Monday, August 25, 2008

Pontos de Vista…12

     

Em Maio de 2007, dizia eu que viver neste país me fazia parecer que vivia num circo. Nessa reflexão socorria-me daquela que eu considero ser a figura central do circo, o palhaço, para justificar tal sensação. É que as palhaçadas, que nada têm a ver com o trabalho digno de tais profissionais, que tantas vezes têm mais vontade de chorar do que rir, mas não o espelham para nos fazerem sorrir e, sobretudo, fazerem felizes as crianças, as palhaçadas, dizia eu, eram tantas, como tantos eram os seus autores que, de facto, nos faziam ter a sensação de vivermos no interior de um circo. Era assim nessa altura e daí para cá o que mudou foi para pior. O circo continua instalado, os arremedos de palhaços são mais que muitos, só que o circo está mais perigoso. Agora abundam, entre outros artistas, atiradores, que, ao contrário dos do circo, que nunca acertam nas pessoas, estes acertam mesmo e até fazem buracos no corpo, corpo que de vez em quando “vai para os anjinhos”, não sei se com a alma agarrada, se esta fica por aí a apoquentar aqueles que acreditam em almas penadas. Estes “palhaços” especiais foram-me trazidos de novo à memória, por mais uma tirada imbecil, imprópria de um advogado, sobretudo porque dita num tribunal, embora numa pausa do julgamento, de José Maria Martins. Não é que, vindo dele, possamos estranhar muito, já que nos habituou a várias afirmações de pouco senso. Pois o advogado, que até acreditou e se vangloriou que havia sido convidado para ser um dos que haveriam de defender Saddam Hussein, não teve qualquer pejo em chamar “palhaço” ao seu colega, embora adversário no litígio, João Pedroso. Se isto não é um circo com “palhaços”, sem narizes vermelhos, batatudos, mas de línguas afiadas, não sei o que é um circo. De acordo com qualquer dicionário, “ridículo” é o que desperta riso ou escárnio. A diferença é que os palhaços a sério, maltrapilhos, de roupas largas e coloridas, sapatos enormes de voz esganiçada e pronúncia “portuganhol”, que vivem no circo real, provocam-nos o riso saudável, momentos de boa disposição, simpatia; os arremedos de “palhaços” que vivem neste circo virtual que é o nosso país, de fato e gravata de marca, bem calçados, bem falantes, quando não deitam “bacoradas” pela boca fora, provocam-nos antipatia, escárnio, nojo.

No circo, perdão, nos Jogos Olímpicos de Pequim, também alguns atletas portugueses, com algumas das suas afirmações, fizeram figura de palhaços. Valeram-nos os medalhados Nelson Évora e Vanessa Fernandes e mais alguns que, não obstante não terem conseguido qualquer medalha, deram o melhor de si e não justificaram os inêxitos com parvoíces. É de gente dessa, que “dá o litro” e não arranja desculpas esfarrapadas para justificar tudo o que corre menos bem, que o nosso país precisa. Parabéns e obrigado pela alegria que me destes.

Disse Jean de
la Bruyère: “ Há algo no mundo que é ainda mais raro do que os brilhantes e as pérolas: o bom juízo”. De facto ele anda arredio de muita gente.

Para dar mais vida a este “circo” apareceram agora alguns “artistas” do PSD, habitualmente fazendo papel de mudos, mas espicaçados por alguns companheiros, puseram-se aos berros, mais para serem ouvidos pelos ditos companheiros, do que por qualquer outra razão, pedindo a demissão do Ministro da Administração Interna por via da criminalidade violenta que, verdade seja dita, nos apoquenta, como que se isso, como num número de circo, resolvesse o problema. Não, não é por aí. E o PSD, como partido vocacionado para governar, sabe-o. Se não sabe, é pena, era suposto que soubesse. O mais triste, no meio desta gritaria que de repente se levantou, é o partido não apresentar uma alternativa, uma sugestão para tal combate. Bom, não a apresenta porque a não tem. Aliás, infelizmente, não é fácil. Sempre que se fala em criminalidade, violenta ou não, é inevitável falar-se de polícia. E ouve-se agora, com frequência, falar em polícia de proximidade. Porventura ajudará a minorar o problema, mas quem teve a ideia de acabar com tal sistema policial, criando super esquadras, foi um ministro do PSD, e não foi por isso que deixou de ser um bom ministro, nomeadamente no que se refere à problemática dos bombeiros e de seu nome Dias Loureiro. Aliás, devo confessar que, em meu entender, foi de todos os Ministros da Administração Interna o primeiro que dialogou empenhadamente e com seriedade com os bombeiros. Já bastante tempo depois de ter deixado de ser ministro, a Liga dos Bombeiros Portugueses atribui-lhe o Crachá de Ouro e bem o mereceu.

