Monday, August 24, 2009

Mais uma tragédia

Ninguém terá ficado indiferente à tragédia que no final da semana transacta ceifou a vida a cinco pessoas, com a derrocada de uma falésia na praia Maria Luísa, em Albufeira, sendo que quatro eram uma família completa: um casal e suas duas únicas filhas. Como qualquer pessoa normal e apesar de já ter estado envolvido mais directa ou indirectamente em algumas tragédias, não deixo nunca de me chocar, de me entristecer, de reflectir. E reflectia sobre esses temas que parece colher pouco interesse de quase toda a sociedade portuguesa, desde pessoas com responsabilidades várias até ao cidadão comum, que são prevenção e segurança. Não me canso de reflectir sobre isso, não me canso de alertar, mas, infelizmente, parece que continua a ser uma fatalidade dos portugueses pensar que as coisas sempre acontecem aos outros e nunca aconteceriam naquele momento em que estão ou vão a passar. E as pessoas do poder, dos vários poderes, parecem afinar pelo mesmo diapasão. Vão postergando, colocando umas placas, o que nem isso sempre se verifica, e um dia a tragédia acontece. Foi assim em Entre-os-Rios, onde nem só as condições climatéricas adversas poderiam ser responsabilizadas, são viaturas automóveis que caem em ravinas, por falta de barreiras de segurança, foi agora a tragédia do Algarve.
Nem uns nem outros se devem desresponsabilizar. O cidadão que vê uma placa a anunciar perigo e não dá importância ao facto sofre de incúria, que muitas vezes é fatal. E, se nós todos, simples cidadãos até temos a noção de que o poder, seja local ou central é muito mais de pecar por falta de zelo do que por excesso dele, seria natural que pensássemos que uma placa a indicar perigo, poderia significar muito perigo ou perigo iminente. Devíamos, pois, cuidar-nos. Por sua vez, o poder, só porque colocou umas placas de aviso, não deve, não pode ficar com a consciência aliviada. Há situações, como se verificou agora em Albufeira, que mais do que colocar avisos deveria ter-se evitado ou eliminado as causas do risco. Os simples avisos não eliminam as causas. Neste aspecto, meus amigos, quer o poder central, quer o local têm enormes responsabilidades. Ao poder local cabe um papel muito importante na resolução desses problemas. Ainda que, em muitos casos, não lhe compita a ele a solução, compete-lhe, pelo menos, porque conhecem ou devem conhecer melhor do que ninguém os problemas da sua freguesia, do seu concelho, alertar e exigir do poder central a resolução dos problemas. Infelizmente, nem sempre assim acontece. São, muitas vezes, as autarquias, os responsáveis pela criação de condições de insegurança, outras vezes por não eliminar os riscos, ou mesmo permitir que eles se criem, como é, por exemplo, nós assistirmos a construções em cima de linhas de água. Há um défice enorme na cultura da prevenção/segurança.
A talhe de foice, deixe-me dizer-lhe que, depois de vários protestos, a Direcção de Estradas de Aveiro, no primeiro semestre de dois mil e oito, comprometeu-se a colocar barreiras de protecção na estrada nacional número 225, no segundo semestre desse mesmo ano. Estamos no segundo semestre já de 2009. Nem uma barreira foi colocada. Se acontecer um despiste grave, sempre arranjarão uma qualquer desculpa. Oxalá que tal não venha a suceder, mas se vier a verificar um grave desastre, mesmo que nada tenha a ver comigo nem nenhum familiar, se a lei mo permitir, não hesitarei em intentar uma acção criminal.
