Pontos de Vista…42
Já muita tinta correu e muito se falou sobre a desastrosa (sobretudo para o Sporting) arbitragem de Lucílio Baptista, no jogo da final da Taça da Liga, ocorrido no último sábado, no Estádio do Algarve, entre Benfica e Sporting. Apesar do assunto estar já por demais escalpelado, mesmo assim, apetece-me tecer algumas considerações. Deixe-me antes de mais confessar-lhe que o que mais me deprimiu, até hoje, foi quando chegou o momento de deixar de jogar futebol de competição, tal era a alegria, o entusiasmo, o empenho com que me empregava nos treinos, nos jogos. Isto quer dizer que sou um apaixonado não fanatizado do futebol. Nem o facto de ter desempenhado, por vários anos a função de treinador preencheu esse vazio. Pela minha própria experiência – por exemplo, perdi um título de campeão já depois de ter recebido a faixa, devido a um relatório fraudulento de um árbitro e conivência da Associação de Futebol – e daquilo que vou vendo e lendo, sei que esse desporto que sempre me empolgou, infelizmente, tem muito pouco de verdade desportiva. E o mal não é de agora. Nem sei se agora é pior ou melhor. Sei que agora é mais fácil tomar conhecimento do que é verdadeiro ou falso, através da grande cobertura feita pelos órgãos de comunicação social, nomeadamente a televisão. Aliás, se não fosse este órgão, relativamente a muitos acontecimentos, ficaríamos sempre na dúvida. Sempre houve e continuará a haver erros graves na arbitragem. É inevitável, enquanto não puserem a tecnologia ao serviço do futebol, que mesmo assim não sei se será suficiente. Há erros que são perfeitamente desculpáveis, admissíveis; outros, porque configuram incompetência, ou, pior do que isso, má-fé ou mesmo fraude, são intoleráveis. No jogo em referência, o árbitro, com a sua decisão, provocou quase um terramoto: proporcionou que o Benfica levasse para casa – recuso-me a dizer ganhou – uma taça que deveria ir para Alvalade; que o Sporting com seus dirigentes, técnicos, atletas não usufruíssem do título; que o Sporting perdesse a favor do Benfica um milhão de euros; que o seu técnico e um jogador fossem castigados, porque os seus gestos, embora não merecedores de aplausos, em qualquer das circunstâncias, foram consequência do erro crasso do árbitro. Foi, de facto, uma decisão com consequências muitíssimo graves. Se o erro, só por si, me choca, muito mais choca a reacção de alguns dos intervenientes no jogo. Desde logo, o próprio Lucílio Baptista. Sinceramente, tenho muita dificuldade em acreditar na sua boa-fé e explico por quê. Quando um árbitro não tem dúvidas relativamente a qualquer facto ocorrido no jogo, a decisão tem de ser sua, independentemente daquilo que lhe indicar o árbitro assistente. Ora, se Lucílio Baptista esteve quase dois minutos a dialogar com os seus assistentes é porque não tinha certeza de nada. Mais, o seu assistente que acompanhava o jogo na parte do campo onde se verificou o lance, ter-lhe-á dito que não foi grande penalidade ou que não viu nada como referiu posteriormente, Lucílio. Tal como nos tribunais, na dúvida, o juiz não castiga. Era isso que o árbitro, ou o juiz da partida, se preferir, deveria ter feito. Assim é difícil acreditar-se no futebol. Mas não queria deixar a minha reflexão por aqui. Será que adquirir um título da forma como foi, justificará tanta alegria, tanto entusiasmo de treinador, atletas e adeptos? Não seria recomendável um pouco mais de contenção? Será que o já bastante contestado Quique Flores, porque uma péssima decisão de um árbitro lhe proporcionou um título, pois nem sequer a jogar contra dez, durante cerca de vinte minutos, se atrevera a marcar um golo, já é o melhor do mundo?! Que dizer das palavras de Reyes que faz esta afirmação: “não me interessa se é penalti ou não o que interessa é que ganhamos”?! Faz-me lembrar aquela triste figura de David Luiz que afirmou perante umas dezenas de crianças que o golo que mais o marcou fora o que marcara ao Braga em posição de fora de jogo. Quim foi transformado no herói do jogo. Gosto muito do Quim e ainda bem que ele mostrou estar no pleno uso de todas as suas capacidades, na defesa das grandes penalidades, mas o grande protagonista do jogo não foi ele, foi o árbitro. Não fora este e Quim teria tido um jogo sofrível, nem sequer a merecer a classificação de bom. Como se tudo isso não bastasse, aparece o director de comunicação do Benfica a acusar o Sporting de não saber perder, de falta de fair play, como se o seu clube tivesse legitimamente ganho alguma coisa e pretendendo retirar ao seu adversário o direito mais do que legítimo e justificado à indignação. Realmente há gente que não tem um pingo de vergonha.
