Tuesday, September 8, 2009

Asfixia democrática

“Mais cego é quem não quer ver do que quem não tem olhos”.
Fico espantado – ou será que já não fico? – com o conceito de democracia que Manuela Ferreira Leite exibe, ao dar como bom exemplo de governação democrática o seu companheiro de partido, ora governante, ora outra coisa qualquer arremedo de artista de circo, que é Alberto João Jardim. Se há parcela do território português onde a democracia, por quem detém o principal poder e muitos dos seus apaniguados, sofre tratos de polé, é pouco mais do que uma miragem, é exactamente a Madeira. Basta ouvi-los, basta atentar no seu comportamento no Governo, na Assembleia Regional, na relação do líder com um jornal e a manutenção do mesmo com dinheiros públicos. Centenas de páginas têm sido escritas na imprensa, nos blogues, milhares de frases têm sido pronunciadas por rádios, televisões, em diversas intervenções, denunciando exactamente o défice democrático existente na Madeira. Só Manuela Ferreira Leite, alguns, felizmente não todos, dos seus submissos companheiros, aqueles que vivem debaixo da asa protectora de Jardim, é que não vêem isso. Quem não tem uma palavra de recriminação para o que se passa, em termos de democracia, na Região Autónoma da Madeira, ao invés disso, defende tal comportamento, apontando mesmo como um bom exemplo de governação, como já atrás referi, quem, no seu partido, hoje seu incondicional apoiante, já impôs no parlamento a “lei da rolha”, para o seu grupo parlamentar, quem já se atreveu a sugerir que para se conseguirem algumas reformas, se deveria suspender a democracia por seis meses, não tem a menor legitimidade para afirmar que no continente, por obra e graça do governo, existe asfixia democrática. A líder do PSD não está bem, não inspira confiança política, votar nela, para as legislativas, será um desperdício. Não me revendo na maior parte do discurso político de Paulo Portas, reconhecendo-lhe embora inteligência bastante, mas também demagogia que sobra, parece-me que aos que perfilham políticas de centro direita ou direita, terão o seu voto muito melhor utilizado, não querendo votar Partido Socialista, votando PP, que tanto pode significar Partido Popular, como Paulo Portas, que não vociferará nunca as asneiras de Ferreira Leite e, na eventualidade de o PSD vir a ser chamado a formar governo, eles lá estarão juntos.
Voltando à asfixia democrática, infelizmente, não por culpa deste governo nem de outros que o antecederam, mas porque ainda há muitas pessoas que transportam os vícios do 24 de Abril, os herdaram ou aprenderam, que na sua vida empresarial, de trabalho, à frente de instituições públicas ou privadas, de todos os quadrantes políticos, são excelentes exemplares, pelo seu comportamento, do que não deve ser a democracia. Conheço, todos conhecemos, pessoas que dirigem instituições, como se fossem os donos, admitindo funcionários sem regras, expulsando, demitindo, a seu bel-prazer, sem processo de inquérito ou de averiguações, exigem a assinatura de documentos sem lhes permitir conhecer correctamente o conteúdo, fazendo-os assinar folhas de papel em branco, onde, quando e se entenderem, escreverão o pedido de demissão, promovendo falsos concursos e digo falsos, porque são viciados logo à partida, ganhos, não, entregues a quem entendem, etc., etc. Se Ferreira Leite, ou qualquer outro dirigente político, tocasse nesta ferida, merecia credibilidade, o apoio de todas as pessoas que se regem por critérios mínimos de seriedade. Mas não, a campanha é atribuir todos os males ao governo, não lhe reconhecer qualquer virtude. Ora, quem for sério e andar atento, sabe que todas as ofensas à democracia referidas e muitas outras que poderíamos referir, não são da responsabilidade nem dos partidos nem do governo, mas antes, de pessoas, ainda que muitas delas estejam ligadas aos diversos partidos políticos e muitas outras sejam independentes. Aliás, basta ver o caso de vários autarcas investigados, arguidos, acusados e até condenados por abuso de poder, peculato, corrupção, etc., pertencentes a famílias partidárias diferentes. Não é legítimo acusar um partido só porque um seu membro é criminoso, como não é curial arrancar todas as flores do jardim só porque lá existe uma erva daninha.