Mas voltemos “à vaca fria”. Não me canso de repetir, porque esse é o meu ponto de vista, que a criminalidade violenta tem muito menos a ver com a quantidade de polícias na rua do que com outra série de factores, até porque, ao que se sabe, e de acordo com um estudo da Organização das Nações Unidas, Portugal está em sétimo lugar da tabela dos países com maior número de polícias por mil habitantes, a nível global e o segundo da União Europeia, 4,7 polícias por mil habitantes. O problema não passa tanto pelo número de polícias, como pelas funções que exercem, onde, em que circunstâncias, com que armas, com que poderes. A culpa poderá ser seguramente do Ministério da Administração Interna. Poderá, mas tem, indubitavelmente, de ser repartida por uma gama de políticos, alguns da oposição e agentes da justiça. Pedir a demissão do ministro é um mero “fait-divers”, é pura e simplesmente baixa e medíocre política partidária, sem ter minimamente em vista a resolução do problema. Então a responsabilidade dos políticos que fizeram, ou não, as leis?! E a responsabilidade dos magistrados que põem na rua criminosos como aqueles dois que foram apanhados em flagrante delito, na Mealhada, que dispararam tiros numa estação de abastecimento de combustíveis, roubaram dinheiro, resistiram à detenção e um deles até tem ordem de expulsão de Portugal, por estar ilegal? Quem age dessa forma, mantendo tais indivíduos em liberdade, apenas com Termo de Identidade e Residência, também tem responsabilidades no aumento da criminalidade. E neste caso concreto nem sequer se pode escudar no Código do Processo Penal, que não tem qualquer culpa. Atitudes destas, permissivas, facilitadoras da vida aos criminosos é que criam um clima de insegurança nos cidadãos, aumentam a falta de confiança na justiça, desmotivam as forças policiais porque desvalorizam o seu trabalho, inclusive, expondo-as, enfraquecendo-as perante os criminosos. Dando força aos criminosos, depreciando o trabalho das polícias, isso sim, contribui e muito para o aumento da criminalidade. Não me digam que isso é culpa do Ministro da Administração Interna?

Criminalidade violenta, temos nós nas nossas estradas. Sem armas de fogo, mas com uma outra arma não menos letal, todos os dias, condutores criminosos ceifam vidas inocentes e a sua própria. Sabemos que a presença da polícia tem um efeito preventivo, dissuasor, mas também sabemos que a principal causa de mortalidade nas nossas estradas passa pela falta de civismo, de educação de muitos dos nossos condutores. Também aí, o Ministro da Administração Interna pode ter algumas responsabilidades, mas porque não reparti-las com outros ministros, digamos até da educação, de governos anteriores, pois a educação dos condutores de hoje tem a ver com políticas de outrora?

De facto, a demissão de ministros não resolve qualquer problema, deste género, pelo menos. O que é preciso é que todos nos empenhemos, políticos em primeiro lugar, em busca de soluções e todos contribuamos, cada um a seu modo e da melhor maneira que souber e puder, para o combate ao crime. Olhe, por exemplo, há um gesto simples que muitos condutores executam, que é o sinal de luzes, alertando, os que circulam em sentido inverso, da presença da polícia, dando assim a possibilidade de fuga a hipotéticos criminosos e defraudando a acção da autoridade. E depois todos nos queixamos. De mim nunca esperem um sinal desses. Como vê, meu amigo, todos pudemos fazer algo em prol da caça aos criminosos, ainda que seja não fazer nada, como é o caso dos sinais de luzes. Evite fazê-lo. Ao invés de prejudicar as autoridades policiais, colabore. Você sabe que há outras formas de colaborar, tendo todos os sentidos bem despertos para o que se passa à sua volta e sem cair no pecadilho de ser delator, deixe-se de ser comodista, deixe-se de desculpas que tem de ir à polícia ou ao tribunal uma série de vezes, o que realmente é verdade e aborrece, mas tenha paciência, é por si, por mim, por todos, não finja que não viu, que não ouviu. Seja cidadão de corpo inteiro. Colabore no combate ao crime, colabore nas investigações. Ajudando-as, está a proteger-se.

