Pontos de Vista…52
Estão aí as eleições para o Parlamento Europeu. Quem viu por aí algum político, já não digo dos líderes nacionais ou distritais, mas dirigentes partidários concelhios a dar a cara, porque também têm essa obrigação, em meu entender, a explicar as propostas que cada um tem para a Europa? Eu não vi. Também para fazerem as figuras que os diversos candidatos têm feito, de acordo com aquilo que nos é dado constatar através dos média, mais vale estarem mudos e quedos. Falar de política europeia, apresentar propostas, não é com eles. No fundo parece que o que temos é uma campanha antecipada das legislativas, com a oposição a atacar o governo e o seu partido e estes a mostrarem a bondade das suas acções e a atacar aquela. Como querem chamar o povo aos votos, se muitos nem sabem que vai haver eleições e muitos outros não sabem que eleições são. A campanha parece resumir-se a um jogo de tacada – deixe-me dizer assim – e resposta, isto é, cada um dos partidos está à espera do que o outro afirma, para depois lhe cair em cima, numa de ver quem barrega mais alto, fazendo muitas vezes figuras de lerdos. O mais curioso, mas muito pouco interessante, e revelador de falta de ética, de pudor, é que não é difícil constatar que se porventura até estiverem de acordo com algumas afirmações dos adversários, baralham-nas, alteram-lhes o sentido para as poderem contestar. Revela a pequenez da generalidade dos nossos políticos. Quanto à não participação dos dirigentes distritais e concelhios, isso só comprova, uma vez mais, que a maioria dos nossos politicozinhos de meia tigela só se mexem quando se trata do seu “tacho” ou do seu “penacho”. Não posso conceber políticos amarrados a um partido com um comportamento destes. Chegando as legislativas e, mais ainda, as autárquicas, eles aí estarão todos a dar beijinhos e abraços, a distribuir bonés, sacos de plástico, esferográficas e outras bugigangas, mas sem coragem de fazer sessões de esclarecimento, de debater, de aceitar o contraditório por parte das plateias. Gostava muito que isso acontecesse na minha freguesia, no meu concelho, que os políticos viessem apresentar as suas propostas, ouvir os cidadãos, responder às suas questões. Assim, as campanhas tinham algum interesse, certamente não faltariam participantes e interlocutores com questões interessantes a pôr e a debater, os actos eleitorais seriam mais concorridos. Enfrentar os eleitores cara a cara, olhos nos olhos, a maioria dos políticos não têm coragem. É pena, pois teriam muito a aprender e talvez mudassem alguns dos seus comportamentos. E seria uma forma de mostrar algum respeito pelos cidadãos, sobretudo pelos eleitores. Eu não deixaria de estar presente e de certeza que participaria activamente. Aqui fica o meu repto. As campanhas eleitorais, se é que o que fazem se pode denominar de campanhas, não têm nada de formativo nem informativo, antes revelam um total desrespeito pelas pessoas.
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Já por mais do que uma vez aqui abordei o problema dos GIPS da GNR, essa força que em tão má hora foi criada e que, ao invés de colaborar na extinção dos incêndios florestais, tem sido, várias vezes, fonte de conflito. Parece-me que, por afirmações de alguns elementos dessa mesma GNR, este ano não irá fugir à regra, porventura poderá complicar-se. O contra-fogo é uma arma poderosíssima e, em muitos casos, a única forma de supressão do incêndio com o mínimo de malefícios. Se um determinado grupo de combate ao incêndio conclui que deve utilizar essa forma de supressão, não pode ser o grupo da GNR que chega posteriormente que vai impedir. Ou será que reconhecem aos elementos dessa força mais responsabilidade de decisão nessa área? Ou será que o comandante da força dos bombeiros, chegado ao local do incêndio, feita a avaliação e chegado à conclusão que a melhor solução ou única, é o contra-fogo, há-de ficar à espera que chegue uma qualquer autoridade florestal? O que cada comandante das operações deve fazer é aquilo que julgar ser o mais conveniente, depois de ter feito uma avaliação séria, desrespeitando mesmo, se para tal for necessário, o zelo da GNR. O que importa é extinguir o incêndio. Os elementos da GNR que participem, que dêem ordem de detenção, que façam aquilo que entenderem. Ou então deixá-los sozinhos no incêndio. Faço estas afirmações, na certeza de que seria exactamente assim que eu procederia se ainda estivesse no activo. Vou dar-lhe um exemplo concreto, em que fui interveniente. Foi exactamente no início do Verão de 1999, portanto há dez anos. Um enorme incêndio florestal consumia a floresta de Tabuaço, numa frente de cerca de
20 quilómetros e já tinha roubado a vida de alguns bombeiros da corporação local. Cerca das quatro horas da manhã, com a s viaturas dos bombeiros locais estacionadas no quartel e os bombeiros, em suas casas, abaladas ou em estado de choque com tamanha tragédia que se abatera sobre eles, estava eu no referido quartel, onde funcionava o posto de comando e onde eu era o mais alto superior hierárquico. Recebo um alerta de que ali, a cerca de quinhentos metros, havia umas instalações agrícolas com diverso equipamento e um número considerável de vacas que seriam totalmente devoradas pelo fogo se rapidamente não fizessem deslocar para lá um autotanque. Perto de mim não tinha nenhum bombeiro que estivesse habilitado a conduzir um autotanque, a não ser um motorista de uma empresa de transporte de passageiros. Tinha que tomar uma de duas possíveis decisões: ou não cometer nenhuma infracção e deixar estar o autotanque sossegado no quartel ou cometê-la, pondo o referido motorista a levar a viatura. È evidente que optei por esta última. Os bombeiros presentes no local, com o autotanque presente impediram que as instalações fossem devoradas pelo fogo e que as vacas morressem carbonizadas. Para além disso naquela frente conseguiram extinguir totalmente o incêndio. Hoje voltaria a cometer a mesma ou qualquer outra infracção, desde que essa fosse a melhor solução. Por isso é que eu falo como falo. As leis devem cumprir-se, mas há algo que por vezes é mais importante do que qualquer lei: é o bom senso.
Que a consciência nunca vos pese por terem deixado de fazer aquilo que deveríeis ter feito, ainda que contrariando as leis. Podereis, eventualmente, sentir algum desconforto por as coisas nem sempre correrem como desejavam, mas é preferível do que a consciência pesada por terem deixado de fazer algo, só para não infringir as leis ou regulamentos e daí ter resultado tragédia.
O melhor é deixarmo-nos de andar a brincar aos fogos, porque se a coisa der para o torto e se os bombeiros se unirem e mostrarem exactamente a força que têm e como o país está dependente deles, alguém, que não eles, se irá queimar. Fazendo as afirmações que faço, não significa que não seja apologista da resolução dos problemas através do diálogo, só que quando o incêndio está activo não há tempo a diálogo, apenas acção. É bom, portanto, que se tomem medidas atempadamente, antes que venha a arder mais do que aquilo que deveria. Ah! Diz-se que os GIPS são forças vocacionadas para a primeira intervenção. Gostaria que me explicassem como é que elas chegam primeiro do que os bombeiros à maioria dos incêndios.
Que quem tem o poder de decidir tenha a lucidez suficiente para que cada um cumpra as funções para que está vocacionado e não interfira nas outras. O que algumas décadas de experiência me ensinaram é que forças vocacionadas para combate a incêndios são apenas os bombeiros. Não confundam o povo com fogos controlados, que nada têm a ver com incêndios florestais, nem metam outras forças onde não devem, fazendo tanta falta nos locais e nas acções onde deveriam estar.