Paixões
Mudando de um assunto mais solene, mais sério, para um mais ligeiro, mas também importante na vida das pessoas, para descomprimir dessa campanha em que se falou muito e pouco se disse, onde se beijou, abraçou, bajulou sem pinta de sentimento, deixe-me falar de amor, de paixão, coisas que uma grande parte dos políticos só têm por si próprios. São os campeões do narcisismo.
Mesmo sem dar grande importância às páginas cor-de-rosa, - não digo revistas, que essas não me sujam as mãos, - porque isso seria um desperdício de tempo, basta passar os olhos por alguns títulos, para verificar como alguns seres humanos, certamente mais modernos do que eu, esquecem repentinamente paixões avassaladoras, o homem ou a mulher das suas vidas, para, tão de repente como o dito esquecimento, num espaço de tempo excessivamente curto, segundo o meu ponto de vista, se apaixonam loucamente, num amor que dizem ser eterno, até ao próximo que, às vezes aparece logo na folha seguinte do calendário. Com perto de 40 anos de casamento devo pertencer a uma espécie em vias de extinção, e que porventura os mais modernos e liberais abominam.
Assim seja, mas eu acho que o amor à primeira vista entre um homem e uma mulher - não me chamem homofóbico - é uma treta. O amor necessita de tempo, de convívio para se sedimentar. É certo que o pai, a mãe já amam o seu filho que ela traz no ventre, mas o amor profundo há-de construir-se com o tempo. O povo tem uma expressão que traduz isso muito bem: “parir é dor, criar é amor”. Num primeiro contacto, entre um homem e uma mulher, pode haver uma atracção mútua, imediata, que porá os corações a bater mais forte, podem sentir-se borboletas no estômago, a carne pode dar sinais de desejo, mas daí a dizer-se foi amor à primeira vista vai uma grande distância. Quando muito, pode estar aí o gérmen, ou não, de um grande amor. Aquilo a que alguns chamam amor não passa de uma paixão.
As paixões, ainda que grandes, se não forem alicerçadas na amizade, são como os incêndios: mais cedo ou mais tarde acabam por se extinguir. Por isso é que os casamentos que assentam apenas na paixão, de um modo geral, são pouco duradouros. Basta vermos o que se passa com muitas figuras públicas e mesmo com algumas que nós conhecemos, em que os casais se conheceram e depois de um convívio de mês ou poucos meses, chegam à conclusão de que estão a viver a paixão da vida deles. Poderá até ser. Só que as amizades sólidas não se constroem em tão pouco tempo. E para que um casamento, em especial, perdure no tempo, não basta a paixão, é necessária a tal amizade, que leva, por si, à capacidade de entender o outro, à tolerância, a saber perdoar, a pensar mais no outro do que
em si. Assim se constrói o amor, seja o amor entre um casal, seja qualquer outra espécie de amor. A paixão pode ajudar, indubitavelmente, mas só por si é muito pouco, porque depois de extinta, que sobra? Talvez apenas algumas boas recordações. Enquanto as verdadeiras amizades, mesmo que os relacionamentos arrefeçam, são perpétuas, as paixões são efémeras.