Tuesday, April 28, 2009

Pontos de Vista…47

    

Abril valeu a pena? Claro que valeu. Não fora essa madrugada auspiciosa, protagonizada por militares, mas, desde logo, apoiada por muito do povo anónimo sedento de liberdade, de soltar das gargantas todas as palavras encravadas durante décadas e nem eu nem muitos de vós escreveríamos e diríamos o que escrevemos e dizemos. É óbvio que hoje muito se diz e escreve que não deveria ser dito nem escrito, mas é fruto da liberdade que uns tantos não conseguiram ainda entender nem nunca entenderão, porque concebem liberdade como apenas a sua de fazer tudo quanto lhes der na real gana. Mesmo assim, com todas as arbitrariedades, com todos os atropelos, com todos os males não reparados, valeu a pena. Apesar das queixas sobre a ausência de valores, a falta de segurança, a indisciplina e o mau ensino que grassa em numerosas das nossas escolas públicas, aqueles que tiveram que abafar as palavras, que foram torturados ou simplesmente ameaçados, às vezes veladamente, prejudicados indecorosamente em concursos, etc. sabem que valeu a pena. Abril, no entanto, não está realizado, desde logo, porque é um processo dinâmico, que se vai construindo. Pena que, de quando em vez, esse processo, pior do que parar, parece retroceder. Os passos que Abril tem dado, infelizmente, nem sempre são passos em frente, isto é, que nos conduzam a uma igualdade real de direitos, de oportunidades, na justiça, na educação, na saúde. De facto, se quisermos ser absolutamente sinceros, diremos que há muitos aspectos em que não melhoramos nada em relação aos tempos da ditadura. Gostaria muito que assim não fosse, mas quem tinha a idade que eu já tinha quando se deu o 25 de Abril e tinha por hábito reflectir, analisar, não pode estranhar tanto assim, porque se os principais protagonistas da revolução estiveram todos unidos no derrube do governo que nos oprimia, muito rapidamente se verificou que estava muito longe de haver unanimidade quanto àquilo que cada um esperava de tal conquista. Por isso houve o 28 de Setembro, o 11 de Março, o 25 de Novembro. Por isso apareceram numerosos partidos políticos. Por isso havia combates ideológicos violentos. Por isso, para uns, a democracia se consolidaria através de leis, do voto secreto, da expressão livre de cada cidadão eleitor; para outros a democracia se faria através de aclamações por braço no ar, através da tomada do poder pelas classes trabalhadoras, assente na luta armada, se para tanto fosse necessário, na liquidação da propriedade privada, do latifúndio, na tomada das grandes empresas financeiras e outras pelo Estado, etc. Por isso uns aplaudiram o discurso do Presidente da República, no Parlamento, outros, como Jerónimo de Sousa, dizem que foi só garganta. Por isso, ainda hoje, alguns se arrogam ser os donos do 25 de Abril. Por isso, ainda hoje, o conceito de democracia diverge tanto entre os partidos ditos de esquerda e os de direita.

O 25 de Abril não tem donos, porque embora nem todos os que o protagonizaram o fizessem com o saudável e amplamente cantado intuito de devolver a dignidade, a liberdade, o orgulho aos portugueses, mas antes em virem a retirar daí benefícios pessoais, o certo é que os portugueses, de todas as ideologias, o tomaram para si, de modo que hoje teremos de afirmar que o 25 de Abril é de todos e não é de ninguém.

O 25 de Abril é de todos, mesmo daqueles que, através de palavras, de actos ou guardando silêncios bolorentos, doentios, têm saudades dos grandes ditadores. Digo grandes, porque pequenos ditadores, exploradores, caciques e outros indivíduos da mesma laia, existem por cá muitos.

Embora entristecido pelo muito que ainda se não conseguiu, pelo muito que se perdeu, mesmo assim sou dos que não têm quaisquer dúvidas de que Abril valeu a pena. O que não vale é a hipocrisia de muitos que louvam Abril só por interesse pessoal nem a saudade dos que antes de Abril sempre tiveram privilégios.

