Tuesday, October 28, 2008

Pontos de Vista…21

     

Para quem gosta de reflectir sobre a linguagem dos que exercem acção política, é interessante constatar como a maioria deles fala dos maus exemplos de outros políticos, sejam do seu quadrante, sejam de outros, como se eles estivessem isentos de tais pecados. Conhecendo alguns como conheço e ouvindo-os falar assim, só poderia ficar estupefacto com tamanha desfaçatez se isso ainda fosse alguma novidade para mim. Sempre fui muito atento ao que as pessoas dizem e aos seus comportamentos. E gosto de reflectir sobre isso. Analisando as palavras, os gestos, as atitudes dos outros com um sentido crítico positivo, poderemos fazer um juízo muito mais sério acerca dos nossos próprios comportamentos, evitando deixar-nos contagiar pelo que entendermos como negativo, até porque como disse Francis Bacon “os comportamentos, como algumas doenças, são contagiosos”. Deixemo-nos contagiar pelos bons, “vacinemo-nos” contra os maus.

Voltando aos políticos, há dias uma conhecida e destacada política de um dos principais partidos políticos portugueses, numa crónica que assina num jornal diário, desancava naqueles políticos que, fruto do seu comportamento, contribuíam para a falta de credibilidade na política e nos políticos. Provavelmente, muito melhor do que eu o diria, até pelo seu melhor conhecimento pessoal dos seus camaradas de ofício, as suas palavras, no meu ponto de vista, eram certeiras, mereciam os meus aplausos. Só que eu acho que tais palavras assentavam a ela própria como uma luva. Foi um grande político, concordasse-se com a sua doutrina ou não, Nikita Kruschev, que afirmou que “os políticos são sempre iguais. Prometem construir uma ponte mesmo num sítio onde não há rio.”

É também interessante estarmos atentos ao comportamento dos políticos, dentro dos períodos eleitorais e fora deles e estabelecermos comparações. Não é preciso nenhuma atenção especial, nem ser-se nenhum superdotado para se concluir como os seus discursos, os seus gestos, a afabilidade são diferentes num e noutro período. Aqui poderia recordar as palavras de Mackenzie King “as promessas que os políticos fizeram ontem são os impostos de hoje.”

A você, que porventura tem algumas dúvidas em relação àquilo que eu penso dos políticos, lanço-lhe um desafio: comece, desde já, a observar atentamente os políticos que conhece. Se não confiar na sua memória, registe, por escrito, os dados mais relevantes que for observando, o que for ouvindo. No novo ano que se aproxima, vamos ter vários actos eleitorais. Não se esqueça de, nesses períodos, ouvir com muita atenção e observar o comportamento dos mesmos políticos que agora começa a estudar. Registe. Terminados os diversos actos, atente nos registos que fez, compare, reflicta e conclua. Surpreendido talvez não fique como eu já não fico, mas pelo menos fica com a memória avivada relativamente à sem-vergonhice, como diriam os nossos irmãos brasileiros, de muita dessa gente. E, se um dia tiver necessidade e achar que é caso disso, confronte-a com os factos. Também lhe garanto que essa gente continuará sem pingo de vergonha.

Outra coisa que me choca, sobretudo na política indígena, é a falta de trabalho, por parte das comissões políticas, relativamente à formação, à preparação dos seus militantes para poderem exercer cargos políticos a que venham a candidatar-se. O mais triste disso tudo é que eu chego a ficar com a impressão que os líderes, nomeadamente os concelhios, têm interesse em que assim seja, isto é, quanto menos informados estiverem, mais facilmente são domados, mais subservientes serão, por falta de conhecimentos. Mais triste ainda, é eu pensar que, estando nós já mais de três décadas de distância do antigo regime, ainda há procedimentos semelhantes. Salazar, para melhor garantir a ditadura, queria o povo ignorante. Quem haveria de dizer, que, passados estes anos todos, mesmo com partidos que se dizem os grandes precursores da democracia, se utilizam ainda os mesmos métodos de Salazar, para que os líderes governem sem contestação interna. Líderes assim, hoje como dantes, gostam de ter com eles gente ignorante, sobretudo que não pense; não gostam de gente que tenha cérebro, que tenha coluna vertebral. Depois acontece o que não deveria acontecer: chega-se à época de construir as diversas listas autárquicas e muitas delas são uma autêntica vergonha, com gente que não tem o mínimo perfil para exercer qualquer cargo político, que depois de eleita não tem uma palavra, um pensamento seu sobre nada. Muitas vezes, por falta de trabalho de casa, atempado, oportuno, nem sequer conseguem arranjar cabeças de lista às assembleias de freguesia com o mínimo de credibilidade. Aparecem-nos alguns, que, como costuma dizer o povo “valha-nos Deus”. Veremos o que nos vai apresentar 2009. Cá por mim, penso que, salvo uma ou outra excepção que será sempre de louvar, será mais do mesmo.