Porque, desgraçadamente, há gente de todos os partidos que se servem dos lugares que ocupam, alguns que até foram legitimamente eleitos de acordo com as mais elementares regra democráticas e obedecendo ao estabelecido nos respectivos estatutos ou outra legislação, para colher benefícios pessoais, para dar guarida aos amigos, ainda que sem respeito algum nem pela lei nem pela ética, prejudicando ilegítima e ilegalmente terceiros, os dirigentes partidários, ao invés de atirarem pedras uns aos outros, porque todos têm telhados de vidro, deveriam assenhorar-se de mais pudor e todos contribuírem para o aperfeiçoamento da vida democrática e extirparem, legalmente, é óbvio, essas execrandas personagens que minam e descredibilizam a democracia e, se não formos tarde demais, talvez contribuam para que o povo, saturado de mentiras, de ser explorado, enganado, exija um governo autoritário, que mande a democracia às malvas.
Deixo aqui apenas mais uma nota: quem tem a pesar-lhe no currículo a responsabilidade de ter corrido com Marcelo Rebelo de Sousa da TVI, como pode ter a “lata” de acusar, sem quaisquer provas ou indícios, o governo e o Partido Socialista de estar por detrás da suspensão desse asqueroso Jornal Nacional das sextas-feiras, protagonizado pela imbecil Manuela Moura Guedes? Sou totalmente contra qualquer atentado à liberdade de expressão. Aliás, sei do que falo, porque já senti na pele, a censura e repressão. O que Manuela Moura Guedes fazia na TVI não era liberdade de informação, era utilizar a liberdade de que usufruía, para, sem qualquer espírito de informar, antes, achincalhar, ofender, atacar, comentar sem qualquer espírito de isenção, subjugada apenas ao seu obscuro pensamento ou interesse. As suas ideias, as suas afirmações teriam pleno cabimento numa coluna de opinião, concordasse-se ou não. A quem está no exercício único de informar, que é o que lhe compete fazer, quando está no ar, é inadmissível.
Não é nenhum atentado à liberdade acabar-se com um jornal naqueles moldes, desde que continuem a fazer as investigações que tiverem por bem fazer e informem, normalmente, sem jeitos e trejeitos, nem afirmações insinuadoras.
Seja como for, não é correcto, não é de pessoas de bem, acusar o Governo e o Partido Socialista, só porque José Sócrates se queixou, e com razão, segundo o meu ponto de vista, de tão abjecto Jornal Nacional.
Alguns estarão tentados a dizer: “pois é, mas o Jornal Nacional das sextas-feiras era líder de audiências. Quem conhece e reflecte sobre a forma de estar, agir e reagir do povo português, não se surpreende. Ele está em massa onde houver graves acidentes, sobretudo com mortes, assassínios, assaltos violentos, consome avidamente toda a informação, ainda que não certificada, que relate todos esses acontecimentos graves, grandes escândalos, tanto mais se estiverem envolvidas pessoas por todos reconhecidas. Poderia dar-lhe imensos exemplos, mas alguns, você também os conhece e sabe que é verdade. Parece que muitos de nós somos possuídos de uma morbidez congénita.
Não sendo o exemplar perfeito de presidente de câmara que eu gostaria para o meu concelho, Cinfães, não lhe vejo alternativa. Da mesma forma, não sendo Sócrates exactamente o primeiro-ministro que gostaria de ter, não lhe encontro alternativa e não me repugnou, antes me honrou, o convite que me foi dirigido para integrar a sua Comissão de Honra e que aceitei. Continuarei, apesar de tudo, a ser independente, a ter uma voz livre e a combater as políticas de Sócrates que entender combater, como várias vezes já o fiz, neste e outros fóruns.

