Tal como o tempo, vivemos uma época em que o cinzento a fugir para o negro, é a cor predominante. Sendo o que somos, tendo as fragilidades que temos, não poderíamos deixar de ser fortemente afectados pela crise que grassa pelo mundo. Se até as maiores potências não conseguiram resistir e se vêem em palpos de aranha, países da nossa envergadura, com fraca produtividade, com baixa competitividade, com reduzido nível de exportações, teriam, inevitavelmente, de sofrer com isso, independentemente do tipo de governação a que estivéssemos sujeitos.
Todos devemos estar preocupados com a crise que afecta mais a uns do que outros, mas não resolveremos nada com esta nossa roupagem de choramingões, de deprimidos, que pensamos que somos os mais infelizes, os mais desgraçadinhos de todos, quando, de facto, assim não é. E se muitas vezes as coisas não correm tão bem é porque abandonamos a luta, desmoralizámos, ficamos muito aquém daquilo que cada um de nós pode fazer. Ao invés de invejarmos os que vivem melhor do que nós, de estarmos à espera da caridadezinha e do subsídio do governo, devemos empenhar-nos, utilizando as nossas forças, o nosso talento, a nossa criatividade, para produzirmos algo e melhor. Não podemos, não devemos ficar à espera, sentados, que os políticos resolvam todos os problemas. Por mais eficazes que eles sejam, sem o contributo de cada um de nós, não ultrapassaremos o mau momento actual. De resto, eu penso que todos aqueles que mantenham os seus empregos, que tenham visto os seus salários actualizados, neste início de ano, poderão nem sentir grandes dificuldades, dado que a inflação será reduzida. Mau será, inequivocamente, para aqueles que sofrem ou virão a sofrer com o desemprego.
Falando em desemprego, não obstante ele constituir um grave problema, quem conhece o país real não tem dúvidas de que há muita gente inscrita nos Centros de Emprego, abusivamente, não querendo nada quando se lhes faz uma proposta. Há donas de casa que estão inscritas e que nunca quiseram fazer nada, a não ser as suas tarefas domésticas que, em alguns casos são pesadas. A sua inscrição visa apenas ficarem isentas de taxas moderadoras. Há malandros, - ia dizer trabalhadores, mas seria uma falsidade – que se apresentam em algumas empresas, nomeadamente de construção civil, solicitando que lhes assinem uma declaração em como estiveram a pedir trabalho, mas não o têm para lhes dar. Não poucas vezes, confrontados com a oferta de trabalho, não aceitam e vão bater a outra porta. Infelizmente, neste país, há sempre alguém que se presta a estas vigarices e assina a dita declaração. Se todos fôssemos sérios, se todos cumprissem com os seus deveres, seria menor o número de desempregados, ultrapassaríamos mais facilmente a crise. Somos muito comodistas, não gostamos de nos incomodar e até chegamos a aplaudir os Chico-espertos, que é como quem diz, a vigarice. Está nas mãos de todos nós contribuirmos para debelar mais rapidamente a crise. A cada um de nós é lícito carpir as suas mágoas pelas agruras da vida que nos vão surgindo, mas isso não pode ser sinónimo de cruzarmos os braços à espera de qualquer milagre ou que o tempo se encarregue de trazer melhores ventos. É tempo de todos nos darmos as mãos, de mostrarmos a nossa garra, a capacidade de sofrimento, mas ao mesmo tempo de vencermos, todas essas qualidades que os nossos compatriotas, que emigram, alardeiam por outras paragens, merecendo o reconhecimento de cidadãos e governantes em todas as partes do mundo e que cá, no solo pátrio, parecem esfumar-se. É nos momentos difíceis que os fortes se revelam. Está na altura de sermos fortes para podermos sobreviver e ajudar a sobreviver aqueles que por força da idade ou das circunstâncias da vida não dispõem de meios para lutar. Sacrifiquemo-nos todos, não nos amarguremos, pois, como diz Pio Baroja “uma vida de sacrifícios é quase sempre mais suportável do que uma de amargura”.
