Tuesday, November 17, 2009

Para onde vai este país?

Em muitas, muitas centenas de peças escritas e faladas que publiquei, é naturalíssimo que repita temas, ideias, frases. É praticamente impossível que assim não aconteça.
Como há situações, gestos, procedimentos que se repetem, alguns que não gostaríamos de ver repetidos, nem deveriam ser, mas, infelizmente, o são, vezes sem conta, é inevitável que me repita, sem dizer exactamente as mesmas coisas, obviamente. Se há temas que tenho abordado com alguma frequência, um deles é o da mediocridade e já nem me atrevo a discernir, tal a sua amplitude, se é mediocridade de uma grande parte dos portugueses, se é do próprio país. Se a mediocridade de qualquer cidadão, qualquer que seja o seu estatuto, a sua função, é preocupante, muito mais o é quando nós temos a consciência que é ela que ocupa o poder, seja ele que poder for: nas autarquias, no parlamento, no governo, em suma na política, na justiça, na administração pública, nas empresas. Então a promiscuidade entre a política, a justiça, as empresas e a comunicação social, sem escrúpulos, nivelada muito por baixo, é assustadora.
Não obstante sermos bombardeados todos os dias com a crise económica, que tem de nos preocupar, pior do que essa mas que ajuda a consolidá-la, é a crise de valores, é a falta de escrúpulos, de educação, de civismo, que faz com que se roube, atente contra a dignidade, se procedam a assassínios de carácter sem que vejamos qualquer punição para os infractores. Enquanto não apearmos do poder, sobretudo do político, do judicial e da comunicação social, a mediocridade, não me parece que este país seja verdadeiramente viável. Se tenho algumas preocupações por mim, elas multiplicam-se pelos meus filhos e pelos meus netos.
Já aqui afirmei, creio que da última vez, que me não preocupa minimamente ser escutado, até porque nunca negarei, cara a cara, aquilo que disser nas costas, da mesma forma que nunca deixei de assinar tudo quanto publico. Considero abjecto tudo quanto é publicado sob anonimato, abomináveis todos quantos, muito do que dizem, o fazem de “face oculta”. Nunca o fiz nem nunca o faria. Ainda referentemente às escutas entendo que deverão ser efectuadas de acordo com a legislação vigente e servir para efeitos de investigação judicial, mantendo-se no segredo de justiça, seja qual for o estatuto de quem está a ser escutado, para evitar suspeições, pressões, julgamentos na praça pública. Todas as pessoas, sejam quem for, têm direito ao bom nome, até que sejam julgadas, condenadas com trânsito em julgado. O que nós vemos neste país medíocre é inúmeras pessoas a serem condenadas inevitavelmente para toda a vida, na rua, ainda que, mais tarde, os tribunais as venham a reconhecer como inocentes. E que dizer do sofrimento dos familiares desses “condenados”, nomeadamente, pais, maridos ou mulheres, filhos?! Quem conseguirá medir tamanho sofrimento, quando vêem, todos os dias, os nomes dos familiares escarrapachados nas páginas de jornais e revistas, abrindo noticiários de televisões e rádios, objecto de conversas nos cafés e repartições?! Será que os responsáveis por tamanha pouca-vergonha, por tão vil irresponsabilidade, sobretudo da justiça e comunicação social, pensam nisso, não têm família?!
Refiro-me aqui expressamente à justiça e à comunicação social pelo seu papel em todo este contexto. Claro que nem a uma nem a outra podemos atribuir os inúmeros e diversificados crimes que atravessam a sociedade portuguesa, nos prejudicam a todos e envergonham, mas não encontro, cá para mim, outros responsáveis, seja pelas fugas de informação, desprezando total e impunemente o segredo de justiça, seja pela publicação, muitas vezes não apenas do que consta das investigações, mas dando asas largas à imaginação, lançando suspeições sobre suspeições, cada um gerindo a informação de acordo com as suas preferências, sejam de que tipo for, provavelmente, até, de acordo com os seus interesses pessoais, de grupo ou mesmo materiais. Se é absolutamente imperdoável, pelo menos, segundo o meu ponto de vista e, creio que de qualquer cidadão dito normal, sem nenhuma preparação específica nessas matérias, mas que pensa, que se viole constantemente o segredo de justiça, sobretudo quando se trata de pessoas com algum ou muito relevo em qualquer área da vida nacional e a avidez doentia, mórbida mesmo, com que cada órgão de comunicação social procura escarafunchar tudo e a qualquer preço, para “vender” mais, todos os aspectos da vida dos visados, sem o menor respeito, já não digo piedade, nem por eles nem pelos seus familiares, muito mais grave é nós concluirmos, sem necessidade de se ser nem muito inteligente nem perspicaz, que as violações partem dos órgãos de justiça e não termos conhecimento que alguém seja responsabilizado por isso, nem tão pouco nos darmos conta de alguma preocupação nesse sentido.
Não aceito muito bem que a comunicação social não se debruce sobre esse problema grave para os cidadãos que é a violação do segredo de justiça, mas entendo-a, porque é do seu interesse que assim seja e é, naturalmente, ela que a fomenta, que, muito provavelmente, paga para que assim aconteça. Agora, diga-me, meu amigo, que confiança se pode ter numa justiça que não investiga, não julga, não pune os crimes que são cometidos dentro do seu próprio edifício e que, não só deixa sair aquilo que deveria estar em segredo de justiça, cá para fora, como o faz em timings acertados com as forças interessadas.
Com uma comunicação social, qual ave de rapina, que se lança com uma avidez nojenta sobre os despojos mais fétidos da nossa sociedade, tornando-os mais fétidos ainda, porque rentabilizam mais do que apregoar valores, virtudes; com uma justiça com operadores que vendem segredos e se vendem como prostitutos, é caso para os providos de fé irem rezando e os outros se entregarem a qualquer dos seus deuses, amuletos ou superstições, porque o problema é sério.
Está complicado viver neste país, mais paupérrimo em termos de valores do que de bens materiais e é caso para se começar a pensar se de aqui a alguns anos, não muitos, ainda seremos um país. Não estivéssemos integrados na União Europeia e já estaríamos com ou à beira de outra revolução. Não sei se para melhor ou para pior, mas com a experiência da bem-vinda chamada dos cravos, expurgando-lhe tudo o que teve de mau e que estamos a pagar, talvez se conseguisse apear do poder a mediocridade, para bem, não apenas de alguns, mas de todos.