Posted by Salazar at 16:38:34 | Permalink | No Comments »

Tuesday, December 30, 2008

Pontos de Vista…30

     

Não sou de todo um “expert”
em informática. A necessidade agregada a alguma curiosidade que, na minha idade, ainda é legítimo que exista, obrigaram-me a manipular um computador. Fui mexendo, fazendo asneiras, questionando os meus filhos e outras pessoas e assim aprendendo alguma coisa. Quando me aposentei, a maioria dos professores e escolas não estavam identificados com tão precioso, e hoje considerado indispensável, equipamento. Eu fazia parte dessa maioria. Da maioria, curiosamente. Digo curiosamente, porque a minha forma de estar, de pensar, de abordar diversos temas, sempre esteve mais virada para as minorias. Sempre tive mais propensão para me colocar ao lado e defender minorias do que me colocar comodamente ao lado das ideias consideradas politicamente correctas e daqueles que as defendem. Na mesma linha, sempre me aprazou mais defender os fracos do que os fortes. No fundo, creio que isso é característico de muitas pessoas da minha geração. Há, no entanto, uma dúvida – sou um indivíduo com dúvidas permanentes – que não consegui ainda dissipar: não sei se as consideradas maiorias, nos diversos aspectos em que as consideremos, serão autênticas, isto é, se serão, de facto, o resultado verídico da consciência, do pensamento de determinado número de pessoas ou se apenas fruto do interesse, do oportunismo dessas mesmas pessoas. Faço esta afirmação, porque há uma dúvida que eu não tenho: as maiorias, todas as maiorias, nomeadamente as políticas, engordam muito à custa dos interesses pessoais e momentâneos de um grande número de pessoas, do que de acordo com convicções. Muitos pensam assim: “para quê defender convicções, defender pontos de vista, se isso não me traz quaisquer vantagens, antes pelo contrário? Naquilo em que devo alinhar é no pensamento dos que têm poder, daqueles que me podem proporcionar um “tacho”, me podem fazer uns favores mesmo que contrariando as leis e a ética, ainda que tenha que trair a minha consciência, as minhas ideias”. Estou certíssimo que é assim que muitos pensam e reagem de acordo.

Bom, eu comecei por falar do uso de computadores e perdi-me por aqui nuns “atalhos”. Voltando então à “vaca fria”, apesar da minha já confessada inabilidade nessa área, uso o computador diariamente: escrevo, utilizo o correio electrónico, comunico, já utilizei o power point em formação que ministrei e, através de um sítio que um amigo me indicou, leio vária imprensa de diversos países de todo o mundo, desde que a língua mo permita e faço uma espécie de zapping pela internet. Nessas incursões vou encontrando textos, comunicações, comentários, diálogos entre gente mais ou menos conhecida e desconhecida. Encontro algumas coisas interessantes, mas também muitas outras que, não me surpreendendo, as acho ridículas. Nesses encontros ocasionais, dou com os olhos frequentemente em absurdos auto-elogios, em elogios que não correspondem, de certeza, nem ao merecimento daqueles a quem são dirigidos, nem ao verdadeiro pensamento de quem os escreve. Às vezes, até são exibidas listas graduadas de merecimentos de vária ordem. Merecimento em que só os próprios intervenientes, por narcisismo, poderão, a meu ver, acreditar. Se fosse a acreditar em que tudo o que me é proporcionado ler correspondia inteiramente àquilo que os seus autores pensavam, teríamos uma cambada de gente ingénua, que via bondade em tudo o que fazia e em tudo os que os da sua igualha faziam também. Obviamente que não me considero ingénuo, nem alinho em utopias, não obstante me considerar um grande sonhador, no que toca a realização de projectos, e por isso no que eu acredito é numa gigantesca dose de hipocrisia, de falta de capacidade de enfrentar a realidade, de dizer não, porque é mais simpático, e algumas vezes mais rentável, dizer sim. São muitos os que veneram a hipocrisia; são poucos os que valorizam a franqueza. A internet é realmente uma enorme janela aberta para o mundo. Mostra-nos tudo o que nunca imaginaríamos ver. De certeza que, fosse eu mais sábio em tal matéria, me mostraria ainda muito mais, recolhendo mais proventos espirituais, mas nem tão pouco conheço minimamente a linguagem informática. Se a sua simples utilização poderia ser um acidente; falar dela seria, inevitavelmente, uma tragédia. De qualquer forma é já muito o que tenho aprendido com ela, nomeadamente no que concerne ao melhor e mais profundo conhecimento da espécie humana. Sempre que leio a pena – se é que ainda faz sentido utilizar o vocábulo “pena” -  ou oiço a voz de alguém, não deixo de fazer um determinado juízo que pode ser alicerçado, confirmado ou desmentido consoante o conhecimento que tenha ou venha a ter de quem produz as afirmações. Com a nossa voz ou a palavra escrita, através da internet ou de órgãos de comunicação social, damo-nos a conhecer a um público mais ou menos vasto, revelando muito do nosso carácter, da nossa personalidade. Não direi das ideias, porque essas, com maior ou menor habilidade, são muitas vezes falseadas, de acordo com interesses pessoais e pontuais, como já afirmei. É uma exibição que a maioria das pessoas admite e aceita: umas porque se mostram tal qual são e isso não lhes causa qualquer embaraço; outras, porque procuram, dessa forma, mostrar falsas virtudes, esconder veros defeitos, fazer auto-promoção. Sendo assim, e na linha do que disse há dias, desejo que 2009 nos traga menos hipocrisia, mais gente que seja capaz de dizer, oportunamente e cara-a-cara, ao amigo ou desconhecido, sim, quando deve ser sim e não quando deve ser não.

