Monday, April 13, 2009

Pontos de Vista…45

     

“Queimai velhos madeiros,

Bebei velhos vinhos,

Lede velhos livros,

Tende velhos amigos”.

São palavras de Afonso X, o Sábio. Sei que tenho alguns velhos amigos. Talvez não muitos, mas o que importa é a qualidade, não a quantidade. Muitos confundem amigos com pessoas com quem se tem boas relações. Dizem-se amigos de todos. Há uma expressão latina “amicus humani generis” que se costuma empregar ironicamente para designar que amigo de todos não o é de ninguém. Frequentemente é mais fácil manter boas relações com pessoas apenas conhecidas, com quem contactamos com alguma assiduidade, do que com os autênticos amigos, daí que aqueles se venham a confundir com estes. Os amigos verdadeiros são aqueles que estão connosco nas adversidades e quase não se dá por eles nos momentos de prosperidade. Os amigos verdadeiros são aqueles que dizem coisas desagradáveis, que nos repreendem olhos nos olhos e nos elogiam, nos defendem, nas costas. Os amigos verdadeiros são aqueles que falam connosco quando precisamos de abrir a nossa alma e ter alguém que nos escute e nos diga alguma coisa, mas que também respeitam os nossos silêncios, quando é disso que precisamos. Os amigos verdadeiros são aqueles que nos ajudam antes de lhes dizermos que precisamos. Deixe-me referir aqui, entre parêntesis, que nem sempre quem precisa de ajuda, apesar de ter amigos prontos a fazê-lo, aceita sê-lo, pelas mais diversas razões, nomeadamente o orgulho. Não se pode ajudar quem não quer ser ajudado. Aqui, há necessariamente uma falha na relação de amizade por parte da pessoa que precisa de ajuda.

Deixe-me mudar de agulha e dizer que um amigo verdadeiro nunca pode ser um hipócrita. De hipócritas, tidos por grandes amigos está a Terra cheia. Mesmo assim, devemos ter cuidado, porque algumas vezes somos traídos por aquilo que consideramos velhas amizades. Se assim é, muito maior razão teremos para nos precaver relativamente aos considerados novos amigos. Para que os conheçamos bem é necessário que os deixemos envelhecer, como a um bom vinho, maduro, obviamente. Mas se até este, por defeito da rolha – ou boca, se preferir, para haver mais consonância com o homem – ou outra coisa qualquer nos trai!…Às relações mais recentes, fruto de ligações de trabalho, da comunhão dos mesmos interesses políticos, religiosos, associativos, clubistas, da frequência do mesmo café ou restaurante, antes de as rotular de amigos, deveremos deixá-las amadurecer convenientemente.

Esta reflexão surgiu-me após o contacto de um velho amigo – cerca de meio século é tempo mais do que suficiente para se considerar velho…amigo, claro - que estava muito preocupado porque havia feito uma reunião com outros amigos, com a intenção de realizar uma confraternização em que juntasse o maior número de amigos possível e se esquecera de mim, nesse momento. Estava muito atrapalhado, apesar da data da dita confraternização ainda vir aí, pedia-me desculpa por não ter sido dos primeiros a ser contactado, dizendo-me, entre outras coisas, que não era hipócrita, senão poderia aduzir outra desculpa, mas o que acontecera de facto é que se esquecera – embora vivendo próximos, não nos vemos com grande frequência. Tranquilizei o meu amigo, prometi-lhe estar presente, a menos que algum impedimento de última hora surgisse, porque realmente não o considerava hipócrita. Se o considerasse, não estaria, porque nenhum hipócrita que eu reconheça como tal, terá o estatuto de meu amigo e por isso nunca estaria presente num evento que ele protagonizasse.