Deixe-me dizer-lhe outra: Como se fosse pouco, a horrenda reabilitação do largo da Feira, em Nespereira, a segurança também foi “mandada às malvas”. Colocaram umas grades frágeis e, pior do que isso, com um espaço enorme, permitindo que qualquer criança possa cair daqueles muros altíssimos, que bem desnecessários eram. E mais ainda: a meio da curva, logo que termina a rampa que dá acesso à adega do Café Lima, aparece a beira do passeio, cortada na vertical. Pronta a que os automobilistas lá batam com a roda do lado direito da frente, o que, não obstante a sua vida recente, já aconteceu, e possa ter consequências mais ou menos graves. Quando uma Câmara Municipal não revela qualquer sensibilidade para as questões de prevenção e segurança, quando ela própria é a criadora dos riscos, que confiança podem ter os munícipes e como é que ela lhes pode fazer determinadas exigências, nas obras que tem de licenciar?! “Bem prega Frei Tomás…” Parece que estamos condenados a que, quem mais precisava de ter olhos, pelas funções que desempenham, os não tenham. Triste sina. Seria bom que nas campanhas eleitorais que se avizinham, as questões de prevenção e segurança, nas mais diversas áreas, não fossem esquecidas. Por candidatos e eleitores. Há muitas vidas que se perdem só porque se deixam persistir riscos que nem eram tão difíceis, nem onerosos de eliminar. Não eliminar os riscos conhecidos pode ter consequências muito graves, como destruição de bens móveis ou imóveis, ferimentos em pessoas que podem provocar imobilidade, incapacidade para o trabalho, ausências ao trabalho, despesas com tratamentos, morte de pessoas, nomeadamente até de elementos das forças de socorro, alteração do meio ambiente, dispêndio de recursos financeiros elevadíssimos, etc. É só ver o que acontece com os incêndios florestais que destroem, ano após ano, valioso património, alteram o meio ambiente, e gastam-se milhões no combate, só porque, por mais promessas que todos os governos tenham feito, ainda não houve, até hoje uma verdadeira, séria política de eliminação dos riscos.
Voltando à tragédia de Albufeira, dela tendo tomado conhecimento, eu e minha mulher procurámos contactar, de imediato, o meu filho, que com minha nora e netos também se encontravam em Albufeira. Estavam no Zoomarine, felizmente. Então, comentávamos a dor que deveria ser desaparecer de forma tão estúpida uma família. Nem sequer ligámos aos nomes, mas fossem eles quem fossem, mereciam a nossa dor, a nossa solidariedade. Aliás, já tínhamos passado, há pouco mais de trinta anos, por uma situação desse género: Numa sala de sua casa, quatro urnas com os cadáveres do meu padrinho e primeiro professor, sua filha, seu genro e sua neta. É uma situação arrepiante, são momentos de dor enorme.
Ao início de noite de sábado, soube, através do telefonema de uma prima, que afinal quem tinha sido soterrado era a minha também prima Anabela, seu marido António e suas duas filhas, a Ana Rita e a Mariana. No domingo, logo às dez da manhã estava em Britiande, Lamego, terra da naturalidade de meu pai, procurando dar algum alento a alguns familiares mais próximos do que eu, integrado naquela enorme manifestação de dor, aumentada pelo desespero do pai da Anabela, o Zeca da Zulmira, como é conhecido, nos seus 84 anos, já viúvo, que de uma assentada perdeu sua filha única, seus netos e genro, ficando só. As coisas não acontecem só aos outros, temos de nos convencer disso.
Muitos de nós, que tantas vezes nos queixamos por tão pouco, é bom que reflictamos mais sobre o que acontece aos outros e concluamos que a maioria das vezes, as nossas dores, as nossas mágoas, os nossos problemas são coisas ínfimas, se comparados com os deles.
Se estes casos trágicos ao menos servissem para que os diversos elementos do poder político e cada um de nós mudassem o comportamento, talvez se pudesse dizer que as mortes não teriam sido em vão. Infelizmente, a experiência diz-nos que, no imediato, se faz alguma coisa, mas a memória é curta e, quase sempre, rapidamente tudo se esquece e voltam os mesmos problemas.
Já agora, porque falei em mudar o comportamento, parece-me que, no acidente do Algarve, apesar do que disse atrás, os vários elementos intervenientes no socorro e a comunicação social estiveram bem melhor do que em Entre-os-Rios Desta vez, não se ouviram as perguntas disparatadas que se fizeram aquando da queda da ponte. Ainda bem. Até os mirones foram imediatamente impedidos de complicar os trabalhos de quem estava ali apenas para socorrer e informar. Creio que terá sido uma lição que se colheu de Entre-os-Rios, o que faz com que essa tragédia não tenha sido totalmente em vão.

