Pontos de Vista…21
Para quem gosta de reflectir sobre a linguagem dos que exercem acção política, é interessante constatar como a maioria deles fala dos maus exemplos de outros políticos, sejam do seu quadrante, sejam de outros, como se eles estivessem isentos de tais pecados. Conhecendo alguns como conheço e ouvindo-os falar assim, só poderia ficar estupefacto com tamanha desfaçatez se isso ainda fosse alguma novidade para mim. Sempre fui muito atento ao que as pessoas dizem e aos seus comportamentos. E gosto de reflectir sobre isso. Analisando as palavras, os gestos, as atitudes dos outros com um sentido crítico positivo, poderemos fazer um juízo muito mais sério acerca dos nossos próprios comportamentos, evitando deixar-nos contagiar pelo que entendermos como negativo, até porque como disse Francis Bacon “os comportamentos, como algumas doenças, são contagiosos”. Deixemo-nos contagiar pelos bons, “vacinemo-nos” contra os maus.
Voltando aos políticos, há dias uma conhecida e destacada política de um dos principais partidos políticos portugueses, numa crónica que assina num jornal diário, desancava naqueles políticos que, fruto do seu comportamento, contribuíam para a falta de credibilidade na política e nos políticos. Provavelmente, muito melhor do que eu o diria, até pelo seu melhor conhecimento pessoal dos seus camaradas de ofício, as suas palavras, no meu ponto de vista, eram certeiras, mereciam os meus aplausos. Só que eu acho que tais palavras assentavam a ela própria como uma luva. Foi um grande político, concordasse-se com a sua doutrina ou não, Nikita Kruschev, que afirmou que “os políticos são sempre iguais. Prometem construir uma ponte mesmo num sítio onde não há rio.”
É também interessante estarmos atentos ao comportamento dos políticos, dentro dos períodos eleitorais e fora deles e estabelecermos comparações. Não é preciso nenhuma atenção especial, nem ser-se nenhum superdotado para se concluir como os seus discursos, os seus gestos, a afabilidade são diferentes num e noutro período. Aqui poderia recordar as palavras de Mackenzie King “as promessas que os políticos fizeram ontem são os impostos de hoje.”
A você, que porventura tem algumas dúvidas em relação àquilo que eu penso dos políticos, lanço-lhe um desafio: comece, desde já, a observar atentamente os políticos que conhece. Se não confiar na sua memória, registe, por escrito, os dados mais relevantes que for observando, o que for ouvindo. No novo ano que se aproxima, vamos ter vários actos eleitorais. Não se esqueça de, nesses períodos, ouvir com muita atenção e observar o comportamento dos mesmos políticos que agora começa a estudar. Registe. Terminados os diversos actos, atente nos registos que fez, compare, reflicta e conclua. Surpreendido talvez não fique como eu já não fico, mas pelo menos fica com a memória avivada relativamente à sem-vergonhice, como diriam os nossos irmãos brasileiros, de muita dessa gente. E, se um dia tiver necessidade e achar que é caso disso, confronte-a com os factos. Também lhe garanto que essa gente continuará sem pingo de vergonha.
Outra coisa que me choca, sobretudo na política indígena, é a falta de trabalho, por parte das comissões políticas, relativamente à formação, à preparação dos seus militantes para poderem exercer cargos políticos a que venham a candidatar-se. O mais triste disso tudo é que eu chego a ficar com a impressão que os líderes, nomeadamente os concelhios, têm interesse em que assim seja, isto é, quanto menos informados estiverem, mais facilmente são domados, mais subservientes serão, por falta de conhecimentos. Mais triste ainda, é eu pensar que, estando nós já mais de três décadas de distância do antigo regime, ainda há procedimentos semelhantes. Salazar, para melhor garantir a ditadura, queria o povo ignorante. Quem haveria de dizer, que, passados estes anos todos, mesmo com partidos que se dizem os grandes precursores da democracia, se utilizam ainda os mesmos métodos de Salazar, para que os líderes governem sem contestação interna. Líderes assim, hoje como dantes, gostam de ter com eles gente ignorante, sobretudo que não pense; não gostam de gente que tenha cérebro, que tenha coluna vertebral. Depois acontece o que não deveria acontecer: chega-se à época de construir as diversas listas autárquicas e muitas delas são uma autêntica vergonha, com gente que não tem o mínimo perfil para exercer qualquer cargo político, que depois de eleita não tem uma palavra, um pensamento seu sobre nada. Muitas vezes, por falta de trabalho de casa, atempado, oportuno, nem sequer conseguem arranjar cabeças de lista às assembleias de freguesia com o mínimo de credibilidade. Aparecem-nos alguns, que, como costuma dizer o povo “valha-nos Deus”. Veremos o que nos vai apresentar 2009. Cá por mim, penso que, salvo uma ou outra excepção que será sempre de louvar, será mais do mesmo.
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Há legislação que necessita ser produzida e, pelas mais diversas razões, nomeadamente por falta de empenho dos políticos, por madracice, por falta de vontade política, não se produz. E há leis que se fazem e demoram anos a ser regulamentadas; há mesmo outras que foram aprovadas, que foram publicadas e que nunca chegaram a surtir qualquer efeito, porque nunca foram regulamentadas e entretanto foram revogadas. É uma vergonha. No entanto, legisla-se quando não há necessidade disso e é até má legislação. O governo querer admitir que os partidos possam receber subsídios através de dinheiro vivo é um dos exemplos daquilo que se não deve fazer em termos de lei, até porque, ao contrário de melhorar a democracia, lhe retira transparência.
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A ser verdade aquilo que a comunicação social tem veiculado acerca das refeições, viagens e estadias principescas que ex-administradores da Gebalis faziam à custa do erário público, dá que pensar como há pessoas sem o mínimo de escrúpulos, sem vergonha de delapidar o dinheiro de todos nós em proveito próprio, dos familiares e dos amigos. Julgados e condenados, se provados os seus crimes, não sei qual a moldura penal para isso, mas deveriam ser uns bons anos de prisão. Se assim não for, mude-se a lei, ainda que não seja para estes, que sirva para outros eventuais prevaricadores. Isto não é gente que rouba para matar a fome aos filhos. Se isto só por si é demasiado mau, o pior é nós imaginarmos o que poderá acontecer pelo país em centenas de empresas municipais que existem, algumas, ao que parece, que servem para pouco mais do que dar uns “tachos” ou mesmo mais uns “tachos” a amigos, familiares ou incondicionais subservientes políticos. Tanto como a crise económica que atravessa o mundo ou mais do que a própria crise, este tipo de gente é que ajuda a destruir o país e a perder a confiança nas instituições. “Nada basta àquele que não fica satisfeito com pouco”.