Se há virtudes que eu me arrogo, uma delas é a da frontalidade, de não dizer nada nas costas de quem quer que seja, que não tenha coragem de dizer cara-a-cara. É natural, pois, que me enojem todos aqueles que vivem dando palmadinhas nas costas, tecendo, a torto e a direito, às vezes raiando o ridículo, loas nem sempre merecidas, muito menos justificáveis, pela frente e normalmente visando interesses particulares ou de grupo, maldizendo pelas costas ou só marcando presença em momentos festivos, primando pela ausência em momentos menos felizes. Há muita gente a autoproclamar-se de amigo, quando, no fundo, não passa de grande hipócrita, gente que, intimamente, apenas inveja o mérito ou a felicidade e se satisfaz com o infortúnio dos outros. Mente, atropela, calunia seja quem for para atingir os seus objectivos. Sem escrúpulos e à boa moda dos políticos.

Se há defeito que o meu amigo aqui referenciado não tem é, de facto, a hipocrisia; se há defeito que lhe posso atribuir, e, por diversas vezes, já lho disse, é ser dotado de alguma ingenuidade – que é muito típico das boas almas – e, por essa mesma razão, acreditar facilmente na amizade de todos os que com ele se relacionam, sendo que alguns podem, certeiramente, ser rotulados de quaisquer outras coisas, menos de amigos.

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É uma verdade incontestável que Nespereira está pessimamente mal servida de estrada nacional. Nomeadamente, no que respeita à segurança, a estrada nacional número 225, entre Castelo de Paiva e a fronteira entre Alvarenga e Cabril é uma vergonha. Após uma reclamação que fiz, recebi, em Agosto do ano passado, do Director de Estradas do Distrito de Aveiro, Engenheiro Joaquim Rosa, a seguinte resposta que me deixou, obviamente, satisfeito: “Na sequência da reclamação efectuada por V. Ex.ª…informa-se que após reconhecimento efectuado ao lanço da EN 225 em questão…a Direcção de Estradas de Aveiro irá promover acções de reforço de segurança rodoviária…da EN225 no decorrer do 2.º semestre do corrente ano, nomeadamente procedendo à aplicação de sinalização vertical de guiamento e balizagem e ao reforço das protecções laterais nas curvas mais perigosas, aplicando guardas de segurança metálicas”.

Os muros de protecção, em pedra, uns destruídos, outros semi-destruídos foram, efectivamente, todos reparados durante o referido semestre. Fiquei convencido que a promessa seria cumprida. Mas qual quê! Aplicação de guardas de segurança metálicas até hoje nem uma. Continua, assim, o perigo à espreita em cada curva, com o Paiva a espreitar lá bem ao fundo. Apesar de esta zona não poder oferecer muitos votos, três actos eleitorais neste ano pode ser que contribuam para que a promessa atrás referida seja cumprida.

É de toda a justiça afirmar que as estradas municipais do concelho de Cinfães, de um modo geral, são boas, têm melhorado muito, não obstante alguns erros, segundo o meu ponto de vista, que se deveriam ter evitado, uns, corrigido, outros. Bom, mas vou deixar isso para outra altura. Agora o que quero referir é o facto de muitas valetas, que conduzem não só águas pluviais, mas nalguns casos, também águas de rega, serem tão desprezadas quer por particulares, quer pela autarquia. Para além de estarem em muitos quilómetros entulhadas com os mais diversos tipos de materiais, silvas, tojos, giestas rebentam-nas e vão penetrando na estrada. Para além dos prejuízos, do mau aspecto que dá, sobretudo a quem nos visita, tal situação representa uma facilidade acrescida para a deflagração de incêndios florestais. Será que os autarcas não passam por essas estradas?! Ou pertencerão ao grupo dos que olham mas não vêem?! Não basta exigir-se, reclamar-se, recomendar-se mais limpeza, mais prevenção, é necessário que, sobretudo quem mais obrigação tem de o fazer, dê o exemplo. “Bem prega Frei Tomás…”

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Tuesday, December 30, 2008

Pontos de Vista…30

     