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Tuesday, November 10, 2009

A vitória da mediocridade

Fico arrepiado cada vez que verifico que no meu país, na minha região – e isso acontece com frequência, infelizmente – se dá tanta importância a coisas medíocres, a pessoas medíocres. Fico arrepiado, fico confuso e dedico parte do meu tempo a reflectir sobre esse facto, e sempre esbarro na incerteza da justificação para tal realidade.
Não obstante saber que é típico dos portugueses, entre os quais me incluo, achar que o que é de fora é sempre melhor do que o nosso, não tenho dúvidas de que cada vez são em menor número os indivíduos de classe superior e em grande maioria, os medíocres. Não porque me considere um perfeccionista, não porque me considere demasiado exigente, rigoroso, longe disso, mesmo assim, parece-me que para alguém sobressair da mediocridade não pode limitar-se a cumprir aquilo a que qualquer simples mortal está obrigado, isto é, honesto, trabalhador, assíduo, pontual, solidário, cumpridor das leis. Quando eu vejo glorificar, tecer loas a pessoas que nem esses parâmetros cumprem, como poderia eu pensar de outra forma que não fosse a de que estamos num país e num tempo em que a mediocridade desfila triunfante.
Entre outras conclusões que me vão aportando à mente e que algumas vezes tanto se fazem como logo se desfazem como bolas de sabão, neste momento, parece-me de relacionar tal facto com a referida maioria de medíocres existente. Sendo eles, efectivamente, a maioria – já dizia Pierre Beaumarchais que “os medíocres e oportunistas vão a todo o lado” – é naturalíssimo que eles se protejam e dêem realce, destaque, aos da sua estirpe. Talvez a principal característica dos indivíduos medíocres é não conseguir reconhecer a superioridade dos outros. Mal vai ao mundo quando são os medíocres ou mesmo maus a servirem de exemplo, ignorando os bons. Tenho uma dúvida, aliás tenho muitas dúvidas, mas aquela a que agora me reporto é a seguinte: não sei se os espíritos medíocres realmente não conseguem reconhecer a superioridade dos outros, pelo simples facto de serem medíocres, ou porque não têm interesse nesse reconhecimento, precisamente para se tornar mais fácil a sua valorização pessoal e a dos seus iguais.
Alguns dos medíocres, não se lhes conhecendo nenhuma actividade digna de registo e não reconhecendo em si próprios o atributo de nada fazerem ou pouco e mal, têm a estultícia de aconselhar outros a fazer. Quem assim procede deve presumir, penso eu, que o que fazem é muito ou, pelo menos, muito importante, enquanto que aquilo que outros façam, mas não integre o seu lobby, por mais importante que seja, é desvalorizado. Falo conscientemente em lobby, porque acredito piamente que existe, se calhar um pouco inconscientemente, um lobby dos medíocres. Só assim é possível a mediocridade sair vencedora sobre a superioridade e ser praticamente ela a ocupar o poder.
É normal confundir-se pessoa medíocre com pessoa ordinária, insignificante. Efectivamente, é isso que, com frequência, se verifica, no entanto a minha reflexão tem mais a ver com o mérito, a competência, para o exercício de determinadas actividades do que propriamente a bondade ou maldade das pessoas. O que é que eu quero dizer com isto é o seguinte: pode haver pessoas sérias, trabalhadoras, solidárias, respeitadoras que eu considere medíocres no que respeita à capacidade, à competência, ou seja ao mérito para desempenhar certas funções, para assumir determinadas responsabilidades. Se de facto elas não têm essas aptidões, por muito boas pessoas que sejam, e como tal devem ser respeitadas, nunca deveriam ser chamadas a desempenhar tais tarefas, nem elas as deveriam aceitar e, muito menos, colocá-las num pedestal.