Ah, por favor, já agora, quando chamar a policia que não seja para a agredir.

Posted by Salazar at 14:15:34 | Permalink | Comments (1) »

Monday, August 11, 2008

Pontos de Vista…10

      Nesta espécie de diálogo que, periodicamente, vou mantendo consigo, sim, espécie de diálogo, porque recebo o feedback de várias pessoas, que vão lendo ou ouvindo e respondendo solitariamente: “sim, é isso”; “é mesmo assim”; “ concordo”, etc. Claro que também imagino que tenha outras respostas do género: “não é nada disso”; estás enganado”, e outras expressões porventura menos simpáticas. De qualquer forma, já que estou a falar nisto, deixem-me aproveitar a oportunidade para agradecer igualmente a uns e a outros, aos que concordam sempre ou quase sempre comigo e aos que poucas vezes ou nunca concordam, porque uns e outros são importantes. Uns e outros me estimulam. Uns, porque ninguém é insensível às palavras gentis, benévolas talvez, sobretudo se temos a certeza de que não são hipócritas. Outros, porque a unanimidade de opiniões nos deve deixar, sempre, de pé atrás, e porque me sentiria frustrado se as minhas palavras não provocassem, nunca, alguma discordância. Quem normalmente busca, com as palavras, “agradar a gregos e troianos”, são os candidatos a lugares políticos, o que no meu caso pessoal está fora de questão. Mais importante do que conseguir unanimidade de opiniões é proporcionar alguma reflexão. Isso é que me move. Bom, mas ia eu a dizer e com esta deambulação me ia esquecendo, que pretendo, hoje, nesta tal espécie de diálogo, debruçar-me sobre três temas: os Jogos Olímpicos, O assalto à agencia bancária de Campolide, perpetrada por dois jovens e a sinistralidade rodoviária. Veremos se, como acontece frequentemente nas estradas portuguesas, não me perco e vou, por outras vias, estacionar noutras paragens. Vamos lá. Estão em curso os Jogos Olímpicos de Pequim, depois de um espectáculo grandioso, na abertura, em que, como alguém disse, o mundo parecia perfeito. Embora bonito, de prender os olhos e o espírito, tal espectáculo magoava-me. Sentia como que uma espécie de ferida dentro de mim. Não me conformava que o Mundo, como sempre, seja tão tolerante com os fortes e tão agressivo com os fracos. Só assim foi possível aceitar que a um país em que se não respeitam os direitos humanos de forma tão evidente, porque há outros que tidos como paradigma das mais amplas liberdades, também atentam contra tais direitos, embora de forma mais dissimulada, se haja permitido tal realização. Devo confessar que não resisti à revolta, certamente não exclusivamente contra a China, muito menos contra o povo chinês, mas contra todos quantos, nos mais diversos países do mundo, inclusive o nosso, atentam contra os direitos humanos e desliguei. Por isso e pela hipocrisia política, sobretudo daqueles que são responsáveis pelas grandes decisões mundiais, com a sua corte de lacaios e bobos atrás. Estava eu invadido por essa revolta, por essa indignação, quando dei por mim a interrogar-me se, de facto, quem tinha razão eram aqueles que, como eu, entendem – ou entendiam?, já nem sei bem – que o mais correcto, o que teria resultado mais positivo na procura de incentivar, ajudar os chineses na conquista da liberdade e garantia dos direitos humanos, seria a não realização dos Jogos Olímpicos de Pequim ou, pelo contrário, a efectivação de tal evento na capital chinesa, com o seu enorme mediatismo que iria permitir mostrar ao mundo a realidade do país, apesar das muitas restrições à movimentação de jornalistas e órgãos de comunicação social, contribuiria melhor para atingir tal desiderato. Como não tenho quaisquer preconceitos relativamente a fidelizar ou não as minhas ideias, não me repugnando nada mudá-las, quando entender que a minha inteligência, o meu raciocínio, o meu grau de conhecimentos me levaram a isso, não estando certo de qual teria sido a melhor resolução – a realização dos Jogos ou não – confesso a minha dúvida e vou observando quando e como posso, aguardando pelas medalhas lusas, na expectativa de que não voltemos aos tempos em que, no futebol, ganhávamos moralmente, já que as derrotas eram sempre da culpa de terceiros. A frase da nossa Telma Monteiro, que tem inegável valor, afirmando “lutei contra os árbitros” trouxe-me esses tempos e essas desculpas à memória.
Destes Jogos não posso deixar de registar aquele abraço entre duas atletas, uma georgiana e outra russa. Que belo exemplo para os responsáveis políticos dos seus países. Para isto também servem os Jogos Olímpicos.
