Sunday, September 28, 2008

Pontos de Vista…17

     

Anda por aí muita gente em pânico com a onda de criminalidade e, não obstante a retórica exagerada de alguns, é realmente caso para todos nos preocuparmos, nos rodearmos de cuidados, tomarmos algumas medidas, adoptarmos determinados comportamentos que, ao invés de provocarem os marginais, antes os dissuadam ou, pelo menos, não os atraiam e seduzam. Posso dizer que não fico à margem desse fenómeno, pois reflicto sobre ele e, obviamente, também me preocupo, por mim e, sobretudo por aqueles que me são mais próximos. Há, de facto, sobejas razões para todos nos sentirmos intranquilos, desconfiados. Se essa criminalidade que por aí grassa seria, por si só, motivo mais do que suficiente para a nossa intranquilidade, na perspectiva de que, de um momento para o outro, qualquer um de nós pode ser vítima, o pior é que as pessoas, de um modo geral, hoje têm tais comportamentos que eu acabo por me sentir intranquilo com a generalidade da espécie humana. Muitos dos que conhecemos, com quem convivemos, desiludem-nos frequentemente, deixando-nos cicatrizes profundas. Isso obriga a que estejamos sempre de pé atrás perante aqueles que se aproximam de nós. Direi que me sinto desiludido com as pessoas, felizmente, tranquilo, feliz comigo mesmo. Fora da fronteira dos alegados ou já tidos oficialmente como criminosos, encontramos um sem número de pessoas egoístas, mentirosas, ingratas, presunçosas, imbecis, traiçoeiras e traidoras, sem escrúpulos, manipuladoras, usando todos os meios, mesmo os mais execráveis, para atingir os fins, capazes de atropelar os próprios pais, sem se incomodarem com os malefícios que podem provocar, antes alegrando-se com isso. Criminosos e estes, que, pelos seus malabarismos, pela sua hipocrisia até passam, em muitos meios, por pessoas com algum mérito, provocam danos físicos e mentais, quantas vezes irreparáveis. E muitas vezes são mais os danos, sobretudo anímicos, provocados por estes do que por aqueles, pelo inesperado. Mas é evidente, e ainda bem, que no meio deste pântano de gente reles em que vivemos, ainda consegue emergir gente boa, que mesmo passados dezenas de anos, guarda dentro de si o nobre sentimento da gratidão e muitas outras virtudes. Posso dar-lhe um exemplo muito concreto que atesta de forma perfeita aquilo que digo e que faz com que, apesar da descrença, ainda há quem nos faça sentir que vale a pena viver, vale a pena fazer bem, ainda que saibamos que a maioria o não merece. Quem verdadeiramente gosta de fazer o bem, não o faz na esperança de que lhes sejam gratos, mas todos ficam feridos com a ingratidão e sentem a gratidão como um doce. Há dias um parente meu, colocado como uma espécie de exilado num lar de idosos pelos familiares mais próximos e aí deixado ao desprezo por eles, sem uma visita, sem um telefonema no dia de aniversário, no natal, em nenhum dia, que eu visito com a frequência que posso, apesar de distante mais de uma centena de quilómetros, sabendo que meu pai iria estar aqui em Portugal numa curta visita, pediu-me encarecidamente que o levasse a visitá-lo, porque o não via há mais de cinquenta anos, mas não esquecia o bem que lhe fez, quando ainda muito jovem chegou ao Rio de Janeiro e encontrou nele um ombro amigo, uma sombra protectora, mais do que um pai, no seu dizer. Prometi-lhe que por mim o faria com todo o gosto e que, acreditava que meu pai, apesar da sua debilidade em termos de mobilidade, também o faria gostosamente. Havia apenas dois dias de permanência de meu pai e, posto ao corrente do pedido, de imediato se prontificou a satisfazê-lo. O reencontro foi uma cena indescritível. A emoção que se apoderou dos dois, mas sobretudo do meu parente empurrado para o lar, foi de tal forma que eu temi que acontecesse uma tragédia. Felizmente, ambos se recompuseram rapidamente. Mas foi bonito de ver: dois anciãos - mais velho o meu pai do que o parente – abraçados como puderam, dadas as debilidades de ambos, com os olhos marejados de lágrimas, com este numa manifestação inequívoca, sincera, saída do mais profundo do seu intimo, de gratidão e aquele a retorquir que fez apenas aquilo que era sua obrigação de fazer e que fizera a todos quantos de Portugal se lhe dirigiam. Foram cerca de duas horas maravilhosas para ambos: para o meu pai que ficou com a sua auto-estima elevada por ver, passados mais de cinquenta anos, alguém que lhe manifestava tamanho afecto, tamanha gratidão, demonstrando-lhe que vale a pena fazer bem, ainda que muitas vezes a paga seja a ingratidão. Para o meu parente, porque, sem nunca o ter esquecido, teve oportunidade de dizer o que ainda lhe ia na alma, a alguém que tão bem lhe fizera. Eu fiquei embevecido, deslumbrado com a cena e fiquei a pensar que é sempre gratificante fazer bem, ainda que em cem pessoas apenas uma seja grata ou mesmo nenhuma. Modesto Lafuente disse: “ A satisfação de encontrar uma pessoa grata compensa a amargura de muita ingratidão”.