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Há legislação que necessita ser produzida e, pelas mais diversas razões, nomeadamente por falta de empenho dos políticos, por madracice, por falta de vontade política, não se produz. E há leis que se fazem e demoram anos a ser regulamentadas; há mesmo outras que foram aprovadas, que foram publicadas e que nunca chegaram a surtir qualquer efeito, porque nunca foram regulamentadas e entretanto foram revogadas. É uma vergonha. No entanto, legisla-se quando não há necessidade disso e é até má legislação. O governo querer admitir que os partidos possam receber subsídios através de dinheiro vivo é um dos exemplos daquilo que se não deve fazer em termos de lei, até porque, ao contrário de melhorar a democracia, lhe retira transparência.

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A ser verdade aquilo que a comunicação social tem veiculado acerca das refeições, viagens e estadias principescas que ex-administradores da Gebalis faziam à custa do erário público, dá que pensar como há pessoas sem o mínimo de escrúpulos, sem vergonha de delapidar o dinheiro de todos nós em proveito próprio, dos familiares e dos amigos. Julgados e condenados, se provados os seus crimes, não sei qual a moldura penal para isso, mas deveriam ser uns bons anos de prisão. Se assim não for, mude-se a lei, ainda que não seja para estes, que sirva para outros eventuais prevaricadores. Isto não é gente que rouba para matar a fome aos filhos. Se isto só por si é demasiado mau, o pior é nós imaginarmos o que poderá acontecer pelo país em centenas de empresas municipais que existem, algumas, ao que parece, que servem para pouco mais do que dar uns “tachos” ou mesmo mais uns “tachos” a amigos, familiares ou incondicionais subservientes políticos. Tanto como a crise económica que atravessa o mundo ou mais do que a própria crise, este tipo de gente é que ajuda a destruir o país e a perder a confiança nas instituições. “Nada basta àquele que não fica satisfeito com pouco”.

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Tuesday, October 21, 2008

Pontos de Vista…20

     

Apesar das portas que se nos abriram com as novas tecnologias, tenho saudades das cartas que outrora se escreviam: de amor, de amizade, de saudade, de cortesia, formais ou informais, particulares ou oficiais e que faziam com que se escrevesse melhor do que hoje. É pena que se tenha perdido esse magnífico hábito, por força daquilo a que chamamos progresso, mas nem sempre o que traz é bom.

Há um amigo meu, brasileiro, que conheci no seu país, com fortes ligações aos bombeiros da sua região, que, apaixonado pela epistolografia, decidiu escrever um livro sobre as cartas. Na altura, sendo ainda apenas um desejo, um objectivo, pediu-me que lhe escrevesse uma carta em que lhe falasse principalmente dos carteiros portugueses: como eram, como são. Satisfiz o seu pedido, escrevendo-lhe a carta, onde transcrevi um pequeno trecho do nosso Latino Coelho que nos retrata fidedignamente o carteiro do seu tempo. Hoje o livro do meu amigo já não é um mero desejo, mas uma realidade, porque foi publicado em 2006 por uma editora de S. Paulo, com o título “Cartas e suas histórias”. Nesse livro está integrada a minha carta, obviamente com a nossa ortografia, que ele e eu próprio fizemos questão de manter. Aliás, numa pequena missiva de agradecimento que me enviara a acompanhar o seu livro ele referia: “Foi uma trabalheira convencer os revisores do texto a não alterarem a ortografia de Portugal”. Com o polémico novo acordo ortográfico em vigor, essa preocupação já não teria sentido.

