorme maquia. Assim sendo, o poder não faz mais do que o seu dever em dotar os diversos corpos de bombeiros com profissionais e mesmo assim nenhum deles se poderia dar ao luxo de prescindir dos seus voluntários e não assim tão poucos. Repare que ainda há corpos de bombeiros voluntários que colocam num incêndio vinte, trinta ou quarenta bombeiros. Imagine que eram todos profissionais. Quanto custariam aos cofres do Estado, ou seja aos bolsos de todos nós?! Muito dinheiro.

Numa parceria entre a Autoridade Nacional de Protecção Civil, ou seja o Estado, e as Câmaras Municipais, estão a ser criadas em alguns corpos de bombeiros, Equipas de Intervenção Permanente, constituídas por cinco bombeiros. Para já em muito poucos concelhos. E espante-se, meu amigo, se não está bem identificado com a problemática dos bombeiros, que são apenas cinco elementos para vinte e quatro horas e, mesmo assim, há Câmaras, cujo Presidente é o responsável máximo concelhio da Protecção Civil, que não estão dispostas a participar em tal parceria. Lamentável. Temos de admitir que mesmo que todos os corpos de bombeiros do país fossem dotados com uma equipa, seria apenas uma miserável colaboração no profissionalismo. Repare que para termos um corpo de bombeiros com uma Equipa de Intervenção Permanente vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana, atendendo a folgas de fins-de-semana, férias e hipotéticas doenças, teríamos necessidade de, pelo menos, vinte e cinco bombeiros. Vangloriarem-se pelo apoio de apenas cinco elementos, e em poucos casos, é simplesmente ridículo.

Infelizmente, dos políticos não se pode esperar muito mais do que demagogia e umas graçolas. Por falar em graçolas, quem diz não gostar das do primeiro-ministro é Nuno Melo, do CDS. Não percebo porquê, se na vida política, nomeadamente no Parlamento a que ele pertence, muitos dos actores não são mais do que meros “palhaços” - sem ofensa para os verdadeiros - ignorantes e estúpidos, a dizerem calinadas e graçolas sem piada. Como diria Arturo Graf: “A sabedoria e a razão falam; a ignorância e o erro ladram”.

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Tuesday, September 9, 2008

Pontos de Vista…14

     

Paulo Portas perdeu completamente a vergonha. Em qualquer agremiação com um mínimo de credibilidade, um presidente que escondesse aos seus parceiros, durante um ano, a demissão de um seu vice-presidente, só mereceria, e possivelmente seria o que aconteceria, um desfecho: olho da rua. No CDS, pelos vistos, não será assim. Alguns companheiros de Conselho Directivo até acham que Portas, com a sua traição – para mim, independentemente das desculpas, é traição -  o fez no interesse do partido e até, ao assumir o erro e desculpar-se, mostrou que é um “bom menino”.  Paupérrimos políticos e pouco sérios. Que confiança é que Portas demonstrou ter nos seus companheiros?! E eles não se sentem?! Diz o povo que “quem não se sente, não é filho de boa gente” e eu acredito. Se Portas tinha interesse
em manter Nobre Guedes no Conselho, porque é que, unido aos seus companheiros, não faziam esse esforço?! Será esta a democracia que Paulo Portas defende, a de um presidente de uma instituição decidir sozinho, escondendo decisões aos seus colegas? E porque seria? Certamente para, em caso de sucesso, recolher, sozinho, os louros de tal empreendimento. Portas e CDS confundem-se, mais propriamente o CDS é de um homem só, servido por um pequeno grupo de reverentes vassalos. Um partido assim, segundo o meu ponto de vista, está condenado ao insucesso. Sem menosprezar a inteligência, a sagacidade política de Paulo Portas, que são sobejamente reconhecidas, parece-me que, com ele ao leme, o CDS não irá longe, o que parece um paradoxo, pois para além de inteligente e sagaz, ele é demagogo, populista, qualidades que normalmente rendem votos. Quem sabe se isso não significa que os portugueses não têm a memória tão curta como normalmente se afirma? Como é que Portas, com tantos telhados de vidro ainda se consegue julgar – sim, porque ele julga – um exemplo de moral, de bons costumes, de boas práticas?

