Monday, November 17, 2008

Pontos de Vista…24

     

Creio que ninguém de bom senso e espírito crítico isento acreditará que nesta balbúrdia em que está transformada a educação, haverá intervenientes sem qualquer espécie de culpa no cartório. Governo, sindicatos, professores, alunos, pais, políticos, todos têm a sua quota-parte de responsabilidade. Uns mais do que outros. É estranho que num processo relativo a educação, se verifique por parte de uma grande parte dos agentes nela envolvidos, tanta falta dela. Muito do que nos é dado ver e ouvir tresanda à mais requintada má educação. E nós questionamos como é possível imaginarmos um futuro risonho, com gente bem formada, respeitadora, educada, com tantos pais, professores e, obviamente os seus filhos e alunos, a terem os comportamentos a raiar a selvajaria, que nos têm sido dados a observar.

Entre outros actos repugnáveis, uns e outros mentem, umas vezes descaradamente, outras dissimuladamente, outras vezes usando meias verdades. Parece-me que muita dessa gente que debita “bacoradas” deve imaginar que todos os portugueses são parvos, de outra forma teriam mais cuidado com a sua linguagem, sobretudo quando tentam justificar o injustificável ou “sacudir a água do capote”.

Quando alguns professores e sindicatos chamam mentiroso ao primeiro-ministro por dizer que há três décadas os professores não são avaliados, eu que fui professor durante esse tempo, gostaria que me informassem por que espécie de avaliação credível terão passado os professores nesse período, porque eu, efectivamente, não me apercebi dela. Sendo assim, no meu ponto de vista, quem não está a falar verdade são esses professores e seus sindicatos.

Quando alguns professores e sindicatos afirmam que todos os professores querem ser avaliados, o que contestam é o modelo de avaliação, isso não corresponde à verdade. Se há muitos e bons que a desejam, até para que se distingam dos medíocres e péssimos, há muitos outros que não desejam nenhuma, que “fogem dela como o diabo da cruz”, porque o resultado de tal avaliação, a ser séria, só poderia ser uma demonstração de incompetência.

Alguns, de tanto mentir, correm o risco de “ninguém acreditar neles mesmo quando dizem a verdade”.

Por uma questão de justiça, porque a avaliação obrigatoriamente baixará os níveis de incompetência e subirá os da competência, é urgente que ela se leve a cabo. A que se julgar melhor, ainda que para isso se tenham de fazer experiências. Sem elas nunca saberemos qual a melhor. Para tanto, basta que todos os agentes nela envolvidos, estejam de boa-fé. O que não tem acontecido. Para além dos meros interesses de classe, estando-se alguns a “borrifar” para a escola e para os alunos, são bem evidentes os movimentos partidários, junto dos professores e sindicatos e agora até também junto de alunos, alguns ainda pré-adolescentes.

É uma vergonha o que alguns pais, professores e políticos fazem, por acção ou omissão junto de alunos, conduzindo-os ou, pelo menos, permitindo pacificamente, essas manifestações repugnantes que tivemos oportunidade de observar.

Repito o que disse no início: haverá alguém de espírito crítico isento que acredite que tais manifestações foram espontâneas?! Quem é que é “burro”, no meio disto? Eu não, de certeza. Certamente quem afirma a espontaneidade de tais manifestações. Imagine, meu amigo, uma manifestação espontânea de alunos já preparados com ovos e tomates – e dizem que a vida está cara -  e fazendo as ditas manifestações junto de escolas que não são as suas e, provavelmente até, com jovens que nem sequer estudantes são! É óbvio que gente deste jaez não nos pode merecer credibilidade. Aqueles pais que estão verdadeiramente interessados numa educação e formação autênticas dos seus filhos têm razão para estarem altamente preocupados. As políticas do governo para a educação não serão as mais adequadas e com algumas escolas e professores a funcionarem como funcionam, a situação é altamente preocupante. Infelizmente, a preocupação deve ser de todos os portugueses. Aqueles que pensam em cá andar daqui a vinte, trinta anos, deve-lhes ser difícil imaginar ter elementos suficientes com formação e educação adequadas para tomar as rédeas do país e suas principais instituições.

É bom que cada um seja sério, seja menos intransigente, pense mais no interesse colectivo do que no pessoal e pode ser que ainda vamos a tempo de remediar qualquer coisa.