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Monday, March 23, 2009

Pontos de Vista…42

     

Já muita tinta correu e muito se falou sobre a desastrosa (sobretudo para o Sporting) arbitragem de Lucílio Baptista, no jogo da final da Taça da Liga, ocorrido no último sábado, no Estádio do Algarve, entre Benfica e Sporting. Apesar do assunto estar já por demais escalpelado, mesmo assim, apetece-me tecer algumas considerações. Deixe-me antes de mais confessar-lhe que o que mais me deprimiu, até hoje, foi quando chegou o momento de deixar de jogar futebol de competição, tal era a alegria, o entusiasmo, o empenho com que me empregava nos treinos, nos jogos. Isto quer dizer que sou um apaixonado não fanatizado do futebol. Nem o facto de ter desempenhado, por vários anos a função de treinador preencheu esse vazio. Pela minha própria experiência – por exemplo, perdi um título de campeão já depois de ter recebido a faixa, devido a um relatório fraudulento de um árbitro e conivência da Associação de Futebol – e daquilo que vou vendo e lendo, sei que esse desporto que sempre me empolgou, infelizmente, tem muito pouco de verdade desportiva. E o mal não é de agora. Nem sei se agora é pior ou melhor. Sei que agora é mais fácil tomar conhecimento do que é verdadeiro ou falso, através da grande cobertura feita pelos órgãos de comunicação social, nomeadamente a televisão. Aliás, se não fosse este órgão, relativamente a muitos acontecimentos, ficaríamos sempre na dúvida. Sempre houve e continuará a haver erros graves na arbitragem. É inevitável, enquanto não puserem a tecnologia ao serviço do futebol, que mesmo assim não sei se será suficiente. Há erros que são perfeitamente desculpáveis, admissíveis; outros, porque configuram incompetência, ou, pior do que isso, má-fé ou mesmo fraude, são intoleráveis. No jogo em referência, o árbitro, com a sua decisão, provocou quase um terramoto: proporcionou que o Benfica levasse para casa – recuso-me a dizer ganhou – uma taça que deveria ir para Alvalade; que o Sporting com seus dirigentes, técnicos, atletas não usufruíssem do título; que o Sporting perdesse a favor do Benfica um milhão de euros; que o seu técnico e um jogador fossem castigados, porque os seus gestos, embora não merecedores de aplausos, em qualquer das circunstâncias, foram consequência do erro crasso do árbitro. Foi, de facto, uma decisão com consequências muitíssimo graves. Se o erro, só por si, me choca, muito mais choca a reacção de alguns dos intervenientes no jogo. Desde logo, o próprio Lucílio Baptista. Sinceramente, tenho muita dificuldade em acreditar na sua boa-fé e explico por quê. Quando um árbitro não tem dúvidas relativamente a qualquer facto ocorrido no jogo, a decisão tem de ser sua, independentemente daquilo que lhe indicar o árbitro assistente. Ora, se Lucílio Baptista esteve quase dois minutos a dialogar com os seus assistentes é porque não tinha certeza de nada. Mais, o seu assistente que acompanhava o jogo na parte do campo onde se verificou o lance, ter-lhe-á dito que não foi grande penalidade ou que não viu nada como referiu posteriormente, Lucílio. Tal como nos tribunais, na dúvida, o juiz não castiga. Era isso que o árbitro, ou o juiz da partida, se preferir, deveria ter feito. Assim é difícil acreditar-se no futebol. Mas não queria deixar a minha reflexão por aqui. Será que adquirir um título da forma como foi, justificará tanta alegria, tanto entusiasmo de treinador, atletas e adeptos? Não seria recomendável um pouco mais de contenção? Será que o já bastante contestado Quique Flores, porque uma péssima decisão de um árbitro lhe proporcionou um título, pois nem sequer a jogar contra dez, durante cerca de vinte minutos, se atrevera a marcar um golo, já é o melhor do mundo?! Que dizer das palavras de Reyes que faz esta afirmação: “não me interessa se é penalti ou não o que interessa é que ganhamos”?! Faz-me lembrar aquela triste figura de David Luiz que afirmou perante umas dezenas de crianças que o golo que mais o marcou fora o que marcara ao Braga em posição de fora de jogo. Quim foi transformado no herói do jogo. Gosto muito do Quim e ainda bem que ele mostrou estar no pleno uso de todas as suas capacidades, na defesa das grandes penalidades, mas o grande protagonista do jogo não foi ele, foi o árbitro. Não fora este e Quim teria tido um jogo sofrível, nem sequer a merecer a classificação de bom. Como se tudo isso não bastasse, aparece o director de comunicação do Benfica a acusar o Sporting de não saber perder, de falta de fair play, como se o seu clube tivesse legitimamente ganho alguma coisa e pretendendo retirar ao seu adversário o direito mais do que legítimo e justificado à indignação. Realmente há gente que não tem um pingo de vergonha.

Devo referir ainda que muitos jogadores, de ambas as equipas, ao invés de procurarem jogar futebol, mostrarem todas as suas qualidades e proporcionarem um bom espectáculo, andavam mais preocupados em acertar nas pernas dos adversários. Muitas vezes é o ambiente escaldante, quezilento, das bancadas que se transmite para dentro do relvado. Nesse jogo, enquanto nas bancadas tudo era mais ou menos pacífico, até ao “desastre”, o campo, às vezes, parecia uma arena. Por todo este ambiente sórdido do futebol é que dele, como da política, vão-se afastando os mais sérios. É pena.