O líder centrista só se aguentará, no meu ponto de vista, porque tem a seu lado, meia dúzia que precisam dele para se manterem na política, porque se merecem, e mais, porque muito provavelmente os partidos que normalmente ocupam o poder, ou seja PS e PSD, o apoiarão, ainda que dissimuladamente, para ele se manter ao leme do partido, porque Portas é muito mais nefasto fora dele, nomeadamente como jornalista, do que como político. A força do jornalista está na pena ou na voz, sobretudo quando elas são venenosas como as do presidente do CDS. A força do político está muito mais na força dos votos que o apoiem e que Portas não tem do que na força das sua voz ou das suas ideias. Cada vez mais o CDS é Paulo Portas. Apenas.

Manuela Ferreira Leite, quebrando o silêncio, e tal como se esperava, abriu a boca e falou. Atacou a Comunicação Social – o bode expiatório dos fracassos de muitos políticos – mas não prescindiu dela e nem irá prescindir. Seria interessante, depois de ouvi-la falar do controlo dos “media”, que algum jornalista lhe perguntasse o que pensava do que se passa na Madeira, a esse propósito, com o seu colega de partido, Alberto João Jardim. E poderia perguntar mesmo se estava esquecida dos tempos em que fez parte dos governos, nomeadamente com Cavaco Silva. Por falar dos tempos em que esteve no governo, seria bom que Manuela Ferreira Leite tivesse a noção de que nem todos portugueses têm a memória curta e por isso recordam-se e bem de que muitas das acusações que fez ao actual governo, ela e seus pares, quando detiveram o poder, fizeram exactamente igual. É o mesmo problema de memória que referia atrás relativamente a Paulo Portas. Parece-me que os políticos, de todos os partidos, sobretudo os que se vão revezando no poder, têm que ter mais atenção ao que dizem para não serem confrontados com as suas contradições. Mesmo a dama tida por serena, nada atreita a linguagem prolixa e bombástica, mais séria, em política, quando se pensa em conquistar o poder, não deixa de ser exactamente igual a todos os outros. Falando muitas ou poucas vezes. Não apresentar alternativas também não é privilégio de Manuela Ferreira Leite. Como qualquer outro político, dizer que fará o oposto do governo, é linguagem trivial. Afinal a líder laranja não traz novidade nenhuma à política. É pena, mas, sinceramente, eu também não o esperava.

O INEM, pelas piores razões e algumas que têm a ver com vidas humanas, continua a “andar nas bocas do mundo”. Desde que o INEM foi criado, sempre foi público – correspondendo à verdade ou não – que a Instituição, ao contrário de outras, com funções de igual relevo, lidava com muito dinheiro, isto é, não tinha quaisquer dificuldades económicas para a resolução dos seus problemas. Pelos vistos a abastança continua, ao ponto de se fazerem contratações milionárias para fazer assessorias à presidência, com profissionais já a desempenharem essas funções. É pena ser assim e não haver dinheiro para aumentar o preço do quilómetro às ambulâncias dos bombeiros, que têm de continuar a pedir para não pararem de desempenhar esse serviço social de enorme valia que, sobretudo os que vivem nos meios rurais mais pobres dão o verdadeiro valor. Apesar da proclamada fartura de dinheiro para, provavelmente “tachos” para amigos ou incondicionais, indefectíveis servidores, há várias ambulâncias da instituição, em corpos de bombeiros a sul do Tejo, avariadas que não são arranjadas, ao que dizem, por falta de dinheiro, como também há prémios de serviço que estão por pagar a bombeiros desde Fevereiro. Inconcebível, não acha?

E já agora, o que fará uma engenheira florestal no INEM?