……………………………………………………………….

Um outro desejo que eu gostava de ver satisfeito era que uma grande parte das Câmaras Municipais deste país se desse conta da sua verdadeira responsabilidade nas questões de protecção civil. É lamentável que apenas oitenta delas tenham aderido à criação de Equipas de Intervenção Permanente (EIP) nos corpos de bombeiros voluntários e corporativos e constituídas por cinco profissionais. Temos de considerar que cinco elementos para 24 horas, sete dias por semana, porque as doenças súbitas, os acidentes, os incêndios não têm dia nem hora, são muito pouco, mas nem esses quererem pagar a 50% é chocante. Bem sei que algumas câmaras dão subsídios substanciais às associações de bombeiros dos seus municípios, que, no entanto, são uma gota de água para as despesas que elas têm de suportar. Se os edis ainda não aderentes analisarem quanto custaria um corpo de bombeiros municipais, verificarão que se acrescentarem aos subsídios que normalmente concedem, o custo anual de uma ou duas Equipas de Intervenção Permanente, esta despesa seria muitíssimo menor do que aquela. De qualquer forma, quando falamos destas coisas, estamos a falar de pessoas, das suas vidas e de património que, tantas vezes se perde para todo o sempre. Daí que um outro desejo para 2009 é de que o espírito de alguns dos nossos responsáveis autárquicos seja iluminado de forma a terem a sensibilidade que se espera para as questões de protecção e socorro que são tanto da sua responsabilidade como a água, o saneamento, a rede viária e tantas outras coisas. Com mais ou menos apoios, com ou sem Equipas de Intervenção Permanente, os portugueses, seja de que município for, vão continuar a ter, nos seus bombeiros, a mesma disponibilidade, a mesma abnegação, a resposta oportuna às suas solicitações, mesmo em áreas cuja responsabilidade a outros pertence. Pela parte que a eles diz respeito, não obstante as dificuldades, não será, estou certo, que o 2009 deixará de ser um ano bom.

………………………………………………………………

Cavaco Silva, de semblante carregado, como se impunha, pelo teor da comunicação, falou ao país. Sendo ele normalmente sóbrio, desta feita, segundo o meu ponto de vista, excedeu-se. Já deu para perceber que eu sou dos que acredito que a verdade, o correcto, está muitas vezes do lado das minorias. De qualquer forma, numa democracia em que todos os actos se considerem legítimos, não feridos de ilegalidade, o que deve prevalecer é a vontade da maioria. A Assembleia da República, no caso do Estatuto Político-Administrativo dos Açores, fez aquilo que entendeu. O Presidente da República, também. Só que agora, por mais razão que julgue ter, não pode esperar que todos se subjuguem à sua vontade, ao seu pensamento e fazer afirmações como a de que “A qualidade da Democracia sofreu um sério revés”. Sério revés para a democracia seria um Presidente impor, sozinho, a sua vontade. Estaríamos senão em ditadura, à sua porta. É bom lembrar, nesta altura, a “cambalhota” de alguns partidos que haviam votado o mesmo estatuto por unanimidade e agora procuram lavar as mãos, como Pilatos. Nem sequer nos surpreende, mas registamos o facto. Não é pela promulgação deste diploma que a nossa democracia correrá perigo. Há outros fenómenos, a que é preciso dar especial atenção, que, esses sim, a podem fazer perigar. Ah! A lealdade, seja entre pessoas ou instituições, não pode ser exigível apenas a uma das partes.

