Pontos de Vista…12
Em Maio de 2007, dizia eu que viver neste país me fazia parecer que vivia num circo. Nessa reflexão socorria-me daquela que eu considero ser a figura central do circo, o palhaço, para justificar tal sensação. É que as palhaçadas, que nada têm a ver com o trabalho digno de tais profissionais, que tantas vezes têm mais vontade de chorar do que rir, mas não o espelham para nos fazerem sorrir e, sobretudo, fazerem felizes as crianças, as palhaçadas, dizia eu, eram tantas, como tantos eram os seus autores que, de facto, nos faziam ter a sensação de vivermos no interior de um circo. Era assim nessa altura e daí para cá o que mudou foi para pior. O circo continua instalado, os arremedos de palhaços são mais que muitos, só que o circo está mais perigoso. Agora abundam, entre outros artistas, atiradores, que, ao contrário dos do circo, que nunca acertam nas pessoas, estes acertam mesmo e até fazem buracos no corpo, corpo que de vez em quando “vai para os anjinhos”, não sei se com a alma agarrada, se esta fica por aí a apoquentar aqueles que acreditam em almas penadas. Estes “palhaços” especiais foram-me trazidos de novo à memória, por mais uma tirada imbecil, imprópria de um advogado, sobretudo porque dita num tribunal, embora numa pausa do julgamento, de José Maria Martins. Não é que, vindo dele, possamos estranhar muito, já que nos habituou a várias afirmações de pouco senso. Pois o advogado, que até acreditou e se vangloriou que havia sido convidado para ser um dos que haveriam de defender Saddam Hussein, não teve qualquer pejo em chamar “palhaço” ao seu colega, embora adversário no litígio, João Pedroso. Se isto não é um circo com “palhaços”, sem narizes vermelhos, batatudos, mas de línguas afiadas, não sei o que é um circo. De acordo com qualquer dicionário, “ridículo” é o que desperta riso ou escárnio. A diferença é que os palhaços a sério, maltrapilhos, de roupas largas e coloridas, sapatos enormes de voz esganiçada e pronúncia “portuganhol”, que vivem no circo real, provocam-nos o riso saudável, momentos de boa disposição, simpatia; os arremedos de “palhaços” que vivem neste circo virtual que é o nosso país, de fato e gravata de marca, bem calçados, bem falantes, quando não deitam “bacoradas” pela boca fora, provocam-nos antipatia, escárnio, nojo.
No circo, perdão, nos Jogos Olímpicos de Pequim, também alguns atletas portugueses, com algumas das suas afirmações, fizeram figura de palhaços. Valeram-nos os medalhados Nelson Évora e Vanessa Fernandes e mais alguns que, não obstante não terem conseguido qualquer medalha, deram o melhor de si e não justificaram os inêxitos com parvoíces. É de gente dessa, que “dá o litro” e não arranja desculpas esfarrapadas para justificar tudo o que corre menos bem, que o nosso país precisa. Parabéns e obrigado pela alegria que me destes.
Disse Jean de
la Bruyère: “ Há algo no mundo que é ainda mais raro do que os brilhantes e as pérolas: o bom juízo”. De facto ele anda arredio de muita gente.
Para dar mais vida a este “circo” apareceram agora alguns “artistas” do PSD, habitualmente fazendo papel de mudos, mas espicaçados por alguns companheiros, puseram-se aos berros, mais para serem ouvidos pelos ditos companheiros, do que por qualquer outra razão, pedindo a demissão do Ministro da Administração Interna por via da criminalidade violenta que, verdade seja dita, nos apoquenta, como que se isso, como num número de circo, resolvesse o problema. Não, não é por aí. E o PSD, como partido vocacionado para governar, sabe-o. Se não sabe, é pena, era suposto que soubesse. O mais triste, no meio desta gritaria que de repente se levantou, é o partido não apresentar uma alternativa, uma sugestão para tal combate. Bom, não a apresenta porque a não tem. Aliás, infelizmente, não é fácil. Sempre que se fala em criminalidade, violenta ou não, é inevitável falar-se de polícia. E ouve-se agora, com frequência, falar em polícia de proximidade. Porventura ajudará a minorar o problema, mas quem teve a ideia de acabar com tal sistema policial, criando super esquadras, foi um ministro do PSD, e não foi por isso que deixou de ser um bom ministro, nomeadamente no que se refere à problemática dos bombeiros e de seu nome Dias Loureiro. Aliás, devo confessar que, em meu entender, foi de todos os Ministros da Administração Interna o primeiro que dialogou empenhadamente e com seriedade com os bombeiros. Já bastante tempo depois de ter deixado de ser ministro, a Liga dos Bombeiros Portugueses atribui-lhe o Crachá de Ouro e bem o mereceu.