A demonstrar o valor que o meu amigo Overlac Menezes – é esse o seu nome - dá às cartas, diz-me ele ainda: “o meu livro visa também encorajar as crianças a escrever cartas, um problema sério que é a redacção da Língua Portuguesa”. Como se pode verificar, a questão de escrever mal é um problema de aquém e além-mar.

Na minha carta que consta do referido livro, como já disse, eu escrevia, a determinada altura: “Já agora, sem pretender seguir qualquer rumo predefinido nesta carta, antes fazê-la consoante as ideias forem brotando, devo confessar-lhe que, infelizmente, desde há muito, me desabituei de escrever cartas, exceptuando as de carácter oficial, que a tanto era obrigado. Todavia, isto é um paradoxo, na medida em que eu sempre defendi e continuo a defender que a escrita de cartas é um magnífico exercício literário que nunca se deveria perder, antes incentivar e praticar com a maior assiduidade possível. Enfim, a vida tem destes e muitos outros paradoxos. Habituamo-nos a estabelecer todos os contactos por telefone, mais propriamente o telemóvel e via internet e abstemo-nos de escrever cartas. Reconheço que é pena.” Fim de transcrição.

Devo confessar que, embora tenha mais propensão para olhar para o futuro do que para o passado, sinto alguma nostalgia do tempo em que escrevia centenas e centenas de cartas, sem atraiçoar o meu pensamento, a minha consciência, mas sempre na busca de melhorar a redacção. Sobretudo na maior parte do tempo em que cumpri serviço militar, e foram mais de três anos, escrevi diariamente, inclusive sábados e domingos, várias cartas, algumas com diversas folhas. Era praticamente a nossa única forma de contacto com as pessoas queridas, quando estávamos ausentes, às vezes por longo tempo, até porque nem os meios de transporte nem as vias de comunicação tinham nada a ver com o que são hoje.

Confesso-lhe que ao iniciar estes meus pontos de vista não me passava pela cabeça dissertar sobre as epístolas, mas antes sobre o uso e abuso da internet. Desviei-me para as cartas, como muitas outras vezes me desvio para outros assuntos que nada têm a ver com a minha ideia inicial. É dar rédeas à volatilidade do pensamento.

Hoje, ao ligarmos o computador, ao navegarmos na internet, o mundo escancara-nos as portas. É uma parte substancial da vastidão do conhecimento que está ali à mercê de um simples clique. Mas na internet nós temos oportunidade de conhecer pessoas e seus pensamentos e podemos ainda surpreender-nos positiva ou negativamente com algumas pessoas que conhecemos e de quem temos um determinado conceito formado.

Não sei se sou eu que tenho mau feitio, se sou exigente, se sou mau analista, o que é certo é que se algumas pessoas me surpreendem positivamente, há uma grande parte delas que o fazem pela negativa. Farto-me de ver gente malandra, parasita, a dar-se ares de trabalhadora; farto-me de ver gente sem pingo de ética a dar-se ares de grande exemplo de virtudes morais; farto-me de ver gente invejosa a dar-se ares de solidária; farto-me de ver gente traiçoeira a dar-se ares de muito leal; farto-me de ver gente irresponsável a dar-se ares de muito responsável; farto-me de ver gente hipócrita, mentirosa, covarde, insolente. A internet é de facto uma extraordinária arma, de dois gumes, é certo, mas indispensável nos tempos que correm. Utilizo-a diariamente, salvo raras excepções e nela, através do que escrevo, me mostro tal como sou, incapaz de escrever algo que não fosse capaz de dizer de viva voz em frente de qualquer pessoa e de usar o anonimato que me prezo de nunca ter utilizado em centenas e centenas de escritos que publiquei ao longo de muitos anos. Por isso, apesar dos referidos aspectos negativos, de alguns a utilizarem para fins inconfessáveis, de serem criminosos utilizadores, eu aplaudo a internet.