O assalto a um banco em Campolide, Lisboa, perpetrado por dois jovens, ao que parece sem cadastro, mas que podem não ser tão inocentes assim, já que o aparecimento de dinheiro, objectos e a revelação de outros elementos com eles relacionados, pode ligá-los a outros crimes sem autores ainda identificados, seria apenas mais um assalto se não tivesse havido uma intervenção em tempo oportuno da polícia, que, não obstante os seus méritos, terá beneficiado do sangue frio dos funcionários que, intencionalmente, retardaram a abertura do cofre forte. Assalto com sequestro, com aparatoso cerco policial, forçosamente haveria de ficar, de imediato, fortemente mediatizado. O país assistiu praticamente em directo a todas as peripécias. Amarrou-se, tanto quanto pôde, principalmente aos canais de televisão. Não admira: eram vidas humanas - as dos reféns, inocentes – que ali estavam em jogo. E os portugueses – não sei se os outros povos também – têm uma apetência enorme para a observação de tudo quanto possa representar tragédia, que, felizmente, foi muito menor do que aquilo que poderia ter sido, embora maior do que o que era desejável. De qualquer forma, parece-me que a actuação da polícia não merece reparo, mesmo que nem tudo tenha saído perfeito e, a esse respeito, já foram tecidas as mais diversas loas. Aqueles que, à hora certa, sintonizavam o canal certo, a gosto ou contragosto, tiveram oportunidade de assistir, em directo, à resolução do problema que durava há mais de oito horas, em escassos segundos.
Sobre tal matéria apetece-me reflectir sobre o espectáculo que sempre se monta em semelhantes situações. A palavra “espectáculo” pode ser chocante, mas não se me oferece outra melhor, até porque não a utilizo com qualquer sentido depreciativo. Depois da tragédia de Entre-os-Rios que levou àquela mediatização de que todos nos recordamos, com excessos, defeitos, mas também com algumas virtudes, várias foram as entidades e personalidades que se debruçaram sobre a cobertura mediática de eventos que envolvam tragédias ou acções musculadas de forças de segurança ou socorro. Temos de convir que alguns comportamentos mudaram para melhor. Todavia, parece-me que há necessidade de discutir o problema com mais profundidade. Sem atentar contra a liberdade de comunicar, de informar, mas preservando o sigilo, a segurança de pessoas e das operações que têm de ser realizadas, interrogo-me se, no caso da acção levada a cabo para neutralizar os assaltantes e sequestradores do BES e libertação dos reféns, o perímetro de segurança não deveria ter sido mais alargado, colocando mais à distância mirones e órgãos de comunicação social. Por aquilo que vi e ouvi, parece-me, - digo, parece-me, -  que poderiam sair dali informações importantes que, eventualmente, prejudicassem o sucesso da operação. É apenas um ponto de vista.
Quando tudo parecia fazer crer que o comportamento dos portugueses, ao volante, tinha melhorado, eis que somos confrontados com uma série de mortos na estrada, na maioria dos casos, por força de conduções agressivas. Digamos que a “guerra” voltou à estrada. É lamentável. Quando já uma simples condução normal é perigosa, obrigando todos os condutores conscientes a uma condução defensiva, eis que surgem condutores irresponsáveis, autênticos criminosos, fazendo dos seus carros autênticas armas de morte de pessoas inocentes.
Realmente, este mês de Agosto, que ainda nem ao meio chegou, vai trágico, mas por aquilo que se vai vendo, nem admira. Ainda no último domingo fiz uma curta viagem de cerca de 100 quilómetros, digamos, um mero passeio dominical com minha mulher, aqui pelas estradas da região e tivemos oportunidade de assistir aquilo que, felizmente, não observava algum tempo: praticamente todos os carros que comigo se cruzavam vinham em altíssimas velocidades, obrigando-me, algumas vezes, a encostar perigosamente à berma da estrada. Aqueles que se aproximavam da minha viatura, por detrás, muitos deles, ultrapassaram-me em sítios, onde só por sorte não provocaram desastres, apesar de eu sempre facilitar as ultrapassagens a quem o pretende fazer, encostando-me o mais que posso e baixando a velocidade. A conduzir assim, se a condução agressiva, irresponsável fizesse parte dos Jogos Olímpicos, éramos, seguramente, candidatos a uma medalha de ouro.
Quando se sentar ao volante do seu carro, lembre-se que o deve utilizar como algo que lhe oferece melhor qualidade de vida, que lhe deve proporcionar prazer e não como se estivesse com uma metralhadora na mão em campo de guerra.
Posted by Salazar at 19:14:30 | Permalink | No Comments »