Posted by Salazar at 11:29:24 | Permalink | No Comments »

Tuesday, November 25, 2008

Pontos de Vista…25

     

Para podermos sobreviver, para nos mantermos de “cara lavada”, de cabeça levantada, para satisfazermos os nossos compromissos, para saldarmos os gastos mínimos obrigatórios, muitos de nós não o conseguem sem maiores ou menores sacrifícios. Significa isso que, involuntariamente, quase todos os vamos fazendo. E nem me parece que alguém os queira fazer voluntariamente, a não ser as pessoas dotadas de almas generosas, que os fazem em benefícios de seus semelhantes carenciados. Fazer sacrifícios para lavar pecados, para agradar ao seu Deus, para fazer uma “negociata” com esse mesmo Deus, a Virgem ou qualquer santo, em troca de uma cura, um amor, a sorte, a felicidade, não me parece nem exequível nem sério. Segundo o meu ponto de vista e de acordo com a formação e educação que tive – devo dizer que frequentei um colégio em que os excelentes professores que tive eram padres católicos na sua maioria – não creio que Deus, a Virgem Maria ou os santos se prestassem a tais “negociatas”. Que espécie de Deus seria Esse de quem os crentes só esperam amor, misericórdia, bondade, se concedesse alguma graça apenas em troco de qualquer espécie de sacrifício?! Julgo eu que Deus o que espera de nós é que cada um tenha um comportamento irrepreensível consigo próprio e com os outros. Tenho o máximo respeito por todos aqueles que fazem promessas em troco de qualquer graça, não me atrevo a condená-los, nem sequer me atrevo a “cuspir para o ar”, porque já tenho idade suficiente para saber que alguns acontecimentos nos levam, algumas vezes, a praticar actos que nunca imaginaríamos em circunstâncias normais. Admiro profundamente a fé que muitas pessoas demonstram por Deus, por Fátima, pelos santos. Admiro, mas simultaneamente, comparando-a com as enormes dúvidas que tenho relativamente aos aspectos religiosos, chego a questionar tanta fé. De qualquer forma, neste mar revolto de dúvidas em que me afogo, não navega a dúvida de que Deus exige sacrifícios, porque de facto, no meu ponto de vista, Ele não os quer, nem precisa deles para nos dar o que quer que seja
em troca. Respeito, pois, todos aqueles que, com sacrifícios enormes, vão a pé a Fátima, fazem enormes percursos de joelhos e coisas do género, mas - que me perdoem essas pessoas - eu não posso acreditar que a Senhora de Fátima possa dar algo em troca, apenas porque se fez esse sacrifício. Fátima, se pode conceder alguma graça, se pode fazer algum milagre, há-de fazê-lo, seguramente, com mais vontade àqueles que nela tiverem uma fé inabalável e incondicional e prometam ser melhores em cada dia que passa, para si e os seus semelhantes. Dessa espécie de sacrifícios físicos, como moeda de troca, não me parece que resulte benefícios para ninguém. Deus e Fátima não desejam o sofrimento. Pelo menos eu não acredito nisso.

Tenho pena que uma certa Igreja faça a apologia do sofrimento para que as pessoas possam conquistar as benesses de Deus, nos aposentos celestiais, as curas para todas as maleitas físicas ou anímicas ou ainda a solução para todos os problemas complicados. Às vezes anda bem próxima da charlatanice.

Não peçam para fazer sacrifícios, não metam na cabeça das pessoas que é necessário fazer sacrifícios para tornar as pessoas melhores. Infelizmente temos que os fazer, certamente por culpa própria, algumas vezes, mas também por culpa de quem tinha obrigação de evitar que tivéssemos de os fazer. Não é lícito que o poder, seja ele celestial ou terreno, nos venha pedir sofrimento, dor, em vez de alegria, felicidade.