Devo referir ainda que muitos jogadores, de ambas as equipas, ao invés de procurarem jogar futebol, mostrarem todas as suas qualidades e proporcionarem um bom espectáculo, andavam mais preocupados em acertar nas pernas dos adversários. Muitas vezes é o ambiente escaldante, quezilento, das bancadas que se transmite para dentro do relvado. Nesse jogo, enquanto nas bancadas tudo era mais ou menos pacífico, até ao “desastre”, o campo, às vezes, parecia uma arena. Por todo este ambiente sórdido do futebol é que dele, como da política, vão-se afastando os mais sérios. É pena.
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Tendo ainda fresco na memória a tragédia daquele bebé que morreu asfixiado no carro onde o pai o esquecera, na segunda-feira, 16 de Março, um jornal diário titulava, na primeira página: “Tragédia atinge quatro crianças” e como subtítulos “Entre-os-Rios – Irmãos destravam carro e caem
15 metros”; “Mangualde – Bebé morre ao cair num poço a céu aberto”; “Matosinhos – Menino levado pelo mar quando brincava”. Depois disso já houve outros casos semelhantes como crianças a cairem de varandas, outra atropelada pelo próprio pai, etc. Já aqui há tempos abordámos o assunto, salientando o facto de algumas pessoas – muitas, infelizmente – ao invés de assumirem as suas culpas, se não totais, pelo menos parciais, atribuírem ao ter de ser, à sorte ou azar a responsabilidade das tragédias ou da sua iminência. Parece, dessa forma, aliviarem as suas consciências. Acredito, todavia, que muitos não têm propriamente essa intenção de alívio de consciência, será mais a ignorância em termos de cultura de segurança a falar mais alto. Todos nós, que andamos atentos ao que se passa à nossa volta, observamos que há casas, com algumas varandas e janelas, com escadas sem protecção adequada, com tanques ou piscinas em jardins ou quintais de fácil acesso a qualquer criança mesmo de tenra idade, onde, à mínima distracção, uma qualquer criança pode sofrer um grave acidente que a conduza à morte ou a uma deficiência irreparável. Todos nós observamos como e onde algumas crianças brincam, correndo sérios riscos. Todos nós observamos como algumas crianças caminham pelas nossas estradas, às vezes, brincando com uma bola, ou correndo atrás umas das outras. Todos nós observamos como algumas crianças são transportadas nos automóveis e mesmo em motorizadas, pior do que infringindo a lei, correndo sérios riscos. Todos nós observamos como algumas crianças viajam nas carrinhas de transportes escolares, com responsabilidades para pais, professores, autarcas. Perante tais circunstâncias, bem se poderiam esperar mais e mais graves acidentes. É bom que acreditemos que nem sempre “ao menino e ao borracho, Deus põe a mão por baixo”. O que tudo isso revela é uma enorme falta de cultura de segurança.
A segurança, nas várias vertentes, é um tema sobre o qual reflicto muito. É de referir que temos evoluído bastante, nos últimos anos, em termos de legislação. Direi mesmo que temos legislação ao nível europeu. Poderemos até dizer que, a esse nível, o Estado tem cumprido razoavelmente o seu dever. Só que a uma grande parte dos cidadãos mingua-se-lhe uma cultura de segurança digna desse nome. Aí, não estaremos, seguramente, ao nível dos países mais civilizados. Se cada cidadão falha, porque, por si próprio, tem obrigação de adquirir essa cultura, falha também o Estado porque deveria fazer bem mais nesse capítulo da educação, quer através das escolas ou de outras instituições vocacionadas para o problema. Verificamos também com enorme tristeza e preocupação que muitas autarquias não revelam a menor sensibilidade para o assunto, também elas pecando por pouco ou nada fazerem nesse sentido. Para se chegar a essa conclusão basta ler os Planos de Actividades e ouvir os autarcas quando são confrontados com situações do âmbito da segurança. Todos podemos e devemos fazer alguma coisa em prol da segurança de todos nós, mas sobretudo dos mais desprotegidos, como sejam as crianças, nomeadamente na mudança de muitos dos nossos hábitos e atitudes.