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Tendo ainda fresco na memória a tragédia daquele bebé que morreu asfixiado no carro onde o pai o esquecera, na segunda-feira, 16 de Março, um jornal diário titulava, na primeira página: “Tragédia atinge quatro crianças” e como subtítulos “Entre-os-Rios – Irmãos destravam carro e caem
15 metros”; “Mangualde – Bebé morre ao cair num poço a céu aberto”; “Matosinhos – Menino levado pelo mar quando brincava”. Depois disso já houve outros casos semelhantes como crianças a cairem de varandas, outra atropelada pelo próprio pai, etc. Já aqui há tempos abordámos o assunto, salientando o facto de algumas pessoas – muitas, infelizmente – ao invés de assumirem as suas culpas, se não totais, pelo menos parciais, atribuírem ao ter de ser, à sorte ou azar a responsabilidade das tragédias ou da sua iminência. Parece, dessa forma, aliviarem as suas consciências. Acredito, todavia, que muitos não têm propriamente essa intenção de alívio de consciência, será mais a ignorância em termos de cultura de segurança a falar mais alto. Todos nós, que andamos atentos ao que se passa à nossa volta, observamos que há casas, com algumas varandas e janelas, com escadas sem protecção adequada, com tanques ou piscinas em jardins ou quintais de fácil acesso a qualquer criança mesmo de tenra idade, onde, à mínima distracção, uma qualquer criança pode sofrer um grave acidente que a conduza à morte ou a uma deficiência irreparável. Todos nós observamos como e onde algumas crianças brincam, correndo sérios riscos. Todos nós observamos como algumas crianças caminham pelas nossas estradas, às vezes, brincando com uma bola, ou correndo atrás umas das outras. Todos nós observamos como algumas crianças são transportadas nos automóveis e mesmo em motorizadas, pior do que infringindo a lei, correndo sérios riscos. Todos nós observamos como algumas crianças viajam nas carrinhas de transportes escolares, com responsabilidades para pais, professores, autarcas. Perante tais circunstâncias, bem se poderiam esperar mais e mais graves acidentes. É bom que acreditemos que nem sempre “ao menino e ao borracho, Deus põe a mão por baixo”. O que tudo isso revela é uma enorme falta de cultura de segurança.

A segurança, nas várias vertentes, é um tema sobre o qual reflicto muito. É de referir que temos evoluído bastante, nos últimos anos, em termos de legislação. Direi mesmo que temos legislação ao nível europeu. Poderemos até dizer que, a esse nível, o Estado tem cumprido razoavelmente o seu dever. Só que a uma grande parte dos cidadãos mingua-se-lhe uma cultura de segurança digna desse nome. Aí, não estaremos, seguramente, ao nível dos países mais civilizados. Se cada cidadão falha, porque, por si próprio, tem obrigação de adquirir essa cultura, falha também o Estado porque deveria fazer bem mais nesse capítulo da educação, quer através das escolas ou de outras instituições vocacionadas para o problema. Verificamos também com enorme tristeza e preocupação que muitas autarquias não revelam a menor sensibilidade para o assunto, também elas pecando por pouco ou nada fazerem nesse sentido. Para se chegar a essa conclusão basta ler os Planos de Actividades e ouvir os autarcas quando são confrontados com situações do âmbito da segurança. Todos podemos e devemos fazer alguma coisa em prol da segurança de todos nós, mas sobretudo dos mais desprotegidos, como sejam as crianças, nomeadamente na mudança de muitos dos nossos hábitos e atitudes.

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Tuesday, December 2, 2008

Pontos de Vista…26

     

