Monday, March 30, 2009

Pontos de Vista…43

     

Li o livro de Luís Marques Mendes, “Mudar de vida – Propostas para um país mais ético, justo e competitivo”. Não concordando com vários pontos de vista dele, o que é natural, o livro está bem estruturado, defende ideias e conceitos interessantes. Quedei-me e reflecti mais profundamente sobre aquilo que ele pensa sobre a ética na política. Não podia estar mais de acordo. Só que, ler ou ouvir tais afirmações saídas de alguém que exerce, exerceu e está à espera de voltar a exercer cargos políticos, fica-me sempre um amargo de boca. Falar, falam eles bem, só que a prática, depois, não está de acordo com o que se proclama, porque se eu ouvir qualquer outro político ele diz-me mais ou menos a mesma coisa. E nós sabemos o que se passa: ética, para muitos políticos, é algo que só os outros devem respeitar. Não fora isso, a política e os políticos não teriam a credibilidade pelas “ruas da amargura”. Infelizmente é um mal que vem de muito longe e, não obstante tantas conquistas, tanto desenvolvimento nos mais diversos domínios, o homem, só porque continua a aspirar o poder a qualquer preço, ainda não foi capaz de desenvolver um sistema político em que só a bondade, a credibilidade, a competência, tivessem acesso ao poder. Poderia recuar séculos para justificar o que afirmo, mas deixe-me apenas referir uma expressão de Friedrich Nietsche que viveu na segunda metade do século XIX e que é o seguinte: “A política é o local de trabalho de certos cérebros medíocres”. Há quem trabalhe na política que não seja medíocre, mas a ideia geral que se tem, pelo menos eu tenho, e pelo que leio e oiço, estou, pelo menos quantitativamente, muito bem acompanhado, é de muita mediocridade. Voltando a Marques Mendes, é justo referir que ele, enquanto líder do PSD, deu a sensação de querer impor alguma ética no seu partido, nomeadamente impedindo a recandidatura de alguns autarcas a contas com a justiça. Acho que foi um acto de coragem, um passo em frente em favor da ética, mas só utilizo a expressão “sensação”, porque de facto pareceu a muita gente o mesmo critério não terá sido aplicado a outros com problemas semelhantes.

De todos os regimes políticos, a democracia é o menos mau. Porque qualquer regime é construído e constituído por homens, não poderemos dizer que a democracia é um regime perfeito. Para que assim fosse, teríamos de expurgar dos homens toda a maldade, a ambição de poder. Na democracia, como em qualquer outro regime, a ambição dos políticos é a conquista do poder. Só que seria expectável que, ao contrário dos outros regimes, na democracia, a conquista do poder nunca poderia ser feita a qualquer preço. Mas nós sabemos que não é assim. Aliás, a prova disso é que as ideias pouco contam, o que conta é o poder. Se não fosse assim, se a ideologia ainda tivesse algum valor para uma grande parte dos que se movimentam mais ou menos horizontalmente na política, não encontraríamos tantos “camaleões” a saltitar de partido em partido, à procura do melhor “tacho”. E os líderes, aos vários níveis, aceitam tudo, desde que tenham a percepção que tais camaleões, ou abutres, se preferir, lhes renderão votos ou encontrarão neles mais uns “paus-mandados”, uns “yes man”. Vive-se numa democracia formal, com órgãos a ser eleitos por sufrágio, só que apenas uma parte dos eleitores utiliza o voto conscientemente e em absoluta liberdade. Quer sobre as camadas mais desprotegidas e baixas habilitações académicas da população, quer sobre as mais qualificadas e, por isso, com outras ambições, fala mais alto, a corrupção, o compadrio, o clientelismo, as promessas demagógicas, o caciquismo, a mentira, a calúnia, para se conseguir “levar a água ao seu moinho”. Isto nunca deveria acontecer numa verdadeira democracia, mas é o que se vê. Nela, no fundo, como em qualquer outro regime, os políticos podem não eliminar fisicamente os adversários, mas não deixam de os assassinar moralmente e de procurar o poder a qualquer preço. Só não vê isto quem não quer ver. Nesta já não incipiente, mas arremedo de democracia, usa-se e abusa-se dos órgãos de comunicação social e da internet, neste caso, muitas vezes de forma anónima, covarde, para fazer propaganda ilícita de uns, para acusar vilmente outros, tudo feito em nome do poder que se pretende alcançar. Mas há mais: formalmente a censura terminou com a revolução dos cravos. Nós sabemos, todavia, que continuam a usar-se, hoje, diversos métodos para impedir que algumas coisas sejam escritas ou ditas, ainda que sejam meros textos de opinião, com referências genéricas, nunca pessoais. Por outro lado, promovem, incentivam a publicação de tudo quanto, ainda que raie o ridículo, o absurdo, a demagogia, possa funcionar
em favor. Meu amigo, isto verifica-se aos mais diversos níveis: governantes, deputados, dirigentes partidários, autarcas, responsáveis que ocupam lugares de nomeação política ou partidária. Em vez dos sinistros, ignóbeis, pérfidos, pouco inteligentes coronéis de outrora que pontuavam na censura com o seu lápis azul, hoje nem precisamos de ir muito longe para encontrar por aí, não os coronéis, mas presunçosos soldados rasos que, quando um determinado escrito, sobretudo a nível da internet, lhes não agrade, ainda que nem seja destinado a alguém em especial, mas os leve a “enfiar a carapuça”, tudo fazem, servindo-se dos meios que julgarem mais eficazes, mesmo que sórdidos, para os fazerem desaparecer. Aliás, todos os meios que se utilizem para coarctar ou condicionar a livre expressão são sórdidos. Ah! Se lhes fosse dado o mínimo de poder, se porventura regressássemos ao 24 de Abril, como desejariam, na mesma hora lhes desapareceria a máscara de democratas que lhes esconde o rosto e das gargantas se soltariam as palavras que sempre quiseram dizer, mas não ousaram e apareceriam, no seu máximo esplendor, as funestas caras de diligentes aprendizes de ditadores É um dos pecados de muitos dos que fazem acção política ou a ela aspiram: dizer sempre e apenas aquilo que lhes convém em cada momento e poucas vezes o que pensam.