Não sou de todo um “expert”
em informática. A necessidade agregada a alguma curiosidade que, na minha idade, ainda é legítimo que exista, obrigaram-me a manipular um computador. Fui mexendo, fazendo asneiras, questionando os meus filhos e outras pessoas e assim aprendendo alguma coisa. Quando me aposentei, a maioria dos professores e escolas não estavam identificados com tão precioso, e hoje considerado indispensável, equipamento. Eu fazia parte dessa maioria. Da maioria, curiosamente. Digo curiosamente, porque a minha forma de estar, de pensar, de abordar diversos temas, sempre esteve mais virada para as minorias. Sempre tive mais propensão para me colocar ao lado e defender minorias do que me colocar comodamente ao lado das ideias consideradas politicamente correctas e daqueles que as defendem. Na mesma linha, sempre me aprazou mais defender os fracos do que os fortes. No fundo, creio que isso é característico de muitas pessoas da minha geração. Há, no entanto, uma dúvida – sou um indivíduo com dúvidas permanentes – que não consegui ainda dissipar: não sei se as consideradas maiorias, nos diversos aspectos em que as consideremos, serão autênticas, isto é, se serão, de facto, o resultado verídico da consciência, do pensamento de determinado número de pessoas ou se apenas fruto do interesse, do oportunismo dessas mesmas pessoas. Faço esta afirmação, porque há uma dúvida que eu não tenho: as maiorias, todas as maiorias, nomeadamente as políticas, engordam muito à custa dos interesses pessoais e momentâneos de um grande número de pessoas, do que de acordo com convicções. Muitos pensam assim: “para quê defender convicções, defender pontos de vista, se isso não me traz quaisquer vantagens, antes pelo contrário? Naquilo em que devo alinhar é no pensamento dos que têm poder, daqueles que me podem proporcionar um “tacho”, me podem fazer uns favores mesmo que contrariando as leis e a ética, ainda que tenha que trair a minha consciência, as minhas ideias”. Estou certíssimo que é assim que muitos pensam e reagem de acordo.

Bom, eu comecei por falar do uso de computadores e perdi-me por aqui nuns “atalhos”. Voltando então à “vaca fria”, apesar da minha já confessada inabilidade nessa área, uso o computador diariamente: escrevo, utilizo o correio electrónico, comunico, já utilizei o power point em formação que ministrei e, através de um sítio que um amigo me indicou, leio vária imprensa de diversos países de todo o mundo, desde que a língua mo permita e faço uma espécie de zapping pela internet. Nessas incursões vou encontrando textos, comunicações, comentários, diálogos entre gente mais ou menos conhecida e desconhecida. Encontro algumas coisas interessantes, mas também muitas outras que, não me surpreendendo, as acho ridículas. Nesses encontros ocasionais, dou com os olhos frequentemente em absurdos auto-elogios, em elogios que não correspondem, de certeza, nem ao merecimento daqueles a quem são dirigidos, nem ao verdadeiro pensamento de quem os escreve. Às vezes, até são exibidas listas graduadas de merecimentos de vária ordem. Merecimento em que só os próprios intervenientes, por narcisismo, poderão, a meu ver, acreditar. Se fosse a acreditar em que tudo o que me é proporcionado ler correspondia inteiramente àquilo que os seus autores pensavam, teríamos uma cambada de gente ingénua, que via bondade em tudo o que fazia e em tudo os que os da sua igualha faziam também. Obviamente que não me considero ingénuo, nem alinho em utopias, não obstante me considerar um grande sonhador, no que toca a realização de projectos, e por isso no que eu acredito é numa gigantesca dose de hipocrisia, de falta de capacidade de enfrentar a realidade, de dizer não, porque é mais simpático, e algumas vezes mais rentável, dizer sim. São muitos os que veneram a hipocrisia; são poucos os que valorizam a franqueza. A internet é realmente uma enorme janela aberta para o mundo. Mostra-nos tudo o que nunca imaginaríamos ver. De certeza que, fosse eu mais sábio em tal matéria, me mostraria ainda muito mais, recolhendo mais proventos espirituais, mas nem tão pouco conheço minimamente a linguagem informática. Se a sua simples utilização poderia ser um acidente; falar dela seria, inevitavelmente, uma tragédia. De qualquer forma é já muito o que tenho aprendido com ela, nomeadamente no que concerne ao melhor e mais profundo conhecimento da espécie humana. Sempre que leio a pena – se é que ainda faz sentido utilizar o vocábulo “pena” -  ou oiço a voz de alguém, não deixo de fazer um determinado juízo que pode ser alicerçado, confirmado ou desmentido consoante o conhecimento que tenha ou venha a ter de quem produz as afirmações. Com a nossa voz ou a palavra escrita, através da internet ou de órgãos de comunicação social, damo-nos a conhecer a um público mais ou menos vasto, revelando muito do nosso carácter, da nossa personalidade. Não direi das ideias, porque essas, com maior ou menor habilidade, são muitas vezes falseadas, de acordo com interesses pessoais e pontuais, como já afirmei. É uma exibição que a maioria das pessoas admite e aceita: umas porque se mostram tal qual são e isso não lhes causa qualquer embaraço; outras, porque procuram, dessa forma, mostrar falsas virtudes, esconder veros defeitos, fazer auto-promoção. Sendo assim, e na linha do que disse há dias, desejo que 2009 nos traga menos hipocrisia, mais gente que seja capaz de dizer, oportunamente e cara-a-cara, ao amigo ou desconhecido, sim, quando deve ser sim e não quando deve ser não.