A segurança, vista em qualquer uma das vertentes, é uma área a que sou bastante sensível, sobre a qual reflicto frequentemente, com muita preocupação à mistura. Não tenho dúvidas de que essa sensibilidade se deve à minha forte ligação, em funções diversas, aos bombeiros portugueses desde 1973. Eu creio que não há bombeiro digno desse nome que não tenha essa sensibilidade e que não passe por essas preocupações. Eu não sei se estarei até demasiadamente obcecado por tal problemática, uma vez que não consigo olhar para as mais diversas actividades, para o comportamento das pessoas no trabalho, no lazer, na rua, em casa, sem que a segurança ocupe o meu pensamento. Percorro as nossas estradas e, seja o comportamento daqueles que nelas circulam, seja o piso das vias, a sinuosidade, as ravinas desprotegidas, a falta de sinalização ou sinalização deficiente, que mais do que facilitar, ajudar os utentes, dificultam, tudo isso eu observo com tristeza e preocupação. Neste aspecto, poderia apontar dezenas ou centenas de casos concretos, nos mais diversos pontos do país, por culpa das direcções de estradas e das autarquias. No caso destas, surpreendem-me mais as aberrações, as deficiências, pela proximidade, sendo que os autarcas têm obrigação de conhecer melhor o que se passa nas suas áreas de jurisdição e mesmo que as ditas deficiências sejam da responsabilidade de outra instituição, têm obrigação, mais do que qualquer outro cidadão, de as denunciar e exigir a sua reparação. Infelizmente, e em abono da verdade, encontramos espalhadas pelo país, em estradas que são da responsabilidade das autarquias, tantas aberrações, que nos leva a pensar que em tais regiões não existe um autarca com a mínima sensibilidade para essas questões. Considero grave os inúmeros casos de omissões em colocação de sinalização vertical e horizontal e de pequenas alterações e/ou reparações, mas mais grave ainda, segundo o meu ponto de vista, é algumas obras que se fazem, gastando o erário que é de todos nós, que, ao invés de beneficiarem, prejudicam. Temo-las às carradas por esse país fora. Gostaria que alguns autarcas aceitassem o repto de viajar comigo pelas estradas dos seus municípios para lhes poder mostrar várias deficiências, algumas que, com um dispêndio mínimo, melhorariam muito as questões de segurança.

É vulgar dizer-se que os portugueses não têm cultura de segurança e, infelizmente é a constatação que todos estes anos de olhos despertos me têm proporcionado verificar. De qualquer forma, não seria sério se não reconhecesse que temos vindo a melhorar, embora lentamente. Temos até variada e bem construída legislação de segurança, só que nem sempre se cumpre, não se fiscaliza, não se obriga a cumprir. À portuguesa.

Todos sabemos que há legislação dirigida aos transportes escolares. Só quem não quiser ver é que não sabe que uma grande parte do transporte dos alunos, senão a maioria, não cumpre minimamente a legislação. Isto acontece com táxis, autocarros de transportes públicos e, pasme-se, até com as viaturas das autarquias, embora estas tenham responsabilidades em todos os transportes. Ainda não há muitos dias, uma viatura de uma autarquia, devidamente identificada, transportava alunos, não observando minimamente as regras de segurança estampadas na lei, a começar pelo excesso de crianças. O motorista, apercebendo-se ou avisado pelos famigerados e criminosos sinais de luzes da proximidade da GNR, parou a viatura, pôs na rua um grupo de crianças, seguiu com as outras, vindo depois apanhar as que deixara. É lamentável ver-se este comportamento por parte de uma autarquia, autarquia que deveria ser a primeira instituição, depois da família, obviamente, a preocupar-se com a segurança de todos os seus cidadãos. Para além do problema da insegurança, que belo exemplo de cidadania é dado a estas crianças. Mais grave, meu amigo, é que tal comportamento é também da responsabilidade dos encarregados de educação e professores, ou por acção ou por omissão. É facílimo comprová-lo.

A prova mais recente da fraca cultura de segurança de muitos cidadãos verificou-se ainda neste último fim-de-semana prolongado, quando, com as condições atmosféricas adversas, com as estradas perigosíssimas, decidiram deslocar-se a pé ou de carro, para locais desaconselháveis, pondo em risco a sua integridade física, a própria vida e a de outros para os socorrerem e complicando ainda o trânsito e a vida daqueles que tinham necessidade absoluta de circular. Nesses dias circulei por algumas estradas e auto-estradas do país, nomeadamente A1, A5, A8, A17, A29. O que eu observei em termos de condução desastrada, criminosa, algumas vezes debaixo de chuva impiedosa, foi arrepiante, capaz de tirar definitivamente a vontade de circular nas estradas portuguesas. Obviamente fui confrontado com vários acidentes, alguns envolvendo várias viaturas e pelo estado de algumas, provavelmente deles terão resultado vítimas graves ou mesmo mortais. Como não faço parte do número daqueles cuja curiosidade mórbida não os deixa seguir em frente sem que vejam tudo, não paro, a menos que as vítimas ainda estejam sem socorro. Nesse caso teria a obrigação de parar, de outra forma estaria a cometer o crime de omissão de auxílio. A minha cultura de segurança me conduz a tal comportamento. Em casos de acidentes em que as vítimas já estejam a ser socorridas, o pior que se pode fazer é parar, dificultar o trânsito e mesmo, muitas vezes, a movimentação das equipas de socorro. Infelizmente, isto acontece em qualquer tipo de incidentes: nos acidentes rodoviários, nos incêndios, etc.