Monday, March 3, 2008

Combate ao crime

      Continuamos a ser confrontados com as notícias de crimes violentos, em que para além de outros efeitos nefastos, o pior de todos é o ceifar de vidas através de actos reveladores de uma extrema frieza, de uma grande crueldade, de uma enorme falta de respeito pela pessoa humana, provavelmente de um indesejável sentimento de impunidade. Cada vez que acontecem estes crimes violentos, e estão a acontecer com demasiada frequência, o cidadão comum reclama por mais polícia nas ruas. Não digo que não tenham razão. O policiamento não será o suficiente para combater, para dissuadir, prevenir determinado tipo de crimes, mas mesmo com mais uns milhares de polícias espalhados pelo país, muitos dos que se têm cometido ultimamente, tê-lo-iam sido na mesma, tal a forma e o local em que foram concretizados. Em meu modesto entender, mais do que policiamento nas ruas – já aqui disse isto também – é necessário que haja investigadores em número suficiente, bem preparados e dotados de todos os meios modernos que existem para levarem a cabo com a maior rapidez e eficiência possíveis o seu trabalho. Mesmo isto, só por si, não basta. Feito o trabalho de investigação, identificados os criminosos, executados os procedimentos para que a acusação seja possível, é necessário não só que a justiça seja célere, mas que tenha ao seu dispor legislação que permita punir exemplarmente os autores dos crimes. Sem isto, por mais polícia que se ponha nas ruas, os resultados não serão muito evidentes. Por um lado, verifica-se que alguns dos crimes são bem preparados, de modo a que, por mais polícia que houvesse, haveria sempre forma de os cometer, pois não podemos ter a presunção de exigir um polícia junto de cada um; por outro lado, os criminosos sabem que para além de as nossas leis serem brandas, se não tiverem mau comportamento na prisão, cumprem apenas uma parcela da pena. Se pelo menos nós tivéssemos a certeza de que o período de reclusão teria servido para se reabilitarem, não haveria problemas. Se isso, de facto, acontece com alguns, muitos outros, mal põem um pé na rua, logo se entregam à criminalidade.
Eu insisto na necessidade de reforçar os agentes e meios de investigação, porque ao debruçarmo-nos, mesmo com o olhar de simples leigos, na forma como algumas das mortes são concebidas e o tipo de vítimas, chegamos à conclusão de que há gente com vidas muito obscuras, porventura, duplas ou completamente diferentes daquilo que aparentam. Claro que nada justifica que se mate quem quer que seja, mas para quem o faz, de forma criminosa e mesmo premeditada, como terá sido o caso relativamente àquela senhora que foi abatida à queima-roupa numa urbanização na zona de Sacavém, o autor terá, seguramente, a sua motivação. Daí o ter-se de vasculhar a vida da vítima, pormenorizadamente, por muito que isso provoque susceptibilidades à família.
Para se tentar perceber tudo o que se está a passar é preciso, no entanto, reflectir no que ocorre a montante de tudo isto. O que se verifica é que se tem degradado, a olhos vistos, o sentido de família. Está-se a perder isso, como se vêm perdendo rapidamente muitos outros valores que ajudavam a manter uma sociedade equilibrada, respeitadora, solidária. A família, que era o local por excelência onde se moldavam, se educavam as crianças, onde se forjavam valores, deixou de o ser, em muitos casos, porque ou é completamente desajustada, degradada, ou pura e simplesmente não existe como tal. Restava-nos esperar que os professores educadores pudessem, de algum modo suprir as deficiências da pseudo família. Infelizmente, os exemplos que temos visto, mostram-nos que também daí, não podemos esperar grande coisa, pois, como já afirmei, ninguém pode dar o que não tem. Assim, entramos num ciclo vicioso, extremamente perigoso, difícil de travar, se não forem tomadas medidas urgentes, sobretudo no campo da educação e da justiça, fazendo as reformas que houverem de ser feitas sem receio de manifestações, algumas das quais mais não pretendem senão a manutenção de privilégios de alguns, que outros, ingenuamente, ajudam a sustentar.   
Posted by Salazar at 15:52:09 | Permalink | No Comments »