Creio que todos temos um pouco a tendência para dizer mal, não diria de tudo, ma sobretudo do que é nosso, seja da nossa freguesia, do nosso concelho, do nosso país. Talvez isso seja genético. É bom, todavia, que de vez em quando encontremos razões para dizer bem e não tenhamos pejo em o fazer. Aliás é um dever fazê-lo sobretudo àqueles que se apressam a dizer mal sempre que acham que é caso disso. Numa viagem anterior, meu pai teve sobejas razões de queixa da TAP e disso se deu conta. Agora, não sendo VIP, teve um tratamento como se o fosse, ou antes, como sempre deve ser feito. Tendo de se movimentar em cadeira de rodas, ao entrar no avião, no Rio de Janeiro, fê-lo acompanhado pelo simpaticíssimo pessoal de bordo que fechou as entradas até que ele estivesse devidamente acomodado, reservando-lhe dois lugares para melhor conforto. Chegado ao Aeroporto Sá Carneiro, em Pedras Rubras, só depois de sair toda a gente, o transportaram até ao meu encontro, na porta das chegadas, facilitando-lhe a vida em todos os trâmites alfandegários, disponibilizando-lhe sempre o maior carinho e atenção. Como sempre aponto o que está mal, com um sentido construtivo, embora, é meu dever dar esta nota de um bom serviço prestado pela companhia aérea portuguesa, tantas vezes criticada, certamente com razão.

Bom, embora me fosse mais agradável dar conta de aspectos posittivos, vejo-me na necessidade de referir mais um aspecto negativo. É ele o seguinte: Todos nos vamos dando conta dos frequentes problemas causados pelo CODU – Centro de Orientação de Doentes Urgentes – ligado ao INEM e a que temos acesso através do número sobejamente conhecido de todos que é o 112. São de facto inúmeras as complicações, provocadas, umas  vezes, por deficiente comunicação de quem apela aos serviços através do referido número, outras vezes, por mau serviço prestado pelos profissionais que operam em tal Centro. Então é ver ambulâncias, sejam do INEM ou dos bombeiros, todas despachadas pelo CODU, a chegarem atrasadas, a não chegarem ou andarem de lado para lado à procura dos doentes ou acidentados. Não é por acaso que eu digo frequentemente que é mais seguro ligar para os bombeiros do que para o 112, embora saiba perfeitamente porque razão muitas pessoas o fazem, que tem unicamente a ver com economia e não com qualidade de serviço e também por isso eu trago sempre comigo o número de telefone de todos os corpos de bombeiros do país. Com eles tenho a garantia de que se não perdem no caminho. Ora como se as chamadas feitas através do 112 não causassem já demasiadas complicações, eis que não sei porque carga de água, nos aparece nos ecrãs da televisão e possivelmente noutros órgãos de comunicação social publicidade apelando a quem tiver conhecimento de um incêndio florestal para ligar para o 112. É estranho. É para fazer maior complicação e mandarem os bombeiros apagar incêndios florestais por aí em qualquer rio ou na praia?! Que eu saiba, e creio que nem mudou nem acabou, o número para o qual se deve ligar para comunicar um incêndio florestal é o 117. Será que a Autoridade Nacional de Protecção Civil quer assim – vá-se lá saber porquê – ou ainda se não deram conta do erro. Se quer assim, o mínimo que se pode exigir é que justifiquem. Se é erro, é lamentável.

É triste também que o INEM pague um milhão de euros em horas extras, o que significa que há técnicos de socorro que ficam sobrecarregados de trabalho, perdendo necessariamente eficiência, o que tratando-se de vidas humanas, pode ter consequências muito graves. É mau ainda porque deveriam ser contratados novos técnicos, até porque eles existem e necessitam de trabalhar. Enfim, trapalhadas de um país que é vítima da crise económica mundial que se vive, mas também muito de si próprio.

Posted by Salazar at 11:38:59 | Permalink | No Comments »