Tuesday, December 30, 2008

Pontos de Vista…30

     

Não sou de todo um “expert”
em informática. A necessidade agregada a alguma curiosidade que, na minha idade, ainda é legítimo que exista, obrigaram-me a manipular um computador. Fui mexendo, fazendo asneiras, questionando os meus filhos e outras pessoas e assim aprendendo alguma coisa. Quando me aposentei, a maioria dos professores e escolas não estavam identificados com tão precioso, e hoje considerado indispensável, equipamento. Eu fazia parte dessa maioria. Da maioria, curiosamente. Digo curiosamente, porque a minha forma de estar, de pensar, de abordar diversos temas, sempre esteve mais virada para as minorias. Sempre tive mais propensão para me colocar ao lado e defender minorias do que me colocar comodamente ao lado das ideias consideradas politicamente correctas e daqueles que as defendem. Na mesma linha, sempre me aprazou mais defender os fracos do que os fortes. No fundo, creio que isso é característico de muitas pessoas da minha geração. Há, no entanto, uma dúvida – sou um indivíduo com dúvidas permanentes – que não consegui ainda dissipar: não sei se as consideradas maiorias, nos diversos aspectos em que as consideremos, serão autênticas, isto é, se serão, de facto, o resultado verídico da consciência, do pensamento de determinado número de pessoas ou se apenas fruto do interesse, do oportunismo dessas mesmas pessoas. Faço esta afirmação, porque há uma dúvida que eu não tenho: as maiorias, todas as maiorias, nomeadamente as políticas, engordam muito à custa dos interesses pessoais e momentâneos de um grande número de pessoas, do que de acordo com convicções. Muitos pensam assim: “para quê defender convicções, defender pontos de vista, se isso não me traz quaisquer vantagens, antes pelo contrário? Naquilo em que devo alinhar é no pensamento dos que têm poder, daqueles que me podem proporcionar um “tacho”, me podem fazer uns favores mesmo que contrariando as leis e a ética, ainda que tenha que trair a minha consciência, as minhas ideias”. Estou certíssimo que é assim que muitos pensam e reagem de acordo.

Bom, eu comecei por falar do uso de computadores e perdi-me por aqui nuns “atalhos”. Voltando então à “vaca fria”, apesar da minha já confessada inabilidade nessa área, uso o computador diariamente: escrevo, utilizo o correio electrónico, comunico, já utilizei o power point em formação que ministrei e, através de um sítio que um amigo me indicou, leio vária imprensa de diversos países de todo o mundo, desde que a língua mo permita e faço uma espécie de zapping pela internet. Nessas incursões vou encontrando textos, comunicações, comentários, diálogos entre gente mais ou menos conhecida e desconhecida. Encontro algumas coisas interessantes, mas também muitas outras que, não me surpreendendo, as acho ridículas. Nesses encontros ocasionais, dou com os olhos frequentemente em absurdos auto-elogios, em elogios que não correspondem, de certeza, nem ao merecimento daqueles a quem são dirigidos, nem ao verdadeiro pensamento de quem os escreve. Às vezes, até são exibidas listas graduadas de merecimentos de vária ordem. Merecimento em que só os próprios intervenientes, por narcisismo, poderão, a meu ver, acreditar. Se fosse a acreditar em que tudo o que me é proporcionado ler correspondia inteiramente àquilo que os seus autores pensavam, teríamos uma cambada de gente ingénua, que via bondade em tudo o que fazia e em tudo os que os da sua igualha faziam também. Obviamente que não me considero ingénuo, nem alinho em utopias, não obstante me considerar um grande sonhador, no que toca a realização de projectos, e por isso no que eu acredito é numa gigantesca dose de hipocrisia, de falta de capacidade de enfrentar a realidade, de dizer não, porque é mais simpático, e algumas vezes mais rentável, dizer sim. São muitos os que veneram a hipocrisia; são poucos os que valorizam a franqueza. A internet é realmente uma enorme janela aberta para o mundo. Mostra-nos tudo o que nunca imaginaríamos ver. De certeza que, fosse eu mais sábio em tal matéria, me mostraria ainda muito mais, recolhendo mais proventos espirituais, mas nem tão pouco conheço minimamente a linguagem informática. Se a sua simples utilização poderia ser um acidente; falar dela seria, inevitavelmente, uma tragédia. De qualquer forma é já muito o que tenho aprendido com ela, nomeadamente no que concerne ao melhor e mais profundo conhecimento da espécie humana. Sempre que leio a pena – se é que ainda faz sentido utilizar o vocábulo “pena” -  ou oiço a voz de alguém, não deixo de fazer um determinado juízo que pode ser alicerçado, confirmado ou desmentido consoante o conhecimento que tenha ou venha a ter de quem produz as afirmações. Com a nossa voz ou a palavra escrita, através da internet ou de órgãos de comunicação social, damo-nos a conhecer a um público mais ou menos vasto, revelando muito do nosso carácter, da nossa personalidade. Não direi das ideias, porque essas, com maior ou menor habilidade, são muitas vezes falseadas, de acordo com interesses pessoais e pontuais, como já afirmei. É uma exibição que a maioria das pessoas admite e aceita: umas porque se mostram tal qual são e isso não lhes causa qualquer embaraço; outras, porque procuram, dessa forma, mostrar falsas virtudes, esconder veros defeitos, fazer auto-promoção. Sendo assim, e na linha do que disse há dias, desejo que 2009 nos traga menos hipocrisia, mais gente que seja capaz de dizer, oportunamente e cara-a-cara, ao amigo ou desconhecido, sim, quando deve ser sim e não quando deve ser não.