Muito embora os políticos apregoem o contrário, todos sabemos que eles se preocupam muito mais consigo próprios do que com os cidadãos a quem prometem servir. O respeito pelos valores concentra-se no “eu”. Mesmo muitos daqueles que aparentemente fazem algo pelo próximo é quase sempre a troco de qualquer coisa, ainda que seja do voto. Daí a falta de credibilidade no homem, já não é só no político. É um período negro da história que estamos a viver. Os factos históricos, a história não se repetem, mas há muitos comportamentos que são cíclicos, isto é, que ressurgem, de tempos em tempos, embora com diferentes nuances, mas idênticos no essencial. Por assim ser, percorrendo a história, encontramos muitos comportamentos, muitas afirmações de outros tempos que são perfeitamente actuais. Poderíamos recolher imensos exemplos, mas vou mostrar-lhe um trecho da poesia “ Sinto vergonha de mim”, de Rui Barbosa, um grande talento da política e das letras brasileiras, que viveu na segunda metade do século XIX e primeiro quartel do século XX. Atente no que disse, entre outras coisas, o poeta há bem mais do que um século:

Sinto vergonha de mim

por ter feito parte de uma era

 que lutou pela democracia,

pela liberdade de ser

e ter que entregar aos meus filhos,

simples e abominavelmente,

a derrota das virtudes pelos vícios,

a ausência da sensatez

no julgamento da verdade,

 a negligência com a família,

célula-mater da sociedade,

a demasiada preocupação

com o “eu” feliz a qualquer custo,

buscando a tal “felicidade”

em caminhos eivados de desrespeito

 para com o seu próximo.

 

Mais à frente, Rui Barbosa termina:

 

De tanto ver triunfar as nulidades,

de tanto ver prosperar a desonra,

de tanto ver crescer a injustiça,

de tanto ver agigantarem-se os poderes

 nas mãos dos maus,

o homem chega a desanimar da virtude,

a rir-se da honra,

a ter vergonha de ser honesto.

 

Veja, meu amigo, se isto não é absolutamente actual.

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Monday, March 23, 2009

Pontos de Vista…42

     

