Pontos de Vista…43
Li o livro de Luís Marques Mendes, “Mudar de vida – Propostas para um país mais ético, justo e competitivo”. Não concordando com vários pontos de vista dele, o que é natural, o livro está bem estruturado, defende ideias e conceitos interessantes. Quedei-me e reflecti mais profundamente sobre aquilo que ele pensa sobre a ética na política. Não podia estar mais de acordo. Só que, ler ou ouvir tais afirmações saídas de alguém que exerce, exerceu e está à espera de voltar a exercer cargos políticos, fica-me sempre um amargo de boca. Falar, falam eles bem, só que a prática, depois, não está de acordo com o que se proclama, porque se eu ouvir qualquer outro político ele diz-me mais ou menos a mesma coisa. E nós sabemos o que se passa: ética, para muitos políticos, é algo que só os outros devem respeitar. Não fora isso, a política e os políticos não teriam a credibilidade pelas “ruas da amargura”. Infelizmente é um mal que vem de muito longe e, não obstante tantas conquistas, tanto desenvolvimento nos mais diversos domínios, o homem, só porque continua a aspirar o poder a qualquer preço, ainda não foi capaz de desenvolver um sistema político em que só a bondade, a credibilidade, a competência, tivessem acesso ao poder. Poderia recuar séculos para justificar o que afirmo, mas deixe-me apenas referir uma expressão de Friedrich Nietsche que viveu na segunda metade do século XIX e que é o seguinte: “A política é o local de trabalho de certos cérebros medíocres”. Há quem trabalhe na política que não seja medíocre, mas a ideia geral que se tem, pelo menos eu tenho, e pelo que leio e oiço, estou, pelo menos quantitativamente, muito bem acompanhado, é de muita mediocridade. Voltando a Marques Mendes, é justo referir que ele, enquanto líder do PSD, deu a sensação de querer impor alguma ética no seu partido, nomeadamente impedindo a recandidatura de alguns autarcas a contas com a justiça. Acho que foi um acto de coragem, um passo em frente em favor da ética, mas só utilizo a expressão “sensação”, porque de facto pareceu a muita gente o mesmo critério não terá sido aplicado a outros com problemas semelhantes.
De todos os regimes políticos, a democracia é o menos mau. Porque qualquer regime é construído e constituído por homens, não poderemos dizer que a democracia é um regime perfeito. Para que assim fosse, teríamos de expurgar dos homens toda a maldade, a ambição de poder. Na democracia, como em qualquer outro regime, a ambição dos políticos é a conquista do poder. Só que seria expectável que, ao contrário dos outros regimes, na democracia, a conquista do poder nunca poderia ser feita a qualquer preço. Mas nós sabemos que não é assim. Aliás, a prova disso é que as ideias pouco contam, o que conta é o poder. Se não fosse assim, se a ideologia ainda tivesse algum valor para uma grande parte dos que se movimentam mais ou menos horizontalmente na política, não encontraríamos tantos “camaleões” a saltitar de partido em partido, à procura do melhor “tacho”. E os líderes, aos vários níveis, aceitam tudo, desde que tenham a percepção que tais camaleões, ou abutres, se preferir, lhes renderão votos ou encontrarão neles mais uns “paus-mandados”, uns “yes man”. Vive-se numa democracia formal, com órgãos a ser eleitos por sufrágio, só que apenas uma parte dos eleitores utiliza o voto conscientemente e em absoluta liberdade. Quer sobre as camadas mais desprotegidas e baixas habilitações académicas da população, quer sobre as mais qualificadas e, por isso, com outras ambições, fala mais alto, a corrupção, o compadrio, o clientelismo, as promessas demagógicas, o caciquismo, a mentira, a calúnia, para se conseguir “levar a água ao seu moinho”. Isto nunca deveria acontecer numa verdadeira democracia, mas é o que se vê. Nela, no fundo, como em qualquer outro regime, os políticos podem não eliminar fisicamente os adversários, mas não deixam de os assassinar moralmente e de procurar o poder a qualquer preço. Só não vê isto quem não quer ver. Nesta já não incipiente, mas arremedo de democracia, usa-se e abusa-se dos órgãos de comunicação social e da internet, neste caso, muitas vezes de forma anónima, covarde, para fazer propaganda ilícita de uns, para acusar vilmente outros, tudo feito em nome do poder que se pretende alcançar. Mas há mais: formalmente a censura terminou com a revolução dos cravos. Nós sabemos, todavia, que continuam a usar-se, hoje, diversos métodos para impedir que algumas coisas sejam escritas ou ditas, ainda que sejam meros textos de opinião, com referências genéricas, nunca pessoais. Por outro lado, promovem, incentivam a publicação de tudo quanto, ainda que raie o ridículo, o absurdo, a demagogia, possa funcionar
em favor. Meu amigo, isto verifica-se aos mais diversos níveis: governantes, deputados, dirigentes partidários, autarcas, responsáveis que ocupam lugares de nomeação política ou partidária. Em vez dos sinistros, ignóbeis, pérfidos, pouco inteligentes coronéis de outrora que pontuavam na censura com o seu lápis azul, hoje nem precisamos de ir muito longe para encontrar por aí, não os coronéis, mas presunçosos soldados rasos que, quando um determinado escrito, sobretudo a nível da internet, lhes não agrade, ainda que nem seja destinado a alguém em especial, mas os leve a “enfiar a carapuça”, tudo fazem, servindo-se dos meios que julgarem mais eficazes, mesmo que sórdidos, para os fazerem desaparecer. Aliás, todos os meios que se utilizem para coarctar ou condicionar a livre expressão são sórdidos. Ah! Se lhes fosse dado o mínimo de poder, se porventura regressássemos ao 24 de Abril, como desejariam, na mesma hora lhes desapareceria a máscara de democratas que lhes esconde o rosto e das gargantas se soltariam as palavras que sempre quiseram dizer, mas não ousaram e apareceriam, no seu máximo esplendor, as funestas caras de diligentes aprendizes de ditadores É um dos pecados de muitos dos que fazem acção política ou a ela aspiram: dizer sempre e apenas aquilo que lhes convém em cada momento e poucas vezes o que pensam.
Muito embora os políticos apregoem o contrário, todos sabemos que eles se preocupam muito mais consigo próprios do que com os cidadãos a quem prometem servir. O respeito pelos valores concentra-se no “eu”. Mesmo muitos daqueles que aparentemente fazem algo pelo próximo é quase sempre a troco de qualquer coisa, ainda que seja do voto. Daí a falta de credibilidade no homem, já não é só no político. É um período negro da história que estamos a viver. Os factos históricos, a história não se repetem, mas há muitos comportamentos que são cíclicos, isto é, que ressurgem, de tempos em tempos, embora com diferentes nuances, mas idênticos no essencial. Por assim ser, percorrendo a história, encontramos muitos comportamentos, muitas afirmações de outros tempos que são perfeitamente actuais. Poderíamos recolher imensos exemplos, mas vou mostrar-lhe um trecho da poesia “ Sinto vergonha de mim”, de Rui Barbosa, um grande talento da política e das letras brasileiras, que viveu na segunda metade do século XIX e primeiro quartel do século XX. Atente no que disse, entre outras coisas, o poeta há bem mais do que um século:
Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o “eu” feliz a qualquer custo,
buscando a tal “felicidade”
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.
Mais à frente, Rui Barbosa termina:
De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto.
Veja, meu amigo, se isto não é absolutamente actual.