Aqueles que acreditam que Deus foi o nosso Criador, que Deus é Pai, julgo que a sua inteligência não lhes permitirá aceitar que Ele não nos tenha criado a todos para sermos felizes, obviamente, dando-nos liberdade para escolhermos o nosso caminho, que pode ser acidentado ou não conforme a nossa escolha.

………………………………………………………………

Quem se der ao trabalho de observar atentamente ao que se passa no seu local de trabalho, consigo e com seus colegas, de ouvir com atenção aquilo que outros trabalhadores vão dizendo, ouvindo alguns responsáveis pelas mais diversas instituições, reflectindo sobre isso, entre outras conclusões mais ou menos surpreendentes, chegamos a uma curiosa. Pelo menos eu cheguei a ela, já há muitos anos, mas a situação mantém-se actual. É o seguinte: em todos os espaços de trabalho, há trabalhadores mais empenhados, diligentes, esforçados, assíduos, pontuais, dando mais horas do que as exigíveis por lei, quando necessário; infelizmente também há negligentes, absentistas, só pontuais para sair, não merecendo minimamente o que auferem. Isto constata-se facilmente. É evidente que isto é péssimo, estes últimos são muitas vezes os responsáveis pelas crises das empresas. Tal comportamento leva a situações de injustiça. Em primeiro lugar está a injustiça de receberem salários que não merecem, sobretudo se comparados com os que cumprem integralmente. Mas há mais: já reparou que aos profissionais competentes, abnegados, é sempre entregue, pelos chefes, maior quantidade de serviço e trabalhos de maior responsabilidade, ainda que com categorias profissionais iguais ou mesmo inferiores aos mandriões?! Assim, se os trabalhadores competentes se podem regozijar, orgulhar, pelo reconhecimento tácito que os chefes demonstram pelas suas qualidades, por outro lado, sentem-se prejudicados porque trabalham mais horas, com mais responsabilidade, com mais exigência, enquanto os outros pouco mais fazem do que roçar as calças ou as saias pelas cadeiras. No final do mês levam o salário por inteiro e, não poucas vezes ainda se riem sarcasticamente dos que cumprem, afirmando que vão herdar a instituição ou que são os protegidos (as) do chefe. Já vi muita gente dessa, já vi muita gente que assinou trabalhos tidos como de grupo em que não deram a mínima participação. Sei que hoje, como dantes, continua a haver gente dessa. Não é por acaso que muitos trabalhadores das mais variadas classes profissionais lutam com unhas e dentes contra a avaliação de desempenho, embora digam que não. Para esses, a progressão nas carreiras por anos de serviço era bem mais simpática. “O trabalho adoça sempre a vida, mas nem todos gostam de doces.”

…………………………………………………………………

Apesar de Manuela Ferreira Leite ser acusada, por muitos, de falar pouco e de ser tida como pessoa sisuda, pouca dada a manifestações de ironia, mesmo assim, de quando em vez, não é muito feliz nas suas afirmações. Foi o que aconteceu a semana passada quando a líder laranja se sai com isto: “ Quando não se está em Democracia é outra conversa, eu digo como é que é e faz-se. E até nem sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem Democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a Democracia.”

Se a suspensão da Democracia por seis meses era uma afirmação irónica de Manuela Ferreira leite ou não, ela é que o sabe, mas para mim não é tão líquido assim que o seja. Também tenho dúvidas se os aplausos de uns e os sorrisos amarelos de outros considerariam ironia ou não. De qualquer forma tenho de dar o benefício da dúvida e aceitar que tenha sido mera ironia, todavia muito pouco recomendável para uma líder de um partido com as responsabilidades do PSD. Ironia ou não, sei que há por aí muita gente com esse sentimento de que a insegurança, falta de civismo, falta de respeito, má justiça, má educação, má saúde são da responsabilidade da democracia e que a sua suspensão seria a solução para todas as maleitas. E olhe que alguns deles são figuras com alguma importância em partidos. Em ambientes mais restritos até chegam a ambicionar o regresso de um outro Desejado, só que não com o nome de Sebastião, mas de Salazar. E sabe que de alguma forma isso me angustia, embora relativamente a certas pessoas não me cause qualquer surpresa. A maior surpresa, ou talvez não, é que ainda há muita gente que não consegue viver em democracia plena. Tem medo de se situar do lado dos que têm opiniões minoritárias, porque as maiorias não os respeitam, retaliam-nos. Isto verifica-se ainda e infelizmente nos mais diversos domínios, nomeadamente entre os professores. Alguns confessam à boca pequena que se não participarem nas manifestações, não alinharem nas decisões, são apontados a dedo, sobretudo por alguns “papagaios”, bons de retórica, mas de duvidosa competência e irritante arrogância e convencimento de supremos detentores da verdade por inteiro. Isto seria triste em qualquer classe, mas numa que é suposto que eduque, é bem pior.