Já muita tinta correu e muito se falou sobre a desastrosa (sobretudo para o Sporting) arbitragem de Lucílio Baptista, no jogo da final da Taça da Liga, ocorrido no último sábado, no Estádio do Algarve, entre Benfica e Sporting. Apesar do assunto estar já por demais escalpelado, mesmo assim, apetece-me tecer algumas considerações. Deixe-me antes de mais confessar-lhe que o que mais me deprimiu, até hoje, foi quando chegou o momento de deixar de jogar futebol de competição, tal era a alegria, o entusiasmo, o empenho com que me empregava nos treinos, nos jogos. Isto quer dizer que sou um apaixonado não fanatizado do futebol. Nem o facto de ter desempenhado, por vários anos a função de treinador preencheu esse vazio. Pela minha própria experiência – por exemplo, perdi um título de campeão já depois de ter recebido a faixa, devido a um relatório fraudulento de um árbitro e conivência da Associação de Futebol – e daquilo que vou vendo e lendo, sei que esse desporto que sempre me empolgou, infelizmente, tem muito pouco de verdade desportiva. E o mal não é de agora. Nem sei se agora é pior ou melhor. Sei que agora é mais fácil tomar conhecimento do que é verdadeiro ou falso, através da grande cobertura feita pelos órgãos de comunicação social, nomeadamente a televisão. Aliás, se não fosse este órgão, relativamente a muitos acontecimentos, ficaríamos sempre na dúvida. Sempre houve e continuará a haver erros graves na arbitragem. É inevitável, enquanto não puserem a tecnologia ao serviço do futebol, que mesmo assim não sei se será suficiente. Há erros que são perfeitamente desculpáveis, admissíveis; outros, porque configuram incompetência, ou, pior do que isso, má-fé ou mesmo fraude, são intoleráveis. No jogo em referência, o árbitro, com a sua decisão, provocou quase um terramoto: proporcionou que o Benfica levasse para casa – recuso-me a dizer ganhou – uma taça que deveria ir para Alvalade; que o Sporting com seus dirigentes, técnicos, atletas não usufruíssem do título; que o Sporting perdesse a favor do Benfica um milhão de euros; que o seu técnico e um jogador fossem castigados, porque os seus gestos, embora não merecedores de aplausos, em qualquer das circunstâncias, foram consequência do erro crasso do árbitro. Foi, de facto, uma decisão com consequências muitíssimo graves. Se o erro, só por si, me choca, muito mais choca a reacção de alguns dos intervenientes no jogo. Desde logo, o próprio Lucílio Baptista. Sinceramente, tenho muita dificuldade em acreditar na sua boa-fé e explico por quê. Quando um árbitro não tem dúvidas relativamente a qualquer facto ocorrido no jogo, a decisão tem de ser sua, independentemente daquilo que lhe indicar o árbitro assistente. Ora, se Lucílio Baptista esteve quase dois minutos a dialogar com os seus assistentes é porque não tinha certeza de nada. Mais, o seu assistente que acompanhava o jogo na parte do campo onde se verificou o lance, ter-lhe-á dito que não foi grande penalidade ou que não viu nada como referiu posteriormente, Lucílio. Tal como nos tribunais, na dúvida, o juiz não castiga. Era isso que o árbitro, ou o juiz da partida, se preferir, deveria ter feito. Assim é difícil acreditar-se no futebol. Mas não queria deixar a minha reflexão por aqui. Será que adquirir um título da forma como foi, justificará tanta alegria, tanto entusiasmo de treinador, atletas e adeptos? Não seria recomendável um pouco mais de contenção? Será que o já bastante contestado Quique Flores, porque uma péssima decisão de um árbitro lhe proporcionou um título, pois nem sequer a jogar contra dez, durante cerca de vinte minutos, se atrevera a marcar um golo, já é o melhor do mundo?! Que dizer das palavras de Reyes que faz esta afirmação: “não me interessa se é penalti ou não o que interessa é que ganhamos”?! Faz-me lembrar aquela triste figura de David Luiz que afirmou perante umas dezenas de crianças que o golo que mais o marcou fora o que marcara ao Braga em posição de fora de jogo. Quim foi transformado no herói do jogo. Gosto muito do Quim e ainda bem que ele mostrou estar no pleno uso de todas as suas capacidades, na defesa das grandes penalidades, mas o grande protagonista do jogo não foi ele, foi o árbitro. Não fora este e Quim teria tido um jogo sofrível, nem sequer a merecer a classificação de bom. Como se tudo isso não bastasse, aparece o director de comunicação do Benfica a acusar o Sporting de não saber perder, de falta de fair play, como se o seu clube tivesse legitimamente ganho alguma coisa e pretendendo retirar ao seu adversário o direito mais do que legítimo e justificado à indignação. Realmente há gente que não tem um pingo de vergonha.

Devo referir ainda que muitos jogadores, de ambas as equipas, ao invés de procurarem jogar futebol, mostrarem todas as suas qualidades e proporcionarem um bom espectáculo, andavam mais preocupados em acertar nas pernas dos adversários. Muitas vezes é o ambiente escaldante, quezilento, das bancadas que se transmite para dentro do relvado. Nesse jogo, enquanto nas bancadas tudo era mais ou menos pacífico, até ao “desastre”, o campo, às vezes, parecia uma arena. Por todo este ambiente sórdido do futebol é que dele, como da política, vão-se afastando os mais sérios. É pena.

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Tendo ainda fresco na memória a tragédia daquele bebé que morreu asfixiado no carro onde o pai o esquecera, na segunda-feira, 16 de Março, um jornal diário titulava, na primeira página: “Tragédia atinge quatro crianças” e como subtítulos “Entre-os-Rios – Irmãos destravam carro e caem
15 metros”; “Mangualde – Bebé morre ao cair num poço a céu aberto”; “Matosinhos – Menino levado pelo mar quando brincava”. Depois disso já houve outros casos semelhantes como crianças a cairem de varandas, outra atropelada pelo próprio pai, etc. Já aqui há tempos abordámos o assunto, salientando o facto de algumas pessoas – muitas, infelizmente – ao invés de assumirem as suas culpas, se não totais, pelo menos parciais, atribuírem ao ter de ser, à sorte ou azar a responsabilidade das tragédias ou da sua iminência. Parece, dessa forma, aliviarem as suas consciências. Acredito, todavia, que muitos não têm propriamente essa intenção de alívio de consciência, será mais a ignorância em termos de cultura de segurança a falar mais alto. Todos nós, que andamos atentos ao que se passa à nossa volta, observamos que há casas, com algumas varandas e janelas, com escadas sem protecção adequada, com tanques ou piscinas em jardins ou quintais de fácil acesso a qualquer criança mesmo de tenra idade, onde, à mínima distracção, uma qualquer criança pode sofrer um grave acidente que a conduza à morte ou a uma deficiência irreparável. Todos nós observamos como e onde algumas crianças brincam, correndo sérios riscos. Todos nós observamos como algumas crianças caminham pelas nossas estradas, às vezes, brincando com uma bola, ou correndo atrás umas das outras. Todos nós observamos como algumas crianças são transportadas nos automóveis e mesmo em motorizadas, pior do que infringindo a lei, correndo sérios riscos. Todos nós observamos como algumas crianças viajam nas carrinhas de transportes escolares, com responsabilidades para pais, professores, autarcas. Perante tais circunstâncias, bem se poderiam esperar mais e mais graves acidentes. É bom que acreditemos que nem sempre “ao menino e ao borracho, Deus põe a mão por baixo”. O que tudo isso revela é uma enorme falta de cultura de segurança.