Ninguém, de sã consciência, negará que Vítor Baía foi um excelente guarda-redes, mesmo um dos melhores que Portugal teve. O facto de ter muitos ou poucos títulos não diz tudo, porque há excelentes jogadores que por diversas razões, inclusive pelos clubes que representaram, não têm nem grandes nem muitos títulos no currículo. Dou apenas dois exemplos: há jogadores de futebol bem menos importantes que o foram Rui Costa e João Pinto que amealharam mais títulos. Bom, mas Vítor Baía, para além da sua inegável categoria, ainda se pode dar ao luxo de exibir os títulos. Ele poderia muito bem ter servido a selecção nacional no Euro 2004. Certamente muitos e eu próprio achamos que sim. Mas tal como Baía, vários outros atletas, jogando noutras posições, poderiam, em seu entender e de muito boa gente, ter sido chamados à selecção de todos nós. É legítimo. Nem todos concordarão com os actuais seleccionados por Carlos Queirós. Em vez de dois, três ou quatro deles, poderiam ter sido substituídos por outros dois, três ou quatro. Sempre assim será. O que Vítor Baía, nem qualquer outro jogador, tem é legitimidade para afirmar que o seleccionador lhe devia uma satisfação, por não o convocar. Era só o que faltava, o seleccionador andar a dar justificações a todos os atletas que se julgassem com capacidade para representar a selecção! Seriam, inevitavelmente, dezenas deles e, nem sequer tenho dúvidas de que alguns desempenhariam bem o seu papel. Temos todos que meter na cabeça que a responsabilidade de escolher é só de um e nem pode ser de outra maneira. Carlos Queirós, decidiu não convocar Ricardo – muitos já se esqueceram das coisas boas que fez -  para a baliza de Portugal. È a sua maneira de ver. Goste-se ou não, ele tem que trabalhar com aqueles que julga em melhores condições. Ricardo poderá estar triste por não ter merecido a confiança de Queirós, como outros o estarão, mas nem ele nem qualquer outro têm legitimidade para exigir que o seleccionador se justifique. Vítor Baía, a quem o futebol português muito deve e lhe deve estar grato, não deveria ter enveredado por exigir aquilo para que não tinha qualquer legitimidade. É pena. E se Scolari, agora que está fora da selecção, decidiu, dizer porque razão não escolhera Baia, não se pode depreender que isso signifique cobardia. Para tudo há um tempo próprio, até para justificar qualquer coisa. Ao leme da selecção, o pior que Scolari faria era dar justificações aos atletas, quaisquer que eles fossem, sobre as suas escolhas.

E já que estamos a falar de futebol, é lamentável que os dirigentes dos clubes continuem a gastar dinheiro graúdo na aquisição de jogadores tão levianamente. Na época passada, o Benfica adquiriu Makukula pata reforçar o seu ataque. Agora nem o dispensou, nem o incluiu no lote dos que vão disputar a Taça UEFA. O Benfica parece querer transformar-se na Santa Casa da Misericórdia: mantém Mantorras, praticamente sem qualquer utilidade, como mantém alguns técnicos que não se sabe bem o que fazem. E não ganham o salário mínimo. É o que temos.

Mais do que fruto da assustadora e altamente mediatizada criminalidade violenta, continuamos a ser vítimas de outros crimes, digo eu, ainda que muitos não os considerem como tal: as piscinas continuam a matar crianças inocentes, continuam a desabar prédios, a morrer trabalhadores na construção civil, a morrer-se nas estradas. Em todo o mundo há gente que morre assim. Mas para um país dito civilizado é demais. Quando é que Portugal terá uma verdadeira política de segurança em todas as vertentes?

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Monday, September 1, 2008

Pontos de Vista…13

     

Já o referi por diversas vezes, mas volto a fazê-lo. O tempo tem-se encarregado de justificar muitos dos meus pontos de vista, o que, em abono da verdade, nem sempre me serve de consolação, porque seria bem melhor para todos nós que se verificasse o contrário. Mas factos são factos, não os podemos eliminar, o que podemos é interpretá-los de uma ou outra forma.