………………………………………………………………
Estou cansado de dizer e você provavelmente cansado de me ler ou ouvir que, numa grande parte dos municípios portugueses a única força de protecção civil visível, são os seus bombeiros, na sua maioria voluntários. Isto não teria grande importância se os bombeiros fossem devidamente reconhecidos e apoiados o que, infelizmente nem sempre acontece. Aliás há mesmo uma preocupação evidente de algumas entidades em esconder a expressão bombeiros, mesmo quando se trata de acções em que apenas eles são as únicas forças envolvidas. Normalmente a referência é quase sempre à protecção civil. Se fosse ingénuo, até poderia nem ver mal nenhum nisso, uma vez que os bombeiros são agentes de protecção civil. Só que os muitos anos que já levo envolvido nessa problemática me dizem que sempre houve essa vontade de fazer sobressair o trabalho, muitas vezes pouco, da protecção civil, quando tínhamos um Serviço Nacional de Protecção Civil e um Serviço Nacional de Bombeiros, que jamais deveria ter acabado. Mas hoje mesmo o tratamento não é idêntico quando se trata de acções desenvolvidas pelo INEM ou pela GNR, uma vez que sempre referem o nome dessas entidades. Significa, para mim, que cada vez menos, a instituição “bombeiros” é respeitada e só lamento que sejam poucos os bombeiros, nomeadamente os comandantes que tomam uma posição de força contra tanta arbitrariedade e desrespeito. Ouvem-se ou lêem-se posições de alguns, mas todos sabemos que é “a união que faz a força”. Esperava-se, eu esperava, que Liga de Bombeiros e Federações Distritais mostrassem mais empenho na luta pela dignificação dos bombeiros, indo mesmo até às últimas consequências, pois não são os bombeiros que precisam do país, mas o país que precisa deles.
Circulo por diversas estradas do país, nacionais ou municipais, e encontro bombeiros a sinalizar derrocadas, às vezes mesmo a desimpedi-las a pá e enxada, encontro bombeiros a cortar árvores que impedem a circulação ou caíram sobre as casas, encontro bombeiros a fazer abastecimento de água, a socorrer pessoas que ficaram prisioneiras da neve, etc., etc. Onde está o pessoal das autarquias, das diversas Direcções de Estradas? Confortavelmente, talvez, nos seus sofás, assistindo, através da televisão, ao trabalho dos “escravos”.
Tivemos a vergonhosa e dispensável criação dos GIPS da GNR que mais do que colaborarem só não são uma maior fonte de conflitos, porque muitos bombeiros, nomeadamente comandantes, são demasiado dóceis. No entanto têm equipamento novo, enquanto alguns Corpos de Bombeiros têm falta do mais diverso material, de viaturas e algumas com várias dezenas de anos.
Devo confessar que considero uma estultícia enviar bombeiros do litoral sul como forças de socorro para a neve. Desde logo porque nem sequer os bombeiros locais tinham esgotado a sua capacidade operacional. Mas não é apenas isso. Provavelmente alguns bombeiros nunca tinham visto neve ou, se tinham visto, nunca terão actuado com viaturas nessas condições. Significa que em caso de actuações complicadas, esses bombeiros, ao invés de fazerem parte da solução, seriam mais um problema para os bombeiros da região resolverem. Brincaram na neve, o que também não é nenhum mal, desde que isso não servisse para arranjarem complicações. Fiquei à espera que um qualquer oficial ou sargento dos GIPS os fosse recriminar pela brincadeira, à semelhança do que um fizera no verão, quando viu os bombeiros, em hora de descanso, a cantar. Lembro-me do meu tempo de tropa – que era dura e a sério, nos meados da década de sessenta - em que, nos crosses, cantávamos “ó Laurindinha vem à janela” e quando passávamos por alguma garota, gritávamos coisas como estas “é boa, é boa”, “é linda, é linda”. E cumpríamos as nossas funções cabalmente, ainda que contrariados. Que remédio!
Muitos dos nossos bombeiros de Trás-os Montes e das Beiras não possuem agasalhos em número suficiente e capaz para actuarem em condições adversas em termos climatéricos. No entanto o pessoal do sul, veio todo bem equipado e veio ganhar. Alguém terá perguntado aos bombeiros das terras serranas do norte e do centro se tinham capacidade para se reforçarem, ainda que pagassem a alguns elementos? Parece que não. “Quem não se sente não é filho de boa gente”. Está na hora de os bombeiros mostrarem, com recurso a veemente indignação colectiva, se tiver de ser, que, não só, são filhos de boa gente, como, eles próprios, são a melhor gente que o país possui.