Recordo aqui o provérbio persa: “ Duas coisas indicam fraqueza: calar-se quando é preciso falar e falar quando é preciso calar-se”.

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Não obstante a crise económica que, à semelhança do resto do mundo, nos atinge, há por aí muitas pessoas que se não vivem melhor é porque são parasitas, malandros, se habituaram a viver à custa de subsídios ou esmolas de vizinhos ou amigos. Chega a ser pecaminoso, criminoso, dar esmolas a parasitas, contribuindo, desse modo para que se perpetue a malandrice e não arranjem maneira de trabalhar. Melhor acção é “ensinar a pescar do que dar o peixe.” Há pessoas, no entanto, que ao invés de contribuírem para retirar as pessoas da indolência, através de palavras ainda que duras e acções que as possam levar a bom porto, percorrem o caminho mais fácil, continuando a distribuir uns trocados, satisfazendo o seu ego e autoproclamando-se de pessoas generosas. Pobres presunçosas.

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Operários da construção civil continuam a morrer nas estradas da nossa vizinha Espanha. Há que fazer alguma coisa junto dos patrões e operários. Não é admissível que se tenha de ouvir dizer que desde há muito tempo, todas as mortes nas estradas de determinado ponto da Galiza, são de portugueses. Esta região dos vales do Paiva, Tâmega e Sousa está a encher-se de viúvas jovens e órfãos. Atrever-me-ei a dizer que por este andar, um dia destes temos que recordar mais mortos desta região nas estradas espanholas do que na guerra das ex-colónias.

Triste é também a constatação que a maioria dos acidentes, portanto das mortes, é da (ir)responsabilidade dos motoristas portugueses.

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Tuesday, October 14, 2008

Pontos de Vista…19

     

Devemos levar todas as coisas a sério, mesmo o humor, mas nenhuma justifica que façamos uma tragédia. Não podemos ignorar que a vida não é feita apenas de coisas boas. Em muitas pessoas talvez até se possam contabilizar mais as más do que as boas. De qualquer forma é a capacidade que cada um de nós tem de reagir às contrariedades, aos infortúnios, que faz de nós fortes ou fracos. Ao homem, esse animal que foi dotado de uma inteligência superior a todos os outros, não se deveriam permitir fraquezas. Mas também não nos podemos esquecer que a mente por vezes é muito mais frágil do que o físico e é ela quem o comanda, quem orienta os sentidos. Depois há as expectativas que cada um de nós cria. Por formação, por educação, por causas genéticas, muitas vezes esperamos da vida muito mais do que aquilo que ela nos pode dar ou daquilo que nós próprios fizemos por merecer e isso condiciona fortemente o nosso comportamento.

Há pessoas que não mudam nunca o seu comportamento, por mais que se tente educá-las, chamá-las à razão, porque no dizer de um provérbio árabe “os ouvidos de nada servem para um cérebro cego”.