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Um outro desejo que eu gostava de ver satisfeito era que uma grande parte das Câmaras Municipais deste país se desse conta da sua verdadeira responsabilidade nas questões de protecção civil. É lamentável que apenas oitenta delas tenham aderido à criação de Equipas de Intervenção Permanente (EIP) nos corpos de bombeiros voluntários e corporativos e constituídas por cinco profissionais. Temos de considerar que cinco elementos para 24 horas, sete dias por semana, porque as doenças súbitas, os acidentes, os incêndios não têm dia nem hora, são muito pouco, mas nem esses quererem pagar a 50% é chocante. Bem sei que algumas câmaras dão subsídios substanciais às associações de bombeiros dos seus municípios, que, no entanto, são uma gota de água para as despesas que elas têm de suportar. Se os edis ainda não aderentes analisarem quanto custaria um corpo de bombeiros municipais, verificarão que se acrescentarem aos subsídios que normalmente concedem, o custo anual de uma ou duas Equipas de Intervenção Permanente, esta despesa seria muitíssimo menor do que aquela. De qualquer forma, quando falamos destas coisas, estamos a falar de pessoas, das suas vidas e de património que, tantas vezes se perde para todo o sempre. Daí que um outro desejo para 2009 é de que o espírito de alguns dos nossos responsáveis autárquicos seja iluminado de forma a terem a sensibilidade que se espera para as questões de protecção e socorro que são tanto da sua responsabilidade como a água, o saneamento, a rede viária e tantas outras coisas. Com mais ou menos apoios, com ou sem Equipas de Intervenção Permanente, os portugueses, seja de que município for, vão continuar a ter, nos seus bombeiros, a mesma disponibilidade, a mesma abnegação, a resposta oportuna às suas solicitações, mesmo em áreas cuja responsabilidade a outros pertence. Pela parte que a eles diz respeito, não obstante as dificuldades, não será, estou certo, que o 2009 deixará de ser um ano bom.

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Cavaco Silva, de semblante carregado, como se impunha, pelo teor da comunicação, falou ao país. Sendo ele normalmente sóbrio, desta feita, segundo o meu ponto de vista, excedeu-se. Já deu para perceber que eu sou dos que acredito que a verdade, o correcto, está muitas vezes do lado das minorias. De qualquer forma, numa democracia em que todos os actos se considerem legítimos, não feridos de ilegalidade, o que deve prevalecer é a vontade da maioria. A Assembleia da República, no caso do Estatuto Político-Administrativo dos Açores, fez aquilo que entendeu. O Presidente da República, também. Só que agora, por mais razão que julgue ter, não pode esperar que todos se subjuguem à sua vontade, ao seu pensamento e fazer afirmações como a de que “A qualidade da Democracia sofreu um sério revés”. Sério revés para a democracia seria um Presidente impor, sozinho, a sua vontade. Estaríamos senão em ditadura, à sua porta. É bom lembrar, nesta altura, a “cambalhota” de alguns partidos que haviam votado o mesmo estatuto por unanimidade e agora procuram lavar as mãos, como Pilatos. Nem sequer nos surpreende, mas registamos o facto. Não é pela promulgação deste diploma que a nossa democracia correrá perigo. Há outros fenómenos, a que é preciso dar especial atenção, que, esses sim, a podem fazer perigar. Ah! A lealdade, seja entre pessoas ou instituições, não pode ser exigível apenas a uma das partes.