A nossa vida é feita de riscos. O próprio acto de nascer foi um risco que cada um de nós correu. Nós sobrevivemos, mas nem todos tiveram essa sorte. Alguns, por diversas contingências, dirão azar. Todavia, não foi a sorte ou o azar que determinou que uns sobrevivessem e outros morressem, mas sim as condições que se criaram ou não para diminuírem os riscos.

A nossa segurança não depende apenas de nós, muitas vezes depende muito de terceiros. De qualquer forma cada um de nós pode fazer muitíssimo de modo a evitar um sem-número de acidentes. E não tenhamos dúvidas que ao estarmos a cuidar da nossa segurança, estamos a cuidar da de muitas outras pessoas simultaneamente. Se cada um de nós se preocupar um pouco mais com isso, todos lucraremos, evitaremos muitas tragédias que alteram toda a nossa vida e dos familiares, enfim, todos seremos mais felizes.

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Thursday, June 26, 2008

Pontos de Vista…3

      Começou o Verão. De acordo como calendário e com o tempo que se faz sentir, ele aí está de facto. Resta saber se por muito, se por pouco tempo. Embora as previsões apontem para um Verão seco e quente, não seria a primeira vez que elas falhariam. Sendo assim e, como diz o povo, “não vá o diabo tecê-las” ou ainda “não guardes para amanhã o que podes fazer hoje”, aqueles que gostam e podem, vá de aproveitar e irem até ao mar ou ao rio, de acordo com os seus gostos, as suas posses, a sua residência e uma série de outras condicionantes, dar banho ao corpo que o espírito anda tão deprimido que já não há água que o limpe. Pois como não haveria de andar, com esta porca de vida que nos atormenta a muitos, não todos, e ainda por cima com a saída prematura, nos desejos de nós todos, da selecção de futebol do Euro campeonato. Férteis que somos em descobrir aspectos positivos nos acontecimentos negativos, também desta crise que anda de boca em boca, que é a da subida permanente dos combustíveis que obriga muitos cidadãos a abandonarem os habituais “passeios dos tristes”, domingueiros, e irem para o trabalho ou ao café, que fica ali a duzentos metros, a pé, também desta crise, dizia eu, se retiram muitos aspectos positivos. Desde logo, no que toca à viatura, ela não se desgasta, poupa-se em pneus, óleo e, obviamente, no combustível e não anda por aí a poluir o ambiente. Mas o principal aspecto positivo tem a ver com as pessoas. De facto, a saúde dos portugueses está melhor. É ver o seu aspecto: embora carrancudos, mas isso é um mal que já não tem cura, os nossos compatriotas estão muito mais elegantes. Desapareceram as barrigas, estão cheios de força nas pernas, respiram melhor, enfim vê-se que são pessoas saudáveis. E porquê? Você poderá estar a pensar que é por causa dos preços altos dos produtos alimentares. Nada disso. Para a “bucha” sempre se vai arranjando, ainda que seja a “sopa dos pobres”. É tão-somente porque estão a fazer aquilo que os médicos se vêm fartando de aconselhar há muito tempo, mas muitos faziam ouvidos de mercador: estão a caminhar, a caminhar que se fartam. Deixaram de andar de pó-pó e é vê-los então elegantes, como já dissera, com o colesterol, a glicemia, os triglicerídios, a tensão arterial, dentro dos valores normais. Como é vulgar ouvir dizer a toda a gente que o mais importante é a saúde, embora a prática de muitos não tenha correspondência, apetece-me dizer que há males que vêm por bem. Andamos menos de carro, não vamos de férias, vamos menos ou nunca vamos ao restaurante, em vez de pescada fresca, camarão e lagosta, voltamos à petinga, aos joaquinzinhos, aos amendoins e tremoços para acompanhar uma cerveja mini. Mas que é que isso importa se temos todos muito mais saúde. E, meu amigo, com muito mais saúde, podemos ser mais produtivos no trabalho e até se podem fechar mais urgências, mais centros de saúde, porque para que é que um povo saudável precisa disso? Por que havemos então de nos lamentar, se nesta crise que todos apregoam de enorme, conseguimos encontrar tantos factores positivos?
A esta hora você está a pensar: mas que raio de ponto de vista! Pois é, talvez tenha razão, mas acredite que a brincar, a brincar se dizem muitas coisas acertadas.