A Comunicação Social veicula os factos, os acontecimentos. Ela não é a sua fazedora, mas a sua transmissora. Nem sempre os transmite com exactidão. Para isso poderíamos apontar diversas razões, a última das quais, provavelmente mesmo sem significado, a falta de seriedade dos seus profissionais. Mas há de facto várias razões para que a notícia, algumas vezes, não seja tão exacta com seria desejável. Sem pretender estabelecer qualquer espécie de graduação em termos de importância, poderemos afirmar que a menor exactidão se prende com a necessidade de informar de imediato, por força da feroz concorrência, o que faz com que a recolha seja feita, em primeira análise, um pouco à pressa; a falta de preparação de alguns jornalistas em determinadas áreas, quando as notícias envolvem aspectos técnicos; colheita de informação em fontes erradas; comunicação defeituosa entre emissor e receptor, etc. Depois, nós interpretamos de acordo com a nossa formação, a nossa cultura, a nossa sensibilidade, a nossa filosofia de vida e até a nossa ideologia política. Haverá sempre vários juízos, o que não vem mal nenhum ao mundo, antes pelo contrário, é normalíssimo. O mal é quando nós corremos o risco de formular juízos sobre acontecimentos que nos foram veiculados pela comunicação social, que não correspondem exactamente ao que aconteceu. Devo dizer com toda a seriedade que muitas vezes penso no risco que corro ao fazer os meus comentários, as minhas críticas, digamos, ao emitir os meus pontos de vista. Procuro ser cuidadoso, mas sei que já tenho encontrado relatos sobre acontecimentos que têm a ver com áreas que domino melhor, com muitas asneiras. Seja como for, sou honesto nos meus comentários, nas minhas reflexões, sem preconceitos, sem intenções depreciativas, sem juízos pré-concebidos, como julgo que é a maioria daqueles que dão corpo às notícias. Eu reflicto sobre ideias, pensamentos; interpreto, comento decisões, acontecimentos. E veiculo tudo isso neste e noutros fóruns.

Disse atrás que as interpretações de acontecimentos podem ter várias cambiantes, variar de pessoa para pessoa, mesmo sendo sobre o mesmo acontecimento. No que não deve existir multiplicidade de interpretações é relativamente às leis, que devem ser construídas com tal cuidado que não permitam duas interpretações diferentes. Infelizmente, sabemos que nem sempre é assim e por isso estamos prenhes de legislação que mesmo os mais “experts” na matéria interpretam de forma diferente. Mas há leis e seu articulado que só podem deixar dúvidas a quem não usa a cabeça convenientemente, não tem formação adequada para cumprir as tarefas que lhe estão destinadas. Isso é gravíssimo quando se trata de agentes que têm o poder de fazer cumprir as leis e não as conhecem verdadeiramente. Infelizmente isso verifica-se, o que é extremamente lamentável pelos incómodos que causa, pela descredibilização da autoridade e até porque pode levar a falta de respeito à mesma autoridade. Vou socorrer-me de um caso verificado há uns dias atrás num combate a um incêndio em Valpaços, em que um graduado da GNR, desconhecedor da lei, poderia ter causado um conflito grave com os bombeiros e mesmo, se o comandante dos bombeiros, responsável pelas operações não tivesse a força suficiente para “mandar às malvas” a opinião do dito graduado e continuasse o seu trabalho, combatendo com as armas que a lei lhe faculta e que ele entendia como mais convenientes para extinguir o incêndio, ser responsável por uma tragédia. Segundo os bombeiros de Cerva, se não se efectuasse o contrafogo, muito provavelmente várias casas seriam atingidas. Não sei se seria exactamente assim ou não, mas não tenho quaisquer dúvidas que enquanto comandante de bombeiros, com os homens que comandava, poupámos às chamas milhares de hectares de floresta e dezenas de casas, pelo uso do contrafogo. Foi exactamente o contrafogo que fez com que o GNR mostrasse à saciedade que não conhece a lei, o que significa que não teve formação suficiente e, portanto, não deveria desempenhar essa missão. Se o agente da autoridade em questão conhecesse o Decreto-Lei n.º 124/2006, de 28 de Junho e soubesse interpretar convenientemente o seu articulado, o que nem é nada difícil, no caso concreto, veria que no seu artigo 3.º, alínea d) do número 1 se pode ler: “Contrafogo” a técnica que consiste em queimar vegetação, contra o vento, num local para onde se dirige o incêndio, destinando-se a diminuir a sua intensidade, facilitando o seu domínio e extinção; Ora se há artigo bem explícito é este e nem sequer se pode pôr a questão de quem tem capacidade para queimar ou não, porque o artigo fala de incêndio e quem comanda os incêndios são os bombeiros e mais nenhuma outra autoridade. O que o agente da GNR fez foi confusão com “fogo controlado” que é referido no mesmo decreto e nada tem a ver com incêndios, e esse sim, é feito sob orientação e responsabilidade de técnicos credenciados para o efeito e cuja realização só é permitida fora do período crítico e desde que o índice temporal de incêndio seja inferior ao nível elevado. No fogo controlado a GNR pode e deve actuar se não estiver a ser cumprida a legislação. Quanto ao contrafogo, repito, que é usado em incêndio apenas, a responsabilidade é exclusiva dos bombeiros.

