Pontos de Vista…45
“Queimai velhos madeiros,
Bebei velhos vinhos,
Lede velhos livros,
Tende velhos amigos”.
São palavras de Afonso X, o Sábio. Sei que tenho alguns velhos amigos. Talvez não muitos, mas o que importa é a qualidade, não a quantidade. Muitos confundem amigos com pessoas com quem se tem boas relações. Dizem-se amigos de todos. Há uma expressão latina “amicus humani generis” que se costuma empregar ironicamente para designar que amigo de todos não o é de ninguém. Frequentemente é mais fácil manter boas relações com pessoas apenas conhecidas, com quem contactamos com alguma assiduidade, do que com os autênticos amigos, daí que aqueles se venham a confundir com estes. Os amigos verdadeiros são aqueles que estão connosco nas adversidades e quase não se dá por eles nos momentos de prosperidade. Os amigos verdadeiros são aqueles que dizem coisas desagradáveis, que nos repreendem olhos nos olhos e nos elogiam, nos defendem, nas costas. Os amigos verdadeiros são aqueles que falam connosco quando precisamos de abrir a nossa alma e ter alguém que nos escute e nos diga alguma coisa, mas que também respeitam os nossos silêncios, quando é disso que precisamos. Os amigos verdadeiros são aqueles que nos ajudam antes de lhes dizermos que precisamos. Deixe-me referir aqui, entre parêntesis, que nem sempre quem precisa de ajuda, apesar de ter amigos prontos a fazê-lo, aceita sê-lo, pelas mais diversas razões, nomeadamente o orgulho. Não se pode ajudar quem não quer ser ajudado. Aqui, há necessariamente uma falha na relação de amizade por parte da pessoa que precisa de ajuda.
Deixe-me mudar de agulha e dizer que um amigo verdadeiro nunca pode ser um hipócrita. De hipócritas, tidos por grandes amigos está a Terra cheia. Mesmo assim, devemos ter cuidado, porque algumas vezes somos traídos por aquilo que consideramos velhas amizades. Se assim é, muito maior razão teremos para nos precaver relativamente aos considerados novos amigos. Para que os conheçamos bem é necessário que os deixemos envelhecer, como a um bom vinho, maduro, obviamente. Mas se até este, por defeito da rolha – ou boca, se preferir, para haver mais consonância com o homem – ou outra coisa qualquer nos trai!…Às relações mais recentes, fruto de ligações de trabalho, da comunhão dos mesmos interesses políticos, religiosos, associativos, clubistas, da frequência do mesmo café ou restaurante, antes de as rotular de amigos, deveremos deixá-las amadurecer convenientemente.
Esta reflexão surgiu-me após o contacto de um velho amigo – cerca de meio século é tempo mais do que suficiente para se considerar velho…amigo, claro - que estava muito preocupado porque havia feito uma reunião com outros amigos, com a intenção de realizar uma confraternização em que juntasse o maior número de amigos possível e se esquecera de mim, nesse momento. Estava muito atrapalhado, apesar da data da dita confraternização ainda vir aí, pedia-me desculpa por não ter sido dos primeiros a ser contactado, dizendo-me, entre outras coisas, que não era hipócrita, senão poderia aduzir outra desculpa, mas o que acontecera de facto é que se esquecera – embora vivendo próximos, não nos vemos com grande frequência. Tranquilizei o meu amigo, prometi-lhe estar presente, a menos que algum impedimento de última hora surgisse, porque realmente não o considerava hipócrita. Se o considerasse, não estaria, porque nenhum hipócrita que eu reconheça como tal, terá o estatuto de meu amigo e por isso nunca estaria presente num evento que ele protagonizasse.
Se há virtudes que eu me arrogo, uma delas é a da frontalidade, de não dizer nada nas costas de quem quer que seja, que não tenha coragem de dizer cara-a-cara. É natural, pois, que me enojem todos aqueles que vivem dando palmadinhas nas costas, tecendo, a torto e a direito, às vezes raiando o ridículo, loas nem sempre merecidas, muito menos justificáveis, pela frente e normalmente visando interesses particulares ou de grupo, maldizendo pelas costas ou só marcando presença em momentos festivos, primando pela ausência em momentos menos felizes. Há muita gente a autoproclamar-se de amigo, quando, no fundo, não passa de grande hipócrita, gente que, intimamente, apenas inveja o mérito ou a felicidade e se satisfaz com o infortúnio dos outros. Mente, atropela, calunia seja quem for para atingir os seus objectivos. Sem escrúpulos e à boa moda dos políticos.
Se há defeito que o meu amigo aqui referenciado não tem é, de facto, a hipocrisia; se há defeito que lhe posso atribuir, e, por diversas vezes, já lho disse, é ser dotado de alguma ingenuidade – que é muito típico das boas almas – e, por essa mesma razão, acreditar facilmente na amizade de todos os que com ele se relacionam, sendo que alguns podem, certeiramente, ser rotulados de quaisquer outras coisas, menos de amigos.
…………………………………………………………………
É uma verdade incontestável que Nespereira está pessimamente mal servida de estrada nacional. Nomeadamente, no que respeita à segurança, a estrada nacional número 225, entre Castelo de Paiva e a fronteira entre Alvarenga e Cabril é uma vergonha. Após uma reclamação que fiz, recebi, em Agosto do ano passado, do Director de Estradas do Distrito de Aveiro, Engenheiro Joaquim Rosa, a seguinte resposta que me deixou, obviamente, satisfeito: “Na sequência da reclamação efectuada por V. Ex.ª…informa-se que após reconhecimento efectuado ao lanço da EN 225 em questão…a Direcção de Estradas de Aveiro irá promover acções de reforço de segurança rodoviária…da EN225 no decorrer do 2.º semestre do corrente ano, nomeadamente procedendo à aplicação de sinalização vertical de guiamento e balizagem e ao reforço das protecções laterais nas curvas mais perigosas, aplicando guardas de segurança metálicas”.
Os muros de protecção, em pedra, uns destruídos, outros semi-destruídos foram, efectivamente, todos reparados durante o referido semestre. Fiquei convencido que a promessa seria cumprida. Mas qual quê! Aplicação de guardas de segurança metálicas até hoje nem uma. Continua, assim, o perigo à espreita em cada curva, com o Paiva a espreitar lá bem ao fundo. Apesar de esta zona não poder oferecer muitos votos, três actos eleitorais neste ano pode ser que contribuam para que a promessa atrás referida seja cumprida.
É de toda a justiça afirmar que as estradas municipais do concelho de Cinfães, de um modo geral, são boas, têm melhorado muito, não obstante alguns erros, segundo o meu ponto de vista, que se deveriam ter evitado, uns, corrigido, outros. Bom, mas vou deixar isso para outra altura. Agora o que quero referir é o facto de muitas valetas, que conduzem não só águas pluviais, mas nalguns casos, também águas de rega, serem tão desprezadas quer por particulares, quer pela autarquia. Para além de estarem em muitos quilómetros entulhadas com os mais diversos tipos de materiais, silvas, tojos, giestas rebentam-nas e vão penetrando na estrada. Para além dos prejuízos, do mau aspecto que dá, sobretudo a quem nos visita, tal situação representa uma facilidade acrescida para a deflagração de incêndios florestais. Será que os autarcas não passam por essas estradas?! Ou pertencerão ao grupo dos que olham mas não vêem?! Não basta exigir-se, reclamar-se, recomendar-se mais limpeza, mais prevenção, é necessário que, sobretudo quem mais obrigação tem de o fazer, dê o exemplo. “Bem prega Frei Tomás…”