Há uma coisa muito pior que acontece com os medíocres, e aqui já não me reporto apenas aos que não têm aptidões, mas incluo os oportunistas, aqueles que de facto o são a toda a linha. Normalmente são velhacos, invejosos, mas também ambiciosos, e como não conseguem, pelos seus méritos, alcançar a superioridade de outros, na hipótese mais doce, menos maldosa, fazem tudo para que essoutros sejam ignorados, esquecidos, ou, na hipótese mais vil, caluniam. É a técnica do como não posso atingir a tua altura, rebaixo-te e já fico mais alto.
Só quem andar muito distraído ou não tiver por hábito reflectir sobre o comportamento das pessoas é que não se dá conta desta triste realidade.
No fundo o que está a dar e é por isso que muitos lutam, é a aparência. Fartamo-nos de constatar que o que se valoriza é aquilo que se parece e não aquilo que se é. Não sei se isto é exclusivo dos portugueses, se à escala global, mas por cá, é inegável que se valoriza com mais frequência a aparência do mérito do que o próprio mérito.
Veja, meu amigo, que há autarquias, que não obstante a generalidade dos cidadãos até poder ser positiva relativamente ao trabalho, à seriedade dos autarcas, se pensarmos bem, por falta de rasgo, de habilidade política, de risco controlado, em suma, de mérito, não estão muito mais desenvolvidas, mantendo-se deficitárias ao nível da saúde, da educação, da segurança, do ambiente, das acessibilidades, do lazer, do entretenimento. Mesmo com trabalhos considerados positivos, verifica-se nas autarquias, como se verifica no governo, parlamento, nos institutos, nas associações, que em muitos desses organismos só não se foi ou vai mais longe porque não há mérito em muitos dos seus dirigentes, que é como quem diz há muita mediocridade.
Tem dúvidas que assim é? Veja como, onde e em que condições são recrutados para serem nomeados ou sujeitos a eleições muitos dos indivíduos que povoam os organismos referidos e muitos outros que poderíamos aqui assinalar.
Bom, deixemos a mediocridade, que anda por aí de saltos altos, vestida de hipocrisia e de falas mansas, dando palmadinhas nas costas de uns e traindo outros, sorrateiramente, consoante as conveniências, para se mascarar de superioridade, que com ela jamais “sairemos da cepa torta” e vamos a outro assunto.
Afinal quem é que anda a ser escutado, é Belém ou S. Bento?
Queixava-se o inquilino de Belém de andar a ser escutado, mas, sabe-se agora, que desde há meses é o primeiro-ministro que está sob escuta nas suas conversas com Armando Vara. Não quererá a oposição acusá-lo de ter promovido tais escutas?
Embora me pareçam exageradas as escutas, atendendo aos fracos resultados que se têm obtido, é bom sabermos que tanto pode ser escutado o primeiro-ministro como o mais humilde cidadão. Pela minha parte, escutem-me à vontade. Para que ficássemos mais descansados só era necessário que a justiça fosse tão célere para os poderosos como para os humildes e que não fossem apenas estes a ocupar as prisões, mas também aqueles. Certamente, com tanta mediocridade – perdoe-me repetir o vocábulo – talvez não seja despicienda a conclusão de que apenas temos o país que merecemos.