Veja, meu amigo, por que caminho me levou o pensamento, quando o que eu pretendia era falar de segurança: da segurança de todos quantos debandam até ao mar ou até aos rios, em busca de refrescar os corpos. Pretendia, pretendo e vou fazê-lo. Num país em que há muito pouca cultura de segurança, seja no trabalho, no lazer, em casa, na estrada, tudo quanto se diga a esse nível não é demais. Infelizmente, estamos fartos de verificar que momentos que deveriam ter sido de prazer, com os corpos intercalando uns banhos no mar e umas exposições ao sol sobre a toalha na areia quente, terminam em tragédia, com mortes perfeitamente estúpidas, lamentáveis. Ir para a praia, não respeitando a sinalização existente, não cumprindo as recomendações escritas e dos nadadores-salvadores, não cumprindo mesmo as mais elementares regras do bom senso, é suicídio. Desta forma poderíamos afirmar que grande parte das mortes, sobretudo verificadas com adultos, se trata de autênticos suicídios. Mas pior de tudo, é quando as pessoas procuram locais isolados, sem qualquer vigilância, nomeadamente quando o estado do mar menos o aconselharia. Em circunstância alguma as pessoas devem procurar praias não vigiados, sobretudo sozinhos e, muito menos, andarem metidos pelo meio de rochedos, onde se transita com dificuldades de vária ordem, como sejam as pedras escorregadias e o aparecimento repentino de ondulação forte a que não é possível resistir e cujo acesso, para efeitos de socorro, é, muitas vezes, totalmente impraticável. Bem sei que para um casalinho apaixonado, com os corpos escaldantes, mais pelo calor que sai das entranhas do que por aquele que o astro-rei proporciona, esses rochedos dão cá um jeito que nem se dá conta do mar batendo na rocha, onde nem sempre quem se…lixa é o mexilhão. De qualquer forma, não se esqueça da segurança…em todos os aspectos.
Outro cuidado que é preciso ter, mesmo nas praias vigiadas, onde estão instalados os meios adequados de segurança, é com as crianças de mais tenra idade, que, inconsciente e repentinamente desaparecem dos nossos olhos, podendo acontecer os mais diversos episódios, alguns, porventura com danos irreparáveis, como não poucas vezes tem acontecido. Meu amigo, todos os cuidados, por mais exagerados e despropositados que pareçam, nunca são demais.
Mas eu queria falar também e principalmente dos nossos rios, maiores ou menores, que atravessam a maioria das nossas terras. Em muitos deles foram construídas algumas praias fluviais, melhorando favoráveis condições naturais que o próprio rio oferecia. Algumas são de iniciativa de autarquias que procuram dotá-las de um mínimo de condições aceitáveis, nomeadamente com a presença constante de nadador-salvador. Sabemos, no entanto, que a grande maioria delas não oferece quaisquer condições de segurança. Os leitos dos rios, de uma maneira geral são irregulares, tanto se tendo pé, como de repente se entra num fundão com vários metros de profundidade. Essas partes menos profundas onde vemos tantas vezes crianças e mesmo adultos que não sabem nadar a divertirem-se, possuem normalmente várias pedras lisas, lodosas, onde se escorrega facilmente e que, não poucas vezes tem consequências graves, como fracturas e até a morte. Os banhistas desse tipo devem evitar circular por cima das pedras e, sem qualquer acanhamento, o melhor é usarem colete, sobretudo as crianças. Nem seria de descartar o uso de um capacete adequado. Para além das más condições acontece frequentemente que essas ditas praias, situadas em vales apertados, não têm rede de telemóvel. Pelo menos que alguém tenha a serenidade para se lembrar que, em qualquer lugar se pode contactar-se o 112, muito embora corramos o risco de estarmos em Alguidares-de-Baixo e o socorro ir parar a Alguidares-de-Cima, ou estarmos em Braga e mandarem-nos “abaixo de Braga”.
Há pessoas, no entanto, que por razões que só eles conhecem, procuram locais isoladíssimos do rio, com acessos difíceis, como que transformando-os na sua praia particular. Isso é ainda mais preocupante, porque se acontece um acidente grave, quando conseguirem contactar o socorro e até que ele descubra o local da ocorrência, pode ser fatal.
O mesmo se pode dizer daqueles que percorrem os nossos rios sozinhos, à pesca, rios que em grande parte do seu percurso não têm qualquer acesso e as suas margens intransponíveis, cobertas de mato.
Meu amigo, antes de ir para férias ou apenas passar umas horas de lazer, pense bem para onde vai, como vai, pense serena e seriamente em todas as regras de segurança para si e seus familiares. Não transforme uns momentos ou uns dias que se pretendia fossem de prazer, de alegria, numa tragédia para si, para sua família, para seus amigos.
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Monday, March 3, 2008