A segurança, nas várias vertentes, é um tema sobre o qual reflicto muito. É de referir que temos evoluído bastante, nos últimos anos, em termos de legislação. Direi mesmo que temos legislação ao nível europeu. Poderemos até dizer que, a esse nível, o Estado tem cumprido razoavelmente o seu dever. Só que a uma grande parte dos cidadãos mingua-se-lhe uma cultura de segurança digna desse nome. Aí, não estaremos, seguramente, ao nível dos países mais civilizados. Se cada cidadão falha, porque, por si próprio, tem obrigação de adquirir essa cultura, falha também o Estado porque deveria fazer bem mais nesse capítulo da educação, quer através das escolas ou de outras instituições vocacionadas para o problema. Verificamos também com enorme tristeza e preocupação que muitas autarquias não revelam a menor sensibilidade para o assunto, também elas pecando por pouco ou nada fazerem nesse sentido. Para se chegar a essa conclusão basta ler os Planos de Actividades e ouvir os autarcas quando são confrontados com situações do âmbito da segurança. Todos podemos e devemos fazer alguma coisa em prol da segurança de todos nós, mas sobretudo dos mais desprotegidos, como sejam as crianças, nomeadamente na mudança de muitos dos nossos hábitos e atitudes.

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Monday, March 16, 2009

Pontos de Vista…41

     

Tudo o que os “media” publicam, sobretudo de mais negativo, serve para que a oposição venha logo em bloco assacar culpas ao governo, sem sequer se preocupar que não poucas vezes o que vem a público é de duvidoso rigor. Isto verifica-se facilmente se compararmos atentamente os títulos dos jornais e os textos respectivos. Entre muitos outros exemplos que poderíamos apontar, veio a público, há dias, uma estatística criminal. Logo a oposição, sobretudo a de direita, veio a terreiro crucificar o governo, fazendo uma análise grosseira dos números, à medida das suas conveniências, continuando a bater na velha questão de mais e mais polícias, como se isso fosse a solução e esquecendo-se que já passaram pelo governo com muitos menos polícias e meios. Cheguei a dar boleia a uma patrulha da GNR para resolver um acidente rodoviário, porque a única viatura operacional que o Posto tinha estava envolvida numa outra operação. É minha convicção, que já aqui manifestei por mais do que uma vez, que o problema da criminalidade tem muito mais a ver com justiça do que com polícia. Não vou voltar a apresentar aqui a justificação para essa minha convicção, até porque mesmo relativamente à justiça as coisas terão melhorado, embora não tanto como eu entendo que seria desejável. Para desmontar esta apetência da oposição para atingir o governo, vou socorrer-me das palavras insuspeitas de Moita Flores, que até é Presidente da Câmara de Santarém, eleito pelo PSD, embora como independente. Porque acho da maior importância para que todos nós saibamos como se faz política baixa, vergonhosa, atrevo-me a citar alguns trechos da sua habitual crónica no Correio da Manhã. Diz ele: “…ao pico maior da criminalidade violenta, ocorrido entre Agosto e meados de Setembro, a reacção policial fez com que, em finais de Outubro, estivessem desvendados, resolvidos, e com indivíduos presentes a juiz, 87% dos crimes. Conclusão: ao aumento de criminalidade, o Estado desempenhou bem o seu papel, através das acções da PJ, PSP e GNR. Por outro lado, o crime violento não aumentou em todo o País.” Fim de citação. Perante isto, parece-me que o governo terá dado a resposta adequada, o que não significa que não desejemos, legitimamente, mais e melhor. Obviamente que sim. Mas, conhecendo-se estes dados, se não se esperaria que a oposição os aplaudisse, pelo menos que se calasse. Acontece, porém, uma outra coisa e que vale a pena referir. Atacado, imensas vezes, o governo, por fazer propaganda dos seus méritos, talvez aqui tenha pecado por defeito, isto é, não terá trazido à luz do dia tudo o que aconteceu no período a que se refere o relatório criminal. Moita Flores di-lo desta forma, e cito de novo: “ Era bom para o País, que os senhores ministros da Administração Interna e da Justiça informassem também quantos indivíduos foram presos, quantos foram constituídos arguidos, quantos ficaram em prisão preventiva. De certeza que acalmavam os urros da indignação.” Fim de citação. Era bom para si, para mim, para o País em geral, porque não terá sido por desconhecimento desses dados que a oposição reagiu da forma que o fez. Se fosse por isso, caber-lhe-ia agora uma palavra nesse sentido. Mas não a teremos. Recordo aquele provérbio indiano que diz: “Quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio”.