…………………………………………………………………

Manuel Alegre pratica religiosamente a política do contra. Deve ser um trauma que lhe vem do tempo da ditadura e que ele ainda não conseguiu ultrapassar. Eu que até admito que tenha um feitio algo semelhante, só o critico pelo facto de ele ser membro de um partido, ser desde a Revolução dos Cravos deputado por esse mesmo partido, o que deveria fazer com que as críticas que houvesse de fazer fossem menos públicas e mais no interior do grupo, lutando pelas suas ideias, mas respeitando as da maioria. Quem não quiser, quem não conseguir ter esta postura, só deveria ter um caminho: desligar-se do partido. Porque eu também sou demasiado cioso da minha liberdade de expressão, não me vejo ligado a qualquer partido. Certamente teria a postura de Manuel Alegre, que não acho correcta.

Finalmente, Manuel Alegre parece ponderar afastar-se do PS, o que eu entendo que já vem tarde, se vier. Mas como “vale mais tarde do que nunca…”. Fora dos partidos, Manuel Alegre, no meu ponto de vista, terá muito mais legitimidade para dizer tudo o que pensar.

Alegre está, normalmente, contra o poder, caindo na tentação de se pôr sempre ao lado daqueles que estão contra esse mesmo poder, mesmo sem curar de saber se têm ou não razão. É aquilo a que o povo costuma apelidar de “espírito de contradição”. Admito que, neste momento, em que a sua postura é mais evidente, tenha a ver com a possível vontade de uma nova candidatura a Belém.

 Admiro alguns, não digo todos, daqueles que se opuseram, das mais diversas formas, à ditadura. Digo alguns, apenas, e não todos, porque muitos fugiram à guerra nas ex-colónias, emigraram a salto, não por convicção, não porque a guerra os chocasse, mas por medo de morrer, por covardia mesmo. Quantos fugiram para o estrangeiro, sem que lhes deva a mínima coisa na luta pela mudança. Instalaram-se, viveram uns com dificuldades, outros “à grande e à francesa”, mandaram Portugal às “malvas”. E alguns que regressaram, fizeram-no com malévolo sentido de oportunidade e ainda pretenderam ser considerados heróis, julgando que lá por fugir ao regime, algumas vezes abandonando, completamente desprotegidos, os familiares mais próximos, lhes deveria ser concedido esse estatuto.

É o mesmo que acontece com muitos outros que foram perseguidos ou presos pela PIDE. Entendem que isso lhes basta para serem rotulados como campeões da democracia. Democracias que alguns deles nunca praticaram nem praticam.

………………………………………………………………

Divulgou a imprensa que alguns administradores da SAD do Futebol Clube do Porto receberão, cada um deles, 800 000 euros se o clube ficar em terceiro lugar, provavelmente, até ao terceiro lugar. Bom, para falar em termos que se perceba melhor, é 160 000 contos, que significam mais de treze mil por mês. E há adeptos que acham isso muito bem. Grande amor clubista, não há dúvida.

Posted by Salazar at 18:05:48 | Permalink | No Comments »