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Tuesday, November 3, 2009

Aversão aos políticos

Se eu tivesse chegado agora a Portugal e ignorasse qual o partido que ganhara as eleições legislativas, pelos discursos dos diversos líderes, quase poderia apostar que qualquer um deles tinha vencido. As afirmações de tais actores pretendem fazer-nos crer que, mesmo com seis, sete, nove ou dez por cento do eleitorado, as suas propostas terão de ser concretizadas. Então, onde cabem as propostas dos que obtiveram a confiança de quarenta por cento do eleitorado?! Isto faz-me uma certa confusão. Sempre entendi que, em democracia, tudo se deve discutir em liberdade, com respeito por todas as ideias, por mais inconcebíveis que pareçam, mas depois de discutidas e votadas, vingarão as da maioria, tenha ela a amplitude que tiver, que os vencidos deverão respeitar, sem embargo de continuar a lutar em sede própria e por meios legais e legítimos para que, mais cedo ou mais tarde, vençam as suas. É este o meu conceito de democracia. Infelizmente, quer nos meandros políticos, quer mesmo em instituições particulares, fazem-se votações, cujos resultados deveriam ser respeitados por vencedores e vencidos, mas que muitos destes passam a desrespeitar de imediato. Isso é demasiado frequente, quer a nível partidário, quer a nível associativo.
Já demonstrei até à saciedade que não morro de amores pela classe política, de um modo geral, mas procuro sempre ouvi-los, lê-los, interpretá-los, observar o seu comportamento dentro e fora da actividade política, ajuizá-los. É óbvio que não os meço a todos pela mesma bitola. Há políticos, de vários quadrantes, por quem tenho enorme respeito e consideração. Há, felizmente, políticos que encaram a acção política como um verdadeiro sentido de serviço à comunidade. È a forma que encontram de melhor exercer o seu dever de cidadania, numa entrega abnegada, desinteressada em prol dos cidadãos. São as excepções, poucas, infelizmente, que confirmam a regra.
É natural que o conceito que eu faço da classe política se alicerce sobretudo naqueles que conheço mais profundamente, que andam de partido em partido à procura de “tacho”, que usam a demagogia, a mentira, a calúnia sem o mínimo escrúpulo, que hoje dizem muito bem e aplaudem os mesmos actos das mesmas pessoas que antes condenavam, que são de uma hipocrisia, impostura, falta de ética, de coragem, porque não poucas vezes se socorrem dão anonimato, sempre em nome do mero interesse pessoal e desse pecado nojento que é o da vaidade.
A minha aversão vem de antes do 25 de Abril. Quando no final da década de sessenta, princípio da de setenta, a ignóbil censura me cortava, em algumas peças do jornal Miradouro, coisas tão simples como afirmar que faltava luz eléctrica em muitos lugares de Nespereira, que faltava um fontanário neste ou naquele outro lugar, que para se chegar ou sair de um outro não havia outra alternativa que não fosse um caminho de cabras – veja, meu amigo que estávamos a falar de coisas tão simples e elementares como fontanários, para que as pessoas pudessem usufruir desse bem essencial como é a água -; quando, pelas mesmas questões e por outros escritos, sempre em defesa dos interesses do povo da minha freguesia, me tentam eliminar dos cadernos eleitorais; quando um inspector escolar, do Ministério da Educação Nacional – era assim que se chamava – me ameaça com o “olho da rua” se continuasse a escrever da forma que o fazia; quando me ameaçam chamar a GNR para me obrigar a sair de uma reunião camarária pública, que conceito é que eu poderia ter dos políticos?!