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Dar nomes a ruas, praças, avenidas, edifícios, etc. deve requerer o maior cuidado, deve pressupor a prática de feitos que a maioria das pessoas ligadas à área territorial ou às instituições, reconheçam como heróicos, distintos, de importância fundamental. Por isso entendo que os nomes atribuídos pelas autarquias devem merecer uma discussão ampla no seio da assembleia municipal ou de freguesia e um consenso mais alargado possível. Não me parece saudável que uma aprovação dessas seja feita apenas por uma força política ainda que maioritária e por isso legítima. Penso o mesmo relativamente às instituições que dão nome às suas sedes ou mesmo a espaços dessas mesmas sedes. As propostas devem ser bem fundamentadas, bem documentadas e objecto de ampla e transparente discussão em assembleia-geral e os nomes só perpetuados quando tenham merecido a aprovação de uma maioria bastante concludente dos associados existentes. Assembleias-gerais, com reduzido número de associados, embora de funcionamento legal e, por isso, cujas deliberações serão legítimas, aprovarem propostas desse género, não honram, antes pelo contrário, os nomes propostos. Daí que, embora por um lado seja admissível que as pessoas deveriam ser homenageadas em vida, avaliando os prós e os contras, entendo que tal discussão pode provocar melindres e, pelas mais diversas razões, muitos associados podem sentir constrangimentos em discutir propostas do género. Há ainda a hipótese de o homenageado vivo vir, por qualquer motivo, a desiludir, a frustrar, a provocar arrependimento naqueles que foram os autores da homenagem. Não sendo propriamente um admirador do presidente da SAD portista, Pinto da Costa, tiro-lhe o meu chapéu por não ter aceitado que dessem o seu nome, em vida, ao Estádio do Dragão. Se alguns o acham grande, o seu gesto tornou-o ainda muito maior e ajudou a perceber quanto pigmeus são alguns que têm o seu nome por aí escarrapachado em placas.

Vem este arrazoado a propósito do nome dado a duas ruas de duas cidades, perpetuando o nome de duas mulheres, cujo feito conhecido foi morrerem às mãos de maridos assassinos. Essas mulheres e muitas outras que sofrem de violência doméstica devem merecer-nos todo o respeito e todos devemos, à medida das nossas possibilidades, ajudar a combater tão hediondos crimes. Mas será que é dando o nome das vítimas a ruas ou avenidas que se contribuirá de alguma forma para resolver o problema?! Se formos por esse caminho, acabar-se-ão as dificuldades na toponímia das aldeias, vilas e cidades. É bom, no entanto, não esquecer os maridos envenenados e todos quantos neste país morrem vítimas de violência doméstica, nomeadamente pais às mãos de filhos e vice-versa. Com o máximo respeito, repito, por quem sofre, por quem é vítima de qualquer espécie de violência, penso que heroificar-se alguém que apenas teve a infelicidade de arranjar um mau companheiro, mas não se lhe conhecem méritos dignos de realce, não será o mais acertado. Melhor seria considerá-lo mártir e a Igreja tratar do resto.

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Contrariando aquilo que disse François Fénelon: “Foge do elogio, mas tenta merecê-lo”, quem presta atenção ao que lê e ouve por aí dá conta da distribuição de esquizofrénicos elogios, de hiperbólicos auto-elogios, sem que se consigam vislumbrar quaisquer merecimentos, num afã de se exibirem, prenunciando a indómita e presunçosa vontade de se arranjar um qualquer poleiro, ainda que ao nível do rés-do-chão, numa lista para as eleições que se avizinham. “Presunção e água benta, cada um toma a que quer.” Tenho de reconhecer que neste País onde reina a mediocridade, em que a obliquidade vence a verticalidade, o chico-espertismo vence a seriedade, o carneirismo vence a frontalidade, muitos conseguem os seus objectivos, adicionando-se a outros contributos para que se não acredite na política, nos políticos e, por este andar, no próprio homem.

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Todos sabemos que muitos reformados, e não só – obviamente excluem-se os que têm reformas milionárias – têm grandes dificuldades em pagar os remédios e alguns até já os pagam a prestações. Os remédios e muitas outras coisas. É uma verdade indesmentível. Só que pretender fazer crer que esse é um mal recente, criado pelo governo actual, é não só uma falsa questão como revelador de pouca seriedade da parte de quem faz tais afirmações. Sem esquecer que há milhares de reformas miseráveis, é bom não esquecer também que elas têm subido anualmente, exceptuando no tempo de Ferreira Leite e os remédios não terão subido na mesma proporção, antes pelo contrário, segundo a indústria farmacêutica. Significa isto, e ninguém o pode contestar, que muitos reformados têm de facto enormes dificuldades para pagar os remédios, mas não têm mais do que há 3, 4, 5, 6, 7, anos. O que não quer dizer que não se deva lutar por melhorar as reformas mais baixas e atribuir maiores comparticipações nos medicamentos. Que eles não estão bem, tal como muitos de nós, é uma verdade irrefutável, mas não deve empurrar a seringa para o rabo dos outros quem dela também precisa no seu.