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Um outro desejo que eu gostava de ver satisfeito era que uma grande parte das Câmaras Municipais deste país se desse conta da sua verdadeira responsabilidade nas questões de protecção civil. É lamentável que apenas oitenta delas tenham aderido à criação de Equipas de Intervenção Permanente (EIP) nos corpos de bombeiros voluntários e corporativos e constituídas por cinco profissionais. Temos de considerar que cinco elementos para 24 horas, sete dias por semana, porque as doenças súbitas, os acidentes, os incêndios não têm dia nem hora, são muito pouco, mas nem esses quererem pagar a 50% é chocante. Bem sei que algumas câmaras dão subsídios substanciais às associações de bombeiros dos seus municípios, que, no entanto, são uma gota de água para as despesas que elas têm de suportar. Se os edis ainda não aderentes analisarem quanto custaria um corpo de bombeiros municipais, verificarão que se acrescentarem aos subsídios que normalmente concedem, o custo anual de uma ou duas Equipas de Intervenção Permanente, esta despesa seria muitíssimo menor do que aquela. De qualquer forma, quando falamos destas coisas, estamos a falar de pessoas, das suas vidas e de património que, tantas vezes se perde para todo o sempre. Daí que um outro desejo para 2009 é de que o espírito de alguns dos nossos responsáveis autárquicos seja iluminado de forma a terem a sensibilidade que se espera para as questões de protecção e socorro que são tanto da sua responsabilidade como a água, o saneamento, a rede viária e tantas outras coisas. Com mais ou menos apoios, com ou sem Equipas de Intervenção Permanente, os portugueses, seja de que município for, vão continuar a ter, nos seus bombeiros, a mesma disponibilidade, a mesma abnegação, a resposta oportuna às suas solicitações, mesmo em áreas cuja responsabilidade a outros pertence. Pela parte que a eles diz respeito, não obstante as dificuldades, não será, estou certo, que o 2009 deixará de ser um ano bom.

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Cavaco Silva, de semblante carregado, como se impunha, pelo teor da comunicação, falou ao país. Sendo ele normalmente sóbrio, desta feita, segundo o meu ponto de vista, excedeu-se. Já deu para perceber que eu sou dos que acredito que a verdade, o correcto, está muitas vezes do lado das minorias. De qualquer forma, numa democracia em que todos os actos se considerem legítimos, não feridos de ilegalidade, o que deve prevalecer é a vontade da maioria. A Assembleia da República, no caso do Estatuto Político-Administrativo dos Açores, fez aquilo que entendeu. O Presidente da República, também. Só que agora, por mais razão que julgue ter, não pode esperar que todos se subjuguem à sua vontade, ao seu pensamento e fazer afirmações como a de que “A qualidade da Democracia sofreu um sério revés”. Sério revés para a democracia seria um Presidente impor, sozinho, a sua vontade. Estaríamos senão em ditadura, à sua porta. É bom lembrar, nesta altura, a “cambalhota” de alguns partidos que haviam votado o mesmo estatuto por unanimidade e agora procuram lavar as mãos, como Pilatos. Nem sequer nos surpreende, mas registamos o facto. Não é pela promulgação deste diploma que a nossa democracia correrá perigo. Há outros fenómenos, a que é preciso dar especial atenção, que, esses sim, a podem fazer perigar. Ah! A lealdade, seja entre pessoas ou instituições, não pode ser exigível apenas a uma das partes.

Posted by Salazar in 11:29:24
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