Chegou a Revolução dos Cravos e pensei, - ingenuamente, vi mais tarde, - que tocara a finados para a política suja e os políticos sabujos. Engano meu. Saudei o 25 de Abril, continuo a saudar, porque o saldo é extremamente positivo. Só que tudo se conjugou para que a minha aversão aos políticos não esmorecesse, antes pelo contrário. Logo uma corja enorme de indivíduos, alguns que conhecia como as minhas mãos, dos maiores defensores do regime salazarista – passados estes anos todos, alguns, mais ou menos sub-repticiamente voltaram a sê-lo – encostaram-se ao MDP ou mesmo PCP e procuraram sanear, utilizando a calúnia, os meios mais vergonhosos que se possam imaginar, todos quantos entendessem que lhes poderiam fazer frente nas suas ambições. Se mais não conseguiram, pelo menos aborreceram, inquietaram, perderam amigos. O mais vil “partido”, com inúmeros militantes, infelizmente, que surgiu com o 25 de Abril foi o dos “oportunistas”. Continua hoje. E esta democracia tímida, apodrecida, sem sequer ter amadurecido, não conseguiu expurgar tal praga, antes a tem deixado medrar. Tem deixado medrar e, em muitos casos, tem proporcionado a vitória da mediocridade, dos parasitas, dos incompetentes, dos interesseiros, em prejuízo dos competentes, sérios, trabalhadores, defensores do bem público, antes do privado. É um aspecto negativo que a Revolução não conseguiu sanar. Creio que só com outra revolução, não com as motivações da dos cravos, evidentemente, porque não estamos em ditadura, mas que actue sobretudo ao nível da educação nas suas várias vertentes, é que os portugueses conseguirão “distinguir o trigo do joio”, dando o pódio aos melhores e colocando os medíocres no lugar que lhes compete.
Quando esse apetite saneador e a “revolucionarite aguda”, essa autêntica sanha assassina de carácter de amigos e familiares, como se fossem inimigos desde sempre, acalmaram, muitos desses democratas “feitos à pressa”, desses auto-proclamados defensores das suas “queridas” terras e “queridas” gentes, foram-se colando a diversos partidos, nomeadamente o CDS, o PPD, sobretudo este, e também PS. Alguns, sem quaisquer outras convicções que não sejam aquelas que defendam ou aumentem o seu património e a sua vaidade, vão migrando entre os diversos partidos, consoante as conveniências de momento. Devo confessar que muitos destes, nascidos, criados e educados em pleno regime ditatorial, embora me choquem, sejam desprezíveis, não chocam tanto como aqueles que já foram criados, educados na pós-revolução e têm comportamento similar. Enfim, troca-se de política, de mulher ou marido, só se não troca de clube de futebol. Melhor, não trocava, porque os interesses que hoje se movem em volta do desporto-rei levam a que o “clube do coração” de alguns também mude de cor.
Com a balança virtual que pesa o valor dos que desempenham funções políticas a pender mais para o lado dos oportunistas e interesseiros, do que daqueles que são gente séria, correcta, solidária, que também a há, como é que eu não hei-de ter aversão aos políticos?
Seja como for, apesar de a minha experiência de vida me ter mostrado que mesmo na democracia ainda há campanhas e actos eleitorais com muitos truques salazaristas, nomeadamente junto das urnas, o que pode significar que os resultados nem sempre sejam o espelho da realidade, é bem melhor do que nos velhos tempos. Democraticamente, cabe-nos aceitar os políticos que temos, no pressuposto que eles são o produto da vontade maioritária dos eleitores, desejar-lhes a melhor sorte, mas sem que daí resulte que tenhamos de bloquear a nossa voz e a nossa pena, fechemos os nossos olhos e os nossos ouvidos. Cá por mim, enquanto me não cansar, se o não fiz antes de Abril, também não vai ser agora que me demitirei de falar, de escrever, com a consciência de que assim estarei a cumprir o meu dever de cidadania, a servir os meus compatriotas melhor do que muitos, exercendo funções políticas.