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Monday, March 9, 2009

Pontos de Vista…40

     

Estou ciente de que todos quantos me ouvem ou lêem, já concluíram que sinto uma crónica revolta e indignação pela mediocridade que revela uma grande parte dos nossos compatriotas que exercem cargos de eleição ou nomeação política. Porque tenho por certo que são inteligentes, - os compatriotas -  se não chegassem a essa conclusão, seria porque eu não tinha engenho nem arte para fazer passar as minhas mensagens. Concluiria eu, então, inevitavelmente, que mais me valeria suster a língua e a pena. Não cheguei a essa conclusão e, por isso, me mantenho em contacto consigo e inalterável na minha forma de expressar os meus pontos de vista, de acordo com a reflexão de Yogaswami, que eu pratico desde muitíssimos anos antes de a conhecer e que é a seguinte: “Sê leal para contigo mesmo. Não alteres o teu comportamento apenas para contentar os outros”. Obviamente que não tenho estudos de opinião relativamente ao meu pensamento, mas mesmo que os tivesse, continuaria a dizer o que digo e da forma que digo. Quem age em função de estudos de opinião ou sondagens são, sobretudo, os que fazem ou pretendem fazer carreira política, o que não é o meu caso. O que disse atrás não significa, de forma nenhuma, que não altere a minha forma de pensar. Pela experiência de vida, pelo que leio, pelo que oiço, pela reflexão mais ou menos elaborada, quanto o meu pensamento já evolui, quantas opiniões eu já alterei?! Muito. Só que eu expresso sempre aquilo que me vai na alma nesse momento, independentemente de quem forem os receptores da mensagem. Dito isto, e ainda que eu desejasse estar errado, relativamente à mediocridade de muitos políticos, diversos factos vêm frequentemente demonstrar que, infelizmente, o que penso e o que digo corresponde à realidade. Veja, por exemplo, a indecorosa, lamentável cena protagonizada entre dois deputados no nosso parlamento, com um a demonstrar a mais elementar falta de berço, de educação, de respeito por si próprio, pelo adversário político, por todos os parlamentares, pela instituição, por todos os portugueses, pronunciando um sonoro “vai pró ca…” Há um provérbio tibetano que diz: “ Há três coisas que jamais voltam: a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida.” Anda esta cambada de imbecis, de malcriados, a viver “à grande e à francesa” à custa do nosso dinheiro, com uma série de benesses e chorudas – atendendo ao nosso nível médio – e prematuras reformas e ainda, se for caso disso, de subsídios de reintegração, quando saem. Vamos ver alguma dessa gentalha, daqui a pouco, a andar por aí aos beijinhos e abraços e palmadinhas nas costas, em sardinhadas e outras patuscadas, prometendo “pontes onde nem sequer há rios”, tentando iludir, à semelhança do “conto do vigário”, ingénuos portugueses. Porque já não são tantos os ingénuos, a abstenção, nas mais diversas eleições, mais numas do que noutras, por motivos óbvios, é muito grande. Se não é correcto desculpabilizar totalmente os eleitores por tal facto, a verdade é que os políticos, que, com a sua acção ou inacção, fazem perder a credibilidade na política, contribuem, de forma evidente, para que os eleitores não tenham qualquer vontade de ir às urnas. É vulgaríssimo ouvir-se frases deste género: “vou votar em quem, se são todos iguais?”, acrescentando muitas vezes uma série de adjectivos que você conhece, porque já ouviu ou, quiçá, tenha também já pronunciado, relativamente à mesma situação. Apesar de tudo, mesmo que ninguém lhe mereça confiança, não deixe de votar. O voto em branco também tem um significado. Eu nunca deixei de o fazer, nem tenciono deixar, precisamente porque sei que o meu voto, seja feito da forma que for, tem um sentido. Ele significará alguma coisa. Se você não votar, talvez nem sequer se lhe devesse reconhecer o direito de reclamar. Se por um lado isso possa parecer um atentado à liberdade pessoal, devo confessar-lhe que não discordo totalmente do voto obrigatório, embora prefira a liberdade de voto, mas com todos os eleitores despertos, sensibilizados para votarem, na convicção de que o voto é, em democracia, a sua grande arma, que se pretende de paz.