Monday, August 4, 2008

Pontos de Vista…9

      Por mais que oiça e leia coisas que me permitem tirar outras conclusões diferentes, eu tenho as minhas próprias convicções que, não obstante se alicerçarem também naquilo que a comunicação social veicula e eu apreendo, baseiam-se sobretudo nas minhas experiências pessoais junto das pessoas, estando muito atento aos seus comportamentos, às suas conversas. Por isso, quando se diz por aí à boca cheia que atravessamos uma grave crise económica e que ela é praticamente a responsável por todas as maleitas, eu continuo a afirmar, sem a negar, obviamente, que o grande drama de Portugal é a crise de valores, a crise da educação. Esse, sim, é o grande problema português que urge resolver no mais curto espaço de tempo. Corrigido este, logo todos os outros se minimizarão.
As grandes superfícies, os bons restaurantes, os hotéis, as praias continuam a abarrotar. Pergunta-se a um jovem, ainda que desempregado, se lhe sair um prémio de 10, 20, 30 mil euros o que faria e a resposta é, de uma maneira geral, “ia fazer férias para o estrangeiro”. Bom, mas isto é de quem está em crise, é de quem pensa em crise?! Há pessoas, bem sei, que com o que auferem, não podem levar uma vida com um mínimo de dignidade, têm que ter carências das mais diversas espécies, mas há muitas outras que, com os seus proventos, poderiam ter uma vida sem luxos, sem ostentações, possivelmente sem férias no estrangeiro ou em quaisquer outros lugares caros, mas sem preocupações, em que o dinheiro chegaria para todo o mês. Está aqui, inequivocamente, um problema de educação.
 Porque falo com muitas pessoas carenciadas, daquelas que estatisticamente se encontram no rol dos que vivem no limiar da pobreza, com magras reformas de cerca de trezentos euros, sei que há muitas, principalmente nos meios rurais, onde se habituaram a viver nas condições mais adversas, que conseguem fazer a sua vida, a seu modo, e ainda economizam uns tostões, algumas vezes para os filhos guerrearem por causa desses sobejos. Ora, eu entendo, nem poderia entender outra coisa, que esse dinheiro é muito pouco para se viver, mas as pessoas não sabem nem querem viver de outra forma. Todo o dinheiro que se lhes der a mais, nomeadamente o complemento solidário para idosos, é para poupança. Não quero que você fique a pensar que eu sou contra esses complementos. Não, não sou, antes pelo contrário. Só que dar dinheiro por dinheiro, sem um trabalho a montante que já deveria ter começado a fazer-se à muito, mas que deve ser feito, que é o de ensinar as pessoas a administrar os seus rendimentos, as pessoas recebem mais mas continuam a fazer exactamente a mesma vida. Sei que no comportamento de muitos destes idosos está ainda bem presente uma vivência ancestral, que era a de as pessoas terem de poupar alguns tostões, durante a vida activa, para poderem ter uma velhice, embora pobre, mas com alguma tranquilidade, ou esperava-as um saco às costas, mendigando de porta em porta. Pela cabeça de muitos ainda passa esse cenário. Não podemos esquecer que o facto de se falar tanto em crise, na eventual falência da segurança social, etc., em muitos ainda paira o espectro de um dia não receberem nada. Por isso, segundo o meu ponto de vista, repito, o grande drama português passa pela educação.
Podíamos estar aqui um dia inteiro a falar de diversos problemas que afligem o país e eu continuaria a acreditar que, senão a solução total para muitos deles, mas pelo menos uma minimização importante dos seus efeitos passa pela educação e pela reposição dos valores que, para uma grande parte da população, já não existem.