Tendo ainda a ver com comportamento e não me imaginando a respeitar qualquer disciplina partidária, até poderia compreender perfeitamente muitas das posições que Manuel Alegre tem tomado, na sua actividade política. Tenho alguma simpatia por Manuel Alegre, pelo poeta que é, por algumas das posições que defende. Poderia até estar a seu lado na defesa de muitas das suas convicções que também perfilho, mas se ele não vivesse todos estes anos à sombra do Partido Socialista, se desencadeasse as suas ideias à margem de qualquer partido. Poderão dizer-me que Alegre é uma figura de referência do Partido Socialista, que ajudou a crescer o partido, etc. É verdade, como verdade é que, para além da sua actividade poética e política, esta quase toda como parlamentar, não se conhece praticamente nada de relevo que tenha feito. Eu, que me quero verdadeiramente livre, que quero dizer o que penso sempre e em qualquer fórum, não o conseguiria, penso eu, se tivesse qualquer militância partidária. Explico melhor: entendo que os partidos políticos são indispensáveis à democracia e, para que eles funcionem, é necessário que tenham militantes. Só que, num partido, como numa qualquer associação, as diferentes opiniões devem coexistir, devem ser discutidas abertamente, em plena liberdade, mas na hora de decidir deve prevalecer a vontade da maioria que todos devem respeitar. Se alguns, vencidas as suas ideias, não respeitam as ideias maioritárias, enfraquecem os partidos, as associações e o melhor que devem fazer é desligarem-se. Manuel Alegre, talvez ainda não se tendo conseguido libertar dos tempos em que era do contra, e ainda bem, parece querer continuar a ser sempre do contra, ainda que seja o seu próprio partido, cuja doutrina ele perfilha, penso eu, ou estaria noutra onda. O deputado-poeta já foi candidato a líder do seu partido. Seria interessante saber o que faria, se tivesse sido eleito e houvesse um ou mais elementos do partido a criticar pública e frequentemente as orientações do mesmo partido e a reunir com elementos da oposição à revelia da liderança. Aliás, a sua candidatura a Belém, contra o partido, embora com a mesma legitimidade de qualquer português que reunisse condições para tal, sem se desligar do partido, nem antes nem depois da candidatura, a mim surpreende-me. Segundo o meu ponto de vista, seria o mínimo que se poderia exigir. Mas não, sendo muitas vezes mais pernicioso que a própria oposição lá continua, certamente porque, para além da poesia, já não consegue fazer mais nada do que ser deputado para sobreviver. E os responsáveis do PS, por hipocrisia, por um lado, por receio de dividir o partido, por outro, fingem que está tudo bem, que isso é sinal de pluralismo interno, que é o que todos dizem, quando surgem situações do género, excepto o Partido Comunista, que resolve situações idênticas de forma seguramente condenável, mas menos hipócrita.

Manuel Alegre foi um lutador antifascista, a quem, como todos os que o foram, deveremos estar gratos, mas ele, simultaneamente, faz-me recordar os tempos logo a seguir à Revolução de Abril em que todos os que tinham sido presos pela PIDE eram heróis, eram os bons, só eles é que tinham valor e todos aqueles que nunca o tinham sido, e, porventura, serviram como dirigentes, instituições do antigo regime, eram fascistas. Infelizmente, passadas mais de três décadas sobre a queda da ditadura, há algumas pessoas que, pretendendo demonstrar que eram incapazes de ter determinadas práticas, tidas como próprias do salazarismo, mas que hoje existem com a mesma evidência, proclamam aos quatro ventos, com petulância, “eu até fui preso ou perseguido pela PIDE”, como se isso fosse uma garantia de idoneidade, honestidade, de qualquer tipo de superioridade. Nada mais falso. Há muitas pessoas que nunca foram presas nem perseguidas pela polícia política e foram e são cidadãos exemplares, em todos os capítulos, que deram e dão muito à comunidade, ao país. Por outro lado há gente que foi presa, perseguida e é corrupta, vigarista, trauliteira. Como nos outros também há. Já passou tempo demais sobre a Revolução, já passou tempo mais do que suficiente para que se deixasse de rotular alguém pelas perseguições ou favores que teve ou não teve até 24 de Abril. E se é mau rotular as pessoas de acordo com esses factores, é feio, muito feio, muito atrevimento, alguém utilizar uma perseguição, ou mesmo prisão, por motivos políticos como um galardão que o ponha a salvo de quaisquer suspeitas e/ou para continuar a sobreviver politicamente.

Assim vai a política à portuguesa. Parece-me que uma grande parte daqueles que desenvolvem acção política em Portugal, nos mais diversos quadrantes ou escalões, o fazem muito mais por interesses pessoais ou de grupo - mais daqueles do que deste - do que por verdadeiras convicções. E se alguns, ao iniciarem as suas carreiras se moviam por convicções, à medida que se foram entranhando na “ratice” da política, foram-nas perdendo, lutando, muitas vezes sem escrúpulos, pelos referidos interesses. E, tal como disse Francesc Pi i Margall, “as convicções políticas são como a virgindade: uma vez perdidas, não se recuperam”. Se tivéssemos algumas dúvidas relativamente à perda de convicções, ou talvez mais correctamente, ao menosprezo pelas convicções em favor dos interesses, bastaria verificarmos no rol dos que conhecemos pessoalmente ou através da comunicação social, quantos já mudaram de partido, alguns por diversas vezes. É evidente que se costuma dizer que “só os burros é que não mudam”, mas também não muito saudável que se “mude como o vento”.