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Monday, March 9, 2009

Pontos de Vista…40

     

Estou ciente de que todos quantos me ouvem ou lêem, já concluíram que sinto uma crónica revolta e indignação pela mediocridade que revela uma grande parte dos nossos compatriotas que exercem cargos de eleição ou nomeação política. Porque tenho por certo que são inteligentes, - os compatriotas -  se não chegassem a essa conclusão, seria porque eu não tinha engenho nem arte para fazer passar as minhas mensagens. Concluiria eu, então, inevitavelmente, que mais me valeria suster a língua e a pena. Não cheguei a essa conclusão e, por isso, me mantenho em contacto consigo e inalterável na minha forma de expressar os meus pontos de vista, de acordo com a reflexão de Yogaswami, que eu pratico desde muitíssimos anos antes de a conhecer e que é a seguinte: “Sê leal para contigo mesmo. Não alteres o teu comportamento apenas para contentar os outros”. Obviamente que não tenho estudos de opinião relativamente ao meu pensamento, mas mesmo que os tivesse, continuaria a dizer o que digo e da forma que digo. Quem age em função de estudos de opinião ou sondagens são, sobretudo, os que fazem ou pretendem fazer carreira política, o que não é o meu caso. O que disse atrás não significa, de forma nenhuma, que não altere a minha forma de pensar. Pela experiência de vida, pelo que leio, pelo que oiço, pela reflexão mais ou menos elaborada, quanto o meu pensamento já evolui, quantas opiniões eu já alterei?! Muito. Só que eu expresso sempre aquilo que me vai na alma nesse momento, independentemente de quem forem os receptores da mensagem. Dito isto, e ainda que eu desejasse estar errado, relativamente à mediocridade de muitos políticos, diversos factos vêm frequentemente demonstrar que, infelizmente, o que penso e o que digo corresponde à realidade. Veja, por exemplo, a indecorosa, lamentável cena protagonizada entre dois deputados no nosso parlamento, com um a demonstrar a mais elementar falta de berço, de educação, de respeito por si próprio, pelo adversário político, por todos os parlamentares, pela instituição, por todos os portugueses, pronunciando um sonoro “vai pró ca…” Há um provérbio tibetano que diz: “ Há três coisas que jamais voltam: a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida.” Anda esta cambada de imbecis, de malcriados, a viver “à grande e à francesa” à custa do nosso dinheiro, com uma série de benesses e chorudas – atendendo ao nosso nível médio – e prematuras reformas e ainda, se for caso disso, de subsídios de reintegração, quando saem. Vamos ver alguma dessa gentalha, daqui a pouco, a andar por aí aos beijinhos e abraços e palmadinhas nas costas, em sardinhadas e outras patuscadas, prometendo “pontes onde nem sequer há rios”, tentando iludir, à semelhança do “conto do vigário”, ingénuos portugueses. Porque já não são tantos os ingénuos, a abstenção, nas mais diversas eleições, mais numas do que noutras, por motivos óbvios, é muito grande. Se não é correcto desculpabilizar totalmente os eleitores por tal facto, a verdade é que os políticos, que, com a sua acção ou inacção, fazem perder a credibilidade na política, contribuem, de forma evidente, para que os eleitores não tenham qualquer vontade de ir às urnas. É vulgaríssimo ouvir-se frases deste género: “vou votar em quem, se são todos iguais?”, acrescentando muitas vezes uma série de adjectivos que você conhece, porque já ouviu ou, quiçá, tenha também já pronunciado, relativamente à mesma situação. Apesar de tudo, mesmo que ninguém lhe mereça confiança, não deixe de votar. O voto em branco também tem um significado. Eu nunca deixei de o fazer, nem tenciono deixar, precisamente porque sei que o meu voto, seja feito da forma que for, tem um sentido. Ele significará alguma coisa. Se você não votar, talvez nem sequer se lhe devesse reconhecer o direito de reclamar. Se por um lado isso possa parecer um atentado à liberdade pessoal, devo confessar-lhe que não discordo totalmente do voto obrigatório, embora prefira a liberdade de voto, mas com todos os eleitores despertos, sensibilizados para votarem, na convicção de que o voto é, em democracia, a sua grande arma, que se pretende de paz.