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Monday, November 3, 2008

Pontos de Vista…22

     

Tivemos neste fim-de-semana o Dia de Todos os Santos, no sábado e o dos Fiéis Defuntos no domingo. De acordo com os respectivos nomes atribuídos a esses mesmos dias, o primeiro estará destinado a homenagear todos aqueles que, através do seu exemplo de vida, do seu sacrifício, da entrega ao serviço dos outros, mereceram a honra de ser elevados aos altares e ser considerados santos. Exemplos de santidade haverá muitos outros que, por uma ou outra razão, não terão merecido ainda essa honra, mas nem por isso deixarão de o ser e de serem credores da nossa homenagem. Santo é um termo ligado sobretudo à Igreja Católica e refere-se ao sagrado, que foi canonizado, mas se nós dermos ao vocábulo a abrangência que lhe é devida, santo quer dizer generoso, virtuoso, bondoso e então nós encontraremos santos em qualquer outra religião, porque nelas haverá pessoas com todas essas virtudes. Eles não serão um privilégio da Igreja Católica, embora seja aqui que eles estão referenciados, têm nomes, rosto, a quem os crentes se dirigem nas suas aflições, nos seus pedidos, nem sempre razoáveis. Claro que há outras religiões que também têm os seus ícones, alguns bens estranhos, em quem também confiam e a quem recorrem. Não lhes chamarão santos, nalguns casos serão deuses ou quaisquer outras coisas, bem esquisitas se tivermos em atenção a nossa cultura. O que é certo é que quase todas as pessoas acreditam em algo que não é terreno e homenageiam-no das mais diversas formas. Como na Igreja Católica já são mais os santos do que os dias do calendário, não se podendo destinar um dia para cada um deles, há o primeiro de Novembro destinado a todos eles
em conjunto. Só que, não sendo eu nem um bom praticante religioso, muito menos um estudioso do fenómeno, apenas um observador atento dos comportamentos das pessoas, como há dias dizia, parece-me que a comunidade católica, exceptuando os dignitários da Igreja e aqueles que a ela têm uma ligação mais profunda, dá, nesse dia, pouca importância aos santos e celebra, antes, os Fiéis Defuntos, a que está destinado o dois de Novembro. Aliás, se estabelecermos uma pequena conversa com algumas pessoas ao acaso, verificamos isso de imediato. Se a confusão ou não distinção perfeita entre os dois dias não tem, no meu ponto de vista, outra justificação que não seja a mera ignorância, já a romagem intensa pelos cemitérios no primeiro de Novembro, em vez do dia dois deveria ter a sua razão de ser no facto de o primeiro ser feriado e dia santificado, o que não acontece no segundo e, portanto, em dias de trabalho, às vezes longe dos cemitérios onde jazem os restos mortais dos familiares, é natural que muitas pessoas não tenham oportunidade de fazer a romagem. Todavia, neste ano que decorre, o dia de Fiéis Defuntos ocorreu no último domingo. Assim sendo, seria natural esperar, no meu ponto de vista, que os cemitérios tivessem o movimento que normalmente têm no dia 1 de Novembro. Mas não, não se verificou nada disso. Casualmente e não com qualquer intenção preconcebida, nesse dia, passei junto a vários cemitérios. Fiquei surpreendido. Pelo menos no momento em que passei em cada um deles, o movimento era quase nulo, atrever-me-ia a dizer que em alguns seria menor do que em qualquer outro domingo normal. Isso mais reforça a minha opinião de que as pessoas confundem o dia de Todos os Santos com o dos Fiéis Defuntos e até já estabeleceram o primeiro como dia de homenagear os seus mortos.

Bom, não será por isso que alguém irá para o inferno.