Tinha razão Louis Dumur quando dizia que “a política é a arte de se servir dos homens fazendo-os crer que os serve a eles”. É exactamente aquilo que alguns unicamente pretendem: servir-se dos outros.   

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Friday, October 10, 2008

Pontos de Vista…18

     

Disse Horácio que “ a virtude dos pais é um grande dote”. Infortunadas crianças que não usufruem de dotes materiais e muito menos encontram nos pais uma virtude de que se possam orgulhar, antes, muito provavelmente, sentirão vergonha dos pais que têm. Há gente com sorte e gente com pouca sorte. O mundo é feito assim: de contrastes, de paradoxos, de injustiças, em que inúmeras vezes, o sofredor é o justo, o imaculado e feliz, aparentemente, pelo menos, é o pecador.

Há indivíduos que fazem filhos, ou antes, praticaram, irresponsavelmente, um acto sexual, um mero exercício de prazer carnal, que deu origem a um ser que teve a pouca sorte de, por força desse acto em que apenas a satisfação da carne esteve presente na mente, sem nunca curar de pensar nas consequências, ser filho de tão imprudentes progenitores. Não viria grande mal se, tomada consciência da consequência da responsabilidade, despertassem para os seus deveres, adquirissem garra, vontade de trabalhar para fazer crescer aquilo a que deram vida, cumprindo assim as suas obrigações de pais, para que aqueles que são sangue do seu sangue, se desenvolvam saudáveis e com afecto à sombra da “árvore” da qual são “fruto”. Mas não, lançaram-nos no mundo e vivem despreocupadamente sem quererem saber do que aconteceria a esse ser inocente se não tivesse um dos progenitores, embora meeiro no pecado original, mas que soube assumir a culpa e redimir-se, cuidando da criança, com apoio dos avós e/ou outros familiares. Pais com sorte, embora sem escrúpulos, que fazem os filhos e têm quem lhos crie. Filhos sem sorte por serem filhos de tais pais, mas simultaneamente com sorte por terem quem os ampare, proteja e lhes dê afecto, ainda que não existam laços de sangue. Talvez por isso é que Giovani Boccacio disse que “os laços da amizade são mais estreitos que os laços de sangue”.

Nem a existência desses pequenos seres, os melhores do mundo, fazem esses pais tomar consciência, acordar para a realidade e trabalharem para si, para os filhos, deixando de parasitar e fazendo com que esses mesmos filhos, mais tarde, para além de não se sentirem devedores de nada aos pais, ainda, ao invés, de sentirem algum orgulho, sintam vergonha. São pais que não coram, o que é mau, porque como diz Mark Twain “o homem é o único animal que cora ou que deveria corar”.

Poderemos inferir daqui que não bastam os laços de sangue para que se construa uma família. A minha verdadeira família é constituída por todos aqueles que me querem bem e eu retribuo e nesses se incluem, obviamente, alguns que têm laços de sangue e muitos outros que os não têm, mas têm os da amizade. E há alguns que estando ligados por laços de sangue, não os contabilizo na família, porque lhes mingam os laços da amizade, sendo que estes são mais importantes do que aqueles se não forem acompanhados por estes.

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Fartamo-nos de dizer mal da justiça, porque, ou não entendemos ou estamos mesmo certos de que funciona mal. Ainda há dois ou três dias uma magistrada do Ministério Público mandou para casa um gang armado, suspeito de assaltos e com todos os seus elementos já cadastrados. Temos dificuldade em aceitar isto. Apesar de tudo, de vez em quando surgem notícias que nos dão algum alento e é de elementar justiça que se divulguem.

