Estamos em tempo de cheiros. É o cheiro a manjerico que se exibe em bancadas, às centenas, montadas ao longo de ruas e nas praças; é o cheiro a alho-porro que nos esfregaram no nariz; é o cheiro a caldo-verde e sardinha assada que exala das tasquinhas e vielas; é o cheiro adocicado das farturas; è o cheiro a piqueniques que se fazem pelos campos e pelas matas, muitas vezes desrespeitando a lei e, pior do que isso, criando situações de perigo; é o cheiro bafiento, que se esgueira pelas portas abertas de casas maltratadas, onde exuberantes e sapientes prostitutas fingiram orgasmos e fizeram suar as estopinhas a indivíduos desamparados ou que preferem a teatralização forasteira, a satisfação de todas as fantasias, em vez da rotina sexual caseira e a troco de duas ou três dezenas de euros, misturando o odor a suor e a excreções ao bafio, o que o torna morno; é o cheiro a perfumes e desodorizantes, muitos de mau gosto e mau cheiro, de pessoas que se misturam connosco nos arraiais, para disfarçar outros maus cheiros; é o cheiro a mar; é o cheiro a pinho e a eucalipto; é o cheiro a incêndios que os vão consumindo; é o cheiro a férias, sim, porque as férias também têm cheiro. Até costumamos dizer “já cheira a férias. É caso para cantar:
Mais um ano de canseiras
Está prestes a findar…
Cheira a praia, cheira a férias,
Já apetece mais cantar…
Boas férias, boas férias,
Boas férias com muito juízo,
Boas férias, boas férias,
Boas férias é o que é preciso!
Mais um ano de canseiras
Está prestes a findar…
Cheira a campo, cheira a férias,
Já apetece mais cantar…
Boas férias, boas férias,
Boas férias com muito juízo,
Boas férias, boas férias,
Boas férias é o que é preciso!
Nesta altura há ainda mais cheiros no ar. É o cheiro nauseabundo a néscios aspirantes a um lugar nos órgãos políticos, a um emprego em troca de fidelidade eleitoral. É o cheiro a clientelismo, a pedidos e promessas de lugares, a manobras obscuras, a ocupação de lugares, sem que se vislumbre transparência, ponta de democracia, a fazer-nos lembrar a Madeira, como nunca se vira antes, ou então eu teria andado mais distraído do que imaginara. É o cheiro dos caciques que trazem agarrado o bedum dos “rebanhos” que controlam. É o cheiro sórdido de pessoas que se estão borrifando para o altruísmo, a solidariedade, o desenvolvimento, o progresso, a amizade, a dedicação e só estão em determinadas instituições por mero interesse pessoal, para terem currículo que os possa projectar mais alto, para terem algum poder de forma que possam influenciar, que possam arranjar “tachos” para os amigos, ainda que de competência duvidosa, ou pelo menos nunca comprovada, que, mais cedo ou mais tarde os hão-de, mais com subserviência do que gratidão, que é coisa que anda extremamente arredia por estas bandas, ajudar a chegar onde pretendem, com o seu e aqueles votos, mesmo que atentando à democracia, que conseguirem levar consigo.
É o cheiro pestilencial dos atrás referidos aspirantes a um lugar nos órgãos políticos que se insinuam, que se colocam na montra, quais prostitutas holandesas, que fazem espalhar a notícia (normalmente falsa) de que foram convidados para isto ou para aquilo, na tentativa – que às vezes resulta, à falta de melhor, que não há muito por onde escolher, é certo – de que acabem mesmo por vir a ser contemplados com o almejado convite. E há ainda o cheiro daqueles que de “motu próprio” ou a pedido ou por sugestão lançam nomes para a praça pública.
Estamos infestados de cheiros e daqueles que, como os cães, vão cheirando o cu uns dos outros, até encontrarem o daquele que se lhe puser mais a jeito e, por isso, lhes puder ser mais útil.
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Se calhar, quando acuso uma parte substancial dos políticos de incompetência, mediocridade, falta de coragem, hipocrisia, falta de ética, dou a perceber que considero que todos esses atributos os terão adquirido enquanto políticos, o que não é de todo verdade. Certamente quase todos eles sempre foram assim, no desenvolvimento de qualquer outra actividade. O que a acção política lhes terá feito foi refiná-los. Talvez porque sempre foram assim como pessoas, é que chegaram à política, porque interessa aos líderes, a vários níveis, terem subordinados subservientes, medíocres, incompetentes, que não pensem.
Então no que se refere à hipocrisia é um ver se te avias. Cada um mais do que outro. Para não falar noutros casos, vejamos mais dois exemplos: O PSD quer eleições autárquicas e legislativas juntas, o que até é perfeitamente aceitável, em termos de custos e de disponibilidade de pessoas, não obstante algumas confusões em muitos eleitores, que, perante os boletins, ainda têm alguma inépcia, dificuldades de distinção entre uma e outra eleição, coisa que os políticos sabem, mas não gostam de dizer por não ser politicamente correcto. Como eu não estou integrado nessa espécie, tenho a vantagem de poder falar verdade ou, se preferir, não ser politicamente correcto. Só que a justificação que o PSD dá, é hipócrita, mentirosa. Ele não está preocupado com os custos – recorde o que fez, com todos os outros partidos, relativamente à lei do financiamento. O que o PSD quer, visto ter maioria nas autarquias, que provavelmente manterá, é tirar vantagem disso, precisamente pela tal inépcia que reconhece em muitos eleitores para lidar com mais do que uma lista. Os outros partidos querem o contrário, também na defesa dos seus interesses. Pondo de parte os interesses de qualquer um deles, se duas eleições contribuírem para que os seus resultados exprimam com maior verdade, com maior transparência, a vontade dos eleitores, então vale a pena fazê-las.
O Bloco de Esquerda, pela voz do seu líder, também já começa a dar indícios, através da sua linguagem – há uma linguagem para quem cheira a poder e outra para quem não cheira - de lhe cheirar a poder. Já diz que vai apresentar um programa de governo, que quer ser primeiro-ministro, defende o TGV – o que eu também defendo. Os grandes empreendimentos, entregues, obviamente, a grandes empresas, não obstaculizam as pequenas e médias empresas, antes pelo contrário, fazem-nas movimentar, dão-lhes trabalho. Se é que eu não ando a ver mal, nomeadamente em grandes empreendimentos de construção civil, vêem-se inúmeras pequenas empresas envolvidas. Aliás há grandes empresas do ramo com muito poucos operários nos quadros para a dimensão das obras a que concorrem, socorrendo-se de outras. Estranho que ainda haja tanta gente, considerada importante, neste país, com mentalidade salazarenta. Por Salazar não querer investir é que ficamos décadas no atraso que muitos conhecem, embora alguns parece terem esquecido. Todos sabemos o que lucraram as gerações que vieram depois de Salazar: atraso em todos os domínios, miséria e até aquilo que muitos dizem que pelo menos havia respeito era medo. Não obstante isso, temos consciência de que algumas coisas desse tempo, hoje fariam um jeito enorme.
É uma pena que, quando somos chamados a votar, nem os políticos nos mereçam grande credibilidade e nem tão pouco os programas eleitorais, os seus projectos, porque, ainda que muito interessantes, normalmente não são cumpridos. Mesmo dentro do mau, pode ser que encontremos alguém ou algum projecto mais confiável. Deixar de votar é que não é solução.
“ A paixão de mandar é a mais terrível de todas as doenças do espírito humano” – Voltaire.