Para o inferno, se é que ele existe para além daquele que muitos de nós já têm neste mundo, poderão ir aqueles que fazem da visita aos cemitérios uma feira de vaidades, um local de exibição de roupas e flores. Passeando pelos nossos cemitérios, não deixaremos de concluir que eles se ornamentam de hipocrisia, de vaidade, quando deveriam estar vestidos apenas de homenagem, de gratidão, de saudade. As próprias flores, pelo seu valor, pela sua quantidade, representam muitas vezes mais a referida vaidade, hipocrisia, do que a homenagem. Há muita presença, há muito enfeite, muito mais em prol dos vivos que vêem, do que dos mortos que às vezes mal se recordam. Não tenho quaisquer dúvidas que há muita gente que vai aos cemitérios, impregnada de saudade, de tristeza, homenagear, rezar por aqueles que lhe foram muito queridos. Mas o que atrás digo também é para mim uma verdade inquestionável. Enfim, muitos de nós, não perdem uma única oportunidade, ainda que seja na morte ou, já mais tarde, onde jazem os restos mortais, de mostrar quanta hipocrisia existe. Lamento e fico chocado que assim seja. A mim, choca-me muito menos a não ida aos cemitérios do que a sua passagem por lá para que amigos e conhecidos vejam. Os nossos entes queridos que já partiram deste mundo, devem residir sobretudo no nosso coração e estarão sempre onde nós estivermos. Nas sepulturas, a determinada altura, já nem os ossos existem. Correcto é que nós guardemos para sempre dentro de nós, no coração e no espírito, os nossos mortos e os mantenhamos “vivos”. É dessa forma que eu guardo os meus defuntos, sem querer dizer que não passo discretamente pelo cemitério também, mais facilmente quando eles se encontram pouco movimentados, do que quando parecem uma feira. E porque assim é, de facto, quando me refiro aos meus entes que já não são deste mundo, nunca digo o meu falecido ou falecida. Sempre uso a relação familiar, a mãe, o avô, a avó, etc. como se de facto estivessem vivos. E estão vivos na minha memória.

Foi em dia de Fiéis Defuntos que se fez o funeral de Badaró, quase de forma incógnita, tal a ausência, sobretudo de antigos colegas, que se fez notar. Badaró, como o são quase todos os humoristas, até com a sua morte quis ser generoso, doando o seu corpo à Faculdade de Ciências Médicas para estudo dos futuros médicos.

Muitas vezes lemos ou ouvimos por aí chavões, apregoando que os portugueses são muito solidários. Há-os de facto, mas também há muita solidariedade mascarada de hipocrisia. Não sei se àquela solidariedade que se faz por exibicionismo, apenas e quando é sugerida por canais de televisão, rádios ou jornais, esquecendo muitas vezes aqueles que vivem ali ao lado e para quem não há uma palavra sequer, uma oferta com uma mão sem que a outra saiba, se deveria chamar solidariedade.

Veja-se o caso de Badaró. Onde esteve a solidariedade, principalmente daqueles que com ele trabalharam, provavelmente alguns a quem terá ajudado? Apesar de ter proporcionado muitos momentos felizes, com a sua graça, partiu praticamente só. Se houvesse da sua morte, do seu funeral, uma grande cobertura mediática, acredito que muita gente, muitos colegas não deixariam de estar presentes. Nestes momentos, em situações idênticas é que nós devemos avaliar o grau de solidariedade dos portugueses e não em situações em que os agentes ditos solidários, acabam por colher mais benefícios do que aquilo que investem. Todos nós estamos habituados a ver inúmeros artistas a participar em acções de solidariedade e não temos dúvidas que muitos deles o fazem por absoluta convicção. No entanto, apreciadas situações como esta do funeral de Badaró, ficamos realmente com a suspeita de que a solidariedade de alguns é hipócrita e meramente interesseira.

À medida que as cãs vão ornamentando a minha cabeça, vai tendo cada vez mais sentido aquela conclusão a que há muito tempo já cheguei que é a de que o mundo e as pessoas são muito mais qualquer outra coisa do que aquilo que parecem.

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