Monday, March 9, 2009

Pontos de Vista…40

     

Estou ciente de que todos quantos me ouvem ou lêem, já concluíram que sinto uma crónica revolta e indignação pela mediocridade que revela uma grande parte dos nossos compatriotas que exercem cargos de eleição ou nomeação política. Porque tenho por certo que são inteligentes, - os compatriotas -  se não chegassem a essa conclusão, seria porque eu não tinha engenho nem arte para fazer passar as minhas mensagens. Concluiria eu, então, inevitavelmente, que mais me valeria suster a língua e a pena. Não cheguei a essa conclusão e, por isso, me mantenho em contacto consigo e inalterável na minha forma de expressar os meus pontos de vista, de acordo com a reflexão de Yogaswami, que eu pratico desde muitíssimos anos antes de a conhecer e que é a seguinte: “Sê leal para contigo mesmo. Não alteres o teu comportamento apenas para contentar os outros”. Obviamente que não tenho estudos de opinião relativamente ao meu pensamento, mas mesmo que os tivesse, continuaria a dizer o que digo e da forma que digo. Quem age em função de estudos de opinião ou sondagens são, sobretudo, os que fazem ou pretendem fazer carreira política, o que não é o meu caso. O que disse atrás não significa, de forma nenhuma, que não altere a minha forma de pensar. Pela experiência de vida, pelo que leio, pelo que oiço, pela reflexão mais ou menos elaborada, quanto o meu pensamento já evolui, quantas opiniões eu já alterei?! Muito. Só que eu expresso sempre aquilo que me vai na alma nesse momento, independentemente de quem forem os receptores da mensagem. Dito isto, e ainda que eu desejasse estar errado, relativamente à mediocridade de muitos políticos, diversos factos vêm frequentemente demonstrar que, infelizmente, o que penso e o que digo corresponde à realidade. Veja, por exemplo, a indecorosa, lamentável cena protagonizada entre dois deputados no nosso parlamento, com um a demonstrar a mais elementar falta de berço, de educação, de respeito por si próprio, pelo adversário político, por todos os parlamentares, pela instituição, por todos os portugueses, pronunciando um sonoro “vai pró ca…” Há um provérbio tibetano que diz: “ Há três coisas que jamais voltam: a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida.” Anda esta cambada de imbecis, de malcriados, a viver “à grande e à francesa” à custa do nosso dinheiro, com uma série de benesses e chorudas – atendendo ao nosso nível médio – e prematuras reformas e ainda, se for caso disso, de subsídios de reintegração, quando saem. Vamos ver alguma dessa gentalha, daqui a pouco, a andar por aí aos beijinhos e abraços e palmadinhas nas costas, em sardinhadas e outras patuscadas, prometendo “pontes onde nem sequer há rios”, tentando iludir, à semelhança do “conto do vigário”, ingénuos portugueses. Porque já não são tantos os ingénuos, a abstenção, nas mais diversas eleições, mais numas do que noutras, por motivos óbvios, é muito grande. Se não é correcto desculpabilizar totalmente os eleitores por tal facto, a verdade é que os políticos, que, com a sua acção ou inacção, fazem perder a credibilidade na política, contribuem, de forma evidente, para que os eleitores não tenham qualquer vontade de ir às urnas. É vulgaríssimo ouvir-se frases deste género: “vou votar em quem, se são todos iguais?”, acrescentando muitas vezes uma série de adjectivos que você conhece, porque já ouviu ou, quiçá, tenha também já pronunciado, relativamente à mesma situação. Apesar de tudo, mesmo que ninguém lhe mereça confiança, não deixe de votar. O voto em branco também tem um significado. Eu nunca deixei de o fazer, nem tenciono deixar, precisamente porque sei que o meu voto, seja feito da forma que for, tem um sentido. Ele significará alguma coisa. Se você não votar, talvez nem sequer se lhe devesse reconhecer o direito de reclamar. Se por um lado isso possa parecer um atentado à liberdade pessoal, devo confessar-lhe que não discordo totalmente do voto obrigatório, embora prefira a liberdade de voto, mas com todos os eleitores despertos, sensibilizados para votarem, na convicção de que o voto é, em democracia, a sua grande arma, que se pretende de paz.

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Aquilo que é considerado “normal” tem a ver com a cultura de cada povo. Todos sabemos que costumes, hábitos nossos são completamente diferentes de outros pontos da Europa, da Ásia, da África, da América. Aliás, mesmo dentro do mesmo país, ainda que pequenino, algo que é normal numa região é capaz de ser chocante noutra. Entre nós, por exemplo, é normal, os pais serem boas referências dos filhos, os pais serem solidários com os filhos, ainda que o comportamento destes, por vezes, deixe muito a desejar. Manuel Alegre é, indubitavelmente, uma referência do Partido Socialista. O mínimo que se esperava de Alegre é que ele, à semelhança do pai em relação ao filho, fosse solidário com o seu partido, independentemente de todas as discordâncias que tivesse e manifestasse no interior do mesmo partido. O pai que ama o seu filho, que é solidário com ele nas venturas e desventuras, certamente também tem muitas discordâncias que procura corrigir, desavenças que procura acalmar. Certamente que até concordo com alguns pontos de vista de Manuel Alegre, contrários aos da maioria partidária, mas quando o partido decide com legitimidade democrática, todos os deputados devem respeitar a vontade da maioria. É assim que eu entendo a democracia: o respeito pela vontade maioritária. Quem não quiser acatar isto, quem quiser, seja em que circunstância for, manifestar-se livremente, faça como eu, isto é, não se amarre a nenhum partido. São de todo respeitáveis as opiniões de Manuel Alegre, como são as de qualquer outro cidadão, já não é respeitável, em meu entender, que ele vote ao lado da oposição contra o seu partido, que faça afirmações como a de “se pudesse candidatar-me como independente, candidatava-me contra o PS, sem que antes tenha deixado a filiação partidária. Às vezes tenho a sensação de que Manuel Alegre ainda se vê no antes 25 de Abril. Nessa altura, a sua voz valia. Em democracia, não sendo eu um analista político, mesmo assim, parece-me que o deputado-poeta perde mais do que ganha e, também ele, que, durante muitos anos, foi uma referência de credibilidade política, com o seu comportamento estará a contribuir para a descredibilização dos políticos. Creio que todos reconhecem que Alegre está posicionado à esquerda do Partido Socialista. Também acho que sim, só que isso me provoca alguma curiosidade. É que se Manuel Alegre fosse militante de qualquer outro partido à esquerda do PS e votasse contra a orientação da sua direcção, pouco tempo se manteria. Veja-se o comportamento desses mesmos partidos, veja se há alguma disparidade nas votações, nas interpelações, veja o que aconteceu, o que acontece àqueles que ousam levantar a voz em sentido contrário ao das direcções ou líderes partidários. Sinceramente, não gostava de ver nenhum político que foi ou é uma referência num partido, como Alegre o é no PS, corrido, expulso, mas acho que o político, com um mínimo de ética, que não olhe tanto para o seu umbigo, só tinha um de dois caminhos correctos: retractar-se e travar a sua luta, defender as suas ideias nos órgãos do partido ou desligar-se. Para bem da sua credibilidade e da política, será bom que Alegre abandone a ambiguidade em que vive.

Posted by Salazar in 13:30:36 | Permalink | No Comments »