“A pior das democracias é mil vezes preferível à melhor das ditaduras.”

Posted by Salazar at 14:43:15 | Permalink | No Comments »

Monday, November 17, 2008

Pontos de Vista…24

     

Creio que ninguém de bom senso e espírito crítico isento acreditará que nesta balbúrdia em que está transformada a educação, haverá intervenientes sem qualquer espécie de culpa no cartório. Governo, sindicatos, professores, alunos, pais, políticos, todos têm a sua quota-parte de responsabilidade. Uns mais do que outros. É estranho que num processo relativo a educação, se verifique por parte de uma grande parte dos agentes nela envolvidos, tanta falta dela. Muito do que nos é dado ver e ouvir tresanda à mais requintada má educação. E nós questionamos como é possível imaginarmos um futuro risonho, com gente bem formada, respeitadora, educada, com tantos pais, professores e, obviamente os seus filhos e alunos, a terem os comportamentos a raiar a selvajaria, que nos têm sido dados a observar.

Entre outros actos repugnáveis, uns e outros mentem, umas vezes descaradamente, outras dissimuladamente, outras vezes usando meias verdades. Parece-me que muita dessa gente que debita “bacoradas” deve imaginar que todos os portugueses são parvos, de outra forma teriam mais cuidado com a sua linguagem, sobretudo quando tentam justificar o injustificável ou “sacudir a água do capote”.

Quando alguns professores e sindicatos chamam mentiroso ao primeiro-ministro por dizer que há três décadas os professores não são avaliados, eu que fui professor durante esse tempo, gostaria que me informassem por que espécie de avaliação credível terão passado os professores nesse período, porque eu, efectivamente, não me apercebi dela. Sendo assim, no meu ponto de vista, quem não está a falar verdade são esses professores e seus sindicatos.

Quando alguns professores e sindicatos afirmam que todos os professores querem ser avaliados, o que contestam é o modelo de avaliação, isso não corresponde à verdade. Se há muitos e bons que a desejam, até para que se distingam dos medíocres e péssimos, há muitos outros que não desejam nenhuma, que “fogem dela como o diabo da cruz”, porque o resultado de tal avaliação, a ser séria, só poderia ser uma demonstração de incompetência.

Alguns, de tanto mentir, correm o risco de “ninguém acreditar neles mesmo quando dizem a verdade”.

Por uma questão de justiça, porque a avaliação obrigatoriamente baixará os níveis de incompetência e subirá os da competência, é urgente que ela se leve a cabo. A que se julgar melhor, ainda que para isso se tenham de fazer experiências. Sem elas nunca saberemos qual a melhor. Para tanto, basta que todos os agentes nela envolvidos, estejam de boa-fé. O que não tem acontecido. Para além dos meros interesses de classe, estando-se alguns a “borrifar” para a escola e para os alunos, são bem evidentes os movimentos partidários, junto dos professores e sindicatos e agora até também junto de alunos, alguns ainda pré-adolescentes.

É uma vergonha o que alguns pais, professores e políticos fazem, por acção ou omissão junto de alunos, conduzindo-os ou, pelo menos, permitindo pacificamente, essas manifestações repugnantes que tivemos oportunidade de observar.

