Thursday, March 27, 2008

Paixões

      Confesso que de vez em quando também paro junto aos quiosques que vendem jornais e revistas e as têm ali dependuradas como roupa a secar ao sol e dou uma espreitadela aos títulos, nomeadamente daquelas revistas catalogadas de cor-de-rosa. Não é material no qual eu gaste o meu dinheiro, de qualquer forma para quem tem o mínimo interesse em saber como vive, age e reage determinado tipo de pessoas, para saber exactamente como é o mundo em que vivemos, deve passar os olhos, pelo menos, por esse tipo de leitura. O mesmo se pode dizer relativamente a alguns programas de televisão, de nenhum interesse que não seja apenas o de conquistar audiências, em que se valoriza a mediocridade, a má educação do que os altos valores pelos quais todos nos deveríamos reger.
Nessas passagens fugazes com os olhos pelos ditos títulos encontro alguns que me não surpreendem, de tão habituado a tal linguagem, mas não deixam de me pôr a reflectir. Os títulos a que me refiro, normalmente tratam-se de afirmações de pessoas consideradas vip, importância que, em meu entender, algumas não têm rigorosamente nenhuma. Bom, mas não sou eu que lhes concedo esse estatuto.
Leio isto: Amo o Joaquim como nunca amei ninguém; A Locas é a mulher da minha vida; Este é o homem com quem sempre sonhei; Sem a Quicas a minha vida não teria sentido; Entre nós existe um profundo amor e uma paixão arrebatadora que ninguém ousará destruir. Bom, frases deste género poderia dizer-lhe às centenas. Você perguntará: mas afinal que é que essas expressões têm de especial? Não teriam nada de especial, ditas num primeiro amor, numa primeira paixão, num primeiro casamento. Nos casos em que me debruço, acontece que já é a segunda, terceira, quarta vez que os personagens têm o mesmo tipo de afirmações. Alguns destes amores e paixões enfaticamente proclamados, desfazem-se poucos anos depois, nalguns casos, apenas meses, metendo pelo meio até agressões físicas e verbais e tribunais. Eu creio que era de bom-tom que quem alardeou tanta paixão, tão ardente amor num primeiro relacionamento fosse mais comedido na exaltação dos seus sentimentos num segundo, terceiro e por aí fora. Parece-me que, mais do que amnésia em relação ao que antes afirmaram, revelam é falta de pudor, de vergonha. Bom, se eles fossem felizes assim, vá que não vá, mas não acredito que essa gente possa ser verdadeiramente feliz.
Paul Morand disse: “As paixões são as viagens do coração”. Quantas viagens fazem os corações dessas pessoas que alimentam a imprensa cor-de-rosa! Já viu a quantidade de revistas do género e a tiragem de algumas delas?! Elas vendem-se e lêem-se, portanto essa gente dita importante e de paixões inconstantes contribui para que o desemprego não aumente.
Quem anda a aparecer muito nas colunas cor-de-rosa é Luís Filipe Meneses, parecendo querer imitar Sarkozi. Que se cuide, porque as coisas não estão a correr bem ao líder francês. Sem sequer ter iniciado qualquer processo de divórcio, segundo a sua ainda mulher, Maria Cândida, esta relação tão pública com Teresa Moás – dizem as crónicas que se encontram em lua-de-mel – pode não lhe ser proveitosa, em termos políticos, porque pessoais, de uma lua-de-mel, normalmente tira-se bom proveito, que pode ser muito efémero, como já vimos. Nesta relação tão mediatizada, sabendo-se que Teresa Moás é funcionária da Câmara a que Meneses preside (ou não?), o que eu estranho é ninguém se ter lembrado de o acusar de assédio, pois em meu entender é isso que uma situação dessas normalmente reflecte. Se fosse um caso entre um simples chefe e uma funcionaria subalterna, talvez até desse tribunal. Tratando-se de gente dita importante, vale tudo. De qualquer forma é bom ter paixões. Sem paixão a nossa passagem pela terra seria insípida, uma pasmaceira.
Posted by Salazar at 19:39:07 | Permalink | No Comments »