Vou referir, uma vez mais, um grave problema que varre, que aflige a sociedade portuguesa e que tem a ver com os assassínios sempre mais frequentes do que o desejável, porque o desejável era a sua inexistência, muitos deles, por questões de “lana caprina”. Só é possível a existência de tais crimes, devido à tal falta de valores, à falta de educação, ao desrespeito total pela vida humana, inclusive a própria. E não me venham dizer que isso tem a ver com a falta de polícias na rua! Nalguns casos, talvez, mas na grande maioria, não. Quem quer matar, sabe que, por mais polícias que existam, não lhe faltam oportunidades. Ainda agora há poucos dias, um indivíduo atirou sobre uma família que festejava o quinto aniversário de uma criança, cujo pai tombou ali a seu lado. Não me diga que haveria de estar ali um polícia! Entretanto, numa mata de Valongo, uma jovem foi assassinada com dois tiros de pistola. Não me diga que haveria de estar ali um polícia! Não, e permita-me que repita isto tantas vezes: primeiro é preciso investir na educação, na reposição dos valores, no respeito pela pessoa humana. Depois é preciso que a investigação e a justiça funcionem com celeridade e que esta possa ter legislação adequada ao seu serviço para punir os criminosos exemplarmente. Não se pode aceitar que crimes hediondos fiquem sem castigo, que os criminosos não sejam apanhados e julgados rapidamente e que não sofram penas que os façam pensar que são apenas umas “férias” que passam na prisão, antes que os façam repensar a sua continuidade na marginalidade. Entretanto, também se deve investir fortemente na recuperação, na educação ou reeducação dos detidos.
Injustificadamente, a semana passada, Cavaco Silva, deixou os portugueses, por umas horas, senão em pânico, pelo menos ansiosos, com a sua anunciada comunicação ao país para a hora dos telejornais. Comecei por afirmar “injustificadamente” porque logo entendi, feita a comunicação, que ela se não justificava, de facto, no momento e nas circunstâncias. Mas o “injustificadamente” ganhou mais força, quando se concluiu que uma grande parte dos portugueses não percebeu patavina do que o Presidente da República disse. Ora uma mensagem só é válida quando é entendível pelo receptor.
Todavia, não é apenas por isso que eu entendo que não se justificou a comunicação de Cavaco Silva. Será que ao pronunciar-se sobre articulado que não é inconstitucional não pôs em causa o órgão fiscalizador das leis, isto é o Tribunal Constitucional?! Cavaco Silva gosta do poder, não quer perder poderes, para mim não é novidade nenhuma, que é esse o conceito que dele sempre tive, e pode até ter alguma razão, segundo o seu ponto de vista, mas não me parece razoável atacar articulados que foram aprovados por unanimidade na Assembleia da República e que não estão feridos de inconstitucionalidade. Pretender não aceitar tal articulado que não contraria o que estipula a Constituição, isso sim, é que me parece preocupante, pelo que representa de uma vontade excessiva de poder. Aliás, devo afirma-lo com toda a frontalidade, parece-me configurar-se em tal atitude alguma falta de respeito pelo Parlamento e pelo Tribunal Constitucional. Este é o Cavaco com os tiques que sempre lhe reconheci. O Presidente da República não teve coragem de proferir uma palavra em relação à Assembleia Legislativa da Madeira que, a soldo de Alberto João não o recebeu, mas tem esta atitude relativamente aos Açores. Significativo.
Obviamente que as responsabilidades de um Presidente da República são diferentes das de qualquer outro político. Mesmo assim, não resisto à tentação de me questionar se Cavaco Silva fosse apenas um deputado, ainda que líder partidário, não teria tido a mesma postura de todos os outros, isto é, aprovarem por unanimidade o Estatuto da Assembleia Legislativa dos Açores.
E afinal, quanto valem os nossos políticos?! Eu nunca tive dúvidas que, salvo raras excepções, valem muito pouco, alguns mesmo são umas nulidades. Como é que eles aprovaram e agora, alguns, de cócoras, aliás como sempre se põem perante os fortes, se prontificam imediatamente a rever?! Não tiveram o cuidado suficiente?! Nem sequer souberam o que aprovaram?! Foram negligentes?! Se foram conscientes, não há nada para mudar, com excepção daquilo que o Tribunal Constitucional considera inconstitucional. Porque é que a opinião de duzentos se há-de submeter à de um, ainda que seja a do Presidente da República?!
Posted by Salazar at 12:20:18 | Permalink | No Comments »

