Monday, May 11, 2009

Pontos de Vista…49

     

Quem emite opinião, quem faz análise ao que se passa no seu meio ambiente, ainda que de uma forma empírica, sem qualquer rigor científico, deve, penso eu, de quando em vez, avaliar, da forma que tiver ao seu alcance e julgar mais conveniente, se essa opinião, essa análise, não corresponderá ao pensamento de um número de pessoas pouco expressivo. Não porque isso venha, só por si, fazer-me mudar de opinião. São tão respeitáveis as ideias minoritárias como as maioritárias, desde que sejam, umas e outras, fruto de reflexão séria, tão profunda quanto possível, assente nas ideias e ideologias que cada um perfilhe. Eu faço essa reflexão com alguma frequência, nunca com o mero intuito de saber se estou do lado das maiorias ou das minorias, mas de saber se mantenho os mesmos conceitos, as mesmas opiniões ou se a evolução do pensamento, o maior grau de conhecimentos, a existência de factos, me levam a mudar. O que nunca me fará mudar de opinião, será o simples facto de estar, eventualmente, do lado de qualquer opinião minoritária, a hipocrisia, o interesse pessoal. Nunca trairei a frontalidade, a capacidade de dizer na frente o que digo por detrás. Argumento, defendo os meus pontos de vista, respeitando sempre os dos outros, sobretudo se eles são sinceros, o que nem sempre acontece. Em democracia, se as opiniões são reflectidas através de votos, quem vence é quem contabilizar o maior número e, aos outros, cabe-lhes respeitar e agir de acordo com a vontade maioritariamente expressa. Isto deve ser assim, não obstante, a razão nem sempre estar do lado das maiorias. Não há nenhum sistema político perfeito. A democracia também o não é, mas é o menos mau de todos. Todos os que reflectimos, sabemos que embora o vocábulo democracia sugira que a soberania pertence ao povo, conquistada através do voto livremente expresso, nem sempre isso é absolutamente verdadeiro. Ninguém, que ande atento ao que se passa à sua volta, ignora que inúmeros eleitores são vítimas de chantagem, de manipulação, de obscurantismo, enganados, e, por isso, os votos, ainda que secretos, não reflectem a realidade. Há ainda, nos mais diversos tipos de votações, os votos hipócritas, os que visam unicamente o interesse particular, etc. E então se o voto não é secreto, é um desastre. Há muita gente a quem a hipocrisia não permite exprimir os seus verdadeiros sentimentos. Tenho um exemplo muito concreto em que fui um dos intervenientes. Passou-se numa determinada assembleia em que se deveria eleger um responsável pelo organismo que gerara tal assembleia e dois adjuntos. Não havia candidatos oficializados. Todos o eram e nenhum o era. Estávamos nos primeiros anos da democracia. Fiz uma proposta bem elaborada e justificada quanto ao modo de proceder a tal eleição. Discutida, foi aprovada por unanimidade. Era tão óbvia a proposta que dificilmente poderia ser de outra forma. Procedeu-se ao acto eleitoral que deu um determinado resultado. Que não agradou a muitos. De qualquer forma, não houvera qualquer ilegalidade e seria esse o resultado que, com toda a legitimidade e normalidade deveria prevalecer. Todavia, um determinado grupo, numa assembleia seguinte, propôs que se votasse lavrar a acta, correspondente à assembleia anterior, em que ficasse registado que quem ganhara fora o que ficara em segundo lugar e vice-versa. Uma fraude, sem qualquer dúvida. Obviamente que me bati forte e feio, com toda a firmeza, sendo mesmo duro na linguagem, contra tal fantochada. Apenas eu e outra pessoa. Participamos na discussão mas nem sequer quisemos participar nessa mais do que ilegítima votação. Apenas os dois contra aquele enorme atentado à democracia que dava os primeiros passos. Não votando, nós os dois, houve uma triste unanimidade em tão inusitada deliberação. Onde quero chegar é exactamente aqui: nem sempre a razão está do lado da maioria. Como neste caso. E isto não é apenas a minha opinião. Muitos dos próprios autores de tão estranha estratégia o reconheceram, justificando-se que não tinham encontrado melhor alternativa para manter no poder quem, muitos deles por mera hipocrisia, desejavam. Os únicos dois que assumiram com frontalidade o combate à fraude e que até eram dos mais próximos da pessoa visada, acabaram por ver as suas relações deterioradas. Os das palmadinhas nas costas, os hipócritas eram os bons, os solidários. E alguns desses vieram até a desempenhar funções políticas de algum relevo. Tais atributos é começo privilegiado para se ser político, vim a descobrir mais tarde. Começaram aí, alguns dos vários atentados, em democracia, que, infelizmente, ao longo do tempo, tenho vindo a constatar. Mesmo assim, repito aquilo que há pouco tempo disse: Abril valeu a pena.

Bom, voltando ao início da minha reflexão, em que falo das minhas opiniões e análises, nas quais, por diversas vezes, tenho manifestado a minha pouca confiança na classe política e na justiça, verifico agora, através de sondagens publicadas na comunicação social, que, no que se refere à justiça, só cerca de dez por cento dos portugueses considera que a actuação dos Juízes tem sido positiva e, relativamente ao Ministério Público, dezoito por cento. No que se refere aos políticos, só Cavaco Silva merece aprovação positiva de pouco mais de metade dos portugueses e José Sócrates um pouco menos, ficando os outros líderes muito atrás, devendo salientar-se que a seguir a Sócrates aparece Francisco Louçã e, em último lugar, Manuela Ferreira Leite. Sem que isso altere em nada os meus pontos de vista, afinal, neste aspecto, estou do mesmo lado da maioria. O que não significa que me sinta mais forte por isso. Forte senti-me quando me bati na assembleia atrás referida. Forte sinto-me eu, quando exprimo frontalmente a minha opinião, ainda que contrária ao pensamento dominante, e acabo por verificar, frequentemente, a posteriori, que a razão estava do meu lado. “Vivemos todos sob o mesmo céu, mas não temos o mesmo horizonte” – Konrad Adenauer.

Posted by Salazar in 21:29:23
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