No mesmo decreto e no seu artigo 2.º pode ler-se que à Guarda Nacional Republicana cabe a coordenação das acções de prevenção relativas à vertente da vigilância, detecção e fiscalização e à Autoridade Nacional de Protecção Civil, portanto bombeiros, a coordenação das acções de combate, rescaldo e vigilância pós-incêndio.

Bom, e se aplicasse ao referido elemento da GNR a Lei nº 59/2007, de 4 de Setembro, em que numa das suas alíneas do artigo 274 se diz que “quem impedir o combate aos incêndios é punido com pena de prisão de um a oito anos?! Talvez fosse a forma de aprenderem definitivamente.

Eu lamento profundamente que isto continue a acontecer, até porque já no ano transacto se verificaram casos idênticos na nossa região e, eu próprio chamei a atenção para o problema em vários fóruns. Melhor seria que os agentes da GNR, ao invés de fiscalizarem bombeiros no exercício de combate a incêndios para o que não têm competência, criassem condições eficazes para o combate, impedindo a proximidade de veículos e pessoas, actuando junto aos depósitos de água para que helicópteros e autotanques não sejam impedidos de abastecer, etc.

Bom, já que estamos a falar da problemática dos incêndios florestais que, felizmente, este ano não nos tem apoquentado muito, até porque, para além de outras razões, o Verão só existiu no calendário, vou-me debruçar sobre os kits de incêndios a que algumas freguesias fizeram questão de se candidatarem. Devo dizer, desde já, que é uma medida, segundo o meu ponto de vista, de pouco interesse ou nenhum. Será mesmo, em alguns casos, uma arma perigosa. Isso levar-nos-ia a outra discussão na qual eu não me importaria de participar. Por agora vou basear-me numa notícia de há dias em que se podia ler que freguesias do concelho de Montalegre vão receber kits de incêndios no próximo dia 20 de Setembro. Sim, eu disse dia 20 de Setembro. No fim do Verão. É o que temos. Mas também se for para fazer o mesmo que fazem outros
em algumas Juntas de freguesia que já os receberam há meses, isto é, nada, chegam muito a tempo. Há Juntas de Freguesia que os têm parados, pois nem têm viatura nem pessoal disponível. Outras entregaram-nos aos bombeiros, numa de pré-campanha eleitoral, havendo corpos de bombeiros que não tiveram a sensatez de não os aceitar, até porque não lhes não dando uso, como é o caso, estão a dar cobertura à inútil candidatura da Junta de Freguesia. Há melhores formas de gastar o dinheiro dos nossos impostos nem que meta, igualmente, eleitoralismo pelo meio.

Ah, por falar em bombeiros, não devo esquecer o resultado de um inquérito que uma empresa realizou em 21 países europeus, entre eles Portugal, que inquiria a confiança que os cidadãos atribuíam a vinte profissões. Os portugueses elegeram os bombeiros como os mais dignos de confiança (94%) e os políticos os menos, com (14%). Até parece que votei, mas não, ninguém me inquiriu. E sendo assim, proponho os bombeiros ao poder e políticos a faxineiros e não digo a apagar fogos, porque corríamos o risco de morrermos todos queimados.

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