Monday, May 4, 2009

Pontos de Vista…48

     

Não há ainda muitos dias, os portugueses, nas ruas, no Parlamento, nas autarquias e em muitas outras instituições, vitoriavam o 25 de Abril e, nele, os valores da liberdade, da democracia, da tolerância, do respeito pela diferença de pensamento, etc. Ainda o eco das palavras de ordem se não tinha esfumado e, no meio de outros festejos que só Abril nos permitiu fazer livremente, o primeiro de Maio, e algumas pessoas estilhaçam todos os valores referidos, ou seja a democracia, a liberdade, a tolerância, o respeito e agridem um cidadão só porque é político e um dia, já lá vão muitos, muitos anos, se resolveu desvincular do partido a que alegadamente pertencem os agressores, talvez porque se tivesse dado conta que não seria com a ideologia de tal partido que realizaria o seu sonho de liberdade. Quem sabe se premonição! Outros factos, outros acontecimentos, muitos outros desertores, mostram que o voto por braço no ar, a sucessão mais ou menos imposta, o autoritarismo e a perpetuação de líderes não será exactamente o tipo de democracia e liberdade por que a maioria dos portugueses anseia.

Estou a falar de Vital Moreira e das agressões de que foi vítima quando pretendia participar nas manifestações do primeiro de Maio, organizadas pela CGTP, fortemente dependente, a nível de dirigentes, do Partido Comunista Português. Estivesse lá Vital Moreira em que circunstância fosse: como simpatizante do Partido Socialista, como seu candidato ao Parlamento Europeu, procurando recolher algumas imagens ou não, para propaganda, como simples cidadão, nada justifica a intolerância, a falta de respeito, o atentado à liberdade. Acredito que haveremos de ver imagens de tal manifestação em tempos de antena de outro ou outros partidos. Veremos se sim ou não e, em caso afirmativo, como se desculpam. Nenhuma crise e ela nem é de todos e, pelo movimento de restaurantes, estradas, viagens, parece não ser assim tão grande, embora tenhamos a certeza das enormes dificuldades por que passam algumas famílias, nenhum desalento, nenhum sentimento de injustiça, de revolta, justifica que se agrida quem quer que seja, muito menos quem nem sequer exerce qualquer cargo governativo. Muito provavelmente, o agressor ou agressores nem sequer serão dos que sentem a crise e tê-lo-ão feito em retaliação por Vital Moreira ter abandonado o Partido Comunista. Vital Moreira, como tantos outros, terá mudado de ideologia e de partido – militante ou simpatizante – por evolução do seu pensamento. Natural, quando apenas se ultrapassam fronteiras e se fica por ali no partido ao lado. Mais estranho é quando alguns dão enormes cambalhotas, passando de um extremo a outro. Conhecidos políticos, alguns mesmo desempenhando funções de relevo, deram essa cambalhota. Seja como for, a mudança feita por evolução do pensamento, fruto do estudo e reflexão, é sempre aceitável. O que não é aceitável é a cambalhota de tantos camaleões que há por aí, que mudam frequente e despudoradamente de partido, movidos apenas por interesses pessoais. Os responsáveis partidários, aos vários níveis, de secção, concelhios, distritais, etc., felizes por mais um voto e a eventualidade de mais alguns de familiares e amigos, o que nem sempre acontece, em sinal de gratidão, até lhes arranjam um lugarzinho numa qualquer lista. Pobre democracia! Trinta e cinco anos ainda não foram suficientes para que todos se apercebessem do que é verdadeiramente a democracia, a liberdade. Alguns já a perceberam, mas só a praticam no vocabulário, porque a vontade de conquistar o poder, ou de o manter, é mais forte e sabem que, seguindo à risca as verdadeiras regras democráticas, não o conseguiriam.

Pelos caminhos que os meus pés foram pisando, pelos caminhos da vida já percorridos, as quatro janelas, que são os meus olhos e os meus ouvidos, deram-me conhecimentos que me levaram a concluir que, salvo raras excepções, os políticos, enquanto tal, não me merecem simpatia. Aliás, acho que já o provei até à saciedade. A sua hipocrisia, a demagogia, o populismo, o abuso do poder, o controle que alguns fazem, ou procuram fazer, das instituições, a falta de isenção e os favorecimentos a familiares, amigos ou correligionários, repugnam-me.

Às vezes dou comigo a pensar se essa minha aversão aos agentes políticos não será exagerada, mesmo doentia. Só que, mesmo que eu esteja na iminência de chegar a essa conclusão, logo surge um facto político que me leva a manter essa crónica antipatia.

Repare na vergonhosa unanimidade – apenas um voto contra e uma abstenção de dois deputados socialistas - que aconteceu recentemente no Parlamento. Uma unanimidade assim só poderia tratar-se de mais dinheiro para os partidos responsáveis por tal vergonha. Foi a nova lei do financiamento partidário. Andam, por um lado, a atacar-se uns aos outros, fingindo, cada um, que, ao contrário do outro, luta pela transparência, pela ética, contra a corrupção. Num país em que cada um dos partidos empola a crise, mais do que o outro, excepto o do governo; num país em que se deve exigir contenção de despesas; num país em que o Presidente da República, de quem os partidos interpretam as suas palavras consoante mais lhes convém, mas que quando pede contenção nas despesas com a propaganda eleitoral não está sujeito a interpretações diferentes, os senhores deputados, de todos os partidos, alteraram uma lei recente, que eles próprios aprovaram e que visava a tal transparência, fazendo com que os partidos políticos possam receber em dinheiro vivo um milhão e duzentos mil euros, mais de cinquenta vezes aquilo que estava permitido. Onde está a ética, a transparência desses senhores?! Como é que eu, que penso, posso confiar em gentalha dessa?! Como é que eu posso deixar de ter aversão aos políticos, se eles não permitem, com os seus actos, que isso aconteça.?! Pura e simplesmente vergonhoso o que se passou no Parlamento em dia de tal aprovação. Não se poderá afirmar que a democracia não funcionou, mas é pena que ela sirva, como no caso em apreço, apenas para o interesse de alguns, ao arrepio do interesse nacional.

Com decisões destas, com tão estranha e prejudicial unanimidade, ao contrário de outras vezes em que o interesse nacional o justificava, muito provavelmente cada vez serão mais os que não se darão ao trabalho de votar.

Já começam a andar por aí alguns dos autores de tão vergonhosa aprovação, a dar palmadinhas nas costas e beijinhos às senhoras, “defecando postas de pescada”, afirmando-se campeões da ética, da moral, da defesa dos trabalhadores, dos desempregados, dos desprotegidos, das crianças e dos idosos. Triste figura! Não me apetece olhar para a cara deles.

Posted by Salazar in 21:21:59 | Permalink | No Comments »