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Aquilo que é considerado “normal” tem a ver com a cultura de cada povo. Todos sabemos que costumes, hábitos nossos são completamente diferentes de outros pontos da Europa, da Ásia, da África, da América. Aliás, mesmo dentro do mesmo país, ainda que pequenino, algo que é normal numa região é capaz de ser chocante noutra. Entre nós, por exemplo, é normal, os pais serem boas referências dos filhos, os pais serem solidários com os filhos, ainda que o comportamento destes, por vezes, deixe muito a desejar. Manuel Alegre é, indubitavelmente, uma referência do Partido Socialista. O mínimo que se esperava de Alegre é que ele, à semelhança do pai em relação ao filho, fosse solidário com o seu partido, independentemente de todas as discordâncias que tivesse e manifestasse no interior do mesmo partido. O pai que ama o seu filho, que é solidário com ele nas venturas e desventuras, certamente também tem muitas discordâncias que procura corrigir, desavenças que procura acalmar. Certamente que até concordo com alguns pontos de vista de Manuel Alegre, contrários aos da maioria partidária, mas quando o partido decide com legitimidade democrática, todos os deputados devem respeitar a vontade da maioria. É assim que eu entendo a democracia: o respeito pela vontade maioritária. Quem não quiser acatar isto, quem quiser, seja em que circunstância for, manifestar-se livremente, faça como eu, isto é, não se amarre a nenhum partido. São de todo respeitáveis as opiniões de Manuel Alegre, como são as de qualquer outro cidadão, já não é respeitável, em meu entender, que ele vote ao lado da oposição contra o seu partido, que faça afirmações como a de “se pudesse candidatar-me como independente, candidatava-me contra o PS, sem que antes tenha deixado a filiação partidária. Às vezes tenho a sensação de que Manuel Alegre ainda se vê no antes 25 de Abril. Nessa altura, a sua voz valia. Em democracia, não sendo eu um analista político, mesmo assim, parece-me que o deputado-poeta perde mais do que ganha e, também ele, que, durante muitos anos, foi uma referência de credibilidade política, com o seu comportamento estará a contribuir para a descredibilização dos políticos. Creio que todos reconhecem que Alegre está posicionado à esquerda do Partido Socialista. Também acho que sim, só que isso me provoca alguma curiosidade. É que se Manuel Alegre fosse militante de qualquer outro partido à esquerda do PS e votasse contra a orientação da sua direcção, pouco tempo se manteria. Veja-se o comportamento desses mesmos partidos, veja se há alguma disparidade nas votações, nas interpelações, veja o que aconteceu, o que acontece àqueles que ousam levantar a voz em sentido contrário ao das direcções ou líderes partidários. Sinceramente, não gostava de ver nenhum político que foi ou é uma referência num partido, como Alegre o é no PS, corrido, expulso, mas acho que o político, com um mínimo de ética, que não olhe tanto para o seu umbigo, só tinha um de dois caminhos correctos: retractar-se e travar a sua luta, defender as suas ideias nos órgãos do partido ou desligar-se. Para bem da sua credibilidade e da política, será bom que Alegre abandone a ambiguidade em que vive.

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Monday, March 2, 2009

Pontos de Vista…39

     

Foi o Congresso do PS, são os ataques e defesas e contra-ataques, são as movimentações evidentes ou sub-reptícias daqueles que fazem da política uma opção de vida ou buscam alguma projecção e “tachos” – mais estes do que aqueles – não se coibindo mesmo de saltitar de partido em partido, com as mais diferentes ideologias, se é que elas ainda servem para alguma coisa, até conseguirem o “poleiro” senão o desejado, que a ambição de alguns não tem limites, o possível. Eu tive o cuidado de referir os que fazem da política uma opção de vida ou buscam alguma projecção e “tachos” e não apenas políticos, porque políticos somos todos nós, ainda que julguemos que não. Eu que não tenho qualquer filiação partidária, nenhuma militância, não integro qualquer instituição de cariz político, considero-me político. Ao fazer estas reflexões e tantas outras no meu dia-a-dia estou a comportar-me como político, o que não quer dizer nem tem nada a ver com partidos políticos. Aliás, devo confessar, e pense você o que quiser, que considero que tenho muito mais intervenção política do que muitos dos que são filiados e até têm algumas responsabilidades em partidos políticos. Voltando atrás aos “saltitões da política”, verifico que “camaleões”, “travestis”, incompetentes, imbecis, egoístas, arrogantes, vaidosos e mais uma série de adjectivos que não falseariam a caracterização, enxameiam os diversos partidos políticos, seja nas assembleias de freguesia, nas juntas, nas assembleias, nas câmaras, nas empresas municipais, em muitíssimas instituições, onde se chega por nomeação política, não por mérito, embora, felizmente, ele exista em alguns casos, nos diversos partidos.

