Tuesday, June 17, 2008

Pontos de vista…2

      Felizmente acabou esse bloqueio irracional, irresponsável, ilegal, atentatório da liberdade dos cidadãos e da autoridade do Estado, perpetrado por alguns camionistas que, para tentarem mostrar uma força de que se vangloriam, mas que de facto não tinham, sequestraram – o termo é esse mesmo – sequestraram outros camionistas, não os deixando fazer aquilo que pretendiam, que era tão-somente trabalhar. Atentaram contra a liberdade dos seus camaradas de ofício, atentaram contra as leis do país, atentaram contra os direitos de todo um povo, de uma nação.
O que se passou foi uma vergonha. Primeiro, pela insurreição dos ditos camionistas que, como disse anteriormente, tinham toda a legitimidade para pararem, mas nunca para bloquearem estradas ou obrigarem outros a fazer o mesmo, através de ameaças, em alguns casos mesmo de agressões. Não fora este comportamento irresponsável, antidemocrático e não teríamos a lamentar uma morte. Morte que, ao que parece, foi acidental, mas que os camionistas “revolucionários”, logo se apressaram a afirmar que se tratara de assassínio. Do que nós não temos dúvidas é de que se todos os camionistas tivessem liberdade absoluta de aderirem ou não ao bloqueio, essa morte nunca teria acontecido. Em segundo lugar, não é admissível que o Estado deixe chegar as coisas ao ponto a que chegaram, sem que, de imediato, logo no início, usasse a autoridade que a democracia lhe concede e exige, para garantir a liberdade de acção de todos quantos desejavam trabalhar. É isso que se espera de um governo democrático, embora saibamos que em situações do género, a autoridade tem que ser exercida com muita prudência. Provavelmente foi isso que pesou na decisão do governo, mas terá demorado tempo em demasia, tal como aconteceu com os pescadores, que impediram a venda de peixe por parte dos comerciantes e mesmo a pesca por parte de outros pescadores. Esse é o meu ponto de vista.
Não pensemos, todavia, que a irracionalidade, a irresponsabilidade são privilégio nosso. Nada mais falso. Atentemos ao que se passa, por exemplo, na nossa vizinha Espanha e mesmo em França. Mais do mesmo, para pior ainda, porque mais requintado. É necessário sabermos que nem tudo o que nos vem da Europa, dita mais rica e civilizada, é bom, que serve de exemplo. Como exemplos, copiemos, venha lá de onde vier, tudo o que realmente for bom, for correcto, não atente contra os direitos, liberdades e garantias dos outros.
Espero continuar a ver no meu país, por muitos e bons anos, classes profissionais a fazerem greves ou a manifestarem-se, mas deixando em total liberdade todos quantos, ainda que da mesma classe, entendem não dever aderir, isto é, que cumpram a legislação, sob a qual temos obrigação de reger a nossa vida, tanto mais que ela foi construída dentro de princípios e práticas democráticas. Só assim é que podemos arrogar-nos dizer que somos verdadeiramente livres e vivemos num país em que a democracia não é uma mera ficção.
Infelizmente ainda há muita gente longe de compreender perfeitamente o alcance da liberdade, da democracia. Se o compreende, mas não pratica, é mais grave ainda.
Que estes casos tristes tenham servido de exemplo para todos, mas principalmente para quem tem obrigação de nos governar e defender.
A Irlanda chumbou, em referendo, o Tratado de Lisboa. Não podemos nem devemos negar que a figura do referendo é extremamente cara a todos quantos defendem acerrimamente a democracia, mas ela não começa nem acaba, nem se extingue nos referendos. Aquilo que vou dizer pode parecer menos respeito pela democracia, mas não. Os políticos têm uma enorme dificuldade em afirmar que o povo, uma grande parte do povo, não está habilitada a pronunciar-se sobre um determinado número de matérias, porque isso não soaria bem, provavelmente os adversários cairiam em cima e faria perder votos. Não tenho dúvidas a esse respeito. Todavia, eles sabem que é assim. A vantagem dos que não necessitam do voto para coisa nenhuma, isto é, aqueles que não vivem da política, sabem que é assim e podem dizê-lo. Por isso eu entendo que sujeitar determinados assuntos mais complexos a referendo é sujeitar a ter um resultado que muito provavelmente nem um grande número dos votantes sabe qual é o melhor resultado. Ora, se há um parlamento democrático, eleito exactamente para representar o povo, na feitura de leis e na tomada das mais diversas decisões, para quê o referendo?! Não significa que eu não concorde que algumas matérias, embora sensíveis, mas de mais fácil percepção pelos eleitores, sejam submetidas a referendo. Concordo inteiramente que sim. Agora, matérias tão complexas para o entendimento do português comum, como o Tratado de Lisboa, deixam-me muitas dúvidas. E pelos vistos não é só para os portugueses, já que, ao que se diz, muitos irlandeses terão votado “não”, exactamente por o não compreenderem. Este é o meu ponto de vista.
Agora, uma nova crise se abate sobre a União Europeia. Estudam-se diversas estratégias, tentando salvar o dito Tratado. De qualquer forma, uma série de reformas que iriam entrar em vigor a partir de Janeiro de 2009 ficarão adiadas. Se para a oposição portuguesa é apetecível afirmar que é sobretudo uma derrota do primeiro-ministro português, eu entendo que a derrota é da União Europeia e dos seus líderes, maior do líder irlandês. Mas, obviamente que José Sócrates não deixa também de considerar uma derrota pessoal, que de certo modo é, já que foi sob o seu exercício de primeiro-ministro do Conselho Europeu que o Tratado foi aprovado. Acredito que Sócrates, mal soube do incómodo resultado, terá telefonado a Durão Barroso e em vez do “porreiro, pá!…”, terá exclamado “ora porra, pá!…”
Começam amanhã os quartos de final do Euro 2008, com um Portugal-Alemanha. A Alemanha prometeu muito no primeiro jogo, mas, no meu ponto de vista, nos dois últimos jogos não confirmou o seu poderio. Seja como for, em melhor ou pior forma, não deixa de ser um grande favorito à conquista do título. Favorito que Portugal também é, pelos valores que tem, pelo futebol praticado nos dois primeiros jogos – do terceiro podem-se tirar ilações, mas sem perder de vista que uma coisa é jogar uma equipa que está feita para jogar como equipa, outra é juntar onze jogadores, ainda que excelentes, para formar pontualmente uma equipa. Temos portanto que amanhã um dos favoritos vai ter de abandonar. Espero que os nossos atletas brilhem, que a sorte, sempre necessária, mesmo no futebol, não os abandone e que o árbitro tenha melhor comportamento do que aquele que arbitrou o Suiça- Portugal. Seja qual for o resultado, desde que não seja fruto de nenhuma péssima exibição, nunca pode ser um drama a Alemanha ser eliminada por uma selecção como a portuguesa, como o inverso. Outras favoritas nem aos quartos chegaram. De qualquer forma, ficamos todos a torcer por Portugal. Bem precisamos de algo que nos anime. Para nos deprimir já temos coisas que bastem. “O sonho e a esperança são dois calmantes que a natureza concede ao homem”. Sonhemos, pois.
Posted by Salazar in 19:01:16 | Permalink | No Comments »