Combate ao crime

      Continuamos a ser confrontados com as notícias de crimes violentos, em que para além de outros efeitos nefastos, o pior de todos é o ceifar de vidas através de actos reveladores de uma extrema frieza, de uma grande crueldade, de uma enorme falta de respeito pela pessoa humana, provavelmente de um indesejável sentimento de impunidade. Cada vez que acontecem estes crimes violentos, e estão a acontecer com demasiada frequência, o cidadão comum reclama por mais polícia nas ruas. Não digo que não tenham razão. O policiamento não será o suficiente para combater, para dissuadir, prevenir determinado tipo de crimes, mas mesmo com mais uns milhares de polícias espalhados pelo país, muitos dos que se têm cometido ultimamente, tê-lo-iam sido na mesma, tal a forma e o local em que foram concretizados. Em meu modesto entender, mais do que policiamento nas ruas – já aqui disse isto também – é necessário que haja investigadores em número suficiente, bem preparados e dotados de todos os meios modernos que existem para levarem a cabo com a maior rapidez e eficiência possíveis o seu trabalho. Mesmo isto, só por si, não basta. Feito o trabalho de investigação, identificados os criminosos, executados os procedimentos para que a acusação seja possível, é necessário não só que a justiça seja célere, mas que tenha ao seu dispor legislação que permita punir exemplarmente os autores dos crimes. Sem isto, por mais polícia que se ponha nas ruas, os resultados não serão muito evidentes. Por um lado, verifica-se que alguns dos crimes são bem preparados, de modo a que, por mais polícia que houvesse, haveria sempre forma de os cometer, pois não podemos ter a presunção de exigir um polícia junto de cada um; por outro lado, os criminosos sabem que para além de as nossas leis serem brandas, se não tiverem mau comportamento na prisão, cumprem apenas uma parcela da pena. Se pelo menos nós tivéssemos a certeza de que o período de reclusão teria servido para se reabilitarem, não haveria problemas. Se isso, de facto, acontece com alguns, muitos outros, mal põem um pé na rua, logo se entregam à criminalidade.
Eu insisto na necessidade de reforçar os agentes e meios de investigação, porque ao debruçarmo-nos, mesmo com o olhar de simples leigos, na forma como algumas das mortes são concebidas e o tipo de vítimas, chegamos à conclusão de que há gente com vidas muito obscuras, porventura, duplas ou completamente diferentes daquilo que aparentam. Claro que nada justifica que se mate quem quer que seja, mas para quem o faz, de forma criminosa e mesmo premeditada, como terá sido o caso relativamente àquela senhora que foi abatida à queima-roupa numa urbanização na zona de Sacavém, o autor terá, seguramente, a sua motivação. Daí o ter-se de vasculhar a vida da vítima, pormenorizadamente, por muito que isso provoque susceptibilidades à família.
Para se tentar perceber tudo o que se está a passar é preciso, no entanto, reflectir no que ocorre a montante de tudo isto. O que se verifica é que se tem degradado, a olhos vistos, o sentido de família. Está-se a perder isso, como se vêm perdendo rapidamente muitos outros valores que ajudavam a manter uma sociedade equilibrada, respeitadora, solidária. A família, que era o local por excelência onde se moldavam, se educavam as crianças, onde se forjavam valores, deixou de o ser, em muitos casos, porque ou é completamente desajustada, degradada, ou pura e simplesmente não existe como tal. Restava-nos esperar que os professores educadores pudessem, de algum modo suprir as deficiências da pseudo família. Infelizmente, os exemplos que temos visto, mostram-nos que também daí, não podemos esperar grande coisa, pois, como já afirmei, ninguém pode dar o que não tem. Assim, entramos num ciclo vicioso, extremamente perigoso, difícil de travar, se não forem tomadas medidas urgentes, sobretudo no campo da educação e da justiça, fazendo as reformas que houverem de ser feitas sem receio de manifestações, algumas das quais mais não pretendem senão a manutenção de privilégios de alguns, que outros, ingenuamente, ajudam a sustentar.   
Posted by Salazar at 15:52:09 | Permalink | No Comments »