Alberto João Jardim já nos habituou à sua grosseria, que outros preferem classificar de outras formas. O que ele é, de facto, é mal-educado. Como tem uma série de lacaios que vivem à sua sombra, outros que precisam dos votos que ele, de forma pouco democrática, arrebanha, aplaudem as suas imbecilidades, dão-lhe palmadinhas nas costas ou, pelo menos, suportam-no, silenciosamente, sem um reparo. E o rei da parvoíce lá vai maltratando este e aquele sem que ninguém o trave. Felizmente, houve um juiz que, dando mais valor à natureza do crime do que >à categoria da pessoa que o cometeu, contrariando a normalidade, indiferente ao facto de o criminoso ser o Presidente da Região Autónoma da Madeira ou um qualquer carregador de turistas, condenou Alberto João a pagar vinte mil euros por insultos a Edite Estrela. Ora aí está um juiz que merece aplausos.

Se todos a quem Jardim já insultou se queixassem nos tribunais e se a decisão destes fosse idêntica, já o desbocado madeirense tinha entrado nos eixos e mais relego na língua.

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Um estudo divulgado por um especialista em Direito do Trabalho, indica que, em cada dez mulheres, quatro são assediadas no trabalho.

Tendo exercido diversas actividades, sempre com os sentidos bem despertos, conhecendo a mentalidade dos meus compatriotas que entendem que “a galinha da vizinha é melhor do que a minha”, que é como quem diz que a mulher dos outros é sempre mais apetitosa do que a nossa, acredito plenamente nos números. Depois há o tique latino de muitos dos nossos homens que entendem que para se sentirem verdadeiramente machos se Têm de atirar, ainda que seja apenas com palavras avulsas, brejeiras, às vezes a raiar a rudeza, a todas as colegas ou subordinadas, especialmente se forem casadas, que dá mais gozo. Está visto, portanto, que não estranho nada. O que eu estranho é que num país que se diz defensor e cultivador da igualdade de direitos dos géneros, só se fale em assédio sexual de mulheres e haja, inclusive, comissões para tratar desse fenómeno. Então que raio de igualdade é essa?! Ninguém fala dos homens que são assediados por colegas e patroas e por muitas outras mulheres que não são nem uma coisa nem outra. Coitados de alguns, sobretudo quando são assediados por patroas ou superioras hierárquicas. Que podem eles fazer, para manter o emprego e poderem sustentar a família, senão corresponderem ao assédio?! E quando a autora do assédio é um “borracho”, ainda vá que não vá. Agora quando ela é uma matronaça repelente, deve ser duro de roer. Quem defende estes pobres homens?! Quem?!

Também há as que assediam os chefes. Então quando elas têm uma carinha “laroca”, umas curvas bem delineadas num corpinho 86-60-86 e usam vestido um palmo acima dos joelhos e um decote um palmo abaixo do pescoço, isso proporciona-lhes uma enorme confiança, um gaiato atrevimento e, vai daí, pobres chefes, ou não são de pau e atiram-se a elas, ou fecham os olhos, os ouvidos e vão rezar a um qualquer santo protector do assédio sexual, que também os há-de haver.

Bom, cá por mim, em tempos em que tinha um corpo mais esguio, menos arredondado, um ar mais viçoso, não com mais charme que julgo ter sublimado – perdoe-me a vaidade – também sofri os meus assédios. Confesso, todavia, que nunca fiz nada para contrariar tal situação. Pobre ingénuo, eu. Entregava-me docilmente nas mãos, nos braços, no corpo, em tudo, de todas as que ousavam assediar-me. Nunca me consegui defender, nunca ninguém me defendeu, nunca conheci nenhuma instituição que defendesse os homens vítimas de assédio sexual por parte das mulheres. Pobres de nós. Pelos vistos continuam a pensar apenas nas mulheres. É injusto. Falando mais a sério, estou convencido que a maioria das mulheres – e homens também – não se queixam, não o fazem apenas por medo, mas porque não deixam de sentir uma pontinha de prazer com o assédio. Dificilmente uma cara feia e um corpo monstruoso abrirão o apetite a qualquer assediador ou assediadora.

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