Monday, July 7, 2008

Pontos de Vista…5

      Neste tempo e neste mundo em que vivem uns e sobrevivem, como podem, outros, a palavra que mais se diz e mais se ouve, de pretenso conforto, será, muito provavelmente, paciência. Digamos que paciência será uma espécie de medicamento que se receita para determinada doença que não se sabe exactamente qual é, que poderá fazer bem ou não, mas pelo menos tem-se a certeza de que mal não faz e funcionará sempre, com maior ou menor intensidade, de acordo com a sensibilidade de cada pessoa, como um analgésico. Estou muito doente… - Tem paciência! A vida está pelos olhos da cara… Tem paciência! Não consigo arranjar emprego… Tem paciência! O patrão já me não paga vai para três meses…Tem paciência! O meu filho é viciado na droga… Tem paciência! Não consigo pagar a prestação da casa, o banco vai ficar com ela… Tem paciência! A minha mulher arranjou um amante… Tem paciência e lembra-te disto: “um homem sozinho não consegue nada, nem mesmo ser corno”.
Por falta de soluções, de melhor conforto espiritual, receitamos então doses infinitas de paciência para todas as maleitas, por isso mesmo que dissemos, ainda porque de facto ela nos ajuda a suportar as contrariedades e sobretudo porque é mais fácil receitá-la do que tê-la. A paciência é, pois, importantíssima. Os persas têm um provérbio que diz: “ A paciência é uma árvore de raiz amarga, mas de frutos muito doces”. Para colhermos esses frutos doces teremos que esperar que eles germinem, cresçam, amadureçam, isto é, temos de ser pacientes, de outra forma não chegamos tão pouco a ver os frutos ou comemo-los amargos.
Perante as dificuldades que porventura você também passa, e para não lhe repetir “tenha paciência”, deixe-me lembrar aquele provérbio judaico que diz “Não há melhor negócio que a vida. A gente a obtém a troco de nada”. Pois é, meu amigo, o simples facto de vivermos é muito bom. É um ponto de vista.
Mas isto está de tal maneira, acontecem coisas tão desconcertantes, que é muito difícil, a qualquer um de nós, ter paciência ou recomendá-la. Algumas são praticadas por pessoas de quem era legítimo esperar um comportamento totalmente adverso. Não há, efectivamente, paciência, mas também quase nada ou mesmo nada nos surpreende. Para falarmos de gente do nosso tempo, nenhum de nós será João Paulo II nem Teresa de Calcutá.
Hoje toda a gente agride toda a gente, não apenas com a palavra, mas com as mãos ou as mais diversificadas armas. Parece mesmo que há pessoas que não conhecem outra forma de diálogo que não seja o da agressão. E se a agressão física pode ter consequências muito graves que provoquem males irreparáveis e conduzir à própria morte, a agressão verbal, e agora, mais do que nunca, com o uso irracional da internet, muitas vezes, cobarde, também destrói muitas vidas, ainda que não fisicamente, se bem que o estado emocional acaba sempre por se reflectir no físico.
Lembro-me de ser criança, adolescente e jovem e ouvir dizer, com toda a naturalidade, que os maridos batiam nas mulheres. E quando comecei a ter alguma noção da vida e do mundo apercebi-me que tal violência doméstica era perfeitamente aceite pela comunidade, as próprias mulheres agredidas tinham sido educadas no sentido de total obediência, antes, de total escravidão ao marido, que mais do que isso, era dono. Felizmente não guardo nenhuma imagem dessas passadas no meu seio familiar, até porque fiquei com pai ausente, até hoje, a partir dos três anos de idade. As pobres mulheres criavam um rancho de filhos, faziam as lides da casa, mourejavam ainda pelas leiras e tinham de estar sempre de “pernas abertas”, dóceis, obedientes para as vontades do amo, sim amo, porque mais do que marido era patrão, senhor.
Pobres mulheres, a quem o próprio estado não protegia, ao invés, procuravam manter no obscurantismo, no analfabetismo, para mais facilmente serem domadas. Mas foi do ventre de muitas destas mulheres sofridas, exploradas, feridas na sua dignidade, analfabetas, mas com uma enorme cultura construída dia a dia, de experiências duras e repetidas que saíram grandes escritores, cientistas, professores, valentes militares, heróis. Bravíssimas mulheres que merecem todo o nosso respeito, a nossa gratidão.
Bom, mas eu estava a falar de agressões. E se de facto era trivial o marido bater na mulher, também havia uma ou outra que tinha pêlo na venta e chegava a roupa ao pêlo do marido. Esses, como diz o povo, não podiam “mijar fora do penico” senão ficavam com as costas quentes.
Eu era novato e lembro-me de um fanfarrão de quem diziam que apanhava da mulher e da sogra, embora sempre que chegava junto dos amigos se gabasse de lhes ter “aquecido o lombo”. Um dia entrou na taberna onde já se encontravam os compinchas habituais, conhecidos por “seca-adegas”, dissimulando um ar eufórico, atirou para o ar “ hoje moí de pancada aquelas mulas, saia uma caneca para festejar”. Um dos circunstantes, mirando-o pela traseira, replicou: “Ó Zé, tens o sorrascadouro marcado nas costas! Resposta imediata do Zé, sem sequer esboçar uma qualquer justificação: “Aquelas vacas chegariam-me?!”. Desataram todos a rir e o simplório do Zé, de costas quentes, como habitualmente, riu também, de amarelo, e emborcou mais uns decilitros do tinto que lhe davam algum alento até nova tareia. Havia um ou outro caso, bem conhecido de todos, de mulher que batia em marido, mas fugia à normalidade. Felizmente as coisas mudaram muito, embora saibamos que a violência doméstica ainda é um flagelo que merece muita atenção e urge pôr termo. Se muitas mulheres ainda se calam por vergonha ou por receio de represálias, já há outras que denunciam as situações de violência. Para que elas possam fazer isso naturalmente é necessário, no entanto, garantir-lhes segurança.
Bom, mas hoje em quem não se bate?! Muito provavelmente a quem mais nos apetecia e certamente mais o merecia, mas não fazemos por variadas espécies de razões. Seja como for, nada justifica a agressão. Mas hoje bate-se nos pais, nos professores, nos polícias, até nos juízes. Digo até, não porque alguns o não merecessem mais do que qualquer outros, já que deixam muito a desejar no seu comportamento, mas porque estamos a falar de titulares de um órgão de soberania.
Isto é tudo um problema de educação. A grande preocupação do governo é a instrução, são números de aprovações, não a educação. A educação é qualificável, não quantificável. Se ela se pudesse medir, provavelmente haveria outro cuidado com ela, sobretudo por parte dos governantes, sempre despertos para mostrar números positivos, ainda que muitas vezes manipulados.
Fui presidente de uma associação de pais, era Cavaco Silva chefe do governo e já havia alguma pressão, tal como hoje, para se evitarem reprovações. Isso deu naquilo que se sabe: alunos a transitarem de classe, a chegarem às universidades com conhecimentos rudimentaríssimos. Como professor senti a mesma coisa. Era facilitar de ano para ano, isto por causa dos tais números que era e é preciso mostrar ao país e à Europa. Nunca vi, no entanto, ninguém preocupar-se com problemas disciplinares, com civismo, cidadania.
É preciso cuidar mais da educação. Immanuel Kant disse: “Só através da educação pode o homem tornar-se homem. O homem não é mais do que o produto da educação que teve”.
Posted by Salazar at 21:14:52 | Permalink | No Comments »