Normalmente alicerço os meus pontos de vista, a partir do que está mais próximo de mim, para o mais longínquo, não obstante também construir o meu pensamento, como não poderia deixar de ser, através daquilo que leio nos livros, na imprensa, e vejo e oiço nos outros “media”. O que vejo nas proximidades, em termos de trabalho partidário é praticamente uma nulidade, é lastimável. Sabendo eu que os partidos políticos são a essência da democracia, que eles vivem também muito à custa do nosso dinheiro e os maiores não recebem assim tão pouco, seria de esperar e desejável que tivessem outro comportamento, uma actividade visível, fora dos períodos eleitorais. Nada, não se vê nada, embora eu, que estou de fora, não tenha que saber tudo o que se passa. Para não extrapolar para o distrito, para o país, reporto-me à minha freguesia, ao meu concelho. Não me apercebo que comissões políticas de Partido Socialista e Partido Social Democrata, para falar apenas nos que têm maior representação, façam algo de importante, programado, com continuidade, no sentido de despertar os militantes, de os informar e formar, com o intuito de vir a encontrar aí elementos capazes de desenvolver um bom trabalho nos diversos órgãos autárquicos e deixarmos de ter, sobretudo nas assembleias de freguesia e município, indivíduos desinteressados, incompetentes, que não têm uma ideia ou pelo menos a não expressam. É tristíssimo verificar como se constituem algumas listas, apressadamente, com pessoas só para preencher os lugares, que não tiveram a mínima preparação, mas que se pensa que podem, às vezes pelas mais ignóbeis razões, render alguns votos. Há até quem procure desempenhar algum cargo nas instituições particulares para ter algum currículo. Muitas vezes, os responsáveis pela elaboração das listas ignoram ou fingem ignorar que alguns desses indivíduos ou apenas estiveram ou foram perniciosos. Ah! Há outra característica que os líderes adoram que os que integram as respectivas listas possuam: que sejam seres subservientes, seres não pensantes. Para mim é uma desilusão total, é uma enorme frustração verificar como é feita a política por estas paragens, que não será muito diferente de muitos outros pontos do país. Deixe-me exprimir aqui este pensamento: dizer-se, por exemplo, que o Partido Socialista ganhou, nas últimas eleições, a Câmara de Cinfães não é uma verdade irrefutável. Não tenho qualquer dúvida que quem ganhou foi Pereira Pinto. É evidente que ele é militante do PS desde a primeira hora e foi nessa condição que sempre exerceu cargos políticos. Nem sequer vejo mal nenhum de que, sobretudo ao nível das autarquias, os eleitores votem mais nas pessoas do que nos partidos. De qualquer forma tenho de reconhecer que se Pereira Pinto tem mérito nas vitórias que tem alcançado, não tem, enquanto militante ou líder concelhio do partido, sabido capitalizar essas vitórias, projectando o partido no concelho, nomeadamente através de acções nas diversas freguesias, na expectativa de que aparecesse, naturalmente, gente com o mínimo de preparação e credibilidade para se candidatar aos órgãos autárquicos. Pelo “andar da carruagem”, este ano veremos mais do mesmo: listas remendadas, feitas à pressa, sem credibilidade – afirmação esta que nada tem a ver com a credibilidade pessoal, com a honorabilidade das pessoas que têm sido atiradas “para a cabeça do toiro”. Assim, não há espaço para aqueles que gostariam de estar integrados nos movimentos políticos de uma forma activa permanente. Os períodos eleitorais deveriam ser um corolário do trabalho programado, sustentado, constante, que os diversos partidos desenvolveriam durante os períodos não eleitorais. Bom, o que afirmo relativamente ao PS, serve, de um modo geral, para os outros partidos. Alguns chegam a aparecer com candidaturas ridículas, com nomes que até se desconhecem, sem qualquer interesse eleitoral, que não iriam a lado nenhum, mas apenas para não deixarem de receber as verbas a que têm (terão?) direito. É mais ou menos assim a política indígena, da qual muito mais haveria para dizer. Assim sendo, e deixando-nos transportar para a política nacional, com mais trabalho, com mais visibilidade, talvez menos credibilidade, que confiança poderemos ter? No homem, na mulher, às vezes, sim, podemos confiar. No político, na política, excepcionalmente.

Por exemplo, pese embora a credibilidade pessoal e profissional que a senhora parece inspirar, que confiança me merece para ser primeiro-ministro, uma líder partidária que numa conjuntura económica nacional e internacional muitíssimo melhor do que a de hoje, congelou salários, pensões de reforma, aumentou impostos, vendeu património e executou mais uma série de acções complicadas, mesmo assim não conseguindo reduzir o défice para valores aceitáveis? Será que este tipo de gente quando abre a boca para criticar os adversários não sentirá um pingo de vergonha?!

As oposições funcionam, normalmente, numa lógica não declarada, mas evidente, de inimigas dos cidadãos do seu país. Folgam com os eventuais insucessos de quem governa, borrifando-se para o facto de tais insucessos vitimizarem sobretudo os cidadãos mais frágeis. Quando não vislumbram insucessos, inventam-nos. Nunca ou quase nunca fazem propostas razoáveis, ou, se as fazem, são populistas, demagógicas, sabendo que nunca poderiam ser cumpridas. Alguns estão absolutamente à vontade para fazer toda a demagogia porque dificilmente chegarão ao poder e poderem ser confrontados com isso. Quem fica feliz, embora não o admita, com o país que empobrece, que tem problemas na educação, na saúde, na segurança, não gosta do país nem dos seus compatriotas, gosta apenas de si e dos seus interesses.

Ferreira Leite não pensa que Sócrates devesse deixar o Congresso do seu partido para estar numa cimeira onde o país não deixou de estar, sem daí advir qualquer problema. Não pensa, mas viu aí mais uma infeliz oportunidade de combate. Que espécie de Congresso seria o do PS ou qualquer outro sem o seu líder e a sua palavra?! Estou fartíssimo de afirmar que a forma de fazer política em Portugal não me atrai, mas a democracia exige partidos e alimenta-os e os partidos só existem com pessoas.

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Completam-se, na quarta-feira, oito anos sobre a tragédia de Entre-os-Rios. Sobre ela já muito disse e escrevi. Hoje quero, mais uma vez, homenagear respeitosamente os mortos e também os familiares vivos que souberam ultrapassar, de uma forma merecedora de todos os encómios, o infortúnio que sobre eles se abateu, ao ponto de estarem a erguer uma obra da máxima importância, dando-nos a todos um magnífico exemplo de coragem, de altruísmo, de vida. Aquelas mortes provocaram uma enorme dor, uma grande tristeza, mas os seus parentes fizeram com que elas não tivessem sido
em vão. Apetece-me dizer que vale a pena morrer, quando isso faz com que os vivos aprendam a viver mais solidários, quando ajudam a que crianças condenadas a crescer no escuro possam “crescer a cores”.

Posted by Salazar in 15:26:15 | Permalink | Comments (1) »