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Aquilo que é considerado “normal” tem a ver com a cultura de cada povo. Todos sabemos que costumes, hábitos nossos são completamente diferentes de outros pontos da Europa, da Ásia, da África, da América. Aliás, mesmo dentro do mesmo país, ainda que pequenino, algo que é normal numa região é capaz de ser chocante noutra. Entre nós, por exemplo, é normal, os pais serem boas referências dos filhos, os pais serem solidários com os filhos, ainda que o comportamento destes, por vezes, deixe muito a desejar. Manuel Alegre é, indubitavelmente, uma referência do Partido Socialista. O mínimo que se esperava de Alegre é que ele, à semelhança do pai em relação ao filho, fosse solidário com o seu partido, independentemente de todas as discordâncias que tivesse e manifestasse no interior do mesmo partido. O pai que ama o seu filho, que é solidário com ele nas venturas e desventuras, certamente também tem muitas discordâncias que procura corrigir, desavenças que procura acalmar. Certamente que até concordo com alguns pontos de vista de Manuel Alegre, contrários aos da maioria partidária, mas quando o partido decide com legitimidade democrática, todos os deputados devem respeitar a vontade da maioria. É assim que eu entendo a democracia: o respeito pela vontade maioritária. Quem não quiser acatar isto, quem quiser, seja em que circunstância for, manifestar-se livremente, faça como eu, isto é, não se amarre a nenhum partido. São de todo respeitáveis as opiniões de Manuel Alegre, como são as de qualquer outro cidadão, já não é respeitável, em meu entender, que ele vote ao lado da oposição contra o seu partido, que faça afirmações como a de “se pudesse candidatar-me como independente, candidatava-me contra o PS, sem que antes tenha deixado a filiação partidária. Às vezes tenho a sensação de que Manuel Alegre ainda se vê no antes 25 de Abril. Nessa altura, a sua voz valia. Em democracia, não sendo eu um analista político, mesmo assim, parece-me que o deputado-poeta perde mais do que ganha e, também ele, que, durante muitos anos, foi uma referência de credibilidade política, com o seu comportamento estará a contribuir para a descredibilização dos políticos. Creio que todos reconhecem que Alegre está posicionado à esquerda do Partido Socialista. Também acho que sim, só que isso me provoca alguma curiosidade. É que se Manuel Alegre fosse militante de qualquer outro partido à esquerda do PS e votasse contra a orientação da sua direcção, pouco tempo se manteria. Veja-se o comportamento desses mesmos partidos, veja se há alguma disparidade nas votações, nas interpelações, veja o que aconteceu, o que acontece àqueles que ousam levantar a voz em sentido contrário ao das direcções ou líderes partidários. Sinceramente, não gostava de ver nenhum político que foi ou é uma referência num partido, como Alegre o é no PS, corrido, expulso, mas acho que o político, com um mínimo de ética, que não olhe tanto para o seu umbigo, só tinha um de dois caminhos correctos: retractar-se e travar a sua luta, defender as suas ideias nos órgãos do partido ou desligar-se. Para bem da sua credibilidade e da política, será bom que Alegre abandone a ambiguidade em que vive.

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