Mas voltemos “à vaca fria”. Não me canso de repetir, porque esse é o meu ponto de vista, que a criminalidade violenta tem muito menos a ver com a quantidade de polícias na rua do que com outra série de factores, até porque, ao que se sabe, e de acordo com um estudo da Organização das Nações Unidas, Portugal está em sétimo lugar da tabela dos países com maior número de polícias por mil habitantes, a nível global e o segundo da União Europeia, 4,7 polícias por mil habitantes. O problema não passa tanto pelo número de polícias, como pelas funções que exercem, onde, em que circunstâncias, com que armas, com que poderes. A culpa poderá ser seguramente do Ministério da Administração Interna. Poderá, mas tem, indubitavelmente, de ser repartida por uma gama de políticos, alguns da oposição e agentes da justiça. Pedir a demissão do ministro é um mero “fait-divers”, é pura e simplesmente baixa e medíocre política partidária, sem ter minimamente em vista a resolução do problema. Então a responsabilidade dos políticos que fizeram, ou não, as leis?! E a responsabilidade dos magistrados que põem na rua criminosos como aqueles dois que foram apanhados em flagrante delito, na Mealhada, que dispararam tiros numa estação de abastecimento de combustíveis, roubaram dinheiro, resistiram à detenção e um deles até tem ordem de expulsão de Portugal, por estar ilegal? Quem age dessa forma, mantendo tais indivíduos em liberdade, apenas com Termo de Identidade e Residência, também tem responsabilidades no aumento da criminalidade. E neste caso concreto nem sequer se pode escudar no Código do Processo Penal, que não tem qualquer culpa. Atitudes destas, permissivas, facilitadoras da vida aos criminosos é que criam um clima de insegurança nos cidadãos, aumentam a falta de confiança na justiça, desmotivam as forças policiais porque desvalorizam o seu trabalho, inclusive, expondo-as, enfraquecendo-as perante os criminosos. Dando força aos criminosos, depreciando o trabalho das polícias, isso sim, contribui e muito para o aumento da criminalidade. Não me digam que isso é culpa do Ministro da Administração Interna?
Criminalidade violenta, temos nós nas nossas estradas. Sem armas de fogo, mas com uma outra arma não menos letal, todos os dias, condutores criminosos ceifam vidas inocentes e a sua própria. Sabemos que a presença da polícia tem um efeito preventivo, dissuasor, mas também sabemos que a principal causa de mortalidade nas nossas estradas passa pela falta de civismo, de educação de muitos dos nossos condutores. Também aí, o Ministro da Administração Interna pode ter algumas responsabilidades, mas porque não reparti-las com outros ministros, digamos até da educação, de governos anteriores, pois a educação dos condutores de hoje tem a ver com políticas de outrora?
De facto, a demissão de ministros não resolve qualquer problema, deste género, pelo menos. O que é preciso é que todos nos empenhemos, políticos em primeiro lugar, em busca de soluções e todos contribuamos, cada um a seu modo e da melhor maneira que souber e puder, para o combate ao crime. Olhe, por exemplo, há um gesto simples que muitos condutores executam, que é o sinal de luzes, alertando, os que circulam em sentido inverso, da presença da polícia, dando assim a possibilidade de fuga a hipotéticos criminosos e defraudando a acção da autoridade. E depois todos nos queixamos. De mim nunca esperem um sinal desses. Como vê, meu amigo, todos pudemos fazer algo em prol da caça aos criminosos, ainda que seja não fazer nada, como é o caso dos sinais de luzes. Evite fazê-lo. Ao invés de prejudicar as autoridades policiais, colabore. Você sabe que há outras formas de colaborar, tendo todos os sentidos bem despertos para o que se passa à sua volta e sem cair no pecadilho de ser delator, deixe-se de ser comodista, deixe-se de desculpas que tem de ir à polícia ou ao tribunal uma série de vezes, o que realmente é verdade e aborrece, mas tenha paciência, é por si, por mim, por todos, não finja que não viu, que não ouviu. Seja cidadão de corpo inteiro. Colabore no combate ao crime, colabore nas investigações. Ajudando-as, está a proteger-se.
Ah, por favor, já agora, quando chamar a policia que não seja para a agredir.