Repito o que disse no início: haverá alguém de espírito crítico isento que acredite que tais manifestações foram espontâneas?! Quem é que é “burro”, no meio disto? Eu não, de certeza. Certamente quem afirma a espontaneidade de tais manifestações. Imagine, meu amigo, uma manifestação espontânea de alunos já preparados com ovos e tomates – e dizem que a vida está cara -  e fazendo as ditas manifestações junto de escolas que não são as suas e, provavelmente até, com jovens que nem sequer estudantes são! É óbvio que gente deste jaez não nos pode merecer credibilidade. Aqueles pais que estão verdadeiramente interessados numa educação e formação autênticas dos seus filhos têm razão para estarem altamente preocupados. As políticas do governo para a educação não serão as mais adequadas e com algumas escolas e professores a funcionarem como funcionam, a situação é altamente preocupante. Infelizmente, a preocupação deve ser de todos os portugueses. Aqueles que pensam em cá andar daqui a vinte, trinta anos, deve-lhes ser difícil imaginar ter elementos suficientes com formação e educação adequadas para tomar as rédeas do país e suas principais instituições.

É bom que cada um seja sério, seja menos intransigente, pense mais no interesse colectivo do que no pessoal e pode ser que ainda vamos a tempo de remediar qualquer coisa.

…………………………………………………………………

Manuel Alegre pratica religiosamente a política do contra. Deve ser um trauma que lhe vem do tempo da ditadura e que ele ainda não conseguiu ultrapassar. Eu que até admito que tenha um feitio algo semelhante, só o critico pelo facto de ele ser membro de um partido, ser desde a Revolução dos Cravos deputado por esse mesmo partido, o que deveria fazer com que as críticas que houvesse de fazer fossem menos públicas e mais no interior do grupo, lutando pelas suas ideias, mas respeitando as da maioria. Quem não quiser, quem não conseguir ter esta postura, só deveria ter um caminho: desligar-se do partido. Porque eu também sou demasiado cioso da minha liberdade de expressão, não me vejo ligado a qualquer partido. Certamente teria a postura de Manuel Alegre, que não acho correcta.

Finalmente, Manuel Alegre parece ponderar afastar-se do PS, o que eu entendo que já vem tarde, se vier. Mas como “vale mais tarde do que nunca…”. Fora dos partidos, Manuel Alegre, no meu ponto de vista, terá muito mais legitimidade para dizer tudo o que pensar.

Alegre está, normalmente, contra o poder, caindo na tentação de se pôr sempre ao lado daqueles que estão contra esse mesmo poder, mesmo sem curar de saber se têm ou não razão. É aquilo a que o povo costuma apelidar de “espírito de contradição”. Admito que, neste momento, em que a sua postura é mais evidente, tenha a ver com a possível vontade de uma nova candidatura a Belém.

 Admiro alguns, não digo todos, daqueles que se opuseram, das mais diversas formas, à ditadura. Digo alguns, apenas, e não todos, porque muitos fugiram à guerra nas ex-colónias, emigraram a salto, não por convicção, não porque a guerra os chocasse, mas por medo de morrer, por covardia mesmo. Quantos fugiram para o estrangeiro, sem que lhes deva a mínima coisa na luta pela mudança. Instalaram-se, viveram uns com dificuldades, outros “à grande e à francesa”, mandaram Portugal às “malvas”. E alguns que regressaram, fizeram-no com malévolo sentido de oportunidade e ainda pretenderam ser considerados heróis, julgando que lá por fugir ao regime, algumas vezes abandonando, completamente desprotegidos, os familiares mais próximos, lhes deveria ser concedido esse estatuto.

É o mesmo que acontece com muitos outros que foram perseguidos ou presos pela PIDE. Entendem que isso lhes basta para serem rotulados como campeões da democracia. Democracias que alguns deles nunca praticaram nem praticam.

………………………………………………………………

Divulgou a imprensa que alguns administradores da SAD do Futebol Clube do Porto receberão, cada um deles, 800 000 euros se o clube ficar em terceiro lugar, provavelmente, até ao terceiro lugar. Bom, para falar em termos que se perceba melhor, é 160 000 contos, que significam mais de treze mil por mês. E há adeptos que acham isso muito bem. Grande amor clubista, não há dúvida.

Posted by Salazar at 18:05:48 | Permalink | No Comments »