É realmente de todos o 25 de Abril, só que há milhares de portugueses, a começar por numerosos políticos, que o não merecem, porque nada fazem para o consolidar, para que ele represente exactamente tudo aquilo que o povo anónimo esperava dele naquela madrugada libertadora, outros, porque não intervêm, não votam, não participam, louvam a mediocridade, a corrupção, a mentira, a calúnia, promovem o caciquismo e ignoram a competência, o altruísmo, a solidariedade. Trocam os silêncios pelos berros. Gritam quando não têm razão, quando deveriam estar calados e ficam em silêncio, por covardia, por hipocrisia, perante as injustiças, as ilegalidades, as calúnias, as mentiras. Arrepia-me só em imaginar que um dia poderia voltar a ver expressões ou frases minhas, que não eram nem mentiras, nem calúnias, nem infâmias, nem suspeições, como hoje se vê, mas apenas a narração de factos concretos ou o reflexo do meu pensamento, cortados com o lápis azul e ser ameaçado por superiores hierárquicos de deixar de exercer a minha profissão – a minha única fonte de rendimento – se não alterasse o conteúdo dos meus escritos. Entre outros factores que poderia equacionar, devo dizer que penso que o simples facto de Portugal estar integrado na União Europeia impedirá que tal volte a suceder. Espero que efectivamente haja outros factores e não apenas esse. Estarmos na Europa está intimamente associado ao 25 de Abril. Por isso também a Europa vale a pena, apesar de algumas objecções legítimas que se possam fazer.

Comemorar Abril é de facto festejar a liberdade. Só que, segundo o meu ponto de vista, há formas estranhas de falar de liberdade. Aqui há uns tempos atrás, Manuela Ferreira Leite atreveu-se a sugerir a suspensão da democracia. No seu discurso de comemoração da Revolução, na Assembleia da República, Paulo Rangel, afinou pouco mais ou menos pelo mesmo diapasão. Segundo o seu raciocínio, um governo legítimo, não em gestão, deveria suspender determinadas deliberações só porque está a meses de eleições. E se eu consegui interpretar bem as suas palavras, tenho de chegar à seguinte conclusão: Salazar, que não fez grandes investimentos e por isso não hipotecou a liberdade das gerações seguintes, terá sido um notório precursor dessa mesma liberdade. Isto mesmo me sugeriu as palavras de Rangel. Não é, penso eu, deixando os cofres cheios de ouro ou euros, se preferir, que não é o caso actual, obviamente, deixando de fazer obras que nos coloquem ao nível dos países desenvolvidos que estaremos a ajudar as gerações que se seguem. Eu e muitos de vocês que crescemos sem estradas, sem escolas, sem hospitais, sem liberdade, sem pensões de reforma, com fome e um Estado cheio de ouro, certamente gostaríamos de ter vivido noutras condições, com mais dinheiro nos bolsos e menos ouro nos cofres do Estado.

Mais e pior do que brincar com as palavras, os políticos brincam com a nossa inteligência, como se todos nós fôssemos estúpidos.

Veja mais este exemplo: há dias, a política Paula Teixeira da Cruz, referindo-se a Sócrates escrevia: “…anunciou a disponibilidade para em qualquer altura adoptar novas medidas. Disponibilidade? Então temos um governo disponível? Em qualquer altura? Então não era tempo para existir já um programa estrutural e em execução? Novas medidas? Mas não era suposto as novas medidas estarem já pensadas, planificadas?” Sinceramente, não vislumbro onde é que Paula Teixeira da Cruz encontra o erro. O governo tomou medidas para a crise. Para a análise que estou a fazer não me interessa se são muitas, se são poucas, se estão todas certas. Tomou medidas e essas como quaisquer outras, relativas seja ao que for, necessitam de ir sendo avaliadas e, no caso concreto, de acordo com a evolução positiva ou negativa, se tomam novas medidas, se suspendem, se alteram. Eu, que não desempenho qualquer função política, mas penso politicamente, e não só, é assim que penso. E porque penso, acredito cada vez menos nos políticos.

Posted by Salazar in 14:06:41 | Permalink | No Comments »