Tuesday, December 2, 2008

Pontos de Vista…26

     

A segurança, vista em qualquer uma das vertentes, é uma área a que sou bastante sensível, sobre a qual reflicto frequentemente, com muita preocupação à mistura. Não tenho dúvidas de que essa sensibilidade se deve à minha forte ligação, em funções diversas, aos bombeiros portugueses desde 1973. Eu creio que não há bombeiro digno desse nome que não tenha essa sensibilidade e que não passe por essas preocupações. Eu não sei se estarei até demasiadamente obcecado por tal problemática, uma vez que não consigo olhar para as mais diversas actividades, para o comportamento das pessoas no trabalho, no lazer, na rua, em casa, sem que a segurança ocupe o meu pensamento. Percorro as nossas estradas e, seja o comportamento daqueles que nelas circulam, seja o piso das vias, a sinuosidade, as ravinas desprotegidas, a falta de sinalização ou sinalização deficiente, que mais do que facilitar, ajudar os utentes, dificultam, tudo isso eu observo com tristeza e preocupação. Neste aspecto, poderia apontar dezenas ou centenas de casos concretos, nos mais diversos pontos do país, por culpa das direcções de estradas e das autarquias. No caso destas, surpreendem-me mais as aberrações, as deficiências, pela proximidade, sendo que os autarcas têm obrigação de conhecer melhor o que se passa nas suas áreas de jurisdição e mesmo que as ditas deficiências sejam da responsabilidade de outra instituição, têm obrigação, mais do que qualquer outro cidadão, de as denunciar e exigir a sua reparação. Infelizmente, e em abono da verdade, encontramos espalhadas pelo país, em estradas que são da responsabilidade das autarquias, tantas aberrações, que nos leva a pensar que em tais regiões não existe um autarca com a mínima sensibilidade para essas questões. Considero grave os inúmeros casos de omissões em colocação de sinalização vertical e horizontal e de pequenas alterações e/ou reparações, mas mais grave ainda, segundo o meu ponto de vista, é algumas obras que se fazem, gastando o erário que é de todos nós, que, ao invés de beneficiarem, prejudicam. Temo-las às carradas por esse país fora. Gostaria que alguns autarcas aceitassem o repto de viajar comigo pelas estradas dos seus municípios para lhes poder mostrar várias deficiências, algumas que, com um dispêndio mínimo, melhorariam muito as questões de segurança.

É vulgar dizer-se que os portugueses não têm cultura de segurança e, infelizmente é a constatação que todos estes anos de olhos despertos me têm proporcionado verificar. De qualquer forma, não seria sério se não reconhecesse que temos vindo a melhorar, embora lentamente. Temos até variada e bem construída legislação de segurança, só que nem sempre se cumpre, não se fiscaliza, não se obriga a cumprir. À portuguesa.

Todos sabemos que há legislação dirigida aos transportes escolares. Só quem não quiser ver é que não sabe que uma grande parte do transporte dos alunos, senão a maioria, não cumpre minimamente a legislação. Isto acontece com táxis, autocarros de transportes públicos e, pasme-se, até com as viaturas das autarquias, embora estas tenham responsabilidades em todos os transportes. Ainda não há muitos dias, uma viatura de uma autarquia, devidamente identificada, transportava alunos, não observando minimamente as regras de segurança estampadas na lei, a começar pelo excesso de crianças. O motorista, apercebendo-se ou avisado pelos famigerados e criminosos sinais de luzes da proximidade da GNR, parou a viatura, pôs na rua um grupo de crianças, seguiu com as outras, vindo depois apanhar as que deixara. É lamentável ver-se este comportamento por parte de uma autarquia, autarquia que deveria ser a primeira instituição, depois da família, obviamente, a preocupar-se com a segurança de todos os seus cidadãos. Para além do problema da insegurança, que belo exemplo de cidadania é dado a estas crianças. Mais grave, meu amigo, é que tal comportamento é também da responsabilidade dos encarregados de educação e professores, ou por acção ou por omissão. É facílimo comprová-lo.

A prova mais recente da fraca cultura de segurança de muitos cidadãos verificou-se ainda neste último fim-de-semana prolongado, quando, com as condições atmosféricas adversas, com as estradas perigosíssimas, decidiram deslocar-se a pé ou de carro, para locais desaconselháveis, pondo em risco a sua integridade física, a própria vida e a de outros para os socorrerem e complicando ainda o trânsito e a vida daqueles que tinham necessidade absoluta de circular. Nesses dias circulei por algumas estradas e auto-estradas do país, nomeadamente A1, A5, A8, A17, A29. O que eu observei em termos de condução desastrada, criminosa, algumas vezes debaixo de chuva impiedosa, foi arrepiante, capaz de tirar definitivamente a vontade de circular nas estradas portuguesas. Obviamente fui confrontado com vários acidentes, alguns envolvendo várias viaturas e pelo estado de algumas, provavelmente deles terão resultado vítimas graves ou mesmo mortais. Como não faço parte do número daqueles cuja curiosidade mórbida não os deixa seguir em frente sem que vejam tudo, não paro, a menos que as vítimas ainda estejam sem socorro. Nesse caso teria a obrigação de parar, de outra forma estaria a cometer o crime de omissão de auxílio. A minha cultura de segurança me conduz a tal comportamento. Em casos de acidentes em que as vítimas já estejam a ser socorridas, o pior que se pode fazer é parar, dificultar o trânsito e mesmo, muitas vezes, a movimentação das equipas de socorro. Infelizmente, isto acontece em qualquer tipo de incidentes: nos acidentes rodoviários, nos incêndios, etc.

A nossa vida é feita de riscos. O próprio acto de nascer foi um risco que cada um de nós correu. Nós sobrevivemos, mas nem todos tiveram essa sorte. Alguns, por diversas contingências, dirão azar. Todavia, não foi a sorte ou o azar que determinou que uns sobrevivessem e outros morressem, mas sim as condições que se criaram ou não para diminuírem os riscos.

A nossa segurança não depende apenas de nós, muitas vezes depende muito de terceiros. De qualquer forma cada um de nós pode fazer muitíssimo de modo a evitar um sem-número de acidentes. E não tenhamos dúvidas que ao estarmos a cuidar da nossa segurança, estamos a cuidar da de muitas outras pessoas simultaneamente. Se cada um de nós se preocupar um pouco mais com isso, todos lucraremos, evitaremos muitas tragédias que alteram toda a nossa vida e dos familiares, enfim, todos seremos mais felizes.

Posted by Salazar in 17:47:48 | Permalink | No Comments »