Tuesday, April 1, 2008

Educação

      O caso protagonizado entre uma docente e uma aluna do Carolina Michaelis, pela disputa de um telemóvel por parte desta, numa demonstração de indisciplina, pouca educação, tem alimentado abundantemente a comunicação social, parece que sempre sedenta de casos do género, mais do que de casos positivamente exemplares. A oposição tem aproveitado o facto para fazer recair todas as culpas do sucedido, no governo e na sua ministra da educação, escamoteando que tal comportamento não é de agora, já vem, infelizmente, de há muito tempo, como se alguns desses que agora se mostram de dedo em riste, acusador, não tivessem passado pela governação, com casos idênticos, talvez não tão mediatizados, porque não havia os telemóveis com as potencialidades de hoje nem You tube e coisas do género. È óbvio que o governo não pode deixar de sair beliscado deste caso, como de outros do género. Se não é lícito exigir que o governo, seja ele qual for, em determinado momento, seja responsável por tudo quanto de mau acontece, passando uma esponja sobre a responsabilidade dos que o antecederam, é ao governo do momento que se deve pedir contas. Sobretudo o cidadão comum, cuja única intervenção política que se lhe conhece é o exercício do voto, tem essa legitimidade por inteiro. Já a muitos daqueles que exerceram e exercem acção política, sobretudo ao nível do parlamento ou governo, mingua-se-lhes autoridade moral para exigir aquilo que, podendo ter feito ou contribuído para isso, não fizeram.
Mesmo acossado pela oposição, com tanto destaque, do caso referido, feito pela comunicação social e, porventura, por demasiado tempo, o governo certamente acabará por agradecer, de alguma forma, porque mesmo acusado, sempre se sente aliviado da pressão em outras áreas.
Já aqui o referi e gostaria de não voltar ao assunto, mas a indisciplina nas escolas, como o insucesso, têm vários pais, talvez vários arguidos, já que poderemos sustentar que deixar chegar as coisas ao ponto a que chegaram se pode afirmar que de autênticos crimes se trata. Os encarregados de educação, certamente em primeiro lugar, os políticos, a sociedade, todos são culpados. Os professores também, pela maneira errada como entenderam o que era a democracia, a liberdade. Eles não podem comportar-se como sendo apenas vítimas indefesas do sistema, sem quaisquer culpas. E estou convencido que é esta a opinião de muitos que ousam distanciar-se do politicamente correcto e dizer aquilo que muitos pensam, mas não querem dizer. Felizmente, não por partilharem da mesma opinião que eu, ou ao contrário, tenho lido e ouvido algumas afirmações de gente que diz exactamente o que pensa, contribuindo, dessa forma, mais do que quaisquer eloquentes oradores, mais líricos e teóricos do que práticos, para a busca de soluções adequadas. Só se pode arranjar soluções correctas, conhecendo exactamente os problemas e tudo quanto lhes está na origem.
De entre tantos que ousam marimbar-se para o politicamente correcto, deixe-me citar um cronista do Correio da Manhã. Eis: “Ontem como hoje não são necessários polícias e juízes nas escolas. Ontem como hoje basta que existam professores que saibam ensinar. Ontem como hoje basta que acabem as pedagogias da treta. Ontem como hoje basta que as escolas ensinem os alunos a ler, escrever sem erros e a saber a tabuada de cor e salteado. Ontem como hoje basta que exista rigor e autoridade”. Fim de citação.
Fique bem, fique com este provérbio escocês: “Por bom que seja o berço, é preferível uma boa educação”.
Posted by Salazar at 17:44:51 | Permalink | No Comments »